quinta-feira

15

setembro 2005

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(Já) Era dos festivais

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Na tentativa de revitalizar o formato dos velhos festivais da canção das décadas de 60 e 70, a TV Cultura escalou duas ex-VJs da MTV, um repórter no estilo “mágico de festa infantil” e uma apresentadora de cabelo rosa-choque para ancorar o Festival Cultura, a nova música do Brasil. E foi só o que foi feito para atualizar a idéia.

Ancorar, aliás, parece mesmo o verbo correto. Estacionado no tempo, a produção copiou o formato manjado, enquanto a curadoria tratou de repetir os personagens e o tipo de repertório, ignorando os 40 anos (de história, de cultura, de comportamento, de evolução musical) que nos separam daquela época. A média de idade alta dos atuais participantes contrasta com os 22 anos que Chico Buarque tinha quando ganhou com “A banda”, em 1966.

Alguns nomes e currículos de músicos envolvidos na grande final são suficientes para comprovar o ponto. Lula Queiroga, Pedro Luís e Zé Renato — todos com com um ou mais discos lançados e parcerias com nomes conhecidos — não são novidade pra ninguém. Marília Medalha então, autora de “Cassotiba” e sua letra de fedegoso hortelã, participou ativamente da chamada era dos festivais de anos atrás.

Nesse panorama, qualquer sub-Lenine trazia esperança de que algo minimamente novo furasse a bolha criada pela pseudo-vanguarda paulista. Nada feito. Ganhou a música “Contabilidade” que, fora o conceito interessante da letra, não empolgou. Defendida pela dupla Danilo Moraes e Ricardo Teperman com apenas dois violões, acompanhados por um tambor, “Contabilidade” surpreendentemente levou ainda o prêmio de melhor arranjo.

A interpretação de Ceumar para “Achou!” (de Dante Ozetti e Luis Tatit), foi a única música capaz de levantar as pessoas das cadeiras — e também a canção com maior potencial de provocar a histeria coletiva que, aparentemente, se esperava ressucitar. “Achou!” é praticamente um clichê do que deveria ser uma “música de festival”. Mesmo assim, ficou em segundo lugar.

É de se pensar que tipo de recepção provocariam artistas como Mr. Catra, uma aparelhagem de tecno brega do Pará, DJ Dolores, Mombojó ou mesmo os deturpadores da sacrossanta bossa nova, Bossacucanova e Zuco 103. A entrevista de Inezita Barroso, num dos intervalos do programa, dá a pista. Ela bradou, “Viva os compositores que não estão alterando nossos ritmos! Viva o samba! Viva a valsa!”.

Os exemplos, ironicamente, são perfeitos. Os dois gêneros, citados como genuinamente brasileiros — nesse conceito podre de geração espontânea de ritmos — não poderiam servir melhor para ilustrar justamente o contrário: que a riqueza da música brasileira é feita exatamente disso, da quebra de conceitos e da miscigenação de estilos.

A MPB, sigla que deveria ser abrangente, virou um gênero, deixou de ser popular e se tornou erudita. É música para academia, para iniciados, de entendidos para entendidos. Nada contra a MPB. Simplesmente, num festival com o sub-título “a nova música do Brasil”, pareceu fora de lugar.

Ao contrário do que acontecia no auge dos festivais, essa música, hoje, não tem nenhuma conexão com as ruas, não dialoga com o público, ponto fundamental para afirmar sua condição de popular. Perdeu seu poder de comunicação com as massas. E sem a massa, não tem festival.

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