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quarta-feira

17

janeiro 2007

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Rolling Stone, dezembro 2006

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Resenhas do festival Hutuz e do novo disco d’A Filial que escrevi para o terceiro número da Rolling Stone Brasil. Com a edição fora das bancas, reproduzo os textos aqui.

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A Filial
“Quem menos tem é quem mais oferece” (Dubas Música)
cotação: três estrelas e meia

Todo mundo junto

Num Rio de Janeiro cada vez mais retraído, onde um tiro lhe aguarda em cada esquina (ou ao menos como parte da imprensa e das autoridades querem fazer parecer), o discurso d’A Filial faz o caminho inverso. Fala de sair na rua, de encontros e de aceitar o outro como único caminho possível pra sairmos do caos atual — e não apenas na Cidade Maravilhosa.

Dispensando o uso de samples, tão caros à cultura hip hop, com exceção de alguns scratches e batidas eletrônicas, os sons do disco foram feitos do zero. Tocado pela própria banda — formada por Edu Lopes (vocal), DJ Castro (do extinto Quinto Andar, Black Alien), Rodrigo Pacato (percussão), Ben Lamar (trompete) e Flavio Prazeres (sax e cavaquinho) — mostra uma boa evolução em relação ao EP “A Filial”, de 2002.

O hippie-hop acústico do quinteto mistura rap, samba, soul, funk, faixas instrumentais (“Prelúdio”, “Charme e sedução”) e abre espaço para convidados como BNegão (ex-companheiro de Edu no Funk Fuckers) em “Verso versátil” e De Leve, em “Be the world”.

Quando as coisas parecem estar ficando cabeça demais, o verão carioca se faz presente na guitarra funkeada de “Gosto tanto”, no bumbo reto de “Dança” e no sambinha “Linda”. Afinal, um pouco de alegria sempre facilita o encontro.

Premiação do hip hop agita o Rio

Organizado pela Central Única das Favelas (Cufa) e realizado ininterruptamente desde o ano 2000 no Rio de Janeiro, o Hutúz chegou a sua 7ª edição, firmando o evento como o principal encontro do hip-hop brasileiro.

Além dos shows, o Hutúz envolve uma premiação aos melhores do ano, apresentações dos quatro elementos (DJ, MC, break e grafite), mostra de cinema, seminários, oficinas e campeonato de basquete de rua.

A edição 2006 teve como tema o esporte e trouxe vários artistas latinos, como o argentino Emanero, o chileno Sammy Houston e o uruguaio Contra las Cuerdas. O rapper e ator americano Mos Def (no país para filmar cenas do documentário que está produzindo, “4 real”) fez duas participações especiais, apresentando duas músicas na festa de premiação e como convidado no show do MV Bill, dois dias depois.

Entre os premiados estão Facção Central (melhor grupo e melhor álbum, por “O espetáculo do circo dos horrores”), Dia dos Pais (melhor música, por “Inquérito”), Atitude Feminina (revelação), Graphis (grafite), New Crew (break), Erick 12 (produtor) e Inumanos (clipe).

segunda-feira

4

setembro 2006

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quarta-feira

1

fevereiro 2006

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Ataque e contra-ataque

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MC Beleza vs. MC Andre Ramiro
foto: Joca Vidal

Lá veio a chuva, mais uma vez tentar atrapalhar o Humaitá pra Peixe, na noite de encerramento. Não conseguiu. O Sergio Porto ficou cheio — ainda que não tenha lotado — para conferir a Liga dos MCs.

Organizada pela Brutal Crew, os mesmos da Batalha do Real, a Liga dos MCs é uma disputa entre rappers, improvisando ao vivo para mostrar quem é o melhor rimador. Várias etapas são disputadas ao longo do ano e o MC que somar mais pontos, leva o caneco.

A festa foi adaptada para o HPP. Para amenizar o clima de competição, além das batalhas, houve apresentações dos convidados Marechal, Bacon e dos MCs que se enfrentaram.

Aori cumpriu o papel de mestre de cerimônias, ditando as regras e conversando com o público, que é quem escolhe o vencedor de cada fase. Os DJs Babão (parceiro de Aori no Inumanos) e Tamempi se revezaram nas bases. Um a um, os rappers foram caindo, inclusive Gil, primeiro campeão da Liga, em 2004.

Os MCs não se contentam em esculhambar um aos outros apenas com palavras. A encenação, repleta de gestual, atitude e caras de deboche, conta tanto quanto uma boa rima e é uma das partes mais divertidas do evento.

