Grande ideia essa de transformar o lançamento de “Pitanga” numa série de shows no intimista Solar de Botafogo. Melhor para todo mundo: para Mallu, estreando a turnê com calma e esquentando aos poucos, e para o público, que pode assistir uma apresentação mais calorosa.
A faceta artística da vida de Mallu vem acontecendo como um “The Truman Show” musical. Apresentada aos 15 anos e observada de perto, pro bem e pro mal, a menina hoje tem 19 anos. É uma mulher, que do palco faz declarações de amor para o namorado, Marcelo Camelo, na primeira fila (na estreia da temporada, no Dia dos Namorados, ele participou em “Janta“, parceria dos dois), canta ameaçando se insinuar, sem ir tão longe.
A menina ainda está lá; no nervosismo declarado da estréia, nas risadas tímidas, num certo embaraço ao cantar “quero tirar sua roupa” (em “Sambinha Bom”), na delicadeza da postura de palco, na fragilidade da voz. Letras densas como “Porque Você Faz Assim Comigo” ou “Cais” rapidamente sinalizam o amadurecimento de quem já diz sentir-se “velha e louca”.
Camelo se faz presente em diversos momentos. Mallu utiliza uma de suas guitarras mais rodadas (uma Fender Jazzmaster, se não me engano) e ele se envolveu diretamente nos arranjos e concepção do show. Porém, mais que isso, mais até que constante referência ao muso nas letras, foi nas melodias de Mallu que Camelo se entranhou – e ela na dele, um influenciando o outro.
Ladeada por uma pitanga inflável gigante, Mallu passeia pelos muitos instrumentos que utiliza no show, de guitarras e violões, ao teclado e percussão, além de simplesmente cantar, sem tocar nada. A vontade, conversa com a banda, pede ajustes de som ao técnico, agradece o público e dedica músicas (“adoro dedicar músicas”, disse, rindo) a amigos e parceiros.
De fora do repertório próprio, Mallu relê “Me Gustas Tu” (Manu Chao) e “Xote dos Milagres” (do Falamansa, que ela já vinha tocando), ambas funcionando bastante bem. No terceiro disco, Mallu começa a encontrar o seu caminho, sua onda.
Difícil é ter paciência para aguardar uma artista amadurecer em tempos em que se assiste sua formação em tempo real. Com tanta pressa, muita gente ainda não percebeu que Mallu cresceu. Azar. Nem foi uma espera tão longa assim. E está valendo a pena.
Já dizia Tony Wilson, mostrado no filme “24 Hour Party People”, em referência estréia nos palcos do Sex Pistols, quanto menos gente num show, maior sua importância histórica. Pois bem. Domingo a noite, as 320 testemunhas da noite de pior venda de ingressos da história do Queremos! assistiram, se não o melhor, certamente um dos três melhores já promovidos pelo projeto.
Some isso a crescente fama desse escriba de não gostar de show nenhum (exigência para uns, chatice e velhice para outros, faça sua escolha) e não pode ser coincidência essa ser, desde já, uma das apresentações do ano. James Blake deixou os presentes que “enfrentaram” a chuva (e bota aspas nisso) de queixo caído com a sutileza, elegância e aparente simplicidade dos arranjos de suas canções. E as porradas dos graves, ah, os graves..
Antes dele, contrariando a lógica do BPM, os suecos do Little Dragon sacudiram a tenda.
ABBA e excessões como Roxette, Cardigans e Ace of Base a parte, já foi o tempo que bandas pop vindas da Suécia estourarem mundo a fora eram uma exceção. A lista hoje em dia é extensa: Miike Snow, Lykke Li, Peter, Bjorn and John, Robyn, Fever Ray, Jens Lekman, The Knife, Radio Dept, The Tallest Man on Earth, Studio, JJ, nomes o suficiente pra inspirar um festival chamado Invasão Sueca em Recife.
O Little Dragon não fica atrás de nenhum de seus pares. Na real, fica a frente, principalmente quando pesa a mão nos graves e deixa de lado as batidinhas dançantes mais manjadas 2×4. A formação colabora, baixo e bateria (com pads) são cortadas pelo teclado, alma da banda, com modulações que adicionam a aspereza que dá personalidade e faz da banda algo mais que um synth pop básico.
E tem a animada vocalista Yukimi Nagano, claro. É daqueles shows que fazem você voltar ao disco e gostar ainda mais – e esse pode ser o grande ponto de contato entre o Little Dragon e o James Blake, o poder das suas apresentações ao vivo.
Listar as influências de James Blake (soul, folk, r&b, gospel, [des]amarrados pela espacialidade do dubstep) não chegam perto de descrever o som. Isso porque, tudo que ele pega dessas referências é reprocessado por alguma outra, de maneira que o resultado final se torna uma sombra da matriz, o que é ótimo. O que ele faz com o dubstep, por exemplo, é paralelo ao que faz Skrillex, láááá na outra ponta: aplicar o conceito, não replicar o som.
