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dezembro 2012

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Transcultura #100: Doo Doo Doo, Mohandas, Amplexos

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Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Entrevista coletiva
Doo Doo Doo, Mohandas e Amplexos: três bandas que acabam de lançar o primeiro disco se entrevistam
por Bruno Natal

Um dos grandes entraves do mercado independente é a falta de interação entre os artistas. Poucos se escutam, menos ainda se frequentam, e a tal cena às vezes mais se assemelha a uma disputa por território, na qual perdem todos, fechados em panelas e nichos. Este mês, três bandas — duas cariocas e uma de Volta Redonda — lançaram seus discos de estreia, disponíveis para baixar de graça: Doo Doo Doo (“Casa das Macacas”), Amplexos (“A música da alma”) e Mohandas (“Etnopop”).

A pedido da Transcultura, integrantes das três bandas se entrevistaram. Nenhum conhecia o trabalho do outro, então só esse exercício já teria valido a pena. Eles conversaram sobre influências, sonoridades e métodos de trabalho. Sobretudo, se enxergaram. São três bandas bastante diferentes, e é exatamente desse atrito que pode sair algo de novo.

DOO DOO DOO (Alberto Kury) responde a MOHANDAS (Eduardo Lacerda)


Doo Doo Doo

O disco de vocês, assim como o nosso, foi literalmente “feito em casa”, no esquema independente. Além da divulgação on-line, com o download gratuito, sabemos que os shows são fundamentais para a banda seguir a jornada. Qual é o foco de vocês pra circular com o disco ao vivo? O que vier vocês “traçam”?

Traçamos o que vier! Costumamos fazer shows em lugares mais under, como Plano B, Audio Rebel e Tico Taco, na Lapa, lugares que frequentamos. Com o álbum disponível na rede, a ideia é aumentar esse leque, chegar em mais gente. E, como já disse o outro, a gente monta banda pra ser escalado em festival e ganhar vip.

O clipe “Carnaval no inferno” é bem interessante, com uma pegada de humor trash. Somos de uma geração que EStá pegando a transição da MTV para o YouTube, no qual produções mais caseiras, com boas ideias, podem “vingar”, gerar audiência. Que importância vocês dão para os clipes dentro do trabalho da banda?

Heheh, na verdade, o nome é “Carnaval no fogo”. Hoje em dia, fazer um videoclipe é um passo imprescindível na divulgação de qualquer banda. Tem gente que só ouve música pelo YouTube! E, assim como no caso da gravação do disco em casa, com os meios digitais hoje, fazer um clipe “na marra” é, além de viável, altamente recomendável. Nós gostamos muito, desde o início pensamos em fazer um vídeo pra cada faixa, talvez role, acaba acrescentando mais uma variante de significado às músicas.

Além das influências como o Animal Collective e o Tune Yards que vocês listaram no Myspace, pesquei também outras ascendências, como Kraftwerk, Nirvana. Os teclados e guitarras têm coisas de rock 1960 e às vezes de blues. Quais as referências nacionais no som que fazem?

Mutantes é sempre uma referência, mas crescemos ouvindo muita Legião Urbana também. Na verdade, o pessoal ouve de tudo, é impossível fugir do Caetano, do Tom Jobim, por exemplo, esses sons já meio que nascem dentro da gente.

O disco de vocês é todo autoral – mais uma convergência dos nossos trabalhos. Como é esse processo de criação coletiva? As bases vão abraçando as letras (que são todas em português), ou vocês criam essas texturas e camadas e as músicas vão vindo na esteira?

Normalmente, o Dudu mostra um rabisco da canção e o resto do pessoal vai acrescentando elementos e vamos arranjando em conjunto. Como agora estamos com um estúdio na Lapa, o Coletivo Machina, e temos mais tempo e espaço, temos caminhado para um processo mais coletivo de composição.

Uma pequena provocação agora. Qual ou quais artistas vocês acham que não gostariam do trabalho de vocês? E qual público rejeitaria seu som?

Temos uma certa dificuldade de nos encaixarmos em um gênero musical específico talvez porque enxerguemos a música por um prisma mais universal, então, à princípio, todos poderiam gostar do nosso som… mas acho que a Maria Bethânia é uma que ficaria nervosa de não entender as letras direito.

Vocês definem seu som como um “pop experimental”. Agora, de que pop vocês estão falando? Uma coisa ligada a determinados gêneros musicais ou o pop no sentido de uma música popular mais acessível ou convencional?

