Stevie Wonder, “Part-time lover”
vídeo: Bruno Natal
A O2 Arena é fria, com cara de shopping americano. O palco fica lá longe e o som (logo o que…), sem grave, não ajudava. Dava pena ver um bandão daquele (duas baterias, naipe de metais, vocais de apoio, percussão, guitarras) soando tão magro, o baixista parecia apenas alisar o instrumento.
O show ia morno, correto, alternando uma música “esquenta o sovaco” com uma “mela cueca” — técnica preferida do grande Tim Maia, como bem lembrou um amigo. Até que no final, uma fila de hits, colados um no outro, mudou tudo.
“Overjoyed”, “Signed, sealed, delivered, I’m yours”, “My cherie amour”, “You are the sunshine of my life”, “I just called to say I love you”, “Isn’t she lovely” e a infalível “Superstition” fizeram valer cada centavo.
Como suas letras, simples e diretas (é só olhar os títulos da músicas, não dá pra ser mais simples que isso), Stevie Wonder faz muito com muito pouco.
URBe TV: Casiokids, entrevista (legendada) + “Togen hule” ao vivo
Esse Casiokids foi uma das melhores coisas que vi esse ano. Em termos de música eletrônica ao vivo, fica lado a lado com o Soulwax. É muito bom ver um show em vez de assistir um sujeito no laptop.
Bati o olho num EP independente deles na na Rough Trade um tempo atrás, achei o nome curioso, mas não comprei na hora. Quando voltei, já tinha acabado. Procurando por links no Rapidshare, Zshare, Hype Machine e Google não achei anda. Sei lá como esses caras fizeram pra esconder as músicas deles on line hoje em dia.
Nem vale a pena tentar definir o som do Casiokids. Tem referências bem diversas, de música africana a eletrônica maximalista. A galera no palco e a quantidade de teclados lembra o Hot Chip; a pegada alucinada de pista o Soulwax; os ruídos eletrônicos o Late of the Pier; o teatro de sombras, as cabeças de papel machê e o monstro vermelho que invade a platéia, o Flaming Lips.
A música da vídeo entrevista que abre o texto é “Togens hule”, mais calminha, logo na abertura do show. O encerramento foi com o coice “Fot i hose”, clica aí em cima e sente a pressão. A verdade é que estava querendo tanto ver esse show que filmei logo a primeira música pra ficar quicando o resto da noite.
Nervosa como se estivesse diante da platéia mais importante da sua vida, Ladyhawke fez uma apresentação gratuita (e bem curta) na loja Pure Groove.
Ao vivo o som perde as exageradas referências oitentistas, melhorando bastante. A australiana acertou ao escolher se apresentar com uma banda em vez de apenas soltar bases eletrônicas.
Há um certo exagero nos efeitos e vocais de apois pré-gravados disparados pelo baterista. Nada que prejudique o show, surpreendentemente bem melhor do que o disco faz parecer. É que fica aquela cara de que não dá conta de fazer ao vivo.
O Digitalism passou pelo Astoria e dessa vez fez um show um pouco diferente dos anteriores, testando algumas coisas que provavelmente estarão no disco novo.
O duo funciona melhor em disco do que ao vivo. Com uma certa tendência a fanfarronice, o show é irregular, por vezes exagerando nos ruídos. As produções são bem boas, de qualquer maneira e garante bons momentos com “Zdarlight”, “Pogo” e “Anything new”.
Foi um dos últimos shows do Astoria, que será demolido no final do ano como parte das obras de ampliação da estação de metrô de Tottenham Court Road. Os abaixo assinados e o fato do prédio ter mais de 100 anos não foram capazes de altera a decisão.
Com 2 mil lugares, ao longo dos anos foi um um dos lugares favoritos de bandas estabelecidas para fazerem shows menores. Passaram pelo palco nomes como: Radiohead, Nirvana, Rage Against the Machine, Amy Winehouse, Justice, Kaiser Chiefs, Metallica, Arctic Monkeys, Muse, Blur, Franz Ferdinand, Supergrass, Foo Fighters, Kasabian, The Libertines, Megadeth, Oasis, , Green Day e muitos outros.
