Garoto prodígio da cena bass brasileira, o paulistano de Jundiaí, Diego Augusto dos Santos, de apenas 20 anos, vem fazendo chover pedra. Fã de drum and bass, Sants começou a produzir em 2007, quando tocava em festas na zona Leste de São Paulo.
As batidas de hip hop especiais, socadas por graves animalescos, podem tanto ser chapadas, pra ouvir de fone, quanto próximas ao trap, voltadas pra pista. Entre sua influências, ele cita os sons filtrados por selos como Hyperdub, Soulection e HW&W, kuduro, moobathon, ghettotech e zouk.
Suas escolhas de samples são mais ecléticas. Buscando ligações pessoais com cada som que resolve reprocessar, a lista de nomes é extensa, indo de Deodato a Red Hot Chilli Peppers, Lonnie Liston Smith a Cassiano, Hugh Maseketa, Hiroshi & Claudia e Yma Sumac a Novos Crioulos. É essa escolha pessoal que imprimem personalidade na sua interpretação num estilo de produção tão internacional quanto internacionalizado.
Sants acabou de lançar seu sexto EP, “Low Moods”. A qualidade segue em alta e o rapaz está apenas começando.
O gosto comum por pop eletrônico, Nite Jewel, The Knife, pela trilha sonora de “Blade Runner” e pela cultura nipônica aproximou Maria Luiza Jobim e Lucas de Paiva. Decididos a compor juntos, “vomitando ideias para depois tentar decifrar os significados e reconstruir as músicas em cima dessas interpretações”, como dizem, formaram o Opala, que se apresenta pela primeira vez domingo, às 21h, na Comuna (veja na agenda abaixo). O EP de estreia, homônimo, recém lançado, já rendeu inevitáveis comparações com The XX devido aos vocais sussurrados e bases pra se ouvir na horizontal.
— Descobrimos uma química que vinha muito das nossas referências em comum — diz Luiza.
Lucas complementa:
— Tento fazer coisas que ela gosta. Gostamos muito da ideia de fazer músicas meio aquáticas e (retro) futuristas, mas isso não é calculado. Temos também uma obsessão pelo Japão.
Longe dos palcos desde que, em abril de 2012, saiu da Baleia, banda que fazia versões jazz de sucessos pop, Luiza diz que usou o tempo para se reaproximar das próprias influências.
— Fui buscar minhas referências mais antigas, além do jazz: eletrônica, o rock da minha adolescência, White Stripes, Radiohead, Muse, synthpop — conta ela. — Cantei na música do Júlio Secchin, “Night light”, que se assemelha com o que estou fazendo hoje . Conheci o Lucas e conseguimos traduzir esse processo nas nossas músicas.
Lucas tem se destacado como produtor, tanto pelos trabalhos com SILVA e Mahmundi, quanto por seu projeto solo, People I Know e o coletivo Epicentro do Bloquinho. O desafio é imprimir diferentes personalidades em cada um.
— Meus trabalhos costumam ser um reflexo do que eu tenho em minhas mãos naquele momento. Metade do equipamento que estou usando hoje são coisas que fui adquirindo conforme o disco do Opala foi sendo feito — diz Lucas. — Quando a gente começou o EP, não tinha o sintetizador que tenho hoje. Muita coisa que fiz no passado foi com equipamentos emprestados.
O som tem uma onda intrinsecamente preguiçosa. Como é usual nesses tipo de projeto, a transição para o palco pode ser complicada.
— Temos dois modelos de apresentação. Um é menor, apenas nós dois, onde canto, Lucas solta as programações e toca os sintetizadores, e tentamos executar o máximo que quatro mãos conseguem. O maior tem uma banda , com um guitarrista e baixista. No show deste domingo, optamos por um meio termo e chamamos a Marcela Vale (Mahmundi) pra tocar guitarra e fazer segunda voz — diz Luiza.
Para a questão se o Opala é um projeto temporário ou uma banda pra construir carreira, Luiza tem a resposta.
— Tem dado certo, está ficando com a nossa cara. O Opala é um dia de cada vez (risos).
—
Tchequirau
O garoto Sants lançou seu segundo EP. “Low Moods” serve tanto pra pista quanto para os fones de ouvido, a referência continua sendo a bass. Influenciado por suas passagens pelo Rio, tem música homenageando a Comuna e participações de Cybass e Gorky (Bonde do Rolê).