O piano clássico é entortado por timbragens pesadas; batidas sincopadas de dubstep ecoam fora do grave; reverbs abertos emulando os ecos de uma catedral são filtrados por vocoder, potencializando o alcance vocal e afastando-os de simplesmente remeter a uma igreja. Você ouve Blake e pensa: o problema é a ferramenta ou quem não sabe usá-la? Pois é.
Acompanhado por guitarra e bateria, os arranjos são tão perfeitos que faz pensar quantas horas de ensaio se levou até chegar aquele formato. Um formato muito original, vale ressaltar. Com a cena inundada de bandas com formações idênticas (guitarra + bateria + baixo + sintetizador), é um alento só ver alguém ousando nesse sentido.
É um trio em que nenhum dos instrumentos faz feijão com arroz, pelo contrário, são esticados, distorcidos, reimaginados. Ousadia que vem desde o formato das composições, sem medo de explodir ou soar barulhentas quando desemboca nessa solução. O que poderia ser tanto um projeto mela cueca (bom, é um pouco), quanto um dubstep erudito (o que também é um pouco), flutua entre as duas coisas, criando um terceiro lugar.
Ouvindo os discos se pode ter uma ideia da proposta, porém ao vivo a coisa muda totalmente de figura. Visualizando as músicas serem executadas a mão inverte, fica mais difícil imaginar o processo solitário de gravação de composição e gravação de Blake.
Não é tarefa fácil transpor um som tão delicado para o palco. Além das dificuldades técnicas, há que se contar com a participação do público, ou melhor a não-participação do mesmo. Não é show pra tomar uma cervejinha, bater um papo ou mesmo cantar junto. É uma experiência de transe coletivo, onde o silêncio mais do que uma necessidade, é um elemento essencial.
Exigência da banda, os sub-woofers extras gigantescos colocados a frente do palco são apenas parte disso. Cada pancada, cada sacolejo das sub-frequências eram a certeza de que sim, você estava ali e, sim, a banda também e que aquela experiência era impossível de ser repetida em casa, com fones de ouvido ou qualquer outro auxílio orgânico.
A pegada steppas de “Limit To Your Love”, da Feist, poderia ter sido o encerramento perfeito. Ou a linda “”Wilhelm Scream”, que fechou a primeira parte de um show normalmente sem bis. Feliz da vida com a apresentação (“a segunda melhor da turnê, atrás de Buenos Aires”, contou ele depois), Blake voltou para o bis, tocando “A Case of You”, da Joni Mitchell (grato pela info, Seiler), parte do EP “Enough Thunder”.
Não precisava, mas se ele quisesse poderia ter tocado o show todo outra vez e ninguém iria embora. Tirando um grupo de tagarelas bêbados perdidos ali (talvez procurando outro James, o Blunt?), a entrega da plateia foi total, podendo se ouvir o tilintar da chuva do lado de fora. Como se fosse uma noite londrina, azul, melancólica. Como se fosse um sonho, de chorar de tão lindo.
Antes dela, a abertura ficou a cargo da Anelis Assumpção – filha do Itamar, mulher do Curumin e grande amiga da Céu. Compartilhando alguns músicos com a atração principal (Lucas Martins e Bruno Buarque, além de Zé Nigro, Kiko Dinucci e Meu Pregnolato), Anelis acertou mesmo da metade pro fim, principalmente depois que desviou de covers bobas de Bob Marley e foi pelos próprios caminhos, como a versão dubwise de “Not Falling”.
foto: URBe
A receita continua a mesma, pop, reggae, afrobeat, trip hop. Acompanhada por Dustan Gallas, DJ Marco (além de Lucas Martins e Bruno Buarque), Céu dividiu o show em dois atos, com troca de figurino inclusive, misturando músicas dos três discos. Ao longo do show ela toca um teclado, ou tentava tocar no caso, já que o equipamento apresentou bastante defeitos.
http://youtu.be/b_uFsbJbA2k
No primeiro, mais soltinha e iluminada, tocou as músicas de pegada mais ensolarada, com referências de samba, rock steady e jovem guarda. No segundo, com um vestido de noite, brilhoso, enveredou pelas influências mais soturnas, do trip hop e chapações. Em ambas as metades, Céu está segura no palco. Dança, faz charme, se ajoelha no chão, coisas que ante a timidez não permitiria. E não tem nada melhor para um artista do que se permitir (diz aí, Lulu, hahaha!).
Só versão matadora de “É preciso dar um jeito, meu amigo”, do Erasmo Carlos, já valeria o show. Faz falta ela citar os autores das versões que toca ou os parceiros de suas canções. É meio chato pontuar a apresentacão com créditos, mas deve haver um jeito.
Com a casa cheia, 1.400 pessoas cantando todas as letras, numa reação hermânica, e clamando por um bis e um tris, Céu finalmente chegou ao Rio. Ou então eu que só estou vendo agora. Pouco importa, logo mais ela volta – e quem não foi, não perde.
Sob comando da Polícia Militar, ofuscando os convidados com a sirene na porta da quadra, e produzida pelo Apavoramento e Eu Amo Baile Funk, a Shake Your Santa tinha hora pra acabar e por isso os organizadores pediam para que se chegasse cedo. Não adiantou muito e a festa só encheu mesmo a partir das 2h30, mesmo que as 5h os equipamentos tivessem que ser desligado. O carioca e seus horários.
