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quarta-feira

27

agosto 2008

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Festa estranha, com gente esquisita

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Durrr e Boys Noize
URBe Fotos

Segunda, feriado em Londres, foi um dia estranho.

Começou com a organização confusa do Notting Hill Carnival, praticamente impedindo a circulação das pessoas pelas áreas que interessavam, e continuou com um quase-confronto com Tricky (irritado por ter que dividir uma mesa num restaurante em que não há outra maneira de sentar, sendo que foi ele quem chegou depois).

Já de madrugada, enquanto Andrew VanWyngarden, do MGMT, circulava pelas redondezas como se estivesse vestido para um show, uma das festas mais comentadas de Londres, a Durrr estava começando.

Surgida após o fim da Trash, a qual muitos creditam o “renascimento” do rock e o “fim” da ditadura eletrônica nos clubes, ambas foram concebidas por Erol Alkan, dessa vez um pouco mais distante, sem ocupar o posto de residente dos embalos de segunda a noite na The End.

Misturando os tais “novos sons” com pepitas da antiguidade, aparentemente foram absolvidas pela passagem do tempo, toca um pouco de tudo.

Na pista 1, o convidado da noite, Boys Noize, mostrava um techno com influências de electro, retão, sem melodias, pálido em comparação as seus remixes distorcidos. Apesar de misturar os mesmos dois estilos, não teve um pingo da elegância do eletechno de sua conterrânea, Ellen Allien.

Na pista 2, “Electric feel” (MGMT) e “Sensual seduction” (Snoop Dogg) revezavam-se a “Papa don’t preach” (Madonna) a “Buffalo stance” (Neneh Cherry), algumas das músicas em versões remixadas, com graves lá em cima e batidas quebradas e secas.

A Durrr é a única festa que acontece na The End que tem um código de vestimenta, apesar de nunca ser esclarecido exatamente que código é esse. Com isso, muita gente é barrada na porta, perguntando, um tanto humilhados, “o que está errado comigo?”.

Por algum motivo, a festa não pega. Parte da culpa é do público, posudo e preocupado demais em chocar, fantasiados de assaltei-o-armário-da-minha-avó. A outra parte pode ser creditada a produção da festa e da boate.

Na entrada, uma menina levou um belo esporro por ter ousado pagar a entrada de 6 libras em moedas (a caixa argumentava que não podia perder tempo contando moeda, pois queria dançar).

Na pista de dança, duas meninas tomaram uma chamada do segurança ao dar um pulinho para se abraçarem quando se encontraram. Na área de descanso, quem tirar um cochilo é acordado com uma faixo de luz na cara.

Nesse clima, realmente é difícil qualquer festa empolgar Pode ter sido só essa noite, mas que foi estranho, foi.

segunda-feira

18

agosto 2008

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Reis

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Kings of Leon, “Molly’s chamber”

É uma longa estrada essa que leva um grupo de garotos que cantam em corais de igreja, para uma banda que toca em rodeios e, de lá, para se tornar atração principal de festivais de verão europeus.

Voando um pouco abaixo do radar, o KoL cresceu e hoje assistir esse show com 5.500 pessoas na Brixton Academy é vê-los num lugar pequeno.

Os ingressos foram pulverizados em 3 minutos no dia do início das vendas e eram vendidos por até 150 libras na porta da Brixton Academy. Ou por por um décimo disso, dependendo dos contatos.

Existe uma grande diferença entre assistir uma banda num festival, naquele show padrão de 45 minutos, e ver o mesmo grupo tocando por quase duas horas, sem se preocupar com quem veio antes ou se apressar para ceder o palco para quem vem depois.

Abrindo com a nova “Crawl”, os irmãos (e um primo) Followill aparentavam estar mais relaxados do que o normal, parecendo até estar gostando do show.

Inexplicavelmente, o KoL faz sucesso independente dos integrantes serem pouco carismáticos — e estarem poucos preocupados com isso.

Cercados por telões, globos e letreiros luminosos, o cenário era mais adequado aos estádios por onde a banda tem tocado na Europa, dando a dimensão do quanto a banda cresceu.

Enquanto em casa, nos EUA, as coisas não andem tão bem assim, o próximo show do KoL em Londres, em dezembro, será na O2 Arena, para 60 mil pessoas.

O vocalista/guitarrista Caleb brincou, ao falar que era bom tocar nos EUA (seguido de uma pequena vaia), mas que “basta um show em casa para nós querermos voltar para Londres”. O público adorou, comemorando com o tradicional e bizarro gesto de jogar para o alto copos de cerveja que custam mais de 10 Reais. Cheios.

A sequência “Milk”, “Four Kicks”, “California Waiting”, “The Bucket” e “On Call” aceleraram as coisas a um ponto que só mesmo a quietinha “Knocked up”, com sua frase hipnótica da guitarra de pegada country, para acalmar o público.

