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sábado

10

outubro 2020

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MIT Tech Review (agosto 2020)

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Artigo sobre cultura do cancelamento que escrevi pra MIT Tech Review Brasil. Também participei do podcast “Digital de Tudo” para repercutir o texto.


Os muitos significados da cultura do cancelamento

por Bruno Natal

A cultura do cancelamento é umas das manifestações coletivas mais controversas da atualidade.  A lista de cancelados é tão extensa quanto diversa: Anitta, Gabriela Pugliesi, R. Kelly, Kanye West, Scarlett Johansson, Kevin Hart, Louis CK, Kevin Spacey, MC Gui, Nego do Borel e vários outros. Cada um por diferentes motivos e períodos de tempo.

Comumente associado ao ambiente das redes sociais, o cancelamento ocorre quando um internauta manifesta opinião que não é tolerada por um determinado grupo de pessoas. Quando isso acontece, o alvo de uma campanha de cancelamento é massacrado por críticas, agressões, tem a vida particular exposta, num movimento que visa esvaziar a relevância daquela pessoa.

Eleito o “termo de 2019” pelo dicionário australiano Macquarie, fato comprovado pelo pico de incidências no Google Trends, o cancelamento foi definido como “uma atitude tão persuasiva que tornou-se, para o bem ou para o mal, uma força poderosa”. Outro dicionário, o americano Merriam-Webster, relacionou o comportamento com a ascensão do #MeToo e outros movimentos que demandam prestação de contas por atitudes de figuras públicas. A relação de disputa entre partes de forças desiguais é determinante.

Atrás de uma definição mais precisa do significado de cultura do cancelamento, uma vez que o termo recebe diferentes interpretações, o jornalista Glenn Greenwald perguntou pelo Twitter e recebeu do psicólogo evolutivo Geoffrey Miller a seguinte resposta:

“É um sistema social de controle ideológico em que uma multidão online se reúne por uma indignação para apelar às autoridades (seja o governo, empregadores ou a grande mídia) para destruir a vida de alguém porque eles disseram algo supostamente ofensivo.”

Não existe unanimidade em torno da prática. Nomes de peso, como o ex-presidente dos EUA Barack Obama, o comediante Dave Chappele ou a ativista Loreta Ross já criticaram publicamente o cancelamento, questionando a validade da estratégia.

Isso porque, na maior parte das vezes, os cancelados sequer permanecem nessa situação por muito tempo, principalmente quando são pessoas com uma grande audiência. É muito mais fácil atacar celebridades, mas é também muito mais difícil cancelar de fato vozes com alcance tão grande na mídia.

Recentemente, a editora de opinião do The New York Times, Bari Weiss, pediu demissão do cargo. Na carta de despedida, ela disse que os usuários do Twitter se tornaram os editores do jornal e que o medo de desagradar limitou o escopo de abordagens dos assuntos.

A demissão de Weiss foi seguida por uma carta assinada coletivamente e publicada na revista Harper’s Bazaar criticando a cultura do cancelamento. Embora não tenha feito referência direta ao termo, o texto descreve um cenário que estaria sufocando as vozes de muitos. O manifesto intitulado “Uma carta sobre justiça e debates abertos”, foi assinado por nomes tão diversos como o filósofo e linguista Noam Chomsky, a feminista Gloria Steinem, o psicólogo Steven Pinker e a autora da saga Harry Potter, JK Rowling.

Os críticos do cancelamento apontam que na cultura tóxica das redes sociais, um erro genuíno, que antes poderia servir de aprendizado, agora se torna fatal. Não importa o tamanho, se foi intencional ou cometido por desconhecimento. Ademais, além de gerar medo, um cancelamento gera poucas mudanças práticas e poderia anular oportunidades de expansão individual e coletiva.

Analisando o cenário atual para avaliar se a cultura do cancelamento é justa ou se está reprimindo as discussões, o The New York Times listou dez pontos a serem considerados sobre o tema. Segundo o jornal, ser atacado por suas opiniões, ou mesmo insultado, não é ser cancelado. O cancelamento se dá quando o alvo é a reputação, emprego ou ambos.

É por isso que Greenwald define como “chilique” o protesto dos signatários da carta da Harper’s Bazaar, incomodados apenas por estarem sendo confrontados. O compositor e ativista Billy Braggs, em artigo no Guardian, discorreu sobre como essa é uma troca de valores calculada. A nova geração prioriza responsabilidade e prestação de contas acima de liberdade de expressão.

Porém, muitas vezes os alvos dessas campanhas não são poderosos. Em diversos casos, pessoas comuns têm suas reputações destruídas por terem transgredido minimamente os novos limites sobre o que é ou não aceitável no discurso atual. Isso quando não são canceladas por engano e não conseguem se defender ou reverter os prejuízos.

A cultura do cancelamento tem impacto muito maior em pessoas que normalmente não têm destaque (ao menos não até serem canceladas). Por isso, acaba moldando e determinando comportamentos baseados exatamente no receio de serem, de fato, canceladas.

