rio de janeiro Archive

domingo

26

outubro 2008

14

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Quase

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foto: Skip O’Donnell/iStockPhoto

Como na manjada sabedoria popular, existem duas maneiras de enxergar esse copo, e por extensão, a atual situação do Rio de Janeiro.

O Gabeira quase se elegeu prefeito; o Fluminense quase foi campeão da Libertadores; o Sergio Cabral quase é um bom governador; se der a lógica da tabela (embora futebol não tenha lógica) o Flamengo quase será campeão Brasileiro; o TIM Festival quase foi bom, a Lapa quase vai bem, o Circo Voador quase tem uma boa programação constante; e assim segue.

Nem vale entrar na infindável discussão sobre porque a população sempre cai no papo do mesmo perfil de político, que muito fala e pouco faz. Não bastasse anos de Garotinho, Rosinha e Cesar Maia, não custa lembrar que o Crivela quase chegou lá. E não chegou porque a população, cada vez mais consciente, se organizou pra evitar o pior.

O Rio está acordando, devagar, obedecendo o ritmo da cidade. Mudanças duradouras raramente são bruscas. É um processo gradual.

Não se engane, pouco importa se seu candidato perdeu ou ganhou. Nada muda, temos que nós mesmos seguir fazendo a nossa parte, essa é nossa responsabilidade e dever. Cabe a nós reverter esse caos.

O Rio tem que melhorar, não tem outro jeito. Juntos, vamos terminar de encher esse copo. Com ou sem Gabeira.

quarta-feira

22

outubro 2008

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Teste

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A Veja produziu um teste interativo para o eleitor descobrir qual candidato tem mais a ver com ele próprio. Além do Rio, tem também questionários relativos a São Paulo e Belo Horizonte.

Enquanto isso, tem gente mandando recados diretamente para o Gabeira nos comentários do texto com os 10 motivos para votar no candidato do PV para prefeito do Rio. A população anda sedenta pra conseguir se fazer ouvir pelos políticos.

quarta-feira

15

outubro 2008

8

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São Paulo, Brasil

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foto: holgalicious

Quando o avião pousou no Brasil, imediatamente tocou “Copacabana”, seguida de “Chega de saudade”. Só faltou mesmo o “Samba do avião”, mas seria esticar demais o conceito. Afinal estávamos em São Paulo, escala hoje obrigatória antes de se chegar ao Rio, suposto cartão postal do país.

Nesse ano na Europa, todas as vezes (não é figura de linguagem, realmente foram TODAS AS VEZES) que falei que era do Brasil, a inevitável pergunta era “from San Paolo?”. Nunca tinha visto isso antes, o Rio costumava ser a primeira cidade citada pelos estrangeiros.

Antes que algum paulista se sinta agredido, não tenho nada contra a cidade, onde tenho vários amigos, um sócio, visito frequentemente e elogio sempre, principalmente na questão dos serviços, o que faz qualquer estadia parecer uma viagem para o exterior.

Simplesmente não consigo me ver morando em São Paulo (e olha que a pressão tá grande), gosto demais do Rio, da geografia da cidade principalmente, mas isso é outra história.

Claro que, como carioca, dá uma pontada de ciúme ver essa mudança acontecendo, seria hipócrita negar. Porém, simplesmente substituir Rio por São Paulo no imaginário internacional não é uma virada suficiente para solucionar um dos grandes problemas que temos por aqui.

Poucas coisas podem ser melhores para o Brasil do que mais cidades se destacando, espero que isso vá muito além do Rio-São Paulo de sempre. É justamente essa concentração — de renda, de população, política, de oportunidades, de eventos — em apenas duas cidades que atrapalha um país tão grande a crescer.

De toda forma, buscando explicações para essa nova (nova?) associação do Brasil com São Paulo, encontrei ao menos três, bem simples:

– a quantidade de imigrantes do estado na Europa (o sotaque paulista domina, junto com o mineiro e o goiano) fortalecendo o nome de São Paulo no imaginário local;

– o nível de desenvolvimento econômico de São Paulo, milhas a frente do resto do país, inevitavelmente chamando atenção para o estado;

– e, claro, o limbo político-cultural que o Rio se meteu na última década, principalmente nos anos Garotinho-Rosinha, fazendo a cidade sumir do mapa e perder importância e relevância a galope.

A filmografia atual (e factual) da cidade que tem chegado na Europa também não ajuda a vender a imagem de um lugar vencedor (“Cidade de Deus”, “Ônibus 174”, “Tropa de elite”) — não é pra entender como “São Paulo só tem vez porque o Rio baixou a guarda, blá, blá, blá”, esse antagonismo não é necessário.

Dos três, apenas um dos motivos está ao alcance imediato dos cariocas para tentar fazer o Rio se reerguer. Você sabe bem do que estou falando.

sábado

19

fevereiro 2005

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Trabalho de formiga

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foto: Lucas Bori

Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.

