A timidez de Clarice Falcão é perceptível mesmo para quem a tenha visto poucas vezes. Retraída, é surpreendente que ela se exponha tanto, seja através de seus textos e roteiros, como atriz (com a carreira potencializada através do canal Porta dos Fundos) ou agora como cantora e compositora.
A reboque do sucesso online, seu disco de estreia, “Monomania”, passou dias no topo da lista de mais vendidos do iTunes, onde foi lançado. Os ingressos para série de cinco shows de lançamento no pequeno Solar de Botafogo evaporaram (e o mesmo aconteceu para os shows de SP, BH e Curitiba, batendo recordes do Queremos!) e o teatro ficou lotado de fãs querendo ver de perto a atriz.
Sim, porque Clarice ainda está se descobrindo cantora, passando por esse processo em frente ao público, como se tornou a norma nos dias de hoje. O show, bem ensaiado e cheio de marcações, reflete essa transição, a atriz e a cantora dividindo o mesmo palco. O fato dos shows serem num teatro reforçam essa metamorfose, porém são as composições que tornam essa mistura mais evidente.
Há um pouco de todas as facetas de Clarice nas músicas. A contadora de histórias, o personagem gauche que declama o texto, o humor que invariavelmente vem a tona e, claro, a compositora, fagocitando as outras personas, numa aglutinação que explica a monomania do título do disco:
Monomania s.f. Alienação mental em que uma única idéia parece absorver todas as faculdades mentais do indivíduo. P. ext. Paixão, idéia fixa, mania exclusiva.
Enquanto equilibra-se num lugar imaginário entre um musical e um show, Clarice se esconde atrás do humor por timidez, ao mesmo tempo que oculta a transformação da atriz em cantora com o mesmo humor. Cronologicamente, é perto do final do show, já no bis, que ela e o quarteto que a acompanha (dividindo-se entre bateria, percussão, celo, baixo elétrico e acústico, guitarra e teclado), enfim, se libertam.
A banda toca com mais força e Clarice descola os pés do centro dos tablado, abre os braços e se solta. Pronta para ser cantora, um show de cada vez.
Tinha tempo que Black Alien não fazia um show inteiro, só dele. Com o lançamento de seu segundo disco chegando, o rapper aceitou o convite do festival Sonoridades e encarou o palco do Oi Futuro, tendo como convidados Edi Rock (Racionais MCs), Flora Matos, Gabriel o Pensador e André Ramiro. Gente que gosta dele, o reverencia e ajudaram a deixar o ambiente mais familiar.
Dadas as circunstâncias um pouco tortas, numa casa sem história com o rap, para um público diferente do qual está acostumado a se apresentar, o retorno teve mais cara de aquecimento. Amplificando essa atmosfera, a maior parte do show foi baseado em músicas lançadas há quase 10 anos, em “Babylon By Gus Vol 1: O Ano do Macaco” e num formato bastante cru, sem banda, com apenas o MC e o DJ Pachu no palco, em clima de ensaio.
momentos do show: paper planes, duas músicas novas e papos com a platéia
O grande interesse do show, portanto, estava mais no que se passaria entre as músicas, nos papos improvisados de Black Alien com a platéia. Ou dele com ele mesmo, em voz alta e rimando, como é típico. Uma edição de vídeo só com essas partes daria um bom retrato do momento atual do rapper, uma ideia de seu momento de vida mais clara até que as novas letras, que ele tem tempo de fazer e refazer. O improviso é direto e é sincero.
“Ela é a Flora. Eu sou a fauna”, disse ao apresentar a convidada brasiliense.
“Não existe final feliz. Se é feliz como é final?”
“Não sem til agora é nao, tio”
Vindo de uma longa internação numa clínica de reabilitação, “agora é now mesmo” para Black Alien e ele quer fazer o melhor. Agitado, pediu diversos rewinds a Pachu para poder recomeçar a rimar quando errou – e a maior parte das vezes que errou foi por conta de loops pulando, por um defeito do controlador, de acordo com o DJ, prejudicado pelas muitas mudanças por segundo impostas pelo rapper.
