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segunda-feira

3

dezembro 2012

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Transcultura #100: Doo Doo Doo, Mohandas, Amplexos

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Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Entrevista coletiva
Doo Doo Doo, Mohandas e Amplexos: três bandas que acabam de lançar o primeiro disco se entrevistam
por Bruno Natal

Um dos grandes entraves do mercado independente é a falta de interação entre os artistas. Poucos se escutam, menos ainda se frequentam, e a tal cena às vezes mais se assemelha a uma disputa por território, na qual perdem todos, fechados em panelas e nichos. Este mês, três bandas — duas cariocas e uma de Volta Redonda — lançaram seus discos de estreia, disponíveis para baixar de graça: Doo Doo Doo (“Casa das Macacas”), Amplexos (“A música da alma”) e Mohandas (“Etnopop”).

A pedido da Transcultura, integrantes das três bandas se entrevistaram. Nenhum conhecia o trabalho do outro, então só esse exercício já teria valido a pena. Eles conversaram sobre influências, sonoridades e métodos de trabalho. Sobretudo, se enxergaram. São três bandas bastante diferentes, e é exatamente desse atrito que pode sair algo de novo.

DOO DOO DOO (Alberto Kury) responde a MOHANDAS (Eduardo Lacerda)


Doo Doo Doo

O disco de vocês, assim como o nosso, foi literalmente “feito em casa”, no esquema independente. Além da divulgação on-line, com o download gratuito, sabemos que os shows são fundamentais para a banda seguir a jornada. Qual é o foco de vocês pra circular com o disco ao vivo? O que vier vocês “traçam”?

Traçamos o que vier! Costumamos fazer shows em lugares mais under, como Plano B, Audio Rebel e Tico Taco, na Lapa, lugares que frequentamos. Com o álbum disponível na rede, a ideia é aumentar esse leque, chegar em mais gente. E, como já disse o outro, a gente monta banda pra ser escalado em festival e ganhar vip.

O clipe “Carnaval no inferno” é bem interessante, com uma pegada de humor trash. Somos de uma geração que EStá pegando a transição da MTV para o YouTube, no qual produções mais caseiras, com boas ideias, podem “vingar”, gerar audiência. Que importância vocês dão para os clipes dentro do trabalho da banda?

Heheh, na verdade, o nome é “Carnaval no fogo”. Hoje em dia, fazer um videoclipe é um passo imprescindível na divulgação de qualquer banda. Tem gente que só ouve música pelo YouTube! E, assim como no caso da gravação do disco em casa, com os meios digitais hoje, fazer um clipe “na marra” é, além de viável, altamente recomendável. Nós gostamos muito, desde o início pensamos em fazer um vídeo pra cada faixa, talvez role, acaba acrescentando mais uma variante de significado às músicas.

Além das influências como o Animal Collective e o Tune Yards que vocês listaram no Myspace, pesquei também outras ascendências, como Kraftwerk, Nirvana. Os teclados e guitarras têm coisas de rock 1960 e às vezes de blues. Quais as referências nacionais no som que fazem?

Mutantes é sempre uma referência, mas crescemos ouvindo muita Legião Urbana também. Na verdade, o pessoal ouve de tudo, é impossível fugir do Caetano, do Tom Jobim, por exemplo, esses sons já meio que nascem dentro da gente.

O disco de vocês é todo autoral – mais uma convergência dos nossos trabalhos. Como é esse processo de criação coletiva? As bases vão abraçando as letras (que são todas em português), ou vocês criam essas texturas e camadas e as músicas vão vindo na esteira?

Normalmente, o Dudu mostra um rabisco da canção e o resto do pessoal vai acrescentando elementos e vamos arranjando em conjunto. Como agora estamos com um estúdio na Lapa, o Coletivo Machina, e temos mais tempo e espaço, temos caminhado para um processo mais coletivo de composição.

Uma pequena provocação agora. Qual ou quais artistas vocês acham que não gostariam do trabalho de vocês? E qual público rejeitaria seu som?