A final entre Beleza e Ramiro foi apertada, sendo necessário um terceiro round para o desempate. O campeão de 2005 da Liga dos MCs, Beleza, confirmou a boa fase e ficou também com tí­tulo da edição especial HPP.

Os esculachos ficam somente no palco, do lado de fora a camaradagem entre os participantes é evidente. Puro reflexo da organização dos representantes dessa cena. Na hora de se juntar para crescer, o improviso passa longe dessa rapaziada.

quinta-feira

26

janeiro 2006

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O Globo, 27/01/2006

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Ilustração: Acme

Matéria sobre a Iky’x tape Vol. 1, 2004/2005, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

As 28 músicas estão estão pra jogo, de “Ralge daopacha”, com Chapadão cantando em TTK, dialeto originado no Catete (Tetecá, em que as sílabas das palavras são pronunciadas de trás pra frente) à “Cobra cega”, cantada por Gil.

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O hip hop carioca está bem na fita
Bruno Natal especial para o Rio Fanzine

Gravar uma mixtape é a forma mais prática de divulgação para um DJ. As fitinhas são praticamente uma instituição no universo hip hop. Com o passar dos anos, não foi só a mídia que mudou — hoje, lógico, são distribuídas em CD ou MP3 — o conceito também se transformou.

Se antes continham uma seleção musical mixada pelo DJ que assinasse a fita, atualmente as mixtapes têm sido utilizadas para expor trabalhos inéditos, funcionando como uma coletânea de novos talentos.

A “Iky’x tape vol. 1, 2004/2005”, lançada no final de 2005 pelo produtor e MC Iky Castilho, é assim. Com uma parte gráfica bem cuidada, traz pepitas quase perdidas do Campo de Concentração, mistura de estúdio e casa onde o MC Aori, o DJ Babão (Inumanos) e Iky moraram juntos.

As 28 músicas são inéditas e foram produzidas por Iky, que usou programações feitas em MPC e samples de Originais do Samba e Egberto Gismonti:

— Produzi 23 bases, algumas em parceria com Mahal (filho de Luiz Melodia), Mr. Brake e Babão, mais duas do francês Damian Seth e dois instrumentais gringos.

A lista de participações é um verdadeiro “quem é quem” do hip hop carioca. Estão lá desde nomes conhecidos, como Aori e o DJ Babão, Shawlin e Tapechu (Quinto Andar), Kamau (Instituto), Max B.O. e Marechal, a rappers em ascensão, como Jovem Cerebral, Funk, Menor do Chapa, Chapadão, Bacon, Gil e Papo Reto. Todos sempre presentes na Batalha do Real ou na Liga dos MCs, eventos organizados pela rapaziada da Brutal Crew.

— Escolhi os MCs pela galera que costumava ir lá em casa e tentei fazer uma representação de várias áreas. O Chapadão é do Irajá, o Menor é do Turano, o Jovem Cerebral é da Mineira, o B.O. é de São Paulo. Lembrei do cara exatamente com a batida — fala Iky.

A mixtape é só o começo. Este ano ainda devem vir os discos solos de Shawlin, Marechal e outro projeto de Iky, o VR Swings. Enquanto isso, Aori participa do novo disco de D2:

— Gravamos um som irado — conta ele. — O Marechal tá junto nessa. Ainda não sei o nome oficial da música, mas ela fala do meu bairro, a Lapa, da nossa história. Está muito legal.

Enquanto nada disso acontece, a melhor maneira de conferir o som dessa rapaziada é ao vivo. Na semana que vem, a Liga dos MCs invade o Sérgio Porto, encerrando a programação do Humaitá pra Peixe.

— Vão ser os melhores colocados da Liga no ano passado, incluindo o campeão, MC Beleza. Vai ser bem diferente, porque geralmente nas batalhas os MCs não cantam, só disputam rimas. Nesse a galera vai cantar — explica Aori.

O negócio é cantar junto.

segunda-feira

5

setembro 2005

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rraurl, 05/09/2005

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Cobertura do Motomix 2005, que escrevi para o saite rraurl.com.

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Motomix ou mortomix?

Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio de Janeiro deve ser o da música eletrônica. A frase pode soar ranzinza e um tanto exagerada, sim, mas é impressionante como esse tipo de festa dificilmente rola bem por aqui. Muito disso se deve ao fato de, até hoje, poucos eventos terem sido feitos com a cara do Rio. Geralmente, tentam empurrar um clima que não tem a ver com a cidade, adaptar fórmulas que não se encaixam.

