resenha Archive

segunda-feira

1

setembro 2014

11

COMMENTS

Kiko Dinucci e o medo do pop

Written by , Posted in Destaque, Música

Kiko Dinucci_AudioRebel_2014

No espírito do @savedyouaclick, já quebro o suspense: essa resenha não é sobre o medo do Kiko Dinucci do pop (nunca o entrevistei pra saber sua posição a respeito), mas sim uma análise sobre o medo do pop na música brasileira com ideias que foram surgindo durante o show do Kiko Dinucci na Audio Rebel. É um chamado à reflexão, uma provocação se preferir.

Surpreendido pelo humor do líder do Metá Metá, umas das bandas mais cultuadas da leva atual (por aqui não bateu), as questões borbulhavam. A verve de stand-up comedy do Kiko é uma bela solução de como levar o que, em resumo, é um recital de guitarra.

Sozinho no palco, Kiko conta piadas entre e durante as músicas. Compõe sobre encontros ao vivo com a morena do Facebook e sobre o cara que diz que “já pegou e converteu” a gata na rua, canta sobre como o inferno tem sede, diverte-se contando o causo da vinheta supostamente encomendada pela Globo que terminou negada – o refrão dizia “todo homem na hora da morte vira um cão”. Kiko questiona: “não sei porque não gostaram…”.

Ouvindo as risadas, é de se pensar se público sofisticado dos shows da Audio Rebel acharia graça das mesmas piadas se feitas por um outro artistas sem o respeito do Kiko. Prefiro acreditar que há lugar para o humor no cabecismo, que esses dois “mundos” podem co-existir, como demonstrou o próprio compositor.

Reggae, metal, rock, samba, da guitarra do Kiko sai todo tipo de som, muitos pérolas pop escondidas na crueza do arranjo isolado. São possíveis hits, que se lapidados poderiam estourar na sua mão ou na de outros.

Pipocam então as tais perguntas: por que essas músicas ficam limitadas a voz e guitarra? Seria preguiça de terminar arranjos mais complexos, necessários para estourarem? Ou medo de se expor ao tentar fazer um hit e falhar? E se estourarem, o que isso faria com sua credibilidade indie? Estaríamos diante, como na anedota da vinheta da Globo, de uma auto-sabotagem?

São perguntas hipotéticas, porque não foram feitas. E também não importa, porque como disse, o medo do pop em questão aqui não diz respeito (ou está limitado) ao Kiko. Esse receio – por alguns dos motivos listados acima e outros – paira sobre a música brasileira e impede alguns mergulhos pops que fariam bem a todo ecossistema (abertura de mercados, oportunidades, cenas maiores que ajudariam a custear menores, etc.)

É uma equação difícil de ser resolvida. Se um artista independente tenta fazer pop, encontra dificuldades primeiro porque seu público original geralmente não é afeito a essas sonoridades. Depois porque não tem acesso a fatia de público que teria. Além, claro, do fato de não se ter acesso aos canais de massa – rádio e TV – para propagação desse material sem pagar jabá. Não há mesmo muito estímulo para sequer tentar.

E assim um segmento do pop não se renova (enquanto outros se renovam, reinventam e se inventam, vide funk, tecnobrega, ostentação, sertanejo, arrocha…). Isso é ruim comercialmente, pois sufoca as bandas independentes num circuito pequeno e pouco lucrativo, e conceitualmente pois previne o público de ampliar seu conhecimento.

Não falo aqui de pop no sentido de um desses artistas tentarem caminhos rasteiros. Muitos deles já tem os tais hits e não tem como chegar no grande público, por mais que possam escoar o material pela internet.

Gabriel Thomaz, do Autoramas, um dos mais bem sucedidos artistas independentes do Brasil, conseguiu unir essas duas pontas por muito tempo, dando vazão a essa veia através do Raimundos, então contando com o apoio financeiro de um gravadora multinacional (leia-se: balha na agulha pra pagar jabá).

Tem muito artista que simplesmente não quer isso para sua carreira, óbvio. É uma opção e não me refiro a eles (embora muitos deles tivessem muito a contribuir). Porém há muitos que nem tentam por medo da patrulha, por medo de falhar e ficar sem público nenhum e, assim, escondem-se na segurança de desculpas esfarrapadas como “meu som é pra poucos”, “as pessoas não entendem” e outras indiezices.

Foi nesse último grupo que pensei quando vi a tabela publicada pelo Brain Pickings esses dias. Ainda que um tanto superficial e simplista, a tabela ajuda a ilustrar duas posturas comumente encontráveis no meio. Existe uma grande diferença de mentalidade, muito mais do que de sonoridade, entre os artistas “famintos” e os “prósperos”.

