los hermanos Archive

quinta-feira

14

junho 2007

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Rolling Stone, Julho/2007 (?)

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foto: CamilaCamomila

Texto escrito para Rolling Stone sobre o show de despedida do Los Hermanos, para acompanhar a resenha dos três últimos shows.. Por falta de espaço acabou sendo publicada apenas a resenha, se não me engano.



Na contra-mão

A biografia do Los Hermanos é repleta de marcos e rupturas. O “recesso por tempo indeterminado” é somente mais uma dessas decisões quixotescas (ou românticas ou polêmicas) que parecem acompanhar a trajetória da banda.

Criada num período de mudanças e transições na indústria fonográfica, do sucesso nas rádios à internet, o Los Hermanos se destacou nas duas realidades.

Uma das últimas bandas a estourar via fitas-demo, em cassetes (hoje extintas, substituídas por CD-Rs e MP3), o Los Hermanos também protagonizou o primeiro grande vazamento de músicas de um artista brasileiro na internet, quando os ensaios do que viria a ser “Ventura” caíram na rede sob o nome “Bonança”, título do disco à época.

O quarteto sempre andou na contramão. Esse é um dos principais motivos da banda colecionar tantos seguidores, encantados com a postura independente, quanto desafetos, enfezados com a rebeldia calculada. Fazia tempo que um grupo não despertava sentimentos tão díspares e intensos no público.

Dispostos a construir uma carreira, optaram pelo caminho mais difícil. “Anna Julia”, sucesso responsável pelas 350 mil cópias vendidas do primeiro disco, foi sacada do repertório dos shows, numa escolha até hoje mal interpretada como renegar a música.

Arriscaram-se novamente no segundo disco, o cultuado “Bloco do eu sozinho”. De sonoridade pouco comercial e sem o apoio da gravadora na divulgação por considerá-lo “difícil”, “Bloco…” reconstruiu e catalisou o atual fiel público da banda.

Durante dez anos, as escolhas se provaram corretas. Se nunca mais atingiram a vendagem da estréia (marca raramente obtida no mercado de lá pra cá), ganharam respeito. Tudo isso enquanto compunham canções de letras de fácil identificação e arranjos originais, aproximando o rock e a mofada MPB.

O terceiro disco, “Ventura”, mais palatável, expandiu a base de fãs, levando o Los Hermanos, entre outras coisas, a ser atração principal num dos palcos da primeira edição do Tim Festival, com os norte-americanos do Lambchop fazendo o show de abertura, prática pouco comum no Brasil. O contemplativo “4”, outra guinada artística, recebido com ressalvas pela crítica, vendeu mais que o antecessor.

Agora a história se repete. As vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto trabalho, contrariando as expectativas, o Los Hermanos desiste de cumprir a cartilha mercadológica que pede um disco de carreira a cada dois anos, puxa o freio de mão e pára pra repensar a carreira.

Os motivos da decisão ficaram somente entre os integrantes e seu círculo de amigos, embora a pausa anunciada, com shows especiais de despedida, possa soar contraditória. Para os fãs, restou a surpresa.

O quarteto, já pouco afeito a aparições na imprensa, coerentemente calou-se, deixando muita gente sem entender nada. A pergunta mais repetida nos últimos meses foi: o Los Hermanos acabou de vez? A resposta oficial é “não”.

Como os integrantes da banda, fora uma ou outra declaração frisando que “recesso é recesso”, se esquivaram de se aprofundar no assunto, criou-se margem para especulações, quase todas de cunho negativo. “Recesso é eufemismo para o fim”, “deixaram a janela propositalmente aberta para voltar com um Acústico”, “Camelo e Amarante brigaram, por isso não querem falar”, “crise criativa”.

Alheios às adivinhações, os integrantes seguem caminhos separados. Em se tratando de Los Hermanos, qualquer previsão é furada.

Para Rodrigo Amarante, o futuro começou dois dias depois, na estréia da temporada de lançamento do primeiro disco da banda de baile da qual faz parte, a Orquestra Imperial. Fala-se ainda em uma participação no disco de Devendra Banhart. Gravado como compositor por Maria Rita e produtor do disco do seu tio, o ex-Tamba Trio Bebeto Castilho, pouco antes dos shows de despedida Marcelo Camelo participou da gravação Acústico MTV de Sandy & Junior.

O baterista Rodrigo Barba entrou em turnê com a banda de hardcore carioca Jason, além de tocar com o Latuya, enquanto o tecladista Bruno Medina segue escrevendo em seu blogue. O tempo dirá se as músicas da banda serão tratadas como “Anna Julia” em eventuais carreiras solo dos quatro músicos.

