Imprensa Archive

terça-feira

8

setembro 2015

0

COMMENTS

Transcultura #166: Andy Shauf

Written by , Posted in Imprensa, Música

andy-shauf-2
foto: divulgação/Chris Graham

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

O folk solitário do canadense Andy Shauf
Músico emociona em seu segundo álbum, ‘The bearer of bad news’
por Bruno Natal

O título não é lá muito convidativo, porém “The bearer of bad news” (“O portador de más notícias”), segundo disco cheio de Andy Shauf — e o primeiro que ele realmente gosta, de acordo com o próprio, que já havia lançado três EPs antes dos 20 — é uma belezura só. Como o título sugere, os temas vão da solidão ao arrependimento, contados sob a perspectiva de um canadense da remota província de Sascachevão.

Com uma formação de guitarra, baixo, bateria, teclado, clarinete e violino, o som espaçoso dos arranjos reflete a imensidão das planícies geladas onde Shauf cresceu. Citando Dashboard Confessional e Elliot Smith como referências, o estilo introspectivo remete também ao escocês King Creosote. As melodias complexas resultam num folk de mentalidade pop, por vezes fazendo lembrar um Tame Impala, se esse fosse desplugado, seja nos quase nove minutos de “Wendell walker” ou na batida quase fúnebre de “Covered in dust”.

Composto ao longo de quatro anos e gravado no porão da casa dos pais, onde Shauf tocou tudo sozinho, “The bearer of bad news” é daqueles discos pra ouvir só, que vai crescendo a cada rodada, sempre revelando novos segredos. Trilha boa pro inverno que se aproxima.

 

terça-feira

8

setembro 2015

0

COMMENTS

Transcultura #165: Zeh Pretim // Kate Tempest

Written by , Posted in Imprensa, Música

zehpretim_transcultura_oglobo

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Para animar a festa
Produtor e DJ, Zeh Pretim se firma como referência da noite carioca ao transitar entre o pop e o underground, ele comanda baile com seu nome e festas como Mixin´ e Dia

Por Bruno Natal

Numa análise extrema da árida noite carioca, existem basicamente dois tipos de festas: as conceituais, com sons avançados para quem quer dançar, e as comerciais, em que as atrações musicais são quase secundárias e o objetivo principal é a pegação. Um lado costuma olhar feio para o outro. Nessa dicotomia, coitado de quem quer sair para escutar boas músicas e conhecer alguém. Foi nesse vácuo que um dos DJs mais atuantes da atual safra de festas cariocas resolveu entrar. Nascia assim seu alter ego: Zeh Pretim.

— Estava fazendo frilas de design para um amigo de infância, André Barros, que produzia várias festas, por isso tinha passe para todas. Eu não gostava dessa música eletrônica hoje conhecida como EDM, curtia festas de hip-hop, Calzone, Bailinho e Auslander — conta ele. — Nessa época eu já montava playlists para churrascos e passei a pesquisar como começar a ser DJ. É uma coisa um pouco difícil, não há um curso ou uma escola, os equipamentos são caríssimos. É preciso ir na marra.

O apelido veio da falta de opções, resgatando um codinome utilizado no MSN da primeira empresa em que trabalhou para despistar o chefe enquanto azarava uma menina que se sentava atrás dele. Como Paulo de Castro não é negro e não tem José em seu nome, surgiu o Zeh Pretim, nome que também utilizava no jogo “Counter Strike”. Antes do sucesso do Baile do Zeh Pretim, com 44 edições realizadas por todo o Brasil — a sessão de aniversário de quatro anos será dia 6 de junho, em local ainda não divulgado —, Barros deixava Zeh tocar em suas festas, antes de os convidados chegarem. Enquanto isso, ele ia tocando também em festas de amigos.

— Comecei a discotecar em horários mais privilegiados, até conquistar meu primeiro cachê. Faltavam mais opções de festas, e foi então que amigos me convenceram, em 2011, a fazer uma festa de aniversário. Na hora de divulgar para os amigos, chegamos à conclusão de que não seria bem uma festa e sim um baile, porque ia tocar de tudo. Então ficou Baile do Zeh Pretim — explica ele.

Enxergar espaços é uma das especialidades do designer de formação. Ainda atendendo como Paulo de Castro, participou da criação de alguns empreendimentos no universo do surfe. Como cofundador da marca de surfe Que! Lifestyle, sentiu a necessidade de uma agência para atender clientes do meio esportivo, e assim surgiu o Blackkat Studio. O negócio cresceu além dos limites da praia, e a necessidade de olhar pro mar deu vida à revista on-line “Blackwater”, vendida para um grupo editorial após apenas três edições. Hoje, Zeh trabalha somente com as festas.