Ao longo do show, Black Alien fez duas piadas leves sobre maconha e inclusive cantou “Cachimbo da Paz” com Gabriel O Pensador. Depois de tanto falar que não se juntou ao Planet Hemp nesse retorno exatamente por não querer exaltar drogas (“olha o que aconteceu comigo”, tem dito em entrevistas) pode soar contraditório. São mesmo as contradições que fazem a cabeça de Gustavo Black Alien ferver.
Existe um diferencial que faz o Mr. Niterói incontestavelmente o maior rimador do Brasil: Black Alien não rima magistralmente apenas palavras, rima assuntos. Fazendo curvas tão bruscas quanto imperceptíveis, ele junta tópicos improváveis. Modulando o vocal, pula do singjay para raggaman para o rapper em uma frase. Em português e em inglês.
O ouvinte é jogado de um tema para o próximo, variando entre assuntos gerais aos mais pessoais. Nenhuma música é “sobre alguma coisa”. As letras são amplas porquê Black Alien é levado pela palavra, não o contrário. A bem dizer, não são letras ou as reportagens comuns ao rap. São poemas declamados sobre batidas.
No Planet Hemp esse caráter fica ainda mais evidente. Suas entradas são sempre como uma decolagem, entortando o papo, um momento dub e viajante, onde em meio a uma música sobre queimar tudo até a última ponta ele fala sobre a guerra entre Cambódia e Laos.
Mais do que isso, ouvir Black Alien é fazer uma viagem para dentro da cabeça do Gustavo. Um lugar inquieto, com mil pensamentos passando e se cruzando a todo tempo. Gustavo absorve e armazena referências de todas as partes. Quem já esteve com Gustavo sabe bem disso. Ele fala rimando mesmo quando conversa, uma eletricidade que não para e não tem hora pra fluir.
Uma pessoa que pensa tanto está propensa a sentir o cérebro fritar. Não deve ser fácil domar a quantidade de associações, possivelmente inconscientes e involuntárias. Gustavo é um gênio (com tudo de bom e de ruim que isso traz), é tratado e, principalmente, cobrado como tal.
Enquanto muitos fãs perguntam o que aconteceu, não se pode esquecer: saúde mental também é saúde. Próximo dos 42 anos, é difícil não pensar no que poderia ter sido produzido por Black Alien nos últimos 10 anos, dos 32 até aqui, num período normalmente de imensa atividade criativa. A escolha foi esperar pra gravar de novo, porque “não tinha nada pra falar”.
Sem saber o que aconteceu com Black Alien, é difícil dizer qualquer coisa. Refém de sua própria genialidade, seu talento o empurra para os holofotes, mesmo quando talvez não sinta-se pronto ou à vontade. Entre tantas turbulências, sua maior inteligência pode residir em saber respeitar o próprio tempo.
Fazia tempo que não dava uma dessas loooongas voltas noturnas num daqueles dias em que várias atrações se apresentam na cidade na mesma data, conferindo todos, sem fazer escolhas.
O sábado começou com Passion Pit no Circo Voador. Passados quase quatro anos, a banda melhorou muito ao vivo. Som bem passado, tudo justinho, até os falsetos que antes falhavam, melhoraram. Mas… O pop brilhoso, quase adolescente, do grupo não prende a atenção ao vivo. Quem já viu – e a banda já passou pelo Brasil – sabe e deve ser por isso que haviam apenas 300 testemunhas no recinto.
As músicas de pista do primeiro disco, como “The Reeling”, ainda sobrevivem, só que as mais novas, do disco do ano passado, são ruins de doer. Cansado daquilo ali, era hora de partir para grande atração da maratona.
Diferente do Teatro Odisséia, onde foi o outro show, o Leviano, bem em frente ao Circo, é uma pista de dança, escura e com muito mais pressão. O Digitaldubs abriu a noite tocando dancehall e nu-roots e foi bacana ver o MPC cada vez mais solto a frente desse que é um dos sound systems pioneiros do Brasil.
Tocando jamaican style, com apenas um toca-discos, MPC também danou a fazer toasts sobre as bases, dando mais personalidade ao set. O lugar estava lotado, com fila na porta, e foi uma grata surpresa ver tanta gente junta para o massacre de sub-frequências promovido pelo Zion Train.