Pop no sentido de canção radiofônica, de utilizar estrofes e refrães grudentos, de falar de amor e de dor, de juntar elementos de cultura de massa. Mesmo que o resultado caminhe por um viés mais esquisito ou experimental, a estrutura das músicas é de canções pop.

AMPLEXOS (Eduardo Valiante) responde a DOO DOO DOO (Alberto Kury):


Amplexos

Como é o processo de composição? Vocês são filhos da linha evolutiva da MPB?

Temos um compositor, que faz as letras e melodias principais, e os arranjos são feitos em conjunto. Tocamos juntos há bastante tempo e sabemos pra onde ir. Muitas vezes a gente fica tocando uma levada até que ela “fixe o groove”, e aí já temos uma base. A composição dessas letras e melodias é que não tem regra. Pro disco, metade das músicas saiu sem a gente ter muita noção sobre o que tava falando… depois é que percebemos que havia algo ali em comum. Somos gratos pela inspiração e pela oportunidade que temos de fazer música. Nunca pensei nesse lance de linha evolutiva da MPB, não sei se a gente faz parte dessa linha evolutiva e, mais ainda, não sei o que é ser filho de uma linha evolutiva.

Vocês acham que a história sonora do planeta chegou ao seu limite de inovação estética ou ainda há muito o que explorar? Vocês são filhos do Fukuyama?

A gente acredita que há muito a ser criado. O ser humano ainda não evoluiu o suficiente para criar uma música nova. É só olhar pra dentro e ver o quanto a gente continua errando. Ao mesmo tempo, acreditamos que novo é o que se comunica com a época. A música tem o papel de mudar muita coisa na vida de uma pessoa. Se eu conseguir passar uma mensagem, minha música serve para essa pessoa, é nova. Ah, e não conhecemos Fukuyama.

A indústria fonográfica está em transição. Amplexos: como vivem, do que se alimentam? Vocês realmente acreditam no download livre? Vocês são filhos do Radiohead?

A eterna transição! Todos vivemos de música, temos projetos paralelos, trabalhamos em estúdio. A gente vive no perrengue, mas é o que escolhemos, fazemos música com muita alegria. E nos alimentamos bem dela e com ela, comemos frutas, fibras e verduras, praticamos esportes e cuidamos da saúde. O download livre é algo em que a gente acredita. Todos baixamos música grátis, e isso contribui na nossa formação. É claro que eu gostaria que todos comprassem nosso disco. Ao mesmo tempo, nossa música é para ser espalhada, E adoramos o Radiohead, mas definitivamente não somos filhos deles.

Vimos que vocês participaram do tributo ao Raça Negra. A experiência de arranjar, ensaiar e gravar essa música deixou alguma marca do som deles em vocês? Vocês são netos da Tropicália?

A gente adora o Raça Negra, desde sempre. Temos integrantes na banda que são fãs de verdade do grupo e a marca do som deles já estava no nosso som antes mesmo de a gente gravar uma música deles. Fazer a versão de “Quando te encontrei” foi algo muito natural. Tivemos um papo, escutamos algumas vezes, fizemos um ensaio e fomos para o estúdio. E adoramos a Tropicália, o Gil, Oiticica, Tom Zé… são artistas que nos influenciam até hoje de alguma forma. E, cara, a gente não pensa em música assim, em uma “árvore genealógica”. Estamos quase em 2013, a Tropicália é um movimento da década de 1960/1970, muito importante para a época e que tem reflexos até hoje, mas a gente não pensa neles na hora de fazer música.

Vocês tiveram a participação especialíssima de Oghene Kologbo, guitarrista nigeriano que gravou com Fela Kuti. Como foi essa experiência com ele no estúdio e no palco, já que ele também fez participações nos shows? Vocês são filhos do Fela?

Mais do que a experiência de música, foi uma experiência pessoal muito importante. Na primeira vez que ele veio ao Brasil, nós ainda não tínhamos lançado o disco e o Kologbo ter ido até Volta Redonda e passado esses dias com a gente foi muito simbólico e nos deu muita força. Ele trouxe o afrobeat genuíno e isso enriqueceu bastante a nossa música, os nossos shows, e nos deu mais liberdade na hora de fazer o nosso som. E, cara, essa parada de perguntar se somos filhos está meio chata, porque a gente não conseguiu responder isso direito até agora… não é bem assim que a gente pensa. Mas se tivéssemos que escolher um pai entre esses que vocês citaram, o Fela seria um bom pai. A gente adora a música dos filhos dele, do Seun Kuti, especialmente.