— Comecei a receber muitos convites para discotecar, o Baile começou a tomar boa parte do meu tempo, os cachês foram melhorando, e aos poucos precisei estudar mais, pesquisar, planejar as festas, consequentemente fui deixando o design — conta. — Sempre me preocupei com a experiência e, ainda que fosse um lugar novo, não queria que no dia seguinte houvesse outra festa e que a experiência pudesse ser a mesma. Por isso, dou um gás na cenografia, locação, surpresas, todas marcas do Baile.

Além do Baile e da Mixin’ — festa de hip-hop que tem mais uma edição neste sábado, no Studio Line — Zeh produz as festas Dia, ZZ’s (com o DJ Zedoroque) e participa da Rocka Rocka. Tanto esforço conquistou o respeito de referências, como BNegão.

— Ele entende de cultura urbana — afirma o rapper.

Sócio dos bares Sobe e Complex Esquina 111, Zeh já ajudou a realizar shows gratuitos de artistas como Mayer Hawthorne, Mapei e Friendly Fires. Na mais recente edição da festa Dia, a atração principal foi a lenda do hip-hop Grandmaster Flash.

— O Zeh é um baita empreendedor, com visão e humildade — afirma Nepal, um dos DJs mais respeitados do Rio.

Marcelinho da Lua, outro bamba que já tocou nas festas do Zeh, destaca o respeito ao ofício de DJ:

— O Zeh não quis ser só um fake DJ. Procurou se formar com os melhores, é apaixonado pelo universo dos DJs, tanto que convida para tocar no seu baile DJs que são respeitados na cultura do vinil, como Digitaldubs e Pachu.

Sobre a separação dos diferentes universos de festas da cidade, Zeh segue firme na missão de unificação.

— Nas minhas festas não tem área VIP, cercadinho nem camarote — garante. — Crio um clima em que todos são iguais. Isso é o que importa.

Tchequirau

“Theme From Becky” parece unificar resumir todas as facetas dos trabalhos da autora, poeta, novelista e rapper inglesa Kate Tempest. A música é parte do premiado disco “Everybody Down” lançado ano passado.

sexta-feira

4

setembro 2015

0

COMMENTS

Transcultura #162: Boas rádios online // Tame Impala

Written by , Posted in Imprensa, Música

jasonbentley_kcrw_transcultura_oglobo

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Nas rádios on-line, boas opções para sons alternativosKCRW, da Califórnia, e KEXP, de Seattle, têm programação variada, que vai do rock independente ao som eletrônico
por Bruno Natal

Em uma época em que serviços de assinatura de música por streaming estão se tornando onipresentes, um aspecto que é comumente ignorado é a curadoria. Mais do que isso, o fator surpresa. Quem cresceu ouvindo rádio sabe bem o que é ser surpreendido por um música nova e excelente que você não sabem nem de quem é. Bom, isso acontecia ao menos quando se falava de rádios como a Fluminense FM ou de bons programas, como o ainda ativo “Ronca Ronca”, de Maurício Valladares. Hoje em dia, com raras excessões, o dial brasileiro anda desértico nesse quesito.

Menos mal que pelo mundo existem boas opções e, graças à internet, várias rádios podem ser escutadas por aí. Baseada em Santa Mônica, na Califórnia, a KCRW (kcrw.com) é uma delas. Ela foi fundada em 1945, no campus da faculdade local, e sua programação mistura notícias com música. O carro-chefe da emissora é o programa “Morning becomes eclectic”, apresentado por Jason Bentley desde 2008. No ar diariamente das 9h ao meio-dia (iniciando às 13h no Brasil no atual fuso horário), a programação é exatamente como o nome sugere, misturando de música eletrônica a bandas indie e até mesmo artistas brasileiros (Rodrigo Amarante já fez parte das tradicionais sessões ao vivo do programa). Além desse, os programas apresentados por Travis Holcombe (segunda a quinta) e Jeremy Sole (quarta e quinta) valem muito a pena.

Baseada em Seattle, a KEXP (kexp.org) segue linha parecida com a da KCRW. Totalmente ligada em música, sem notícias, também opera a partir de um centro de ensino, a Universidade de Washington, desde 1972. É uma instituição sem fins lucrativos e recebe doações para seguir funcionando.