Se não é o fim da banda, é o final da primeira fase. Com tanta gente tentando chegar lá, o Los Hermanos resolve parar. No último show, Barba vestia uma blusa do Autoramas, o que remete a renovação. Talvez, esse refluxo gere espaço para outras bandas, com potencial para agradar o mesmo público. De Mombojó e Moptop, aos ex-Acabou la Tequila Nervoso & os Calmantes, Kassin e seu projeto +2, passando por Móveis Coloniais de Acaju, Wado, Cidadão Instigado e Lucas Santtana. Herdeiros não faltam.

Longevidade nunca esteve diretamente ligada a qualidade musical, a história está cheia de exemplos pra comprovar. Ser grande também é saber a hora de se sair de cena. Seja um gesto calculado ou uma decisão sincera. Depende de quem está interpretando.

terça-feira

24

abril 2007

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4/4

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lh_separado.jpg

O quinto disco do Los Hermanos estava a caminho, para ser lançado no segundo semestre desse ano. Pelo menos era o que o estava previsto até o grupo anunciar em sua página oficial um “recesso por tempo indeterminado”.

Segundo a nota oficial, o tempo na relação servirá para atender “a necessidade dos integrantes de se dedicarem a outras atividades que vieram se acumulando ao longo desses dez anos de trabalho ininterrupto em conjunto”.

A notícia surpreendeu os fãs da mistura original de rock, samba, ska, jovem guarda e belas letras produzida pelo Los Hermanos.

Os shows marcados para os dias 8 e 9 de junho, na Fundição Progresso, já estão sendo vistos por muitos como a despedida de uma das bandas mais criativas e interessantes a ter surgido após o emblemático ano de 1994.

terça-feira

14

novembro 2006

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Los Mombojó

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“Grande suingue!”

Após muitas, cansativas e preguiçosas comparações com o Los Hermanos — levando integrantes do grupo de recife a parar de escutar os cariocas — o Mombojó “fez as pazes” com os barbudos.

Os dois grupos estão fazendo uma mini-turnê por Curitiba e Porto Alegre em que, além da apresentação normal de cada banda, Mombojó e Los Hermanos dividem o palco em algumas músicas. Bacana.

sexta-feira

9

junho 2006

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Ela voltou

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foto: Dávila Pontes/divulgação

Terça-feira, o Los Hermanos comemorou o show de número 500 da carreira. Foi festa pra poucos, apenas 2 mil ingressos, 2/3 da capacidade total do Circo Voador, foram colocados à venda. Prática, aliás, que poderia se tornar praxe. Mais do que isso é um exagero, que faz bastante gente não conseguir sequer ouvir o show, como foi o caso da Nação Zumbi, na sexta passada.

Os fãs, claro, compareceram, afinal faz tempo que o LH não toca pra um público tão “pequeno” no Rio. A arena e as arquibancadas abarrotadas, universitários em sua maioria, berrando as letras, parece emular o clima dos festivais da canção. Ou pelo menos, pela faixa etária, a descrição que se conhece desses festivais.

Quem vai a um show do Los Hermanos hoje, sai de casa com essa idéia na cabeça: “vou cantar todas as letras, bem alto”. Essa catarse coletiva passou a fazer parte do espetáculo, tanto é que a banda deixa espaços e mais espaços nas letras, virando o microfone para frente para o público completar.

Além do vocal, fica difícil também ouvir os detalhes das músicas, mesmo num show para um público reduzido. É muito bom pra banda, imagina-se. Mas é também uma pena pra quem gostaria de ouvir o Los Hermanos, e não o seu público, tocando.

annajulia.jpg

Depois de um show que enfileirou as músicas do “4” e mais algumas de “Ventura” e do “Bloco do eu sozinho”, a surpresa veio no bis. “Anna Julia”, a canção-chiclete que catapultou a carreira dos Hermanos e que raramente é tocada, abriu a parte final da apresentação.

O LH é criticado por alguns, dizendo que a banda nega seu maior sucesso. A verdade não é bem essa. Foi uma estratégia, uma maneira de não desgastar a banda ao ponto de ninguém mais ter paciência ou boa vontade de escutar o que quer que viesse depois de “Anna Julia”.

De vez em quanto a música aparecia em shows, geralmente no interior do país. De uns tempos pra cá, como indica as listagens no saite da banda, tem tido presença mais frequente no repertório. Ótimo, “Anna Julia” é muito boa, transcendeu estilos e foi regravada até por grupos de axé e sertanejo.