Temos uma certa dificuldade de nos encaixarmos em um gênero musical específico talvez porque enxerguemos a música por um prisma mais universal, então, à princípio, todos poderiam gostar do nosso som… mas acho que a Maria Bethânia é uma que ficaria nervosa de não entender as letras direito.

Vocês definem seu som como um “pop experimental”. Agora, de que pop vocês estão falando? Uma coisa ligada a determinados gêneros musicais ou o pop no sentido de uma música popular mais acessível ou convencional?

Pop no sentido de canção radiofônica, de utilizar estrofes e refrães grudentos, de falar de amor e de dor, de juntar elementos de cultura de massa. Mesmo que o resultado caminhe por um viés mais esquisito ou experimental, a estrutura das músicas é de canções pop.

AMPLEXOS (Eduardo Valiante) responde a DOO DOO DOO (Alberto Kury):


Amplexos

Como é o processo de composição? Vocês são filhos da linha evolutiva da MPB?

Temos um compositor, que faz as letras e melodias principais, e os arranjos são feitos em conjunto. Tocamos juntos há bastante tempo e sabemos pra onde ir. Muitas vezes a gente fica tocando uma levada até que ela “fixe o groove”, e aí já temos uma base. A composição dessas letras e melodias é que não tem regra. Pro disco, metade das músicas saiu sem a gente ter muita noção sobre o que tava falando… depois é que percebemos que havia algo ali em comum. Somos gratos pela inspiração e pela oportunidade que temos de fazer música. Nunca pensei nesse lance de linha evolutiva da MPB, não sei se a gente faz parte dessa linha evolutiva e, mais ainda, não sei o que é ser filho de uma linha evolutiva.

Vocês acham que a história sonora do planeta chegou ao seu limite de inovação estética ou ainda há muito o que explorar? Vocês são filhos do Fukuyama?

A gente acredita que há muito a ser criado. O ser humano ainda não evoluiu o suficiente para criar uma música nova. É só olhar pra dentro e ver o quanto a gente continua errando. Ao mesmo tempo, acreditamos que novo é o que se comunica com a época. A música tem o papel de mudar muita coisa na vida de uma pessoa. Se eu conseguir passar uma mensagem, minha música serve para essa pessoa, é nova. Ah, e não conhecemos Fukuyama.

A indústria fonográfica está em transição. Amplexos: como vivem, do que se alimentam? Vocês realmente acreditam no download livre? Vocês são filhos do Radiohead?

A eterna transição! Todos vivemos de música, temos projetos paralelos, trabalhamos em estúdio. A gente vive no perrengue, mas é o que escolhemos, fazemos música com muita alegria. E nos alimentamos bem dela e com ela, comemos frutas, fibras e verduras, praticamos esportes e cuidamos da saúde. O download livre é algo em que a gente acredita. Todos baixamos música grátis, e isso contribui na nossa formação. É claro que eu gostaria que todos comprassem nosso disco. Ao mesmo tempo, nossa música é para ser espalhada, E adoramos o Radiohead, mas definitivamente não somos filhos deles.

Vimos que vocês participaram do tributo ao Raça Negra. A experiência de arranjar, ensaiar e gravar essa música deixou alguma marca do som deles em vocês? Vocês são netos da Tropicália?

A gente adora o Raça Negra, desde sempre. Temos integrantes na banda que são fãs de verdade do grupo e a marca do som deles já estava no nosso som antes mesmo de a gente gravar uma música deles. Fazer a versão de “Quando te encontrei” foi algo muito natural. Tivemos um papo, escutamos algumas vezes, fizemos um ensaio e fomos para o estúdio. E adoramos a Tropicália, o Gil, Oiticica, Tom Zé… são artistas que nos influenciam até hoje de alguma forma. E, cara, a gente não pensa em música assim, em uma “árvore genealógica”. Estamos quase em 2013, a Tropicália é um movimento da década de 1960/1970, muito importante para a época e que tem reflexos até hoje, mas a gente não pensa neles na hora de fazer música.