Os adeptos da cultura do cancelamento apontam que essa talvez seja a única ferramenta disponível para comunidades minorizadas fazerem suas vozes ouvidas, em um equilíbrio de forças possível apenas por meio da rede.

Pessoas que historicamente tiveram a exclusividade do megafone na mão, agora passaram a experimentar respostas a seus posicionamentos com uma força que antes não existia. O rapper Emicida abordou a questão em recente entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, quando disse que os cancelados muitas vezes apenas estão sendo questionados ou responsabilizados pelo que falaram.

Participar diretamente na decisão sobre quem deve ter alcance é parte dessa negociação. É como se os menos favorecidos falassem para esses poderosos: “você pode ter mais status, mais fama ou mais dinheiro do que eu, mas você não vai mais ter a minha audiência, porque isso eu controlo”. Em um mundo em que audiência cada vez mais é poder, isso é uma arma poderosa.

Essa busca por um nivelamento é justamente o motivo da cultura do cancelamento desagradar tanto os privilegiados, desacostumados a ouvir. Antigamente o alcance da fala era um privilégio e uma via de mão única. As críticas raramente chegavam aos autores ou, quando chegavam, não tinham grande repercussão. Agora as respostas têm alcance e isso pode incomodar quem não está acostumado com essa disputa por equilíbrio.

O debate sobre a cultura do cancelamento desperta outras questões sobre a natureza e as consequências das trocas nas redes sociais. Por um lado, a liberdade de todos falarem o que quiserem gera pluralidade. Prova disso é que se pode encontrar qualquer tipo de opinião na internet. Por outro, esse confronto de forças, às vezes com consequências desproporcionais, pode levar a uma autocensura, limitando o discurso.

Voltando ao ponto sobre a dinâmica tóxica das redes sociais e de como esses comportamentos têm moldado os debates até mesmo fora delas, o que costumamos ver é que nunca a máxima “fale mal, mas fale de mim” foi tão verdade. Quanto mais controverso e polêmico o discurso, mais ele se espalha.

A indignação é o combustível mais eficiente para a viralização, algo que muitas vezes acaba se desdobrando na amplificação de vozes que não merecem ser realçadas. Nesse contexto é importante pesar e analisar o que de fato merece o holofote do cancelamento (discursos de ódio, preconceituosos, machistas), daquilo que é pura tentativa de pegar embalo no alcance de uma revolta. Cuidar para não deixar que pessoas mal-intencionadas pautem o debate utilizando a polêmica como estratégia de repercussão.

Nesses casos, uma das formas de reagir é ignorar. Para algumas atitudes, o silêncio é a melhor resposta.

Por Bruno Natal, apresentador do podcast RESUMIDO

segunda-feira

13

junho 2016

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sábado

16

abril 2016

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Chico Buarque e a internet (mais um capítulo)

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fb_chicobuarque_hoax

Levou dez anos, mas consegui: desmascarei Chico Buarque como uma fraude. Não, pera, é melhor não brincar com esse assunto. Piadas estão literalmente sendo levadas a sério e as coisas podem se confundir.

Produzi e dirigi dois documentários sobre Chico Buarque, “Desconstrução” (2006) e “Dia Voa” (2011). Paralelo as filmagens do segundo, realizei também um projeto online, Chico Bastidores, que revelava aos poucos os detalhes do disco “Chico” que viria a seguir, assim como os bastidores da gravação.

Corta para 2016. Se o projeto de 2011 já havia gerado um meme, a partir do vídeo em que Chico Buarque faz graça sobre os comentários odiosos a sua pessoa que leu na internet (e como foi divertido ver o trecho ser ressignificado tantas vezes!), o filme de 2006, lançado numa época em que as redes sociais ainda engatinhavam, tinha passado batido.

Isso até o país entrar em parafuso através da polarização pró e contra impeachment da presidenta Dilma Roussef. A direita raivosa pegou um trecho do doc, claramente uma piada, e transformou em uma “prova” sobre a falta de honestidade artística do Chico (a imagem que abre esse post é de um dos muitos posts repercutindo a “descoberta”. Assista o trecho em questão abaixo:

Seria hilário se não fosse trágico. Precisou o site de humor Sensacionalista falar sério para esclarecer a mentira. Pior que a manipulação rasteira que visa gerar ruído através da desinformação, é ver a quantidade de gente que acreditou e compartilhou – sem questionar e, muito provavelmente, sem sequer assistir o trecho do filme. Foi triste de ver.

E assim, o que poderia ser apenas mais uma piada sem graça na internet, serve tanto como exemplo da qualidade e do tom das informações manipuladas e cercadas de interesses que tem circulado pela rede num momento tão delicado do país, quanto de testemunho de como é fácil conduzir o pensamento de uma quantidade enorme de pessoas, que forma sua opinião de maneira rasa, muitas vezes até por ingenuidade, sem nem se dar conta disso.