Completando um ano de existência, a festa Kick Boom, dos residentes Cybass e SkullB, traz o DJ Sants direto de Jundiaí pra tocar na comemoração, no próximo dia 23 de maio, no Fosfobox. Com apenas 20 anos, Sants é apontado como um dos novos nomes da cena bass brasileira.
— Comecei a produzir por volta de 2007, tocando em festas de garagem, na zona leste de São Paulo e na Bahia também, onde rolava drum and bass — conta Diego Augusto dos Santos, nome verdadeiro do DJ Sants. — Logo comecei a produzir e pessoas como o Chico Correa foram essenciais no processo de reflexão de como queria me apresentar. Ele foi um dos primeiros caras quue vi usando um computador com mesa de efeito e sequenciadores numa apresentação ao vivo.
Suas produções refletem a fase de drum and bass, o período em que caiu dentro do ghettotech e a atual, em que está ouvindo coisas mais introspectivas, com menos sintetizadores e mais groove e melodia. Seu EP de estreia, “Soundies”, foi difundido por blogues e aproximou Sants de nomes estabelecidos na cena, como Apavoramento e Wobble no Rio e a Metanol.FM em São Paulo.
— Esse tipo de retorno é o mais prazeroso porque em nenhum momento eu fiz isso buscando agradar ou ser hype. A parada rolou muito na brincadeira, no meu quarto, regurgitando aquilo que ouvia o dia inteiro, misturado com as minhas referências de adolescência. E as pessoas enxergaram o que eu quero dizer, então é significativo.
— Não produzi com muitas pessoas que não sejam próximas ou com as quais não tenha ao menos referências e gostos em comum. Tenho curiosidade de sair dessa gama por um tempo, trampar com gente que não faz idéia do que é bpm, loop, sidechain. Muitas vezes a gente acaba colocando esses termos técnicos na frente do groove sem nem perceber.
Fã do hardcore continuum ao ponto de dizer ter ouvido o catálogo da Hyperdub inteiro, ghettotech, kuduro, moombahton, zouk, Sants diz que hoje está em busca do groove. nos lançamentos da Soulection e da HW&W. Ao vivo ele se apresenta com laptop e uma controladora.
— Já sampleei Deodato, Hugh Maseketa, Hiroshi & Claudia, Darondo, Oddisee, Lonnie Liston Smith, Novos Crioulos, Red Hot Chili Peppers, Mercury Program, Cassiano, Sadakazu Tabata & Avantgarde10, Yma Sumac, Eddie Harris, a lista é longa. O que mais importa no sample para mim é a minha ligação com ele, sempre. Normalmente está ligado aos momentos que a gente passa ouvindo essas músicas e ao que acontece durante esse período, seu cérebro acaba fazendo essa bendita ligação cognitiva entre o sample e aquela época.
É justamente esse aspecto pessoal, acredita Sants, que tem chamado atenção nas suas músicas.
—Minhas composições brincam, não são expressões muito sérias ou fanfarronas, são apenas momentos, fotografias, reflexo daquilo que eu entendo sobre mundo até agora. Não sou culto, erudito. Nunca fui o cara que lia Bukowski ou curtia Tecnotic quando ninguém nem sabia o que era. Peguei a fase média desses gêneros: o dubstep na época do Burial, o drum and bass do Marky. A mesma coisa se aplica aos meus gostos pessoais: não curto coisas muito indigeríveis ou subjetivas, por mais belas que elas sejam, vai soar redundante na minha visão. Tem que existir um apelo de imagem, algo que você consiga criar um laço, uma identificação forte.
Sants enquadra suas referências pessoais como algo geracional, parte de uma espécie de consciente coletivo.
—Minha geração não cresceu convivendo entre grupos sociais. Até os 16 anos a gente só sabia ver TV, jogar videogame e usar a internet. Isso acabou sendo o nosso maior espelho cultural. Saímos dessa esfera e começamos a lidar com o mundo extra-cibernético. Quando o caminho inverso ocorre, não há deslumbre ou supresa. Todos viveram as mesmas coisas na internet. Todo mundo jogou Tony Hawk Pro Skater quando tinha entre 10 e 14 anos e na mesma época pegou gosto por coisas muito similares as minhas, musicalmente falando. Você vai percebendo parâmetros se repetindo, até chegar ao que a gente tem hoje.
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Tchequirau
O ex-ministro da defesa do Canadá mandou a letra: existe ao menos quatro tipos diferentes de extra-terrestres vivendo entre nós, ao menos dois trabalhando com o governo dos EUA. Eis que todos filmes de ET hollywoodianos possam na realidade se tratar de documentários.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.