A frase do título bem poderia ser de um adolescente, trancado num quarto, reclamando dos pais e de como ninguém entende seus discos de metal. Mas não. A surpresa é que quem não entede nada são os próprio caras do disco de metal rodando no suposto quarto.
O Metallica anda tentando tirar o atraso com a internet, se reaproximando dos fãs, após ter inaugurado a perseguição legal aos usuários que baixavam suas músicas, ao processar o Napster, oito anos atrás. E continua bem longe de atingir esse objetivo.
Como parte do lançamento do novo disco, “Death magnetic”, o grupo fez um show a 5 libras, na O2 Arena, com venda somente mediante cadastro no Mission Metallica.
Pode se questionar o simples fato de cobrar por show para fãs entitulado “festa de lançamento do ‘Death magnetic'”, porém ser mesco e exigir as 5 pratas, como quem diz “paga pelo menos alguma coisa aí”, é um direito deles. Parece que a renda era revertida para alguma caridade.
A total falta de sintonia com os novos tempos ficaria mais evidente quanto, lá pelas tantas, o vocalista James Hetfield olhou para platéia e disse (com base no que anotei imediatamente):
“Tenho algo para falar… Guardem a merda das câmeras, guardem os telefones. Vamso aproveitar o metal, ok? Vocês podem ligar para mamãe mais tarde. Colocar um vídeo de merda de algum momento do Metallica no YouTube não vai te deixar famoso. Aproveitem esse momento, certo?”
Constrangidos, as luzes azuis das telinhas da câmeras dos fãs sumiram do horizonte na hora, reaparecendo logo em seguida, em “One”.
Apesar de parte do ponto ser válido — a preocupação em guardar o show pra posteridade caseira muitas vezes faz com que se perca o momento enquanto ele acontece — seria de se pensar que após tantos fiascos o Metallica teria aprendido alguma coisa.
Do que será que eles tem tanto medo? Porque a internet os assusta tanto? O desconhecimento é tanto que eles sequer entendem que a maior parte daqueles vídeos sequer vai sair dos cartões de memória, são feitos para uso pessoal. Para atingir a meia-dúzia que tanto os irritam, esses malditos seres conectados, alienam o resto do fãs.
O Zarapas, autor do vídeo que ilustra essa resenha, apontou que o Metallica não está tão alheio ao mundo on line assim. “Eles tem um saite bom pra cacete, com conteúdo fresco quase diariamente, fizeram uma estratégia de lançamento do disco na internet legal, foram pioneiros na distribuição de shows ao vivo (antes mesmo do Pearl Jam), enfim, tem um business bem feito”.
Verdade, tem mesmo. O que pega é que eles só se interessam pelo aspecto de negócios (novamente, um direito deles), desconsiderando o fator social, o mais importante da revolução digital. Ao dar esporro em fãs que estão simplesmente compartilhando informação, se isolam das novas gerações, que quando querem ouvir barulho, certatmente não procuram pelo Metallica. Tá mais fácil irem atrás do Justice.
É triste ver uma banda se comportando dessa maneira, principalmente porque a música tem sido um dos principais fatores na transformação social provocada pela internet, sempre a frente nos experimentos de novas formas de distribuição de conteúdo ou de relação com o público.
Produzido por Rick Rubin, “Death magnetic” tem sido exaltado como um retorno a boa forma da banda que levou o metal ao grande público. Uma boa notícia depois do desastroso “St. Anger”, que de bom mesmo, rendeu apenas o documentário “Some kind of monster”.
A primeira metade de “Death magnetic” soa mesmo como se pudesse ter sido gravado em seguida a “Ride the lightning” ou “Master of puppets”, nos anos 80. O único problema são os 20 anos de atraso. A ausência da molecada no show lotada ilustra o quanto a banda envelheceu.
Como um pastiche deles mesmos, enfileiraram músicas menos óbvias — supostamente para agradar aos fãs — ao lado dos clássicos, sem nunca conseguir fazer o show embalar. Parece tudo muito falso, embora escutar “For whom the bell tolls” ou mesmo “Of wolf and man” ao vivo dificilmente possa ser ruim.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.