O destino da noite era o morro da Formiga, para onde o “guia” DJ Marlboro levava um grupo de jornalistas para registrar um baile funk (eu e o fotógrafo Lucas Bori para uma revista, os outros da produção de um programa de TV). O objetivo das duas equipes era o mesmo: conseguir imagens de um baile de verdade, sem maquiagem. A galera que curte o som desde sempre, se divertindo à vontade.

Subindo o morro, uma série de instruções tem que ser seguidas. Todas as janelas do veículo abertas, luz interior acesas e obedecer os comandos do motoqueiro que faz a escolta até o topo. Quase lá em cima, uma barricada de lixeiras filtra a passagem, sob o olhar vigilante de rapazes portando pistolas cromadas. É a chegada.

Fora da quadra de esportes onde acontece o baile, rapazes de 16 anos, andavam com fuzis quase do seu tamanho. Na tensão do momento, só dá pra pensar: “meu irmão, esse muleque não deve fazer muita idéia de como usar esse troço, sabe tanto quanto eu: aperta o gatilho, sai bala. Se der uma cagada aqui, a polícia chegar, uma briga, vai dar merda”. Dentro da quadra, tudo mais tranquilo. Provavelmente por conta da filmagem e das fotos, não tinha nenhuma arma.

O espaço estava vazio. Devido as recentes operações policiais na região, essa era a primeira festa em dias. Os que foram, dançaram, beberam, se divertiram e foram embora. Fora a quantidade de crianças de 6, 8 anos de idade circulando pelo lugar as 3h30 da manhã, não houve nada fora do normal. Nenhuma pancadaria, nenhum proibidão, nenhuma apologia.

Embora nenhuma das equipes estivesse interessada na simplista associação funk/tráfico, as armas estão lá, não tem como ignorar. Como se sabe, o Rio é uma cidade dividida. Em certas partes — em muitas partes — não se entra sem autorização dos “donos” do lugar.

Isso não é exclusividade dos bailes funk, qualquer atividade numa favela dominada pelo tráfico é assim, incluindo os serviços públicos como coleta de lixo, gás e, claro, policiamento.

É importante entender como o funk foi parar nesse ambiente, porque nem sempre foi assim. O grande erro do Estado foi a tentativa de proibição dos bailes no começo dos anos 90, no frenesi pós-arrastão televisionado do Arpoador, quando pela primeira vez o funk foi associado de maneira direta a baderna e atividades ilegais. Obviamente, não deu certo.

Expulsas dos clubes no asfalto, as festas foram se esconder nos morros. Da maneira que acontecem hoje, é impossível fiscalizar. Uma vez dentro das comunidades, não é o Estado quem manda. O esgoto escorrendo pela rua e a quantidade de lixo pelos cantos lembram isso a toda hora.

Os bailes são frequentados tanto por trabalhadores (a maioria) quanto por bandidos. A presença de traficantes não significa que a festa seja deles ou para eles. Eles ouvem funk, como todos misturados ali, e só. O negócio do tráfico é droga, não música.

Dizer que os bailes são festas de bandido é uma generalização burra e irresponsável. Existem os proibidões, funks de exaltação a facções criminosas, entretanto esses são minoria. De qualquer forma, mesmo nos lugares onde o tráfico financia as festas, o faz porque o Estado falhou aí também, ao não proporcionar lazer.

Tentar proibir o funk, como volta e meia é proposto, é combater o efeito, não a causa. É inútil. Ainda que conseguissem acabar com os bailes, outro tipo de música animaria as festas. Porque elas continuariam acontecendo e qualquer que fosse o gênero musical, as coisas seriam exatamente iguais. Não iria demorar muito, apareceria alguém propondo proibir a música nas comunidades.

O que acontece nos morros cariocas não é muito diferente do que acontece no gangsta rap americano, brasileiro ou mesmo com o danchehall jamaicano, como bem falou um amigo. No fundo, todos esse estilos são uma coisa só: música de gueto.

Olhando de longe, parece teatro, mas eles falam sobre a realidade violenta que os cerca. Dr. Dre falando que vai “bust a cap on your ass” ou Elephant Man gritando “Pow! Pow! Pow!” enquanto canta, não é diferente de um garoto falando sobre como as 4h da madrugada “tem que ter uma granada”.

A diferença é que o hip hop e dancehall já se “afaltalizaram” e se espalharam pelo mundo. Existe uma parcela grande de gente sem contato direto com realidades criminosas produzindo esse tipo de som.

A mesma coisa vai acontecer com o funk. Já está acontecendo, timidamente, em músicas como “Quem cagüetou” (Tejo, Black Alien e Speed) ou nas produções do Tetine, Lucas Santtana, Apavoramento, Nego Moçambique ou do americano Diplo e da singalesa MIA.

Enquanto a parede de caixas de som dispara graves atordoantes, fazendo, literalmente, tudo tremer (do chão ao cérebro), fica claro o quanto o trabalho de ponte feito pelo DJ Marlboro é importante. Aproximar morro e asfalto é algo fundamental, pois quanto mais afastados, piores os problemas.

Fechar os olhos, fingir que essas questões não existem, não resolve nada. Tem que ir lá, ver o tamanho da cagada que aprontaram pra gente e, quem sabe asim, tentar fazer alguma coisa pra ajudar a mudar. Porque, se não há justificativa para violência, certamente há explicação.