Vocês tiveram a participação especialíssima de Oghene Kologbo, guitarrista nigeriano que gravou com Fela Kuti. Como foi essa experiência com ele no estúdio e no palco, já que ele também fez participações nos shows? Vocês são filhos do Fela?

Mais do que a experiência de música, foi uma experiência pessoal muito importante. Na primeira vez que ele veio ao Brasil, nós ainda não tínhamos lançado o disco e o Kologbo ter ido até Volta Redonda e passado esses dias com a gente foi muito simbólico e nos deu muita força. Ele trouxe o afrobeat genuíno e isso enriqueceu bastante a nossa música, os nossos shows, e nos deu mais liberdade na hora de fazer o nosso som. E, cara, essa parada de perguntar se somos filhos está meio chata, porque a gente não conseguiu responder isso direito até agora… não é bem assim que a gente pensa. Mas se tivéssemos que escolher um pai entre esses que vocês citaram, o Fela seria um bom pai. A gente adora a música dos filhos dele, do Seun Kuti, especialmente.

MOHANDAS (Eduardo Lacerda) responde a AMPLEXOS (Eduardo Valiante):


Mohandas

“Etnopop” é uma espécie de conceito criado para definir o som do Mohandas. Qual foi e é a importância da música “étnica” e da música pop para vocês?

A música étnica foi um ponto de convergência entre nós. Muitos de nós passamos pela escola da percussão popular brasileira, do Maracatu de Baque Virado à formação de escola de samba e às muitas manifestações populares de nossa cultura. As tradições musicais africanas, indianas, latinas, caribenhas também nos fascinam. Já a música pop é importante pelo simples fato de ser uma cultura na qual estamos imersos. Sem falar que os gêneros musicais sob esse guarda-chuva do pop são parte fundamental de nossa cultura. O etnopop que criamos busca conciliar essas informações, fazer a aldeia dialogar com mundo e vice-versa.

A música do Mohandas dialoga com os tempos de hoje? E para quem é?

A música é uma expressão de quem a faz, e estamos sempre em movimento. Temos canções como “George Clooney” e “Monkey dance”, que são críticas diretas aos tempos atuais. E temos “Kite” e “Mohandas”, com mensagens sobre amor fraterno, luta pacífica, integração dos povos, que são valores atemporais. Musicalmente, dialogamos com as informações que nos chegam, e procuramos saber mais, por isso o carimbó misturado ao funk e à eletrônica, são todos atuais. Acho que quem vai dizer para quem é essa música é o próprio público, que se apropria destas mensagens e faz nossa música ter sentido.

Para nós, que estamos no interior do Rio, parece haver uma multiplicação de artistas “fofos”, com muita pose e pouca coisa relevante a dizer. O que vocês acham da cena carioca?

Vivemos um momento fértil. É claro que, aumentando a oferta, aumenta a disparidade. Mas, falando de cena, acho importante que os artistas se ajudem. Não dá pra confundir independente com isolado. Vejo com bons olhos bandas interessadas em ir pra rua mostrar o trabalho, como Biltre, Maracutaia, Feijão coletivo. Tem boas bandas (e más) em todos os estilos. Nos identificamos com Letuce, Cícero, Tono e outros.

O som do Mohandas tem um pouco de estilos bem populares (do “povão”). Os shows na Pedra do Leme, abertos ao público, são boas oportunidades de mostrarem a música de vocês para um público mais amplo, mas vocês já experimentaram levar (ou devolver) essa música para locais mais periféricos, que é de onde vem muitas referências que vocês usam?

Nós temos a intenção de tocar em espaços públicos sempre que possível. Obviamente adoraríamos levar nosso som ao Pará, aos países da América Latina e às cidades africanas cujas culturas musicais nos servem de inspiração, mas é um tanto complicado realizar esse desejo, não é? Queremos sim levar nossa música aos guetos e periferias, não para pagar alguma espécie de “dívida de gratidão” com eles, porque a cultura é um documento de atuação pública, está aí para ser devorada e reinventada, mas porque queremos nos comunicar e achamos que todos merecem acesso à diversidade cultural. Nós queremos fazer nossa arte dialogar com as pessoas, seja no Leme, no Alemão, em Madureira ou onde for.