A etapa carioca do Motomix, no Clube Mourisco, não foi diferente. Com pouca divulgação e acreditando que o simples fato de acontecer num clube na beira da praia de Botafogo (o Mourisco, antiga casa da festa Delírio) seria o suficiente não apenas para atrair público, como também garantir o público certo, foi um engano e tanto. O visual da praia não é novidade para carioca nenhum, só isso é muito pouco pra sustentar uma festa. Distribuir convites a granel (até em vôo da ponte-aérea Rio-São Paulo, como contou o DJ Marlboro) também não resolve.

A noite começou cedo, às 22h, com BiD. Graças ao inexplicável hábito carioca de chegar nas festas o mais tarde possível — independente disso fazer com que se perca boa parte das atrações — praticamente ninguém viu o bom show do multi-instrumentista. Uma pena.

Na sequência veio a Project Band, grupo formado pelos participantes de uma oficina promovida pelo evento. Capitaneados pelo brasileiro Soul Slinger, figura seminal do drum ‘n’ bass e da música eletrônica verde e amarela, os alunos mostraram um som chapado, com influências de dub e interferências de alguns instrumentos tocados ao vivo, como flauta e bateria. Com tantas pessoas e idéias no palco, naturalmente o som, apesar de bem produzido, ficou devendo coesão. Tudo certo, o resultado de um encontro desses não é mesmo para ser imediato. Interessante é ver o que pode sair dali agora que os pontos se conectaram.

Durante as apresentações, os VJs (mal posicionados a beça, na frente do palco, obstruindo a visão do público) cuidavam da parte visual. Ao invés do tradicional telão atrás do palco — onde havia um painel de luzes bem bacana — a parede lateral do galpão foi utilizada como suporte, com as imagens sendo projetadas em cima de grafites e lambe-lambes de artistas cariocas como Lelo e Raffo.

Acompanhar as projeções, aliás, era uma das únicas opções para passar o tempo enquanto se aguardava as demoradas trocas de palco entre uma atração e outra, já que (tirando umas faixas de reggaetón e dancehall) as vezes não tinha nem música pra preencher o ambiente, só o zum zum zum do bate-papo.

Depois de muito atraso, o rapper MC Solaar subiu ao palco. Acompanhado por uma banda e MCs de apoio, o senegalês radicado em Paris decepcionou os que esperavam um show à altura de seus bem produzidos discos. Com discurso afiado e tendendo ao pop(erô), MC Solaar soou como uma espécie de Gabriel O Pensador da França, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

Se o som mal passado e embolado que saía do PA não ajudava, as coreografias constrangedoras (com direito a beijo na boca no final de uma baladinha) e a barreira da língua afundaram a apresentação de vez. Além disso, existe um outro fator: o público de hip hop do Rio, quem sabe diferente de São Paulo, é predominantemente fanfarrão. Não à toa, nomes de qualidade como Quinto Andar ou Inumanos penam pra conquistar espaço. A equação banda ruim + público chocho não podia mesmo acabar bem.

As coisas melhoraram bastante quando o Super Discount 2 começou a tocar. Formado por Ettiene de Crécy e Alex Gopher, o grupo contou com a participação de Alex Kid para sacudir o lugar com sua mistura de electro, house e esbarrões na batida reta do techno. Só a versão breakbeat de “Aero Dynamik”, do Kraftwerk, e uma música que convocava insistentemente “sensimilla, marijuana” valeram o set. A apresentação talvez tenha sido um pouco longa demais, fazendo com que o Super Discount perde-se o foco no final. Nada grave, no entanto.

Bem grave foi a entrada da dupla Gil le Gamin e Olivier M, do The Youngsters, que abriram seu set com uma freqüência baixa e continua, acalmando os ânimos antes de iniciar os trabalhos. Artista do selo F-Communications, do Laurent Garnier, o Youngsters atacou de electro com influências de rock e breakbeat utilizando um computador, toca-discos, uma mesa de som, abusando dos scratches e do vocoder. Sem soar retrô e tocando bem pesado, a dupla fez o lugar pegar fogo, literalmente. Um incêndio, rapidamente controlado, perto do curral VIP, encheu o lugar de fumaça e cheiro de queimado.

Ao final da apresentação, as 5h, as luzes foram acesas e o público que ainda estava lá descobriu que os atrasos cobraram seu preço. As atrações anunciadas Alex Kid, Ben Dubphonic e Soul Slinger foram simplesmente canceladas.

Musicalmente, foi um evento de altos e baixos, normal. Já em termos de produção, foi uma noite pra ser enterrada. No túmulo da música eletrônica.

fotos: Carol Mariotto e Bruno Natal