Com tantos elogios de pessoas tão diferentes, fui conferir o Metá Metá ao vivo pra ver se batia, coisa que os discos não fizeram. Fui pra gostar. É indiscutivelmente muito bom, tecnicamente sobretudo. Entendi o motivo de tanta empolgação em torno da banda.
Tudo soa muito calculado, certinho demais, o que não seria uma questão se a proposta não parecesse ser exatamente livre. O onipresente afrobeat (do qual, ao menos, o Metá Metá apresenta uma uma reinterpretação e não o mero pastiche que tem se escutado em 98% dos “influenciados”). Tenho trauma dessa escola MPBzística de vocal (é algo nos trejeitos, nos vocalizes, não consigo nem expressar direito, é uma sensação) e muita preguiça de solo de sax.
É muito bom, mas não senti muita sinceridade espontaneidade no lance. Ficou meio macumba pra turista, experimentação universitária. Achei chato, só isso. Isso nem é uma resenha, só um relato mesmo. Entendo quem gosta, nem perde tempo xingando.
Num Teatro Rival cheio de fãs dispostos a ouvir as músicas do novo disco, a reação ao repertório variava de acordo com a origem da música: urros e coros no primeiro disco, atenção e letras cochichadas nas do segundo. O show precisará encontrar arranjos que consigam equilibrar momentos tão distintos. Para isso, as músicas de “Sábado” precisarão se adaptar ao palco, as micro explosões que acontecem nos fones tem que se ampliar para bater no peito e ouvido de quem está de frente pro som.
Esse momento pode ser de transição e primeiro passo para o resto da carreira de Cícero. Músicas “Fuga nº 4” e seu título sugestivo, cheia de paisagens e vazios, exclamam “calma!” em toda parte. Estranho dizer que é um disco pra ouvir, não pra gerar memes.Tal qual fez o Los Hermanos em seu “Bloco do Eu Sozinho”, o compositor alienou parte dos fãs para encontrar o próprio caminho. Um deles é o do formato ao vivo.
Goste ou não disco (gostei bastante), não se deveria esperar outra coisa de um artista e isso por si só é bom.
Com a pressão de meio milhão de discos baixados (segundo as contas do próprio artista), shows lotados e muitas críticas positivas recebidas por seu disco de estreia, “Canções de Apartamento”, chegou a hora de Cícero encarar os fantasmas que assombram o segundo disco de tantos artistas mesmo antes dele existir. Amanhã, sábado 31, é o lançamento oficial de “Sábado”, produzido de maneira independente e novamente liberado para baixar de graça na página cicero.net.br. CD e vinil terão distribuição da Deck na semana seguinte.
Se antes do primeiro disco um compositor tem toda vida para vasculhar suas próprias experiências e se inspirar, no segundo, além de menos tempo, há também a expectativa, principalmente após um sucesso. Cícero sentiu a cobrança desde antes de pensar no tal disco. Tendo, como disse, “que rosnar para me defender”, ele diz que lutou para conseguir fincar o pé no chão e não se deixar levar pelas muitas ofertas e mimos que vem a reboque de se estar sob os holofotes. Sua decisão foi se fechar para avaliar o que de fato queria fazer.
– Parei tudo no auge do “Canções”, não marquei mais shows, pra poder pensar nos rumos que queria pra minha vida e nos rumos que ela estava tomando com o sucesso do disco. Quis frear a coisa mesmo. Sair de evidência pra dar os passos com mais calma e menos cobrança – explica Cícero.
O resultado é um disco de quem não está mesmo preocupado em atender as tais expectativas. Solto, em vez de buscar a solução fácil de uma sequência lógica repetindo a fórmula intimista de “Canções”,”Sábado” traz arranjos mais sofisticados e ousados.
Por ser menos cru que o anterior perdeu um pouco do calor e da proximidade, ainda que haja elementos e timbres o suficiente para remeter e sugerir uma continuidade. No entanto, a mão direita do violão formandoloops analógicos dedilhados, sintetizadores, oitentismos 8-bit, bumbos eletrônicos fazendo a transição entre faixas, as explosões substituídas por implosões auditivas, tudo envolto em camadas de efeitos e ruídos, levam “Sábado” por caminhos bem diferentes.São muitas mudanças ao mesmo tempo sutis, nuances por vezes escondidas numa mixagem melhor explorada de fones de ouvido.
– “Sábado” não tem clímax, refrões, pratos de ataque, agudos, médios. É um disco de 29 minutos que fiz pensando naquela momento de final de tarde, entre 17h30 e 18h, que não é nem barro nem tijolo, nem alegre nem triste, nem começo nem fim de nada. É um estado de espírito que me acompanha desde sempre.