Sem se repetir e com coragem de experimentar, o mais interessante de acompanhar o KoL é que trata-se de uma das poucas bandas dessa geração que vem constantemente melhorando, seja em disco ou ao vivo.

“Only by the night”, quarto disco da banda, sai em mês e a banda já soltou um vídeo com aperitivos (confira abaixo). Se mantiver a curva ascendente, vai chover cerveja em Londres em dezembro.


Um aperitivo de “Only by the night”

O repetório do show na Brixton Academy (as músicas novas em negrito):

“Crawl”
“Black Thumbnail”
“Taper Jean Girl”
“My Party”
“Razz”
“Molly”s Chambers”
“Wasted Time”
“Sex On Fire”
“King Of The Rodeo”
“Fans”
“Arizona”
“Milk”
“Four Kicks”
“California Waiting”
“The Bucket”
“On Call”
“Mcfearless”
“Pistol Of Fire”
“Trani”
“Knocked Up”
“Manhattan”
“Charmer”
“Slow Night, Slow Long”

segunda-feira

21

julho 2008

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Família Kuti

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URBe TV: Seun Kuti & Egypt 80
fotos: URBe Fotos

Talvez antes mesmo do aspecto musical, o Lovebox, festival de dois dias organizado pelos integrantes do Groove Armada, se destaca pela comida. Reunindo algumas das melhores barracas do Borough Market, quase vira uma tarde gastronômica.

No domingo, os shows de Sebastien Tellier (divertido como sempre), Roni Size (fora de lugar e com o som sem pressão), Buraka Som Sistema (sacudindo a gringalhada), Operator Please (tocando numa cabana tosca), Goldfrapp (fraquinha e brega que só ela), Flaming Lips (também com som ruim), equilibraram a equação.

Quem fez a diferença mesmo foi Seun Kuti, filho mais novo do criador do afrobeat, Fela Kuti.

A frente do Egypt 80 desde a morte de Fela em 1997, nessa que foi sua última banda, Seun Kuti prova que não é um mero herdeiro aproveitador.


Seun Kuti & Egypt 80

12 dos 16 integrantes são veteranos das longas noitadas comandadas pelo pai no The Shrine, sua própria casa de shows — diários! — em Lagos, na Nigéria. É difícil imaginar que músicos desse nível aceitassem ser comandandos por qualquer um.

O caminho escolhido por Seun é mais próximo do pai e diferente do traçado pelo filho mais velho de Fela, seu meio-irmão Femi Kuti (que tocou na derradeira edição do Free Jazz Festival, em 2000), vez ou outra acusado de amaciar o afrobeat para ouvidos estrangeiros.

É uma encruzilhada sem solução aparente: se a escolha é atualizar os camihos, é chamado de água com açucar, se a opção for dar continuidade, pode-se facilmente ser chamado de oportunista.

Felizmente, isso não está acontecendo com Seun, cujo disco de estréia “Seun Kuti & Fela’s Egypt 80” está sendo bastante elogiado.

Além do quê, com a leva de afrobeat brotando nos EUA, através do Antibalas, Nomo, Amayo’s Fu-Arkist-Ra ou Ocote Soul Sounds, nada mais justo que o filho do homem também tenha direito a dar sua contribuição.

Durante o show, lembrei da Nação Zumbi e de como seria injusto se não tivessem tido a chance de continuar sem Chico, um direito muito bem exercido por eles. Teríamos perdido uma bela banda e um dos melhores shows brasileiros.

A relação musical de pai e filho no caso dos Kuti, é bem diferente, por exemplo, da dos Marley. Seun toca com a Egypt 80 desde os 8 anos (Femi também) e assim como o pai, foi para Inglaterra estudar música.

Ele tem carisma, energia e talento próprio de sobra, ainda que a semelhança física com Fela (menor que a de Femi) e o jeito de dançar possam criar uma atmosfera saudosista.


Fela Kuti, no Shrine, no documentário,
obrigatório, “Music is a weapon”.

Abrindo o show com uma música de seu pai, “em respeito”, como Seun mesmo disse, suas próprias músicas não ficam para trás.

As frases dos metais grudam na cabeça já na segunda volta, as levadas de guitarra, simples e funcionais fazem a cama para hipnose, enquanto o baixo e a percussão lá na frente vão empurrando o conjunto. A sonoridade solidifica-se na dança das duas vocalistas de apoio.

Se tem um lugar no Brasil onde seria interessante ver esse show acontecer, seria Salvador, talvez fora do carnaval. Seria curioso ver as reações, do público e da banda (Lucas Santtana, dê um alô sobre o assunto!).

Seguindo os politizados passos do pai, letras falam do sofrimento africano e clamam por mudanças. “Quero fazer afrobeat para minha geração. Em vez de ‘levante e lute’, será ‘levante e pense'”, disse em entrevista ao Independent.