Aos poucos frequentar as comunidades vai se tornando normal. Pessoas que há pouco tempo não chegariam nem perto da entrada de uma favela, sobem a pé, de táxi, moto-táxi ou nos próprios carros e ficam bebendo nas biroscas em volta. O equilíbrio entre integração e exotismo é delicado, estão todos aprendendo. Vi um cara desbelotando um (sim, muita falta de noção, dadas as circunstâncias) sendo convidado a jogar o produto no chão e encerrar a brincadeira.
A festa custava R$ 40, enquanto o baile funk tradicional da comunidade custa R$ 10, com “damas grátis”. Se isso gera renda e ajuda os moradores a terem noção do valor do que tem para explorar comercialmente (alguém duvida qual vai ser o programa número um dos gringos na Copa e nas Olímpiadas?), também afasta os frequentadores locais do seu ponto de diversão.
Para solucionar isso, havia um ingresso a preço promocional para os moradores, R$ 15. Nem assim eles compareceram, com a grande maioria mesmo sendo de visitantes. A mistura ficou pra depois. A pista se esbaldava com os graves sacolejantes saídos do paredão da Cash Box, com o ventinho fresco da madrugada passando pelas grades que cercam o local e na área VIP, entocadinha na mata.
Lugar novo, festa pegando e ainda é outono. Esse tipo de programa está só começando. Muita gente que nunca foi num baile funk agora vai querer conhecer. Não, não é mais a mesma coisa. E isso é bom.
Nessa sexta começa o segundo final de semana do festival Coachella, na California. Tudo igualzinho a semana passada: as mesmas atrações, tocando nos mesmo horários, com a diferença de que o efeito surpresa se perdeu. O clima “De volta para o futuro” vem desde semana passada, seja através do retorno de bandas como At The Drive In e Mazzy Star, seja através da ressurreição do rapper Tupac Shakur emformato holográfico. Com isso, o exercício de futurologia que seria tentar prever os caminhos de um festival com quase 150 atrações, torna-se quase certeiro.
Neon Indian exagerará no lo-fi e mostrará um som mais gasto do que estiloso; o GIRLS manterá a fama de ruim de palco mesmo com o discão “Father, Son, Holy Spirit” como base; o Arctic Monkeys vai mais uma vez provar que não é mais um grupo de moleques; Frank Ocean vai arrastar uma multidão para a menor tenda do festival e contará com o apoio do Bad Bad Not Good e participação do Tyler The Creator; a Mazzy Star fará um showzão, mesmo enfadada; o Atari Teenage Riot sangrará ouvidos e o M83 se mostrará mais pop do que se pensava.
A Azealia Banks não fará uso de nem metade do tempo de palco que tem direito; o tUnE-yArDs não segurará a onda num palco maior; o Andrew Bird vai mostrar um folk sem muitas inovações além do seu violino; Noel Galagher apelará para uma música do Oasis pra conquistar o público; o The Shins vai fazer um show de dar sono ao mesmo tempo que a Feist, com 18 músicos no palco, fará uma das melhores apresentações do festival; o Flying Lotus tirará onda acompanhado de baixo e bateria; o SBTRKT sentirá a necessidade de provar que não é assim tão radiofônico e carregará a mão das versões das próprias músicas; o ASAP Rocky fará uma zorra no palco com mais de 10 amigos e o Radiohead atrasará um pouco pra mostrar que simplesmente re-arranjou as luzes do palco da turnê do “In Rainbows” para essa do “King of Limbs”.
O Metronomy fará do gramado uma pista de dança sob um sol de rachar; Seun Kuti encantará os gringos com a banda do pai; o Real Estate fará um show certinho, embora mais para os fãs; Beats Antique orientalizará o hip hop e o araabMUZIK mostrará com quantas MPCs se faz um performance; o Thundercat vai se embrenhar por uma masturbação jazzística; o The Weeknd vai cometer um assassinato em massa das canções da sua ótima mixtape; Justice e Girl Talk mostrarão mais do mesmo, sem que isso seja algo ruim, e espremerão o Beirut contra o Calvin Harris, tornando impossível ouvir qualquer coisa; o At The Drive In ensurdecerá quem tiver fugido do açucar da Florence & The Machine, enquanto DJ Shadow e Modeselektor sofrerão para competir com Dr. Dre & Snoop Dogg. E no encerramento, quando Makaveli surgir digitalmente diante dos olhos incrédulos do público, o mesmo sentimento fantasmagórico tomará conta da platéia, mais assustada do que empolgada com o artíficio.
A única coisa que não deve se repetir é o tempo, com a inédita chuva no deserto dando lugar a tradicional solaca, queimando os corpos, enquanto a música frita o coco. Ao ponto, por favor.
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Tchequirau
Apaixonado por fliperamas, Caine construiu versões elaboradas dos jogos utilizando pedaços de papelão, na garagem da loja do pai, em Los Angeles. O documentário “Caine’s Arcade” conta essa história e reserva uma grande surpresa no final.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.