A música do Mohandas é feita para mover as pessoas, mudar alguma coisa em suas vidas e causar alguma reflexão, ou é uma música somente para divertir, entreter?

Acho que a nossa música é feita para dar expressão ao que sentimos. Fazer música é nossa forma de estar no mundo, de dialogar com as pessoas à nossa volta. É um reflexo do que sentimos, pensamos, dos nossos gostos, alegrias e sofrimentos, indignações. E acreditamos que muitas pessoas possam compartilhar destes mesmos sentimentos e também terem as mesmas angústias e felicidades, então daí vem a comunicação. Não estamos preocupados em ser virtuosos ou eruditos, revoltados contra o sistema, tampouco condescendentes com ele. Por outro lado, não temos a pretensão e nem paciência para ser puro entretenimento, música-chiclete, de fácil digestão e mais fácil ainda perecimento.

Tchequirau

Um dia todos humanos terão a oportunidade de visitar o espaço. Enquanto essa aguardada hora não chega, a página How many people are in space right now (Quantas pessoas estão no espaço nesse exato momento) mantém a contagem em dia. Hoje, há apenas três astronautas, todos a bordo da EEI.

segunda-feira

26

novembro 2012

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Transcultura #099: Audac // Banksy e posters

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Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Novos sons experimentais na cena musical de Curitiba
por Bruno Natal

Com nome tirado de uma bateria eletrônica antiga, utilizada nas primeiras tentativas da banda, música homenageando ventiladores (“Arno”) e influências de shoegaze, synth pop e chill wave, os curitibanos do Audac fazem parte de uma geração que, no rastro do Copacabana Club, vem movimentando a capital paranaense e se expandindo pelo Brasil. Além deles, ruído/mm, Tangerine and Elephants, Plexo Solar, Subburbia, Trem Fantasma, Crocodilla e Uh La La são outros nomes da cena local.

— Começamos em 2010, paramos e voltamos em 2012, com outra formação. O som saiu da vontade de fazer experimentos com um controlador de áudio e de um grupo de pessoas querendo tocar aquilo. Não tínhamos nenhuma pretensão de virar banda mesmo — conta Alyssa Aquino (programação, synth e vocal), uma das quatro integrantes do Audac, junto com Debbie (baixo e vocal), Alessandro Oliveira (guitarra, ex-Copacabana Club) e Pablo Busseti (bateria).

A lista de influências é tão ampla que não ajuda muito a definir o tal som saído dos experimentos: Tom Jobim, Beatles, Suite for Ma Dukes do J Dilla, Nirvana, Washed Out, Ariel Pink, Slowdive e Gumball são alguns dos citados. Depois de abrir o show de outra de suas referências, os australianos do Tame Impala, em agosto, em São Paulo, o Audac passou a receber mais convites e a pensar num disco para suceder ao EP.
Como é comum atualmente, o Audac não é a atividade principal dos integrantes, que se dividem entre tarefas como psicologia e administração de um sebo. Situação que pretendem mudar no futuro próximo.

— Fizemos shows em outras cidades e uns muitos legais em Curitiba mesmo. Conseguimos apoio, estamos gravando nosso primeiro clipe e preparando material novo antes de voltar ao vivo, no ano que vem. Temos shows importantes em festivais e projetos muito legais — anuncia Alyssa.

