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quarta-feira

15

junho 2011

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Sharon Jones (se) sacode (n)o Rio

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Por conta do meu desconhecimento da carreira da Sharon Jones além das músicas mais óbvias, passei quase uma hora tentando encontrar o título da que filmei no show de ontem, no Casa Grande, parte do BMW Jazz Festival. Googlei vários pedaços da letra + “Sharon Jones” e nada. Desisti e upei sem nome mesmo.

A música parece mesmo inédita, até agora ninguém cravou o nome. O exercício serviu pra comprovar uma constatação óbvia durante a apresentação: conhecer previamente o repertório de Sharon Jones é indiferente para aproveitar o show. Honrando a tradição do soul, é um hit atrás do outro. Não tem música ruim.

Acompanhada pelo Dap-Kings e pelas Dap-ettes, a mulher é um foguete no palco. Um James Brown de saias (faço ideia de quantas vezes essa comparação já deve ter sido feita), tira a galera pra dançar, olha no olho do público, dança, se sacode, conta histórias e canta demais.

Tradicionalistas, os Dap-Kings restringem os instrumentos e métodos de gravação aqueles disponíveis até a metade dos anos 70. Não por acaso, a sonoridade retrô da banda é a favorita do produtor Mark Ronson, que utilizou o grupo em diversas faixas do disco “Back To Black” da Amy Winehouse.

O som tradicionalmente muito baixo do teatro Casa Grande atrapalhou, mas não chegou a comprometer. Principalmente porque logo no início a marcação dos assentos foi para o espaço e quem quisesse podia sentar nas escadas, bem próximo do palco, ouvindo os sopros e a voz da Sharon Jones praticamente sem microfonação.

No bis, uma justa homenagem a James Brown, tocando “It’s A Man’s World”. Sempre bom relembrar o Godfather. Pra quem viu os dois shows, fica a certeza de que Amy tem muito chão pela frente ainda.

Antes da cantora, o baixista Marcus Miller comandou uma formação de teclado, bateria, clarinete e sax na execução de temas de “Tutu”, disco de Miles Davis que compôs e produziu.

Tenho uma certa preguiça para virutoses inacabáveis. É como assistir um cara bom de embaixadinha, é legal mas aquilo não é jogar bola. Mesmo moendo o instrumento, os melhores momentos são quando Marcus joga pro time. Ainda que a timbragem Seinfeld do baixo e oitentistas do sintetizador ameaçassem botar tudo a perder.

terça-feira

10

maio 2011

8

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Camelomania no Circo Voador

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Cercado de samambaias no palco, com um som impecável e muito bem acompanhado pelo Hurtmold e por um naipe de metais, Marcelo Camelo subiu ao palco do Circo Voador para o lançamento do seu segundo disco, “Toque Dela”. A noite prometia.

O show começou pouco depois da meia-noite e pouca gente estava no Circo para a abertura do Me & The Plant (também perdi…). Surpreendentemente, ao menos para mim, os ingressos não estavam esgotados.

Em seu novo disco, Camelo também está mais solto, dando mais espaço para guitarra, escancarando mais suas próprias influências, um disco mais pra cima que o anterior “Sou”.

Com algum tempo de estrada juntos, Hurtmold e Camelo construíram uma sonoridade juntos, mesmo que no segundo disco o compositor tenha decidido tocar todos os instrumentos em algumas faixas. É muito bacana ver o encontro dos dois artistas de escolas diferentes, a mistura dos estilos. A escolha do septeto paulistano como banda de apoio é das coisas mais interessantes da carreira solo do Camelo. Com um time desses, metade do show está garantido.

Casa cheia sem estar abarrotada, bandão, som tinindo pro lançamento de um bom disco. Tudo certo para uma noite e tanto. Faltava saber a reação do público.

Sem fugir do clichê, a reação foi hermânica. Não chegou a histeria de outros tempos, embora tenha passado perto em alguns momentos. Marcelo chegou a presentear a plateia com as plantas do cenário. Roberto Carlos distribui rosas, Camelo distribui samambaias.

É muito legal a reação calorosa do público, sem dúvida. Para o artista deve ser ainda mais especial. Em “Doce Solidão”, sozinho, Camelo sequer abriu a boca até mais da metade da música, quando o Hurtmold voltou ao palco.