As 2h da manhã Neil Perch deu início a uma cacetada de linhas de baixo, com teclados voando pra tudo quanto era lado (alguns soando como tecnobrega) e pancada avassaladoras no meio do peito dos presentes, amassando os problemas e massageando a alma. Praticamente sem tocar nenhuma música de seus muitos discos, o Zion Train faz um live redondo, mixando dubplates e utilizando os vocais do MC Dubdadda como mais um elemento hipnótico.
O transe deu uma pausa quando o som falhou, quase uma hora depois. Foi a deixa para ir para ir descansar. Foi então que lembraram do Tropikillaz, no Espaço Rampa (no Clube Guanabara, ao lado do Bar da Rampa, só que num ambiente fechado, melhor estruturado).
A passagem pelo lugar foi rápida, porém impressionante. O ingressinho de R$ 40 pratas assustou e já era tarde, então era mais pra dar uma conferida. Fazendo a oportunista (sem demérito) mistura entre o trap e o hip hop, o novo projeto do DJ Zégon super lotou a pista. Hip hop não falha, é impressionante.
Com a vista da Baia de Guanabara na retina e a cabeça cheia de graves, era hora de ir pra casa. Na próxima é até o sol raiar.
É invejável a disposição de Caetano. Em temporada de quatro shows (até domingo, ingressos esgotados), ontem o compositor estreou a turnê de “Abraçaço”, pisando no palco as 23h30 de uma quinta feira para um show de duas horas. Aos 70 anos.
Não que a idade seja relevante por si só. O que impressiona é que numa época da vida em que muita gente em sua posição estaria de sandália na praia, desacelerando ou, de maneira justa, aproveitando o próprio legado artístico, Caetano está pulando, com uma banda que tem metade da sua idade e – mais importante – criando material novo e relevante.
A “opinião pública”, se é que isso existe ou deva ser levada em conta, divide-se entre chamar de “múmia” os artistas mas velhos que seguem no mesmo caminho consolidado ou de “metido a moderninho” os que tentam se renovar. Goste ou não, esse fato é inegável que tentar se renovar é, no mínimo, mais arriscado, pra não dizer mais díficil.
Longe de ser apenas justificativas para um vôo furado, Caetano comprova ao vivo que continua seu caminho, sempre adiante. E se não for por nada mais, só o clássico instantâneo “Estou Triste” já valeria o disco. Felizmente, tem muito mais.
Como de costume, a Banda Cê, formada por Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria), é uma atração a parte. Três discos depois, totalmente integrados e sem vergonha, o trio brincou de reproduzir o abraçaço da capa do disco, simulando uma divindade hindú e seu múltiplos braços ao redor de Caetano. Será uma pena se esse for mesmo o último trabalho do grupo.
Além da precisão das execuções, bom gosto dos timbres e criatividade para resolver com apenas três instrumentos arranjos complexos de outras músicas, o tempo da banda é talvez o sinal mais palpável de sua maturidade. Em músicas como “Triste Bahia”, do “Transa” (alô, Caetano! Queremos “Transa”!) a banda acelera e desacelera o compasso, coesa, como se uma só mão deslizasse o pitch do palco inteiro. Uma belezura que, ainda bem, podemos ouvir sempre juntos ao menos 2/3 (baixo e batera) no Do Amor.
Caetano tocou 10 das 11 músicas do novo trabalho (o Leo dá os detalhes do repertório), coisa que seria complicada até mesmo pra ele. A vantagem de fazer o show quatro meses após o lançamento do disco é que as pessoas já conheciam as música novas-já-não-tão-novas. O ambiente era de familiaridade com todas canções apresentadas.
E fez de tudo. Letras com tom de tuitadas (Caetano se divertiria no Facebook, aposto, talvez não mais agora), com frases feitas e gritos de ordem, como em “A Bossa Nova É Foda”, teve devaneios quase senis ao recitar, livro na mão e tudo, “Alexandre” (o Grande) e divertiu-se. E como divertiu-se, isso dava pra ver.
Tocou a plateia mais do que conversou, dançou, vibrou, se mostrou e contagiou. Artistas e público, saíram todos sentindo-se abraçados.
(poucos vídeos do show online, hein… pessoal tá cansando de upar? capaz)
E lá se foi a segunda edição do Novas Frequências. Diferente do ano passado, quando a curadoria foi mais eclética, esse ano as atrações seguiam todas uma linha minimamente parecida de se utilizar os erros e acasos como parte central de suas composições – e quase todas de maneira bem etérea.