Quando se fala em ausência de Estado, não está se falando somente de polícia, muito menos do velho “sobe, prende e manda fechar”. O Estado falhou e continua falhando em questões sociais básicas, como educação e oportunidades. Foram essas faltas de condições que proporcionaram o ambiente perfeito para germinação do tal “poder paralelo”.

Agora, com um cenário desses, vem gente dizer que “o funk é violento”. É simplificar demais as coisas. Não são os bailes funk que são violentos. A favela que é.

segunda-feira

8

março 2004

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A revanche

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fatboyrio.jpg
foto: Joca Vidal

O inglês Norman Cook, o Fatboy Slim, chegou no Rio mordido. É que na última vez que tocou na cidade, no Free Jazz 2001, o dj fez um set pesadão que não agradou ninguém. Nem a ele mesmo. Na coletiva de imprensa, Fatboy contou que naquela noite “levou uma surra” do dj que tocou mais cedo, o mesmo Jon Carter que entrou antes dele ontem, na Praia do Flamengo.

Foi o dia de ir a forra. O primeiro evento do Nokia Trends (em setembro eles trazem para São Paulo o mega festival multimídia espanhol, Sónar) começou às 16h30 com o db dos djs Patife e Marky. John Carter entou na sequência e fez um set tão bom quanto o de 2001. Destaque para “Lithium”, do Nirvana, em versão um pouco diferente da que o 2ManyDJs tascou no TIM Fest, ano passado.

Às 19h, cerca de 160 mil pessoas se espremiam para assistir o Fatboy Slim. Ele abriu com uma versão de “Garota de Ipanema” e em seguida botou a tal música que fez para o Rio. Recheada de samples de músicas sobre a cidade, como “Rio”, do Duran Duran, o vocal repetia “Rio de Janeiro, Rio de Janeiro” insistentemente antes de explodir num break matador. Presentão.

Carismático, o dj se comunicava com a platéia escrevendo mensagens nas capas dos discos que apareciam no telão, como no DVD “Big Beach Boutique II”. Foi dessa forma que ele informou que nunca vai tocar “Rio” em outro lugar, mandou um alô para a turma que assistia a tudo de barcos ancorados na praia e disse que queria fazer amor com a platéia depois do show. Até um Elvis, fase Las Vegas, entrou no palco para dançar.

O set de duas horas, bem pop, foi eclético. Teve desde uma versão de “Groove is in the heart” (Dee Lite), citação a “Menino do Rio” (Caetano) e “Born Slippy” (Underworld), a várias ameaças de tocar músicas mais conhecidas, como “Seven Nation Army” (White Stripes) ou “The test” (Chemical Brothers). O dj deu show, esgarçou o mixer.

Dá para dividir o set em três “categorias”: os sambinhas eletrônicos (meio mais ou menos, felizmente foram poucos); os 4×4 quadradões, com batidas em linha reta; e, finalmente, a melhor parte, os breaks grooveados, alegres e sacolejantes. Nessa linha, além da música em homenagem ao Rio, Fatboy tocou seu remix para “Quem cagüetou?”, música do Tejo (Instituto), com vocais do Black Alien e Speed, que fez parte da trilha sonora do filme “O invasor”.

“Quem cagüetou?”, um Miami bass / ragga / funk, está estourada na Europa desde o ano passado, quando serviu de trilha para um comercial da Nissan. A música chamou mais atenção do que propaganda, acabou sendo lançada como single e ganhou remixes de grandes nomes da música eletrônica.

O break beat parece ser a bola da vez. A música eletrônica passa por uma crise criativa (conversei sobre isso com o próprio Fatboy, em entrevista que sai na Revista da MTV de abril) e atualmente a mistura de gêneros aparece como solução. O break beat é um estilo perfeito para esse tipo de cruzamento. Isso acontecendo, aqui no Brasil a aposta mais sensata é o Apavoramento Sound System (parece que algúem já fez a aposta). Quem viu o show deles no TIM Fest sabe bem disso.

O momento funk se estendeu com a versão de “Whoomp! There it is”, a famosa “Uh, tererê”. É impressionante como o ritmo contagia, principalmente aqui no Rio. O público, que já estava dançando bastante, pulou ainda mais ao ouvir o pancadão. Fatboy mostrou que dessa vez pesquisou bastante o que tocar e acertou em cheio.

Na área de imprensa, colada nas caixas, o som estava bom. Mas houve bastante reclamação quanto ao volume, muito baixo segundo quem estava na praia, afastado do palco. Ao invés das laterais, a área vip ocupava o espaço em frente ao palco, criando um faixa que separava os djs da platéia. Nesse ponto as opiniões do público se dividiram. Para uns a festa foi bancada pela Nokia e eles têm o direito de chamar quem quiser, para outros a multidão presente deveria ter a chance de ficar mais perto, afinal a cidade era o cenário da festa.

A noite terminou cedo, às 21h, com uma queima de fogos para emoldurar a lua cheia e um papo de “ano que vem tem mais”. Tomara.