As férias forçadas parecem ter dado certo. Ao invés de insuportável, “Anna Julia” virou motivo de orgulho para os fãs. Como se fosse sinônimo de apresentação em que a banda está realmente à vontade, os celulares não pararam: “tá tocando Anna Julia!”.

domingo

15

janeiro 2006

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Três

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Hurtmold
foto: Luciano Valério/divulgação

Nesse final de semana, o Los Hermanos comemorou as 50 mil cópias vendidas do seu disco mais recente, “4”, com uma mini-temporada no Canecão. Porém, o número que se destacou foi outro, um pouco menor, mas nem um pouco inferior: o três.

Foi esse o número de shows da temporada e , mostrando que não esqueceram suas origens, foi exatamente esse o número de bandas independentes escolhidas pelos Hermanos para abrir as apresentações: Nervoso e os Calmantes, Hurtmold e Cidadão Instigado. Uma por noite.

Na estréia, com a casa cheia de imprensa e convidados, coube ao ex-Acabou la Tequila/Autoramas/Beach Lizards, Nervoso. Pela penca de referências em comum, sonoridade e temática das letras, Nervoso têm potencial para acertar em cheio os fãs do Los Hermanos, principalmente a parcela insatisfeita com o “4” e saudosos da agitação das turnês do “Bloco do Eu Sozinho” e “Ventura”. Por tudo isso, era um show importante.

Apesar do PA novinho do Canecão, o som embolado que se ouvia (problema que persistiu e prejudicou também o show do Los Hermanos) não ajudou. Os Calmantes, talvez apreensivos com a situação, ficaram meio paradões, deixando Nervoso sozinho no palco e dificultando ainda mais as coisas.

Mesmo assim, a garra da banda, calejada do underground, aliada a boas músicas, superou esses problemas e conquistou aqueles de ouvidos atentos e abertos as novidades. Se dos 2 mil presentes, 100 resolverem ir atrás do que ouviram já valeu a pena. A idéia é essa, de pouquinho em pouquinho, conquistar seu espaço.

Na segunda noite, foi a vez dos paulistas do Hurtmold esquentarem o público. Embora o (vá lá) post-rock instrumental, emulando nomes como Fugazi e Tortoise, pudesse representar um risco diante de um público de características messiânicas, afeito a cantar junto e pular o tempo todo, a banda foi muito bem recebida. E chapou o Canecão por preciosos 30 minutos.

Formado, em 1998, por Maurício Takara (bateria, trompete, vibrafone), Fernando Cappi (bateria, guitarra), Mário Cappi (guitarra), Guilherme Granado (teclado, percussão), Rogério Martins (percussão) e Marcos Gerez (baixo), os integrantes do Hurtmold e os do Los Hermanos se conheceram na gravação do instinto programa de televisão Musikaos, em que bandas tocavam ao vivo. O respeito mútuo virou amizade e desembocou no convite para banda fazer esse show de abertura.

No seu terceiro show para um público tão grande (antes disso, abriram dois shows da Nação Zumbi e tocaram no Sónar Barcelona), o sexteto fez bonito, hipnotizando os presentes com músicas repletas de texturas e referências. O Hurtmold é caso raro, daquelas poucas bandas que se saem melhor ao vivo do que em disco.

As percussões crescem, acentuando a latinidade das músicas, os improvisos rolam soltos e o groove explode entre sacudidas de caxixi, noises de guitarra, programações eletrônicas, linhas de baixo, solos de trompete, melodias de vibrafone e quebradeiras na bateria. É uma alegria ver uma banda dessas tocando num lugar com a estrutura e quantidade de público que merece.

No dia seguinte, domingo, o Hurtmold tocou outra vez, na Audio Rebel, em Botafogo. Misto de loja de discos, estúdio de ensaio e local para shows, é um lugar novo e surge como boa opção para shows de pequeno porte. Nem tanto pela qualidade, é verdade, mas pelo clima.

Apesar do cheiro de argamassa das obras e do calor beirando o insuportável (precisa de, no mínimo, mais três ar-condicionados ali), o cafofo onde acontece os shows acaba sendo aconchegante, deixando o público (de até 100 pessoas) bem perto da banda. É o clima perfeito para “shows históricos” (leia-se: quanto menos pessoas, mais histórico).

Dessa vez com 50 minutos de duração (e filmado na íntegra), o do Hurtmold, com certeza, entrou pra essa lista.