terça-feira

29

abril 2003

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O festival que desce reto

Written by , Posted in Resenhas

skolbeats_2003.jpg

O mais difícil num festival do tamanho do Skol Beats – que nesta edição reuniu mais de 60 djs, divididos em quatro tendas (Movement, Gatecrasher, Bugged Out e The End) e um palco ao ar livre (outdoor stage) – é decidir o que assistir. Na sua quarta edição o festival já é tido como um dos mais importantes do mundo, reunindo os nomes mais expressivos da música eletrônica mundial. Por isso, mesmo com 17 horas de duração, é impossível ver tudo. Principalmente porque os horários das principais atrações ficam embolados, no que pode se chamar de horário de pico, das 21h30 às 3h30. O bololô dos horários complicou, mas não chegou a ser um defeito do festival. Pelo contrário, é sinal de que a escalação estava caprichada. Mesmo com tanta gente bacana tocando, dá para destacar pelo menos cinco. Em ordem decrescente: LTJ Bukem, Stereo MC’s, Mark Farina, Junkie XL e Makoto.

Maratona

O set de Mark Farina era um dos mais aguardados e começou, estranhamente, bem cedo, às 18h. Mesmo assim a tenda estava cheia. Aliás, Farina, que é dj de house, tocou na The End, normalmente dedicada ao techno. Esse tipo de mistura também aconteceu em outras tendas, mostrando que está cada vez está mais difícil enquadrar os djs em apenas uma categoria. Seguindo o roteiro, a atração seguinte era o japonês Makoto. Protegido de LTJ Bukem, Makoto seguiu a linha de seu mestre e tocou muita coisa da série “Progressions Sessions” e “Logical Progressions”. Apesar do set muito bom, não deu para ver até o final. A apresentação do Junkie XL começava meia hora depois, às 21h30, no outdoor stage. Os dois lugares eram muito longe um do outro e isso fazia com que se perdessem várias apresentações. Além de dar um sentido literal à palavra maratona.

Outdoor stage

O holandês Junkie XL ficou conhecido mundialmente após fazer o remix de “A little less conversation”, de Elvis Presley. Mas engana-se quem pensa que ele começou outro dia ou que se resume a essa música. Seu set agitou a platéia, que pulava tanto quanto o dj no palco. O outdoor stage é sem dúvidas o lugar mais interessante do festival. Ali, até os mais ferozes críticos da música eletrônica tem que dar o braço à torcer. Neste espaço quase todos os artistas (não foi o caso do Junkie XL) se apresentam com banda e instrumentos, tocando ao vivo. Se já é difícil ver alguns dos djs mais importantes da cena mundial juntos no Brasil, assistir a apresentação de música eletrônica ao vivo é mais raro ainda. Nesse ponto tem que se concordar com os críticos; a vibração de uma apresentação ao vivo é muito maior. Quando Junkie XL acabou de tocar, às 22h30, ainda dava tempo de pegar um pouco do Layo & Bushwacka, do outro lado do sambódromo, na The End. Na seqüência vinham os ingleses do Stereo MC’s, novamente no outdoor stage, às 23h30.

Os ingleses do Stereo MC’s entraram no palco e já atacaram com os hits do começo dos anos 90, “Connected” e “Step it up”. O show foi agitado, como o vocalista do grupo, saltando sem parar. Eles tocaram também coisas mais novas, tão legais quanto as antigas, mas ainda desconhecidas do público, o que deixou o show meio morno. O Stereo MC’s surpreendeu, principalmente para quem estava lá fazendo hora para assistir o LTJ Bukem.

550m x 6

A grande crítica à organização foi a mudança do local do evento (passou do autódromo de Interlagos para o Sambódromo, no complexo do Anhembi). Apesar de ter sido a única perda em relação aos anos anteriores, foi uma perda muito grande. A diferença entre os dois lugares é tão gigantesca quanto a distância entre os locais reservados as tendas e o outdoor stage. Exatos 550 metros separavam a as tendas do palco, cada área em uma extremidade da passarela.

Imagine que alguém tenha assistido pelo menos três atrações no palco em horários diferentes. Tendo que cruzar a avenida de ponta a ponta para ir e voltar para alguma tenda, ao final da festa essa pessoa andou quase 3,5 quilômetros! É chão à beça. Pra piorar, para ir de uma área para outra as pessoas eram obrigadas a atravessar verdadeiros shopping centers (com praças de alimentação, lojas, etc.), espremidos entre as arquibancadas do sambódromo. Em Interlagos as distâncias também eram grandes, só que eram percorridas pelo gramado e não numa espécie de curral, existia alguma liberdade para escolher o caminho.