Tchequirau

Dois livros pra olhar, não pra ler. “Gig Posters”, volumes 1 e 2, reúne vários cartazes de show e, o melhor, em formato pronto para enquadrar – todas as páginas são destacáveis. “Banksy: You Are an Acceptable Level of Threat” continua o trabalho de compilar e documentar os trabalhos do artista de rua inglês iniciado em “Wall and Piece”.

segunda-feira

12

novembro 2012

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Transcultura #098: II Rio Parada Funk // doo doo doo

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Mr. Catra na I Rio Parada Funk, 2011
foto: Guito Moreto/divulgacão

A versão extendida do meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A volta do baile
Depois de reunir milhares de pessoas, mais de 150 DJs, MCs e dançarinos, Rio Parada Funk terá sua segunda edição no dia 9 de dezembro, na Lapa, mas organizadores ainda enfrentam desafios
por Bruno Natal

A primeira edição do Rio Parada Funk, ano passado, reuniu mais de 150 DJ, MCs e dançarinos para celebrar a cultura funk. Espalhado em mais de 10 palcos no Largo da Carioca e adjacências, o evento se transformou no maior baile funk da história, com alguns jornais chegando a noticiar um público de 100 mil pessoas, incluindo turistas estrangeiros e gente que veio de outros estados só pra conferir a festa.

Os números grandiosos seriam impensáveis há nem tanto tempo atrás, quando o funk viveu seu pior período de perseguição pós-arrastão do Arpoador em 1992 (creditado aos “funkeiros”, termo tão sem sentido quanto “roqueiro”, corretamente banido no manual de redação do saudoso Rio Fanzine), com as pancadarias dos bailes de corredor, a violência dos proibidões e letras de explícitas.

– É sempre difícil trabalhar com cultura, principalmente as marginalizadas, como o funk. Na primeira edição tivemos dificuldades com o IPHAN, que entendeu que o evento não podia acontecer na Cinelândia porque abalaria as estruturas do Theatro Municipal – conta Mateus Aragão, fundador da festa Eu Amo Baile Funk e organizador do Rio Parada Funk.

O reconhecimento internacional de 2003 em diante ajudou a amolecer o preconceito local em relação ao funk, iluminando aspectos sócio-culturais importantes e dando chance ao gênero de se mostrar além das polêmicas. Porém, continua o funk continua sendo funk e nada vem fácil. Apesar do sucesso, contrariando prognósticos alarmistas, a segunda edição do Rio Parada Funk, no dia 09 de dezembro, na Lapa, enfrenta dificuldades.

– O maior desafio para este ano está sendo mesmo garantir os apoios para a infraestrutura do evento. Apesar de os artistas e equipes de som não estarem recebendo cachês, precisamos garantir a infra estrutura, como geradores, banheiros químicos, segurança, etc – continua Mateus.

O receio de marcas em relação ao funk também não ajuda. A mudança de local, saindo do Largo da Carioca, também trouxe transtornos. A produção não conseguiu datas no Sambódromo e, com isso, cervejarias e empresas de telefonia cancelaram o patrocínio. O novo endereço é a Lapa, acostumado a grandes públicos.

– Tivemos promessas de patrocínio que não foram cumpridas, alguns não completaram o pagamento prometido, o que me levou a investir tudo o que tínhamos juntado em sete anos de Eu Amo Baile Funk. E tivemos patrocinadores que pagaram, mas não deixaram a marca deles aparecer. Querem ajudar ,mas não se associar ao movimento funk – continua Mateus.

Segundo Mateus, a edição desse ano, veja só, acontece principalmente devido ao apoio da Prefeitura e da Secretaria de Cultura do Governo do Estado – parte do mesmo poder público que marginalizou a cultura funk até pouco tempo. Uma grande virada.

– Foi uma emoção muito grande para todos envolvidos na primeira edição. Muitos não acreditavam que conseguíriamos sequer autorização para que o Rio Parada Funk acontecesse. Todos nós tínhamos a sensação de estar fazendo história. E o sentimento maior foi para o fato de, pela primeira vez, o funk ser tratado como protagonista. Nos sentimos vitoriosos na luta contra o preconceito da mídia.