MOHANDAS (Eduardo Lacerda) responde a AMPLEXOS (Eduardo Valiante):


Mohandas

“Etnopop” é uma espécie de conceito criado para definir o som do Mohandas. Qual foi e é a importância da música “étnica” e da música pop para vocês?

A música étnica foi um ponto de convergência entre nós. Muitos de nós passamos pela escola da percussão popular brasileira, do Maracatu de Baque Virado à formação de escola de samba e às muitas manifestações populares de nossa cultura. As tradições musicais africanas, indianas, latinas, caribenhas também nos fascinam. Já a música pop é importante pelo simples fato de ser uma cultura na qual estamos imersos. Sem falar que os gêneros musicais sob esse guarda-chuva do pop são parte fundamental de nossa cultura. O etnopop que criamos busca conciliar essas informações, fazer a aldeia dialogar com mundo e vice-versa.

A música do Mohandas dialoga com os tempos de hoje? E para quem é?

A música é uma expressão de quem a faz, e estamos sempre em movimento. Temos canções como “George Clooney” e “Monkey dance”, que são críticas diretas aos tempos atuais. E temos “Kite” e “Mohandas”, com mensagens sobre amor fraterno, luta pacífica, integração dos povos, que são valores atemporais. Musicalmente, dialogamos com as informações que nos chegam, e procuramos saber mais, por isso o carimbó misturado ao funk e à eletrônica, são todos atuais. Acho que quem vai dizer para quem é essa música é o próprio público, que se apropria destas mensagens e faz nossa música ter sentido.

Para nós, que estamos no interior do Rio, parece haver uma multiplicação de artistas “fofos”, com muita pose e pouca coisa relevante a dizer. O que vocês acham da cena carioca?

Vivemos um momento fértil. É claro que, aumentando a oferta, aumenta a disparidade. Mas, falando de cena, acho importante que os artistas se ajudem. Não dá pra confundir independente com isolado. Vejo com bons olhos bandas interessadas em ir pra rua mostrar o trabalho, como Biltre, Maracutaia, Feijão coletivo. Tem boas bandas (e más) em todos os estilos. Nos identificamos com Letuce, Cícero, Tono e outros.

O som do Mohandas tem um pouco de estilos bem populares (do “povão”). Os shows na Pedra do Leme, abertos ao público, são boas oportunidades de mostrarem a música de vocês para um público mais amplo, mas vocês já experimentaram levar (ou devolver) essa música para locais mais periféricos, que é de onde vem muitas referências que vocês usam?

Nós temos a intenção de tocar em espaços públicos sempre que possível. Obviamente adoraríamos levar nosso som ao Pará, aos países da América Latina e às cidades africanas cujas culturas musicais nos servem de inspiração, mas é um tanto complicado realizar esse desejo, não é? Queremos sim levar nossa música aos guetos e periferias, não para pagar alguma espécie de “dívida de gratidão” com eles, porque a cultura é um documento de atuação pública, está aí para ser devorada e reinventada, mas porque queremos nos comunicar e achamos que todos merecem acesso à diversidade cultural. Nós queremos fazer nossa arte dialogar com as pessoas, seja no Leme, no Alemão, em Madureira ou onde for.

A música do Mohandas é feita para mover as pessoas, mudar alguma coisa em suas vidas e causar alguma reflexão, ou é uma música somente para divertir, entreter?

Acho que a nossa música é feita para dar expressão ao que sentimos. Fazer música é nossa forma de estar no mundo, de dialogar com as pessoas à nossa volta. É um reflexo do que sentimos, pensamos, dos nossos gostos, alegrias e sofrimentos, indignações. E acreditamos que muitas pessoas possam compartilhar destes mesmos sentimentos e também terem as mesmas angústias e felicidades, então daí vem a comunicação. Não estamos preocupados em ser virtuosos ou eruditos, revoltados contra o sistema, tampouco condescendentes com ele. Por outro lado, não temos a pretensão e nem paciência para ser puro entretenimento, música-chiclete, de fácil digestão e mais fácil ainda perecimento.

Tchequirau

Um dia todos humanos terão a oportunidade de visitar o espaço. Enquanto essa aguardada hora não chega, a página How many people are in space right now (Quantas pessoas estão no espaço nesse exato momento) mantém a contagem em dia. Hoje, há apenas três astronautas, todos a bordo da EEI.

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