O cara

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1h30 LTJ Bukem (foto) entrou em cena. Um dos principais produtores do drum ‘n’ bass e responsável por uma linha muito particular dentro desse estilo – mais viajante e com bpm mais lento – o inglês tocou para uma tenda semivazia. Melhor ainda, menos tumulto. O grande nome da noite na Movement, dedicada ao gênero, era o brasileiro Marky, que tocaria na seqüência. Era ele que todo mundo queria ver, tocando forte e cheio de firulas. Por isso o set de LTJ, calmo e relaxado, não animou muito essa turma. E essa é a única razão da tenda ter ficado vazia. Ponto.

O set, acompanhado do MC Conrad, foi irretocável. Os dois estavam no contra-luz e tudo que se via era a silhueta deles no palco. O verdadeiro DJ Shadow. Na tenda só ficaram os fãs do som do cara, talvez a maior atração desse festival. Tava cheio de gente sentada, mas não porque estava chato ou em protesto, com andam dizendo por aí. É que o som de LTJ dá para se ouvir em pé, quicando, ou deitado, viajando. Sem dúvidas foi um dos melhores sets de db que já assisti. Rolam boatos de que o motivo de LTJ não ter tocado nenhuma de suas produções mais conhecidas – só tocou inéditas – deveu-se ao fato de o produtor estar gravando o set para lançar um disco. Teve gente que reclamou, eu achei melhor ainda. Afinal, se quisesse ouvir as músicas dos discos nem precisava sair de casa.

Telão

Quem pensa que em evento de música eletrônica só dá alienado, uma surpresa. Cada uma das tendas tinha um VJ (espécie de dj de imagens) responsável pelo telão. A sensação do festival foi o VJ Spetto, na Movement. Misturando super-heróis (Super-homem, Chapolin e Ultramen), personalidades conhecidas por terem tido sua arte explorada (Bruce Lee, Carmen Miranda), e vilões (Bush, Osama Bin Laden e Darth Vader), entre outras referências, Spetto fez do telão um protesto visual.

As imagens eram acompanhadas de frases tão singelas quanto “Os americanos são assim porque ninguém Osama”. De vez em quando a cara de Bush era intercalada com a de Darth Vader e vinham as frases: “Vou abduzir vocês!” e “Meu nome é Zordak!”. Depois disso os olhos do texano ficavam vermelhos e começavam a atirar raio laser. Então aparecia a frase: “Ei, Bush, vai tomar no cu!”. A julgar pela quantidade de gritos, urros e dedos médios em direção ao telão nesses momentos, o público parecia concordar.

Descanso

O gramado é que fez falta. Nas três primeiras edições do festival era possível descansar sentado na grama, longe de tudo, com poucas pessoas em volta. Esse ano os únicos lugares para sentar eram a pista de cimento em frente as tendas ou próximo as vendinhas. A festa “que desce redondo” acabou descendo reto, avenida abaixo. O evento foi verticalizado.

Outro comentário bastante ouvido era sobre o policiamento, ostensivo demais. Intimidador mesmo. A julgar pela quantidade de policiais militares armados no local, São Paulo deve ter um efetivo bem grande. Ou então estavam todos lá. Era impossível dar dez passos sem cruzar com um grupo da PM. Vai ver era precaução por causa do local. Ao contrário de Interlagos, aonde o sentimento de liberdade era maior, o Anhembi ficou meio apertado para os 45 mil presentes. Daí, devido a pouca distância entre as pessoas, para um pisão no pé virar motivo para um soco na cara é um pulo. Vai saber. A impressão é de que em Interlagos o clima era verdadeiramente de festival, enquanto no sambódromo ficou mais com cara de festa grande com muitas tendas. Agora, dentro das tendas a produção estava tão legal quanto nas outras edições. E dessa vez não faltou água.

Mudam as atrações, muda o lugar e a impressão geral continua a mesma: O Skol Beats é a melhor noite do ano, todo ano.

Só pra registrar: Enquanto esse blog, disposto a fazer uma cobertura séria do evento, não conseguiu uma credencial de imprensa, uma rede de tv, conhecida por suas baixarias, exibia uma matéria sobre o festival. Naquelas barras que ficam aparecendo durante a reportagem lia-se: “Festival de música eletrônica reúne 45 mil pessoas esquisitas”. Que tal?

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