Ele gosta, incentiva, se diverte com a gritaria. É muito legal mesmo. Agora… Em todas as músicas, sinceramente, enche o saco. Você sai de casa, quer ouvir o show e só dá coro desafinado no ouvido. Por mais que a catarse seja divertida e sincera, aos poucos vai cansando

Paritcularmente, preferiria não ouvir nenhuma música do Los Hermanos no show do Camelo. A quantidade que é tocada, três, quatro, é um exagero. Tira o foco do show. Virou regra. As músicas são dele, claro, mas se é carreira solo, é carreira solo. Podia deixar isso pra depois.

O artista no palco, vivo, aos 30 e poucos anos e uma estranha nostalgia do presente toma conta. É um troço doido, o público impaciente, querendo ouvir as músicas nem tão antigas, quase como que aturando o disco novo para chegar até elas. Essa preguiça de encarar o novo que estrangula a cena no Brasil.

Isso tudo no show de lançamento de um disco novo. Um showzaço, diga-se. Teria sido bem melhor se tivesse dado pra ouvir a interpretação do artista. A do público eu mesmo faço em casa.

segunda-feira

9

maio 2011

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Jamie Lidell encontra seu público no Circo Voador

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Baladas R&B, levadas soul e experimentações eletrônicas. Apresentando seu amplo repertório de possibilidades sonoras, Jamie Lidell foi a forra do show para 50 pessoas no Tim Fest 2005, quando foi escalado de última hora na vaga do Autechre. Com cerca de 900 pessoas na platéia, responsáveis pela realização do show via Queremos, dessa vez Lidell fez a festa.

Ao contrário da primeira vez, quanto tocou sozinho com suas traquitanas eletrônicas e capa dourada, Lidell veio acompanhado por uma banda enxuta: um baterista e um tecladista (fazendo também as linhas de baixo no sintetizador).

Sem camisa, dançando e fazendo duetos com Lidell, o tecladista ajudou a quebrar o protocolo, divertindo o público. Abrindo com músicas menos convencionais, o cantor anunciou a virada do show logo após a fantástica versão ao vivo de “Completely Exposed”, partindo para o hit “Another Day”, cantado em coro pela plateia.

Boa praça, super tranquilo, viajando com uma equipe reduzida e sua namorada, antes do show Jamie explicou que não tinha muito interesse em releituras papel carbono do soul, preferia incluir suas influências, de Prince e música eletrônica a J-Dilla. Os muitos momentos que essas muitas referências se cruzam são de fato os melhores.

O show oscilou um pouco nos momentos solo de Jamie, que não foi ajudado pelo tamanho do lugar, e o público aproveitou pra conversar. As atenções voltaram para o palco perto do encerramento, com “Multiply”. A noite terminou alto astral e mais uma vez, quem apostou tanto na vinda do artista quanto em conferir o som ao vivo, viu um ótimo show. Pena que tanta gente ainda espere tanto antes de experimentar (nem tão) novos sons.

O público está sendo construído e, por outro lado, é muito legal perceber a quantidade de pessoas que já se dispõe a sair de cada pra ver um show totalmente no escuro. Se você foi uma delas, sorte sua.

sexta-feira

8

abril 2011

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Um Miami Horror outonal

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fotos: Fernando Schlaepfer

Um dos expoentes da inexistente cena de synth pop da Austrália (os integrantes da banda ridicularizaram esse conceito, dizendo que só existem mesmo os nomes que todos conhecem: eles, Cut Copy, Bag Raiders, Midnight Juggernauts, Presets, Van She e Empire of the Sun), o Miami Horror veio ao Rio através da mobilização do público via Queremos.

Sentindo o peso do tamanho da casa, ou apenas o cansaço da farra em Porto Alegre e São Paulo, a Miami ensolarada do nome da banda não deu as caras no Circo Voador. Não chegou a nublar, foi algo próximo de uma tarde de outono: nem muito quente, nem muito frio. Na medida.

O vocalista e guitarrista faz o trabalho de palco, se esforçando, subindo nas caixas, pulando pelo palco. Sozinho não dá. Fica faltando pressão do resto banda (o líder, Ben Plant, parecia que ia dormir) para empurrar as músicas de BPM baixo do disco de estreia, “Illumination.” O som, mal passado (médio sobrando, grave faltando), principalmente na primeira metade, atrapalhou.