Por conta do sucesso da primeira edição, a disputa para ser uma das 10 equipes escaladas foi grande, todos de olho na exposição trazida pelo evento (confira a escalação no box). O principal critério de escolha é a contribuição do candidato para inovações e história do funk. Nesse quesito, ninguém merece mais homenagens do que o dançarino Gualter Damasceno, mais conhecido como Gambá, jovem criador do Passinho do Menor da Favela, febre da molecada da comunidades, registrada no documentário “Batalha do Passinho”, de Emílio Domingos (vencedor do Festival do Rio esse ano). Gambá foi brutalmente assassinado antes de ver a história da sua invenção ganhar as telas.

Filme, Parada, aos poucos o funk vai ampliando seu espaço na sociedade – dizer conquistando estaria totalmente errado, o funk é onipresente no Rio e faz parte ad cultura da cidade, mesmo que alguns continuem torcendo o nariz.

– O funk é um produto 100% carioca, movimenta milhões de reais e de jovens, é um produto direcionado principalmente para eles, gerando milhares de empregos, mesmo sendo informais. O mais interessante talvez seja o interesse que o funk desperta fora do estado e do país, cada vez mais o Rio é representado pelo funk carioca. Além disso, o funk promove o debate sobre juventude negra e favelada, apontando sugestões e perspectivas.

Então, não esqueça: da 09 de dezembro é dia de baile.

Tchequirau

Uma das bandas mais originais no cenário carioca, o doo doo doo lançou clipe novo, “Carnaval no Fogo”. Antes teve “Maré Exquizita” e “Mais”. O disco de estreia sai dia 19 de novembro, é ver se confirma as expectativas.

segunda-feira

29

outubro 2012

12

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Transcultura #097: O fim do indie? // DJ Aerobics

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ilustração: Leonardo Uzai

A versão extendida do meu texto da semana passada (mais longa do que saiu no Segundo Caderno ou no Globo Online) da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O fim do indie?
Uma análise sobre a cartilha – e as eventuais concessões – que bandas e artistas independentes seguem para atingir o sucesso
por BrunoNatal

Passado a euforia inicial da libertadora ideia de que, com as ferramentas atuais, qualquer um pode montar um projeto de música e divulgá-lo, eventualmente até conseguindo alguns fãs, começa a rebordosa. É banda demais.

Claro, ninguém é obrigado a ouvir tudo (ou nada, a bem da verdade). A questão é que, na pressa de entrar na nova ciranda que se formou, cada vez mais autores lançam mais projetos, mais rápido, com mais pressa, sem deixar o necessário tempo de maturação acontecer. Isso exige paciência e perseverança do ouvinte. Muitas vezes o que se está escutando são apenas ideias, rascunhos de algo que só estará pronto dali um tempo. Em tempos de vida em beta e ao vivo, as bandas se formam na frente do público.

Por muito tempo bandas independentes esperaram o dia que conseguiriam se firmar comercialmente, sem depender de gravadoras multinacionais, acordos suspeitos ou fazer concessões artísticas. Era um sonho distante, movido mais por uma afirmação estética e conceitual de um movimento do que propriamente potenciais ganhos financeiros. Há pouco mais de dez anos, tudo mudou.

A história você conhece, do Napster em diante o ambiente digital proporcionou que bandas, milhares delas, finalmente encontrassem seus públicos. Com a galopante falência do modelo antigo, foi apenas questão de tempo para que o inevitável acontecesse e a cena independente conquistasse uma fatia considerável do mercado. Primeiramente através da pulverização e de nichos, até que o inimaginável aconteceu. Uma banda com todas as credenciais indie dos anos 2k como o Vampire Weekend (se não ao som, no que diz respeito aos métodos de trabalho) chegou com seu segundo disco, “Contra”, ao topo da mais comercial das paradas, a Billboard.

Estava então consolidada uma nova dinâmica comercial. Uma banda “de internet” podia furar a bolha e conquistar o grande mercado. Apesar do número 1 impressionar, não foi uma conquista exclusiva do VW, mais e mais nomes conseguiram se estabelecer por vias parecidas nos últimos anos. Como tudo na vida, o óbvio lado positivo dessa escalada indie (extremamente resumida aqui), veio acompanhado de aspectos negativos.

