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abril 2004

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Vizoo, Jan/2001

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Umbigo do mundo

Reportagem sobre uma viagem de ônibus do Brasil ao Chile, passando por Bolívia e Peru, originalmente publicado na revista Vizoo, em janeiro/fevereiro 2001.

Encarar um ônibus até Machu Picchu vai muito além de somente chegar até lá, existe muito mais para aproveitar no caminho. Por mais que uma viagem assim possa parecer uma furada, não é. É sim uma grande aventura, além de ser uma maneira relativamente barata, de se conhecer um pouco do Brasil, Bolívia e Peru.

Estão no caminho, além do famoso centro energético da terra, o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo, a cidade de Cusco, no Peru, e o Vale de la Luna, em La Paz. Tudo que é necessário é ter a cabeça aberta para situações novas e inusitadas e um pouco de disposição para passar alguns apertos.

O melhor de uma viagem destas é chegar lá e aprender. Por isso neste texto você não encontrará a história dos Incas ou elucubrações sobre os costumes locais, vai encontrar uma sugestão de roteiro e algumas dicas de como fazer uma viagem pra lá de boa. E como toda viagem começa quando se decide viajar, é legal planejar tudo com antecedência (veja as informações básicas no box).

O começo de tudo é na rodoviária Novo Rio, de onde sai o ônibus rumo a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com a Bolívia. Depois de 28 horas sentado a melhor pedida é dormir por lá mesmo e partir no dia seguinte para Quijaro, já na Bolívia, de onde parte o “trem da morte”.

O famoso “trem da morte” faz o trajeto entre Quijaro e Santa Cruz de la Sierra e é exatamente como dizem: lotado de galinhas, porcos e traficantes. Traficantes de açúcar, é bem verdade, já que este pó branco é muito mais barato no Brasil. Mesmo assim, há várias buscas policiais no caminho, uma das razões que fazem o trajeto de 18 horas poder chegar a até três dias.

Para fugir dos animais, pode-se pagar um pouco mais para ir na classe Bracha ou na Pullman, que ao contrário do que sugere o nome, são superiores a Primeira classe. De Santa Cruz parte-se para La Paz na mesma tarde, chegando na manhã seguinte. E é aí que se enfrenta o maior dos problemas.

La Paz, capital da Bolívia, está a 3.600 metros acima do nível do mar. À noite, ainda no ônibus, já começam os efeitos da altitude: tonturas, ânsia de vômitos e uma pressão absurda na cabeça. Um dos melhores remédios para o mal das alturas, ou “soroche” como é chamado pelos locais, é a folha de coca. O cultivo e o comércio desta folha, planta sagrada dos Incas, é legal tanto na Bolívia quanto no Peru e não se trata de droga alguma. A cocaína é um derivado da folha, alterado quimicamente. Normalmente a folha é consumida em forma de chá ou simplesmente mascada.

Depois de um bom dia de descanso e de uma noite de sono a altitude já não incomoda tanto. Mesmo assim é bom ficar pelo menos mais dois dias em La Paz para se adaptar totalmente, pois todos os outros pontos da viagem estão a pelo menos 2.200 metros acima do nível do mar. Em La Paz não se pode deixar de visitar o Vale de la Luna, as ruínas de Tiwanako e, se sobrar um tempinho, o estádio onde o Brasil perdeu da Bolívia nas eliminatórias da Copa de 94, com aquele tremendo frango do Tafarel. Deve ter sido a altitude.

A próxima parada é a cidade de Copacabana, as margens do lago Titicaca. A melhor opção antes de seguir para Puno, no Peru, é dormir na Isla del Sol, que nem sempre tem água, mas com certeza terá uma das melhores trutas que você pode comer. Dois dias são o suficiente em Puno, o bastante para conhecer as ilhas flutuantes dos Uros, construídas no meio do Titicaca com uma raiz típica da região, e as imperdíveis ruínas de Sylustani.

A doze horas de Puno está Cusco, que em quechuá, língua original dos Incas e até hoje uma das línguas oficiais do Peru, quer dizer “umbigo do mundo”. Isto porque esta foi a capital do império incaico até ser dominada pelos espanhóis, quando adquiriu a atual aparência européia. A Plaza de Armas é onde tudo acontece. É lá que você vai encontrar desde agências de viagens que oferecem passeios às atrações turísticas da cidade até as boates que agitam a noite de Cusco e, o que é melhor, de graça. Nos arredores de Cusco estão às maiores e mais impressionantes construções Incas. Existem dois passeios que levam as mais importantes: o que vai ao Vale Sagrado, passando por Pisac e Olataytambo, e o que vai a Qorikancha (Templo do Sol) e Sacsaywaman, entre outros. Não se pode deixar de ir. Quanto as boates, as mais indicadas são a Mama Africa e a Xcess, cheias de turistas de toda parte, principalmente argentinos e chilenos.

Mas o que tornou Cusco conhecida mundialmente é que daqui se sai para o “Camino Inca”, ou o caminho real Inca até Machu Picchu. É possível fazer a trilha por conta própria, mas é melhor comprar um pacote em uma das agências de viagem da Plaza de Armas. É fundamental pesquisar bastante, pois os preços variam muito, indo de U$50 até U$435. Os pacotes normalmente incluem barraca de acampar, saco de dormir, comida para os quatros dias, um guia credenciado e carregadores. Os carregadores são os responsáveis pelo conforto durante a caminhada; são eles que levam toda a cozinha, comida e as barracas, além de cozinhar todas as agradáveis refeições.