No encarte as letras surgem como poesia concreta
As letras estão menos literais confessionais e mais abertas. Como haikais, as músicas tem duas, três estrofes – há uma com apenas uma. Até pelas divisões menos usuais, não há tantos versos que se destaquem numa primeira audição. São letras pra descer devagar, frases que serão encontradas por momentos, não o contrário.
– Esse disco é menos afável que o “Canções de Apartamento”. Tem menos frases de efeito, a poesia, é mais rarefeita. É um posicionamento mesmo, estou querendo ir sair da coisa do meme. Vamos ver se comunica, né.
Por meme, Cícero se refere a viralidade de seu primeiro disco que nem ele mesmo acredita ser sinal concreto de alguma coisa. Um sucesso na rede, mesmo com números expressivos de downloads, não se traduz necessariamente em reconhecimento no mundo físico. Os número na rede são difusos, agregam pessoas de diversos lugares, não são uma medida que garanta, por exemplo, turnês lotadas por diversas cidades (porque, afinal, se o disco é de graça, os shows tem que pagar a conta).
– Entrei num espiral de glamur em cima do meu nome, de interesse, de euforia, que eu mesmo não tenho. Resolvi dar uma esfriada no lance pra pular logo a fase do “oba oba” e entrar na fase de “sou um artista fazendo o meu” e criar uma relação de amizade com o tempo. Não quero que os anos sejam ruins pra mim, quero que sejam bons. E o frenesi em cima da novidade é um falso amigo. Um falso carinho.
Por não ser um disco tão dado e mais elaborado, exigindo um pouco mais do ouvinte, por isso é possível que aliene parte dos fãs iniciais, o que não preocupa Cícero.
– Não tenho medo de perder público. Ainda estou formando o meu e esse processo vai levar mais alguns discos, mais alguns anos, mais algumas escolhas. A primeira impressão que tiveram de mim foi bem forte, me lançou com força no páreo, mas eu acho precipitado falar de “meu público”. Isso é construção de uma vida.
Como no primeiro disco, Cícero compôs e tocou todos instrumentos em “Sábado”, gravado na casa de amigos e produzido pelo próprio Cícero, Bruno Schulz e, dessa vez, Bruno Giorgi (filho de Lenine que recentemente ganhou um Grammy pelo disco do pai e que também fez a mixagem). As exceções ficam para as teclas de Schulz e as participações especiais bastante discretas de Marcelo Camelo tocando bateria, baixo e guitarra em duas músicas; Silva, contribuindo com seu piano em uma; os vocais de Mahmundi e Luiza Mayall em outra, e Uirá Bueno, do Canastr, na bateria e percussão em mais duas.
Entre referências tão anacrônicas como Villa lobos, Metronomy, Cartola e Pixies, que disse estar ouvindo na época das gravações, ele Cícero prefere destacar as influências não-musicais. O “azul-final-de-tarde”, por exemplo, foi a cor que o inspirou na hora de fazer os arranjos e letras. Seu canto também pode dizer muito de suas intenções.
— Meu canto é minha opinião sobre canto. Não sou um cantor, mas gosto de ouvir gente que canta assim, pra dentro, cuidando das intenções mais do que da afinação, da fragilidade mais do que da força. Isso me emociona mais, me puxa mais pro coração e menos pra razão — explica ele. — Tirar as explosões dos arranjos foi mais uma forma que achei de tentar falar com as pessoas de uma forma íntima, sem convenções, sem jogar pra cima. Falar francamente de coisas que sinto e penso, sem empostação, sem firulas, é ser mais real ainda. “Canções” é mais alegórico, mais fantasioso em cima da vida. “Sábado” é um disco bem mais áspero. Quis cantar assim, áspero.
Sem fazer apostas, Cícero deixa para o público a tarefa de determinar qual música pode ter força para impulsionar a carreira de “Sábado”.
O novo disco faz parte de um diálogo da vida urbana com questões pessoais. Para fugir dos fantasmas do segundo disco, Cícero partiu do mesmo lugar, dessa vez porém chegou mais longe.
– Com “Sábado” quis voltar para onde saí com o “Canções de apartamento”: do tédio da cidade em busca de algum conforto existencial.
—
Tchequirau
Projeto do menino prodígio Nicolas Jaar e Dave Harrington, há alguns meses o Darkside remixou “Random Access Memories”, do Daft Punk, “Daftside”. Essa semana eles liberaram os primeiros 11 minutos do seu primeiro disco próprio, uma chapação de downtempo funkeado e psicodélico. Vem coisa muito boa por aí.
Uma vez li alguém (não lembro quem) falar que as pessoas se sentem impelidas a terminar livros, mesmo quando não estão gostando, como se fosse errado abandonar a história no meio, e que por algum motivo não existiria tanta pressão para terminar de ver um filme ruim – mesmo que tome mesmo tempo.
Também é bastante comum alguém dizer que “não entendeu” um filme, devido as nuances e subjetividades da gramática áudio-visual (roteiros ruins também são outro motivo).