Aberta a nova corrida do ouro, com a velocidade típica da rede, bandas e mais bandas começaram a se moldar, tentando seguir um (nem tão) imaginário livro de regras para se dar bem no cenário atual.

Acontece que “se dar bem” tornou-se um conceito um bocado elástico. Como escreveu Carles no blog Hipster Runoff, dos EUA, no recente artigo “How indie finally ofifcially died: the broken indie machine” (“Como o indie finalmente oficialmente morreu: a máquina indie quebrada”), entre alguns resmungos exagerados, o velho sistema foi substituído por um novo, igualmente sufocante, ainda que menos poderoso.

Em vez da benção de gravadoras e rádios, para sobreviver nesse ecossistema artistas precisam passar por determinados sites e blogues – uma lista específica deles – e/ou participar de ações publicitárias.

Os malefícios dessa engrenagem contemporânea são mais complexos. Na busca desesperada por não ficar atrás dos concorrentes (seja lá o que isso queira dizer), esses veículos online perdem sua caracterísica definidora, o papel de filtrar informações, preferencialmente com personalidade, e comem de colher tudo que é oferecido por bem estruturadas máquinas de divulgação disfarçadas de assessorias de imprensa.

O resultado é uma série de sites repetindo o mesmo conteúdo, todo santo dia, assemelhando-se a cobertura da grande imprensa no que tem de pior. A pasmaceira chega ao ponto das listas de melhores do ano serem praticamente idênticas, mundo afora, como se fossem um teste de múltipla escolha, onde existem respostas certas e erradas, e não seleções independentes e pessoais, indicativos do que se ouvir em um cada vez mais vasto catálogo, impossível de se acompanhar por completo.

As bandas resta rezar pelo mágico momento em que finalmente, muitas vezes até por mérito próprio, conseguem estar em todas as páginas “importantes”. Para atingir esse objetivo, muitas passam a ser o que delas se espera, gerando grupos e mais grupos que nada fazem além de sons genéricos de algo que deu certo ou está na moda, o que parece certo para aquele momento.

Infelizmente, na maior parte das vezes o que se descobre é que, mesmo quando é chegado esse grande momento, sua banda nada mais foi do que alimento para o ciclo do dia, da semana, com sorte, do mês. Rapidamente a roda gira, dando lugar ao próximo, que passará pelo mesmo processo.

Isso tem um lado bom e um lado ruim. Se isso gera muita frustração em bandas que esperam fazer daquilo seu ganha pão, a falta de perspectiva financeiras é extremamente libertadora para outros artistas. Num mercado em que até mesmo um indie bem estabelecido como Grizzly Bear (tocando no Radio City Music Hall, em Nova York, com discos no top 10) afirma em reportagem da New York Mag que as contas não fecham, cada vez mais se vê bandas, mesmo conhecidas, serem um hobby bem estruturado de profissionais de outras áreas – o que por sua vez, novamente, traz consequências boas e ruins.

Sendo o mercado mais bem estabelecido, é natural que muitos desses comportamentos vistos nos EUA se repitam no Brasil. O problema por aqui é que, pra piorar, existe uma espécie de código não escrito na cena alternativa de que não se pode criticar negativamente um músico, simplesmente pelo fato de ele já “ralar muito pra fazer aquele trabalho acontecer”. Como se isso fosse justificativa e não exatamente parte do problema.

Como disse um amigo outro dia no Facebook, Raymond S. Harmon, “no exato segundo que o pensamento ‘a música de hoje não presta’ cruza sua mente você está oficialmente velho, não precisa nem que se diga isso em voz alta”. O autor do texto do Hipster Runoff foi acusado justamente disso (embora não fique claro sua idade). Pode ser. A principal crítica aqui, no entanto, é quanto ao formato operacional de parte da indústria atual, esse sim culpado pela baixa qualidade do conteúdo.

Ainda encontra-se muita, muita música boa, nova, todo dia. Mesmo que muitas delas sejam feitas para o agora, sem maiores preocupações. E quem pode dizer que isso é ruim? No fim, as decisões cabem a quem ouve (ou lê) e é ótimo que seja assim.