A relação que se tem com o pop, no sentido amplo, é parte disso.

artistafamintoxartistaprospero 10520691_762571733784887_7626807504572992755_n

quinta-feira

21

agosto 2014

1

COMMENTS

João Donato, 80 anos de suingue

Written by , Posted in Destaque, Música, Resenhas

JoaoDonato_80anos
foto: Donatinho / Coletivo Luna, via Facebook

Teve gente vinda do Japão para presenciar o sarau de 80 anos do mestre do suingue João Donato. Era uma noite histórica, abrilhantada por convidados do quilate de Caetano Veloso, Luiz Melodia, BNegão, Kassin, Robertinho do Recife e alguns outros. Ainda assim, tinha ingresso sobrando, com pouco mais de mil presentes no Circo Voador. Vai entender essa cidade.

Entre sucessos como “Amazonas” e “A Rã”, Donato divertia-se entre os amigos, como quem apenas brinca de entortar teclas com seu jazz brasileiro de balanço afro-cubano. Responsável pelo primeiro momento arrebatador da noite, Leny Andrade levantou o público com sua interpretação de “Até Quem Sabe”.

A festa foi bonita, ainda que aquém da importância da data. A celebração a esse ícone da música brasileira merecia muito mais, inclusive apoio oficial.

Isso era show pra muito mais gente, muito mais convidados importantes (e não alguns contra-pesos que poderiam ter tido a e elegância de declinar o convite), de graça, na praia (mesmo que para poucos e nos Circo possa ter sido mais agradável de assistir).

Poderia ter havido uma parte com sintetizadores, pra celebrar o Bad Donato. Poderia, poderia, poderia… Ao menos houve festa. Conhecendo nosso histórico, isso por si só já é motivo de comemoração. Parabéns para quem ralou (e não deve ter sido pouco) pra fazer isso acontecer. João Donato merece.

quinta-feira

5

junho 2014

0

COMMENTS

Moreno Veloso, "Coisa Boa"

Written by , Posted in Destaque, Música, Resenhas

MorenoVeloso_CarolineBittencourt_2014
foto: Caroline Bittencourt / divulgação

Demorou – e como – mas Moreno Veloso lançou seu disco, “Coisa Boa”.

A faixa título é um canção de ninar que fez para sua filha, no clima infantil permeia todo o disco, das composições ao encarte. Faz falta as músicas darem uma crescida e “acontecerem”, a sua maneira, com foi no “Máquina de Escrever Música”.

Mesmo sem o balanço, bom ouvir Moreno novamente.

Filmei a primeira execução pública dela em 2012:

(mais…)

quarta-feira

4

dezembro 2013

0

COMMENTS

Encarando o Demdike Stare

Written by , Posted in Música, Resenhas

DemdikeStare_NovasFrequencias2013

Estampando a capa da atual edição da Wire, o Demdike Stare chegou ao Rio em alta para dar início a sequência de shows do festival Novas Frequências. Techno, ambient, dub, samples de filmes de terror, chiados de vinil e cacetadas de grave foram alguns dos recursos utilizados pela dupla de Manchester para abduzir o público.

Na maior parte do tempo apenas sugerindo melodias e batidas, as composições do Demdike Stare funcionam como peças, colagens sonoras que vão pingando no cérebro, desenhando-se pouco a pouco, de forma sutil. É uma audição ao mesmo tempo transcendental e extremamente exigente em termos de atenção.

Divididos entre diversos equipamentos, um opera filtros, pedais e sequenciadores, enquanto o outro sampleia vinis e cuida da parte visual no telão. Uma postura meditativa faz com que o transe se instale, para logo se começar a ouvir coisas onde não tem. Como se a mente tentasse preencher os espaços com outros elementos, numa experiência interativa mental e extremamente pessoal, sons imaginados (ou desejados) complementam a imersão.

Envoltos numa atmosfera assombrosa e assombrada – muito por conta dos samples cuidadosamente selecionados, muitos tirados dos arquivos de ciência e ficção científica da BBC – algumas referências se fazem presente. Um Prodigy desacelerado aqui e timbres noventistas acolá (como disse, cada um ouve o que quer naquela imensidão) dão ao espectador onde se segurar, um mínimo de familiaridade durante o mergulho por densas camadas atmosféricas.

Mesmo com tanta chapação, as cabeças na platéia chacoalhavam, corpos sendo sacudidos de dentro pra fora numa pista de dança interior.

—

Enquanto não chega um registro da apresentação dessa terça no Oi Futuro, assista abaixo um set da dupla no Boiler Room:

segunda-feira

25

novembro 2013

0

COMMENTS

O vídeo oficial da Solange no Rio

Written by , Posted in Música, Resenhas

Solange_Queremos_Rio_2014

Com dois discos pouco conhecidos no currículo e apenas o recente EP “True” como verdadeiro combustível para atrair fãs, Solange Knowles (também conhecida como “a irmã da Beyncé”) surpreendeu com um show preciso e divertido, ainda que tenha sido curto. Garantido-se, nem guardou “Losing You” para o encerramento. E ainda tocou sua versão de “Stilness is the Move”, do Dirty Projectors.