Agora, não lembro de pessoas dizerem que não entenderam um disco. É quase sempre um simples “gostei” ou “não gostei”, com muita sorte alguns comentários a respeito. Pois bem, tudo isso pra dizer o seguinte: ouvi e não entendi o disco novo do Do Amor.
Tem bem uns três ou quatro EPs entre as 18 músicas desse “Piracema”. Começa indie rock carioca, fica carimbó/caribenho/axé, (marca da banda), entra numa viagem rock pastoral psicoldélico setentista e encerra com na mesma ambiência etéreas que abre.
Tem muita coisa boa, como a música título. A quantidade de direções apontadas atordoa e deixa difícil entender a proposta central.
Existe outra máxima, essa pessoal, que diz que disco bom, bom mesmo, nunca bate bem de primeira (o que nem de longe quer dizer que todos discos que não batem bem de primeira são bons). No meio de tanta obviedade e discos preguiçosos, a falta de entendimento deve ser um elogio.
Vou tentar enteder. É um bom motivo pra pedir uma entrevista pra banda.
Pouquíssimas horas após vazar, minutos, na realidade, os vereditos sobre “Random Access Memories” começaram a pipocar na rede. Em questão de alguns posts no FB e no Twitter a discussão estava polarizada entre os que amaram (e já amaram antes de escutar, chamados de hype) e os que odiaram (e já desgostaram antes de ouvir, os haters) o novo disco do Daft Punk.
Entre os dois extremos ficou não apenas o bom senso, mas também o prazer de simplesmente se ouvir um disco pelo que ele é, acompanhar a ideia de uma outra pessoas sem tantos julgamentos, sem imagina que teria que ser outra coisa.
Os que tinham altas expectativas em relacão aos robôs (e os que se incomodaram muito com a robusta operação de marketing do pré-lançamento) ficaram, como era de se esperar, decepcionados. Como se sabe, existem poucos atalhos mais certeiros para frustração do que altas expectativas.
Os que mantiveram as esperanças baixas depois de ouvir a morna “Get Lucky” (eu), tiveram um bocado mais de sorte e – boa vontade – ao se deparar com uma produção impecável, grooves chicletudos, as muitas participações especiais tão integradas que são quase imperceptíveis, a qualidade de gravação e mixagem de uma grosseria poucas vezes vistas (mesmo em 192kbps, imagina em vinil…), e o mais importante, boas músicas. Surpresa boa.
O disco é inapelavelmente retrô desde a escalação dos músicos, baluartes da disco music como Nile Rodgers, Giorgio Moroder e John JR Robinson. Ao homenagear uma época que precedeu sua própria existência, o Daft Punk espanou o mofo numa experiência retro-futurista: aplicar referências de produção e arranjos da eletrônica na sonoridade de uma era marcada pelo trabalho de músicos de estúdio.
É uma conquista em tanto conseguir sair de trás de computadores, teclados e sequenciadores para comandar sessões de gravação com músicos desse naipe. E um barato para os fãs ver o Daft Punk interagir tão de perto com sua principal referência.
Engana-se quem pensa que não há inovação em olhar para trás. Alguém se lembra de um documentário musical no formato apresentado em “Giorgio by Moroder”, baseado numa entrevista com o lendário produtor e que se arrisca até num samba jazz. Passando dos nove minutos, é seguida de “Touch” e seus oito minutos psicodélicos.
“Lose Yourself to Dance” (com Pharrell Williams fazendo o que deveria ter feito em “Get Lucky”) é balanço pra uma noite toda, “Doin It Right” (com Panda Bear) traz programações eletrônicas e trombadas de 808, pra matar a saudade. Encerrando o disco, outro épico, “Contact” decola e leva o ouvinte rumo ao espaço.
Só até aí já são cinco músicas excelentes, o que é uma média mais alta que boa parte dos discos lançados nos últimos anos. Tem mais. As três baladas, “The Game of Love”, “Within” e “Beyond” e o tema “Motherboard” também fazem muito bonito.
Entre quem reclamou, muita gente critica outras coisas – o hype, sobretudo – que não o objeto em questão. O disco é o que é, não adianta querer que fosse outra coisa. Medir sua qualidade baseado num próprio desejo do que gostaria que ele fosse é uma abstração sem muito propósito. Foi a armadilha que o Daft Punk armou para si próprio ao forçar tanto na divulgação.
Goste, desgoste, ame, odeie. Não importa, gosto é gosto. O importante é ouvir o disco – esse ou qualquer outro – sem tantas barreiras. Do contrário, não tem nem graça.
Obs 1: provavelmente ainda volto aqui pra adicionar novas ideias.
Obs 2: como até a dupla fez um faixa-a-faixa, resolvi tuitar as impressões iniciais ao longo da primeira audição, falando mais especificamente do som. Siga abaixo.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.