Tchequirau

Produtor de chiptune guatemalteco radicado em Madrid via Miami, Meneo fez um vídeo hilário com dicas para enganar bem quando for “atacar de DJ”. Cômico, se não fosse trágico.

segunda-feira

8

outubro 2012

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Transcultura #096: #Rio365 // “A Batalha do Passinho”

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Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Projeto @Rio365 vai mapear um ano na cidade a partir de fotos do Instagram
Serão 52 temas propostos, um por semana, para a missão que vai virar livro
por Bruno Natal

A ultrarrápida ascensão do Instagram, chegando a 80 milhões de usuários em menos de dois anos, transformou a rede social de fotos numa das plataformas mais visadas para todo tipo de ação, tanto do público quanto de empresas. Um dos formatos mais populares são as “missões”, em que um tema é proposto, e os fotógrafos marcam suas fotos relacionadas com hashtags, criando galerias relacionadas ao assunto proposto. Um dos pioneiros no Brasil foi o Instamission, já comentado aqui Transcultura.

Nesta semana teve início o @Rio365, que terá um ano de duração, com 52 temas propostos, um por semana, totalmente focado no Rio. Trata-se de uma ação para gerar um registro fotográfico colaborativo da cidade, que deverá virar um livro ao fim do projeto com as 365 fotos vencedoras de cada dia, além das galerias com todas as fotos concorrentes em cada tema.

— Tive total liberdade para escolher os temas, e a equipe de curadores terá autonomia absoluta para escolher as melhores imagens — explica André Galhardo, idealizador do projeto, que tem o patrocínio da Light.

O tema desta primeira semana foi arte, atraindo mais de 500 seguidores para o perfil do projeto e reunindo mais de 1.500 fotos marcadas com o hashtag #Rio365_arte.

Entre os próximos temas estão previstos o Festival do Rio, a primavera na cidade e até uma “missão secreta”. Diante de diversos projetos similares on-line, Galhardo se diz influenciado pelo movimento “A Painting a Day” (“uma pintura por dia”), iniciado por Duane Kaiser em 2004.

— Muitos artistas iniciaram projetos “365” pessoais desde então. E, no próprio Instagram, a tag #365project tem atualmente mais de 20 mil imagens — lembra Galhardo. — Perfis como @instamission, @igersrio, @instaforfun também foram grandes inspirações pois mostram como as pessoas podem encarar o desafio de produzir imagens como um jogo muito divertido. Todos nós aprendemos e nos desenvolvemos brincando. Imaginei coordenar um projeto colaborativo com o olhar de milhares de fotógrafos que atualmente andam com suas câmeras e conexões 3G nos bolsos o tempo todo.

Para incentivar a participação, as melhores fotos produzidas serão premiadas com um iPad por bimestre. E a melhor do ano leva um iPhone. Pode parecer pouco para um projeto com verba total de quase R$ 500 mil.

— Distribuiremos prêmios simbólicos. Entrar para o seleto time dos autores do livro “@Rio365” será o principal objetivo dos participantes, não tenho dúvida. Isso legitima a sensação de “ser artista” que o usuário do Instagram tem — diz Galhardo. — Os prêmios são para reconhecer ainda mais o mérito e gerar mais emoção para nosso jogo. Todo tema terá uma foto escolhida como “a melhor da missão” pela comissão de curadores. O prêmio é uma menção honrosa, reconhecimento que, na cultura do Instagram, não tem preço. Um excesso de prêmios materiais poderia atrair “caçadores de promoções” e desvirtuaria o projeto. Queremos qualidade e a participação de quem leva fotografia a sério e procura se desenvolver como fotógrafo.

Tchequirau

Contando os dias para assistir o documentário “A Batalha do Passinho”, de Emílio Domingos, sobre o fenômeno da dança surgido a partir de um vídeo publicado no YouTube. Estreiou no Festival do Rio.