Nos quatro dias de caminhada você vai ver de tudo; turistas de todo lugar do mundo, animais, plantas exóticas e muitas, muitas escadarias. A trilha de trekking mais famosa da américa do sul tem 42 quilômetros de extensão. No primeiro dia caminha-se bastante, com subidas leves, saindo dos 2.200 metros de Cusco até os 2.800 metros do local do primeiro acampamento. A empolgação ajuda muito durante todo o caminho, mas sem dúvida ela é mais necessária no segundo dia. É então que se parte rumo ao Pico da Mulher Morta, nome sintomático deste pedaço da trilha. Além das folhas de coca uma boa pedida para esta subida é uma pastilha chamada Coramina-Glucosa (laboratório Novartis), vendida em farmácias de Cusco. Em apenas sete quilômetros se vai dos 2.800 até os 4.300 metros deste pico. Falta ar, faltam pernas, falta tudo. Mas quando se chega ao topo a emoção é indescritível. Um misto de felicidade com uma sensação de superação que é inigualável.

O terceiro dia é o que mais se anda e também é o que mais tem coisas para se ver e fazer. Além da paisagem montanhosa dos Andes, atravessa-se um bom pedaço de floresta e visita-se algumas ruínas muito interessantes. Winay Wayna, enorme construção Inca com muitas fontes purificadoras de água está a apenas cinco minutos do local do último acampamento. Há também um alojamento perto onde se pode tomar banho e até aproveitar para tomar umas cervejas, já que o dia seguinte é curto, com três horas de caminhada. Mas é sem dúvida o mais esperado de todos.

No quarto dia o ideal é acordar de madrugada, aproximadamente as 5:00h, para poder chegar bem cedo às ruínas. A trilha Inca é a única forma de se chegar a Machu Picchu pela parte de cima, através de Intipunku (Portal do Sol), a entrada oficial do santuário utilizada pelos incas. Os turistas que vão de trem, ônibus ou até mesmo de helicóptero só chegam à partir das 9:30 h, e chegam pela parte debaixo da cidade. Por isso os que fizeram a trilha Inca madrugam neste dia, para merecidamente ter o privilégio de avistar Machu Picchu de cima e completamente vazia. Intipunku é onde começa a choradeira. Depois de quatro dias de muita expectativa caminhando, a alegria bate forte e quase todo mundo desaba num choro coletivo.

Têm-se algumas horas até os turistas começarem chegar e mais algumas para se conhecer a cidade. Machu Picchu é realmente muito mística e energética, mas esses tipos de comentários são inúteis e ineficazes porque não há adjetivos que realmente descrevam a sensação de andar descalço por aquele lugar. Tem que ir, tirar o tênis e experimentar para entender.

Se sobrou algum…

Se sobrar tempo e um pouco mais de grana, uma idéia muito boa é ir de Cusco até San Pedro de Atacama, no norte do Chile. San Pedro fica no meio do deserto de Atacama e é lá que fica o Vale de la Luna, mais famoso do que o de La Paz, por ser muito maior e mais bonito. Tem também o Vale de Marte, utilizado pela Nasa para testar veículos e sondas antes de serem mandadas ao planeta vermelho, e passeios pelas Lagunas Andinas. Isso sem contar a própria cidade de San Pedro, bem rústica, mas com muitos restaurantes e uma vida noturna bem agitada. Para chegar lá, vá de Cusco para Arequipa, de lá para Tacna e depois para Arica. Depois é só ir até Calama, no Chile, na fronteira com o Peru, a uma hora e meia de San Pedro e pegar mais um ônibus.

Voltando para o Brasil você terá que passar pela Bolívia de novo. Saindo de San Pedro tem um trem que vai até Uyuni, mas a melhor opção é fazer uma excursão de três dias em um jipe 4×4 pelo deserto. Os preços variam de U$60 à U$80 e o passeio inclui – além de transporte, comida e alojamento – o “desfile de las lagunas” de todas as cores, verde, azul, vermelha, lotadas de flamingos andinos. No último dia se chega à maior salina do mundo, o Salar de Uyune, um deserto de sal onde se enxerga o branco até perder de vista. Um visual meio futurista, lembra o Matrix do filme. A sensação é de que se está no céu, só se vê nuvens e uma ilha lotada de cactos solitária no meio da salina.

Essencial – o que levar e o que fazer

• Peru, Bolívia e Chile não exigem visto de entrada para turistas brasileiros, somente o passaporte, mas é bom dar uma conferida se a situação não mudou antes de ir.
• vacina contra febre amarela, OBRIGATÓRIO em todos os três países.
• comprar as passagens para Corumbá com antecedência, elas acabam rápido
• bota de trekking, impermeável e capa de chuva. Chove bastante durante a caminhada, principalmente no verão.
• repelente de mosquitos
• remédios que normalmente você usa no Brasil
• Seguro de saúde para viagens internacionais

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