As sessões ao vivo são das mais comentadas. Neste ano já passaram por lá Ariel Pink, Father John Misty, Kindness, Dengue Fever, Viet Cong e vários outros. Como não podia deixar de ser, tarde da noite a programação fica ainda mais avançada e um dos destaques é o programa “Midnight in a perfect world”, sempre com DJs convidados fazendo sets exclusivos.

A gigante inglesa BBC (bbc.co.uk/radio) não fica atrás e através do seu iPlayer transmite online o conteúdo da clássica Radio 1, com uma programação mais comercial, embora muito boa, assim como a 1Xtra, dedicada aos sons mais alternativos. Entre os apresentadores da 1Xtra estão do DJ Diplo, a instituição do reggae David Rodigan e o produtor Benji B.

Tchequirau

Lá vem o Tame Impala outra vez. Apontando para o terceiro disco, o líder da banda, Kevin Parker, avisou: vai ser tudo totalmente diferente dessa vez. Pois bem, ouça “Let It Happen”, a primeira dessa nova leva, comprova que ele não estava brincando .

sexta-feira

4

setembro 2015

1

COMMENTS

Transcultura #161: Leon Bridges // Jack Garrett

Written by , Posted in Imprensa, Música

transcultura_leonbridges

Texto originalmente publicado na “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo.

Pérola Soul
Influenciado por Sam Cooke, o cantor americano Leon Bridges, de 27 anos, vira hit na internet com apenas três músicas gravadas, lota shows e conquista contrato com grande gravadora
por Bruno Natal

LOS ANGELES — Uma hora antes da abertura dos portões, a calçada em frente ao tradicional Troubador, no Santa Monica Boulevard, em Los Angeles, estava lotada. Entretanto, a maior parte das pessoas não tinha ingresso para assistir ao texano Leon Bridges com seu soul sessentista. Os bilhetes, que originalmente custavam US$ 15, estavam sendo vendidos por cambistas por US$ 75 dólares, com alguns pedindo exorbitantes US$ 200.

Porém, bastava um pouco de paciência e cara de pau para descobrir, perto da hora do show, algumas pessoas com um ingresso sobrando daquele amigo que não conseguiu chegar. US$ 20 dólares depois, 300 pessoas, incluindo diversos medalhões da indústria, espremiam-se dentro do pequenino teatro para assistir o rapaz de 27 anos desfilar suas… três músicas?

Oficialmente, três músicas é tudo o que Leon Bridges lançou até agora. Foi o bastante para chamar a atenção de selos com sua revisão da sonoridade de Sam Cooke. Bridges não faz nenhuma questão de esconder a referência. Em entrevistas, o praticante de dança urbana e fã de Usher conta que o seu objetivo era mesmo soar “exatamente igual” a Cooke, que conheceu após escutar “A change is gonna come” no filme “Malcolm X”, de Spike Lee. Mas foi apenas quando começou a escrever as próprias canções que, de fato, ele buscou inspiração nos discos do lendário cantor, morto em 1964.

A primeira delas, “Lisa Sawyer”, foi feita em homenagem à mãe. Descoberto num bar por Austin Jenkins, guitarrista do White Denim, Bridges foi levado para um estúdio, onde gravou seu disco. Foram dessas gravações que vieram seus outros dois hits digitais, “Better man” e “Coming home”. Lançadas em seu Soundcloud, as três músicas somam mais de 2 milhões de execuções (e mais 3 milhões no Spotify).

Bridges acabou assinando com a Columbia, e seu disco de estreia ainda não tem data para sair. Ao vivo, a apresentação inclui músicas ainda inéditas, como “Let you down” e “Daisy may”. Apesar de não lançadas, elas podem ser conferidas em vídeos no YouTube. A versão de “Nothing can change”, de Cooke, que Bridges vinha tocando, no entanto, ficou fora do show.

Acompanhado por uma banda afiada e grande para um artista em início de carreira — duas guitarras, baixo, bateria, sax e duas cantoras de apoio — Bridges mostra a voz bonita no show. Mas poderia ser melhor se a soltasse com mais vontade. Difícil saber se é apenas a timidez, nítida no palco, disfarçada com danças desajeitadas. O figurino é retrô, caprichado, como a imagem que vem divulgando através do seu Instagram. Apenas na parte final é que ele empunha o violão e canta as duas últimas, “River” e “Lisa Sawyer”, acompanhado apenas pelas cantoras de apoio. Após 50 minutos, o show acaba e boa parte das pessoas sai com a mesma impressão: dificilmente o próximo show será num lugar tão pequeno.