É curioso como tanta gente gosta de música politizada, mas poucos gostam de política. Em vez de instigar a consciência, esse tipo de música faz o contrário; como se suprisse a necessidade diária de cada cidadão de se indignar. Como se ouvir um disco bastasse.

Seun Kuti segue lutando para que a música continue sendo uma arma.

sexta-feira

18

julho 2008

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A volta

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URBe TV: The Mars Volta
URBe Fotos

Até você entrar em sintonia com a aparente esquizofrenia que está acontecendo no palco, o show do The Mars Volta é um bocado assustador. Alto, agressivo e confuso.

Não é fácil de digerir a massa sonora, misturando a velocidade do speed metal com divisões de jazz, vocais de Robert Plant com trejeitos de Mick Jagger, ruídos industriais com feedbacks de guitarra, camadas de teclado perfuradas por saxofone, percussão e improvisos quilométricos.

Já haviam dito que Roundhouse, local do show, era uma das melhroes, se não a melhor, casa de Londres. E de fato, é.

Construído dentro de um antigo moinho, o espaço circular (por isso o nome, Roundhouse) oferece uma visão de 180° do palco, possibilitando assistir o show de ângulos normalmente reservados para quem está com uma credencial no peito.

Pena que a programação é muito irregular. Com a demolição do Astoria definida, quem sabe alguns shows não acabam indo parar lá.


The Mars Volta

Passados alguns minutos, um transe coletivo toma conta da platéia. A sonoridade, quase anti-social, não deixa espaço pra respirar. Uma experiência tão intensa que as pessoas quase não se movem.

Liderados pelo guitarrista Omar Alfredo Rodríguez-Lopez e pelo vocalista Cedric Bixler-Zavala, o septeto pode ir do Hurtmold ao Justice, via rock progressivo, em meio acorde.

Quando a apresentação termina, a banda sai do palco sem dizer uma palavra, como no resto do show. Se o recado era de que se tratava de uma das bandas mais originais em atividade, nem precisava falar nada mesmo.

quinta-feira

22

maio 2008

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A primeira vez

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MGMT, “Electric Feel”
fotos e vídeo: URBe

Sob o som de um delicado dueto de flautas, os integrantes do MGMT entraram em cena, um por um, adicionando seus intrumentos ao arranjo e mostrando que o viria a seguir não seria muito parecido com o disco “Oracular Spetacular”.

Ao longo da noite, as muitas referências de Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, da disco ao folk, do pop a eletrônica, foram se desmachando no palco, até uma se sobrepor a todas as outras: o rock psicodélico

As flautas etéreas se revelaram uma comprida introdução para uma versão mais chapada de “Electric Feel”. A partir daí, foi como se o repertório do disco estivesse sendo tocado de trás pra frente, sempre com mais peso na guitarra. O resto dos hits ficaram guardados para o final.

Vestido com uma túnica colorida e faixa no cabelo, apesar de não escrever as letras, o vocalista Andrew VanWyngarden dá o tom do show. New age, neo-hippie e viajandão.

A lista de ingressos para imprensa e convidados, por exemplo, estava atrelada a uma contribuição de cinco libras para uma instituição de caridade escolhida pela banda.

Numa pausa entre as canções, o vocalista VanWyngarden, olhou o Astoria de frente e disse “nunca tocamos num lugar tão grande”. O público parecia tão assustado quanto ele.

Pode ser que o nervosismo, a falta de quilometragem na estrada ou que o som embolado tenham atrapalhado a banda, mas o fato é que muita gente saiu antes do final do show.

Antes de debandar, uma dessas pessoas teclava no celular (impossível não ler aquela telinha azul piscando na sua frente no escuro…) algo como “meu Deus, o MGMT é o pior pesadelo do Pink Floyd”.

A reação é compreensível. Ao vivo, a banda não atende as expectativas pop criadas pelas músicas de maior sucesso de “Oracular spetacular”.

Não que isso seja exatamente uma crítica negativa. Simplesmente, as músicas não surgem tão dançantes e estruturadas como em boa parte do disco.

Certamente, é bem diferente do que se pode esperar — a escolha de tocar uma versão de “Mindless child of motherhood”, do Kinks, não deixa dúvidas disso.

Isso não quer dizer que seja ruim, apenas diferente do que se espera, o que é até bom. Sabendo disso, na segunda vez possa ser ainda melhor.

Depois de saírem brevemente do palco, Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser voltaram, sozinhos, para cantar “Kids” sobre uma base pré-gravada. Em seguida, parte da banda também voltou e tocaram uma música inédita, “Dancing on the beach”.

Num bate-papo rápido após o show (que será extendido numa entrevista, a ser feita nessa sexta), Andrew van Wyngarden disse que estão muito empolgados com a ida ao Brasil, confirmando que irão tocar no TIM Fest.