Por um lado isso fez com que tenha se perdido amplitude de idéias. Por outro, deu uma linha central e uma abordagem contemporânea por onde se analisar produções distintas. Em sua última noite, porém, o leque esteve aberto, iniciando com a anarquia ruidosa de Cadu Tenório e fechando com a combinação de graves e glitchs friamente calculada do Hype Williams.
Os primeiros minutos do Cadu Tenório no palco pareciam o clichê de um show experimental em algum filme sobre jovens na faculdade. Enquanto operava um ventilador microfonado e organizava loops, uma fotógrafa filmava os movimentos enquanto esfregava um pano na lente para criar algum efeito visual.
Foi curioso o pedido de silêncio vindo da plateia quando se ouviu algum cochicho. Numa apresentação pautada pela ambiência – e com samples de diálogos – conversas paralelas, mesmo que indesejadas, poderiam ser facilmente incorporadas a massa sonora.
As coisas melhoraram quando outros músicos foram entrando em cena – um guitarrista, um baterista e um saxofonista, integrantes do Sobre a Máquina, uma das muitas bandas da qual Cadu faz parte, e do Chinese Cookie Poets – mas não imediatamente. Iniciou-se uma viagem free jazz ruidosa, com cada um indo pra um lado, soando um tanto gratuito.
Os quatro somente encontram-se de fato nas duas últimas músicas, quando a execução – ou, melhor, a percepção dela – melhorou sensivelmente. Parte disso se deveu ao papel mais marcado da bateria, ajudando a consolidar o tempo. Com isso, todo o grupo se viu obrigado a, ao menos, seguir pela mesma trilha, sem perder os espaço para os improvisos e ruídos.
O clima estava, literal e figurativamente falando, tenso para entrada do Hype Williams. Nos corredores, uma pessoa reclamava com o seguranças por ter sido respondida aos palavrões ao pedir para uma pessoa que se plantou a sua frente chegar para o lado durante a apresentação do Cadu. O irritado era uma das metades do Hype Williams.
Com o palco coberto de fumaça e com luzes piscando sem parar em direção a plateia, era possível distinguir os integrantes do grupo e uma moto. A neblina ajudava a manter o anonimato buscado pelo Hype Williams, assim como a moto e a mulher nela sentada, ambas sem nenhuma função técnica além de cenografia, também contribuiam para desviar a atenção do olhar.
Aos chamados de “louder!” (mais alto!) no microfone, a camada de sintetizadores ia crescendo. Só que o pedido era real e não parte do roteiro, para resolver um problema em um dos microfones. Logo o clima atmosférico deu lugar a espasmos conjuntos de bateria e saxofone (ó o free jazz aí de novo), destoando bastante das expectativas lo-fi do que se conhece do Hype Williams gravados.
Em mais uma curva, batidas quebradas e o vocal feminino (fraco) começaram a escancarar as referências noventistas, via Bristol, do Hype Williams. Graves pesados caíam como pedradas e sub-graves faziam a barriga vibrar, algumas vezes até com a testada e aprovada combinação com os sons de uma melódica/escaleta e toda herança jamaicana típica dos sons vindos a Inglaterra.
Em diversos momentos o jungle e o garage eram lembrados, enquanto sons sobre os quais ninguém conversa a respeito, mas todos conhecem, como a intereferência provocada por um celular tocando perto das caixas de som de um computador, eram adicionados a equação. A alusão ao Massive Attack chega a ser óbvia, porém um dos méritor do Hype Williams é justamente ter conseguido atualizar e recontextualizar uma sonoridade tão característica quanto datas, sobretudo pelos timbres.
O som de fita cassete gasta, as batidas sujas, até uma certa calma presente das gravações, deram vez a uma interpretação mais agressiva, alternando momentos agradáveis com outros meramente calcados no choque. Contrapostos, esses dois momentos se complementam, servindo de parâmetro um para o outro. Ao contrário dos outros artistas do festival, o caos do Hype Williams é ordenado e aponta para intenções de expansão, exacerbado pelo cuidado com a faceta performática.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.