Com os hits guardados para o final (“Sometimes”, “I Look To You” e “Holidays”) e o som mais acertado, a segunda metade foi bem melhor. Quando o show pegou, acabou.

A culpa não é toda do Miami Horror. Trata-se de uma banda pequena, em início de carreira, fazendo um show do outro lado do mundo. Com a internet (zzzzz…) isso vai se tornando cada vez mais comum, as vezes as bandas são colhidas antes de estar maduras. Essa é a realidade atual e entendendo isso, é divertido observar o processo.

Como a apresentação foi curta, 50 minutos, os gente boas voltaram e tocaram uma versão de “You Can Call Me Al” (Paul Simon). Quem não foi, perdeu uma noite divertida (como ficou gente para ouvir os sets do Ajax e Yugo – Nado Leal tocou antes do show).Quem pagou para banda vir, dançou e cantou, fazendo valer o investimento. Era pra eles que o Miami Horror estava tocando.

segunda-feira

28

março 2011

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Seu Jorge sem Jorge, as Almaz da Nação e o pop

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Bater pênalti parece mole, mas além de também ser gol, precisa de técnica. Com o projeto de versões Almaz, Seu Jorge dá mostras (mais uma vez) do quanto ele domina o que faz, não apenas nos aspectos artísticos. Sabe identificar os desejos do seu público antes mesmo dele próprio e não tem pudor nenhum em entregar o que a galera quer. O Circo Voador com 3 mil pessoas no sábado comprova.

Ruim seria um resultado impossível. Além da presença do próprio Seu Jorge, ao se fazer acompanhar por Lucio Maia, Dengue, Pupillo e Da Lua – a Nação Zumbi quase inteira, com direito a um salve a Du Peixe pelo empréstimo – até “Atirei O Pau No Gato” soaria sensacional. Ao vivo, a banda dá um banho no disco.

Como um Mark Ronson da Zona Sul carioca, o repertório cuidadosamente escolhido equilibra o cool e o popular, canções manjadas ou alternativas, dependendo a quem se pergunta: Kraftwerk (“The Model”), Tim Maia (“Cristina”), Michael Jackson (“Rock With You”), Roy Ayers (“Everybody Loves The Sunshine”), Jorge Ben (“Errare Humanus Est”), etc.

A grande sacada é justamente oferecer sons que fazem a “massa” se sentir “por dentro” ao reconhecê-las, ao mesmo tempo que são aprovadas pelos “entendidos”. O sucesso da Orquestra Imperial ou do Los Sebosos Postizos passa pelo mesmo caminho. A tal “cultura do DJ” também é isso aí.

A seleção eclética do Almaz é espelho de um artista que fagocita tudo que o interessa – a pose do Fela, a pegada do Gil, o apelo do Michael, o suinge do Ben – e devolve um resultado essencialmente pop. O objetivo é tão claro, desde os tempos do Farofa Carioca, que espanta a patrulha em cima do Seu Jorge.

A constante cobrança para que tome caminhos mais “cabeça” (e tomes aspas hoje, hein) muitas vezes vem de pessoas que reverenciam os mesmos ídolos pop de quem Seu Jorge pega emprestado. Esperar qualquer outra coisa é ignorar a trajetória do artista que promete lançar um disco de “Músicas Para Churrasco Vol. 1” ao mesmo tempo que diz que vai tocar com Roy Ayers no próximo festival Back2Black, ficou conhecido mundialmente no cinema, põe o Akon pra sambar no Jools Holland, o Alexandre Pires para sambalançar ou arrasa, com Ana Carolina, a música de Damien Rice (essa também não era difícil).

As críticas vem mesmo quando Seu Jorge busca o tal cabecismo, a sua maneira, tentando “educar” o “grande público” com um projeto como Almaz. Perto do final do show, após introduzir a banda e antes de emendar em “Mas Que Nada” (Jorge Ben), ele se apresenta: “eu sou Jorge Mario da Silva, de Belford Roxo para todo o planeta, geral!”.

Seu Jorge está pouco se importando com quem o critica. Faz bem ele. Ninguém é obrigado a ouvir o que ele toca.