Tchequirau

O britânico Jack Garratt tem 24 anos e produz, toca e canta tudo em suas faixas de r&b eletrônico. Em “The Love You’re Given” a cantora Lisa Fischer participa.

quinta-feira

3

setembro 2015

0

COMMENTS

Transcultura, 2010-2015

Written by , Posted in Imprensa, Urbanidades

transcultura_2010-2015

E lá vou eu escrever mais uma despedida.

2015 tem sido um ano de muitos finais e recomeços. E esse 1º de setembro se destacará por ter tido muito das duas coisas.

Meu dia começou com notícias do passaralho avassalador no O Globo, em que centenas de pessoas foram demitidas. Nesse corte, vários colunistas foram dispensados e assim acaba a página Transcultura, que publicava há cinco anos, toda sexta-feira, em companhia do Fabiano Moreira e Alice Sant’Anna.

Mais tarde, a noite terminou no Prêmio Multishow, assistindo o resultado de uma consultoria que presto há quatro anos levando ao centro da premiação artistas como Cidadão Instigado, Ava Rocha e Carol Konká.

Altos e baixos, como é a vida.

O fim da Trans era esperado. Nesse cenário de crise na mídia e numa sangria dessas proporções, não seria a página de cultura alternativa que sobreviveria.

Sinto muito mais pela perda do espaço do que pela perda do salário (que, como vc pode imaginar, não era lá essas coisas). E quando digo espaço, não me refiro ao meu pessoal, o “pomposo” título de colunista do Globo. Falo mesmo do espaço no jornal dedicado a manifestações culturais fora do usual, novos sons, tudo isso que a gente gosta e que molda minha vida pessoal e profissional.

Dava trabalho a beça, mais do que se imagina, ocupava bastante tempo, mas acreditava que aquele espaço era muito importante para circular e oxigenar a cena. Era uma missão. Ou mais que isso até, era um legado.

A Transcultura foi um filhote do saudoso Rio Fanzine, editado pelos mestres Carlos Albuquerque e Tom Leão, que abriu portas e educou tanta gente. Aprendi muito sobre jornalismo e a vida naquelas páginas, ganhei um amigo, irmão mais velho e guru pra sempre na figura do Calbuque. Tenho orgulho de ter sido o colaborador mais constante do RF, sentia que era um tantinho meu.

Assumir esse papel, fazer daquele tantinho algo todo meu, era mais que uma honra, era uma responsabilidade. Lembro com carinho da empolgação da Isabel De Luca, recém-nomeada editora do 2Cad, no almoço em que ela me convidou para escrever a página e juntos escolhemos o resto do time.

Por conta da página, me aproximei de vários colegas, mesmo não estando na redação. Sempre fui respeitado e – muito importante dizer – tive toda liberdade para escrever o que quisesse, sobre o que quisesse.

Sei bem da importância que é para um artista ter uma página inteira num grande jornal pra anexar ao seu material e ir cavar shows, correr atrás de patrocínios, até acalmar a própria família sobre os rumos da carreira. Era muita alegria poder escancarar as páginas do Globo para uma turma que muito provavelmente não teria vez por ali, ao menos não tão cedo. Esse era o prêmio, esse era o “pagamento”.

Pensando nisso, busquei ser o mais diverso possível, dando espaço para todo tipo de trabalhos, música experimental, pop, folk, quadrinhos, publicações digitais, festivais, festas… Falamos de Spotify e streaming de música, Tulipa Ruiz e Porta do Fundos (então ainda Anões em Chamas) ainda em 2010.

Tenho guardada cada matéria publicada. Recortava, dobrava e arquivava, esperando a coluna fazer aniversário para encadernar um volume anual. Só que semana seguinte saia outra matéria, que ia ficar sozinha e então deixava pro ano seguinte.

Nessa, passaram-se cinco anos. Montei o Queremos com meus amigos, fui pai, encerrei OEsquema com outros amigos, publiquei mais de 170 matérias (de acordo com o tag /transcultura aqui no blog, onde republiquei cada uma delas para protegê-las das muitas mudanças de URL do jornal).

Agora chegou o fim. Vou finalmente poder encadernar essa história em um só volume, reunindo os meus 5 anos e 4 meses de Transcultura, pra poder folhear, relembrar e me reconhecer ao longo desses últimos anos.

Sigo escrevendo no URBe , provavelmente agora dando um necessitado gás no blog.

Minha solidariedade aos demitidos. E MUITO OBRIGADO Bel, Fatima Sa, Calbuque, Tom, Fabiano, Alice! E também Gregorio Duvivier, Carol LuckAntonio Pedro Ferraz, que fizeram parte do time original.

Foi foda!