A noite de encerramento do Novas Frequências não estava programada para acontecer exatamente como aconteceu. A atração inicialmente divulgada era o guitarrista Mark McGuire (do Emeralds), que cancelou sua vinda, em cima do laço. Ainda que tenha feito bastante falta (era o que mais queria ver), a solução encontrada acabou por enriquecer o festival, adicionando atrações brasileiras – Pazes e Psilosamples – numa programação que antes só trazia nomes internacionais.
Infelizmente, atrações brasileiras não causam o mesmo frenesi no público (porque sempre dá pra ver depois? Vai saber…) e o domingo foi também a noite com menos procura por ingressos. Estava cheio, porém não houve a disputa por entradas que se viu nas outras datas. É uma pena. Quem não foi, perdeu a chance de conferir ao vivo dois caras que não, não dá pra ver depois tão facilmente assim, porque raramente passam por aqui.
O brasiliense Pazes, por exemplo, nunca tinha se apresentado no Rio. O moleque quebrou tudo. Seguindo a linha sonora da beat scene angelina, capitaneada por Flying Lotus (e seu hip hop instrumental e viajandaço), Pazes esgarça o espaço artificialmente através de reverbs e delays (como no pós-dubstep dos ingleses Burial e James Blake) e esquenta as coisas com uma estética lo-fi, com camadas de “sons naturais” criadas – atenção para o paradoxo – no computador.
Apresentando-se com um laptop, controladores e um microfone, Lucas Febraro reconstruiu ao vivo suas produções, como a versão de “Sétimo Andar”, do Los Hermanos. Bastante derivativo do que tem sido feito mundo afora, sim. Porém, hoje “o mundo” está (é?) em rede, e fronteiras geográficas fazem cada vez menos sentido. Pazes está alinhado com o que está sendo feito no exterior, sem deixar nada a dever.
O mineiro Psilosamples, por sua vez, faz música eletrônica sampleando elementos da música brasileira, drum n bass com tamborins, 2×4 com sanfona. Criativo e original, porém sem o apuro técnico demonstrado pelo Pazes. Agora que já se encontraram no palco, quem sabe um não influencia o outro.
A primeira coisa que chama atenção no Com Truise é o nome familiar. A graça se desfaz quando se ouve os primeiros acordes do funk digital mid-fi produzido pelo designer Seth Haley (“um lo-fi que dá pra tocar no rádio”, explicou em entrevista para o doc-curta sobre lo-fi e chillwave “The Rise of Lo”, que estou fazendo com o Chico Dub – em breve nas melhores internetes do ramo),
O Com Truise consegue transformar timbres e possibilidades dos sintetizadores mais cafonas dos anos 80 em algo classudo. Não é pouca coisa. Música de videogame (lembro da trilha de “Castelvania IV” sempre que ouço) com pegada sci-fi, retro-futurismo oitentista noir, indicado no clipe de “Brokendate”.
Atração mais aguardada e a primeira a ter os ingressos esgotados no festival Novas Frequências, provavelmente por ter o som mais acessível ou próximo do pop, Com Truise fez por merecer a atenção recebida. Ao vivo, descosnstrói e reconstrói as músicas através de um sintetizador e dois controladores, substituindo as batidas programadas por um baterista ao vivo, utilizando algumas programações por cima.
Quem esteve no pequeno teatro teve uma grande chance de ver bem de perto. O Com Truise pode crescer bastante, basta saber até que ponto Seth Haley quer levar o projeto.
Poucas vezes o 4×4 do techno soa tão macio quanto na batucada afro filtrada pelo dub do inglês Andy Stott. Citando Jeff Mills, o selo Basic Channel, Square Pusher, Autechre, garage como referência, é exatamente uma mistura disso tudo que ele apresenta.
O live apresentado poderia tranquilamente ter acontecido em algum clube londrino em uma festa de bass (como a Dublime), é feito para as pistas de dança – bom, ao menos para aquelasque curtem dançar em câmera lenta, amassada por graves.
Num caminho inverso do Sun Araw, que esconde a pulsação do grave, Andy Stott mantém as texturas, colagens, estalos, ruídos e fragmentos de vocais sampleados escondidos sob pancadas de baixa frequência, servindo como isca para o transe do ouvinte.
As cadeiras do teatro chacoalharam, literalmente, num ambiente soturno, melancólico e reflexivo. Meditação grave das melhores.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.