Independente do resultado domingo, lembre-se que quem “ganhar” essa disputa vai ter conseguido isso através de um acordão. Ninguém ali vota pelo país, vota por agenda. É difícil, mas política é assim (e impeachment é uma questão política, não de justiça). O país seguirá adiante e nós teremos, mais do que nunca (porque é sempre é assim), que fazer nossa parte, todo dia, pra fazer disso aqui um lugar melhor.

O caldo vai continuar fervendo em fogo alto pelas próximas semanas e é sempre bom lembrar: muito cuidado com o que você lê, onde você se informa e como você forma sua opinião. Nesse fogo cruzado de informações, todo cuidado é muito pouco.

terça-feira

11

novembro 2014

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Trancultura #150: We Are Shining // J Mascis

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OGLobo_WeAreShining_2014

Texto na da semana passada da “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Viagem delirante
Uma volta pelas 12 faixas de ‘Kara’, que a banda diz ser ‘uma trilha para um filme mental’
por Bruno Natal

A dificuldade de se rotular música de acordo com estilos é uma das grandes dádivas da recente geração de bandas. Cada vez mais mistura-se de tudo sem a intenção explícita de sequer criar um novo gênero. É justamente a ideia de fazer com que esses sons convivam, sem que um vire o outro, que rende os melhores resultados. Nesse quesito, ao menos em 2014, tem pouca banda para bater de frente com We Are Shining.

O grupo é formado pelos ingleses Morgan Zarate e DJ Acyde, ambos com alguma experiência na música. Zarate foi parte do trio de trip-hop, soul e r&b Spacek e lançou três discos pelo selo Hyperdub, do Kode9. A dupla já esteve em estúdio com Kanye West e se apresentou duas vezes na série Boiler Room.

Uma volta pelas 12 faixas do disco de estreia, “Kara”, dá um nó na cabeça de qualquer um: guitarras africanas duelam com blues tuaregue, viradas afrobeat colidem com riffs de rock, climas atmosféricos emprestados do reggae se encaixam em vocais soul, Jimi Hendrix passeia por um groove de hip-hop. É um disco retrô e referencial, sem deixar de ser extremamente avançado, sendo ao mesmo tempo sujo, gasto e barulhento, polido e bem-acabado.

“Trilha para um filme mental”

Essas são as referências imediatamente identificáveis — a dupla ainda cita psicodelia turca, experimentos eletrônicos dos anos 1960, afro rock setentista, hip-hop do final dos anos 1990 e Moombahton. Tanta mistura costuma ser receita para o desastre; ou sai um bololô sonoro pretensioso ou uma coleção de faixas, cada uma atirando para um lado. O We Are Shining consegue cumprir a difícil tarefa de escapar dos dois riscos. “Kara” mantém sua unidade e faz dessas múltiplas vias um só caminho, coeso. Uma viagem delirante tornada ainda mais intensa com a ajuda de fones de ouvido.

A mistura cosmopolita de Londres, onde há de tudo de toda parte do mundo, num choque cultural de múltiplos efeitos, se reflete no som. A lista de vocalistas convidadas dá conta da quantidade de influências: o art-rock da mexicana-francesa Andrea Balency, o r&b futurista de Roses Gabor, o pop de Mallie, o soul pop de Eliza Doolittle, o folk e o jazz de Eska, e o soul pós-punk de Shingai Shoniwa (do Noisettes).

A badalada cantora FKA Twigs compôs “Breaks”, e a modelo Adwoa Aboah estrela o clipe de “Hot love”. A capa de “Kara” foi feita pelo australiano Leif Podhajsky, que vem empilhando obras-primas com suas artes psicodélicas feitas para discos e singles de Tame Impala, Mount Kimbie, Lykke Li, Bonobo, Shabazz Palaces, Miami Horror e Sun Araw.

Em uma entrevista recente, Acyde disse que o disco era “a trilha para um filme mental. Fique bêbado, fique chapado e assista ao pôr-do-sol enquanto ouve o disco”. Pode seguir a dica sem medo, vai brilhar.

Tchequirau

Mazzy Star pode ser considerada uma artista de um só hit (mesmo que tenha outras boas músicas). Tudo bem, porque o hit que ela tem não é pouca coisa. Ainda assim, em 2013 J Mascis, do Dinosaur Jr, achou de enfiar a mão na clássica (tem 20 anos, já pode chamar de clássica, né) “Fade Into You”. Ficou legal.

quinta-feira

9

outubro 2014

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Placar, Julho/1997

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Encontrei uma versão digital do primeiro texto que publiquei na vida, na revista Placar, quando estava no primeiro período da faculdade e ainda considerava o jornalismo esportivo.

Quase 20 anos depois, com as novas normas da FIFA, o tema jogador de empresário está mais atual do que nunca.

E ainda tem um “indas e vindas” ali que não estava na versão original, enviada por fax, que quase me custou o primeiro e único estágio.

placar1997

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