quarta-feira

7

julho 2004

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The Tubby’s Diaries, inside the mind of a king

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A viúva de King Tubby posa ao lado da foto clássica
fotos: Felipe Continentino

Logo no segundo dia em Kingston, entrevistamos Bunny Lee, lendário produtor e dono do estúdio Striker Lee. Encontramos com ele na sua casa e de lá ele nos levaria para o estúdio. No meio do caminho, Bunny resolveu nos levar pra conhecer a casa do King Tubby. Pensando que iríamos ver apenas a fachada, chegando lá fomos recebidas pela viúva do homem.

Sente a fiel descrição dos arredores feita por Lloyd Bradley e James Maycock, na Mojo de abril de 1999*:

Uma sensação de desconforto impregna a Drumilly Avenue, uma poeirenta e esburacada rua de Kingston. No coração de Waterhouse, uma das áreas mais notórias da capital da Jamaica, a Drumilly Avenue faz fronteira com a Olympic Way, que nos anos 70 se transformou na linha de fogo entre dois grupos políticos em guerra chamados de comunidades de guarnição. Hoje em dia, a única ameaça direta de confronto vem do magro cachorro amarelo que parece não gostar de estranhos. Ou de ninguém, na realidade. Em outras circunstâncias, a atmosfera é a da áspera Kingston — quente, tensa, opressiva até. Mas entre as aparentemente pacíficas casas pintadas em tons pastéis e de muros de tijolos ventilados a violência é estritamente latente.

Como praticamente tudo na Jamaica, mudaram os planos iniciais e a primeira entrevista foi com a primeira dama do dub. Um papo amargo, cheio de ressentimentos relacionados a direitos autorais de zilhões de coletâneas de Tubby pelas quais, segundo ela, a família nunca recebeu um tostão.

Na sequência, pedimos pra filmar algumas fotos do King Tubby do seu arquivo pessoal. O primeiro álbum que ela trouxe era justamente o do funeral, repleto de imagens do engenheiro no caixão e das pessoas que compareceram ao enterro, Coxsone Dodd entre elas. Macabro. Logo depois vieram fotos mais leves, Tubby na juventude, posando ao lado de sua motoca e no estúdio. O melhor de tudo, no entanto, ainda estava por vir.

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Uma página do diário, atualizado pela viúva

Surgiram então dois livros de recortes (scrap book) que eram mantidos por King Tubby, algo que provavelmente pouquíssimas pessoas sabem que existe. Folhear os cadernos é como espiar a mente de um gênio e ter o privilégio de entender minimamente o que atraía a atenção do rei do dub, além da música. Mal comparando, é como se João Gilberto estivesse morto e encontrássemos um diário secreto do homem responsável por um dos melhores períodos da música brasileira.

Entre os recortes, a maior parte de jornais locais, textos sobre músicos (tinha até sobre o Michael Jackson) e muitas notícias de violência, quase como se ele previsse seu próprio destino trágico. A manchete do seu próprio assassinato (foto) também estava lá, colada pela viúva e funcionando como um encerramento do diário.

Não deu tempo de ler tudo com calma, mas deu pra perceber que trata-se de um tesouro. Sabe-se lá o que mais essa mulher não tem guardado em casa. Esse material, editado, rende um livro fácil. E é exatamente isso que estou tentando fazer agora.

*este parágrafo é a tradução de um trecho da excelente matéria sobre King Tubby publicada na Mojo e que chegou as minhas mãos através do esforço do Julio Adler, que em meio aos seus muitos discos, livros e revistas bacanas, organizados de maneira pouco ortodoxa, conseguiu encontrar o tal exemplar para me emprestar.

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