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setembro 2005

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rraurl, 26/09/2005

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Cobertura do Nokia Trends 2006, que escrevi para o saite rraurl.com.

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Asian Dub Foundation foi destaque da noite

“Há males que vem para o bem”, diz o ditado. Faltando poucos dias para o Nokia Trends 2005, a cantora Roisin Murphy (ex-Moloko) cancelou sua apresentação no evento. O que poderia ter sido um problema e tanto para produção tornou-se no maior trunfo da etapa carioca do NT. Tudo porque a vaga aberta na escalação foi preenchida pelo Asian Dub Foundation. Os ingleses, chamados de última hora, acabaram ofuscando todas as outras atrações presentes no Armazém 5 do Cais do Porto, tomando de assalto os 8 mil presentes (dados da assessoria de imprensa do evento).

Antes do auge da noite, outros nomes também fizeram bonito, como a parceria entre o Apavoramento Sound System e o cantor e compositor Fausto Fawcett (logicamente, Fawcett não estava sozinho e apresentou mais uma de suas loiras). Logo depois, o DJ Zé Gonzalez abriu os trabalhos no palco live, com um set misturando clássicos do hip hop, “Shout” (Tears for Fears), “Hipnotize” (Notorious BIG), “Drop it likes it’s hot” (Snoop Dogg), “We will rock you” (Queen) e “Black in black” (AC/DC).

Na platéia, o produtor brasileiro radicado nos EUA, Mario Caldato Jr. — responsável, entre outras coisas, por algumas das mais conhecidas batidas dos Beasties Boys e também por discos de Jack Johnson — assistia o amigo tocar para os poucos presentes.

Às 23h30, com o galpão ainda vazio, o americano Money Mark subiu ao palco. Mais uma das muitas figuras conhecidas como “o quarto Beastie Boy” (Mixmaster Mike e o próprio Mario C são outras), o tecladista Money Mark tocou nos discos “Check your head” e “Ill communication” do trio.

Quem esperava algo próximo do hip hop, entretanto, se surpreendeu. Mark começou tocando teclado Rhodes e gaita sobre uma base programada e depois pegou uma guitarra e continuou acompanhado por outra guitarra, baixo e bateria. O show de rock causou estranhamento num festival supostamente de música eletrônica e não empolgou. Caldato ainda tocou baixo, como convidado em uma música.

Notando o público desanimado, inclusive gritando “toca Raul!”, Mark deu a dica: “acho que o Human League está tocando ali ao lado”, se referindo ao espaço que transmitia, ao vivo, as atrações da parte paulista do Nokia Trends.

Durante a troca de palco para entrada do Asian Dub Foundation, o carioca Zégon voltou aos toca-discos, dessa vez contando com a boa participação do rapper paulista Xis, em mais uma interação Rio-São Paulo do evento.

Quando o Asian Dub Foundation começou a tocar, por volta de 1h, o Armazém já estava cheio. Não demorou muito para o grupo levantar a platéia, principalmente com o carisma do trio de vocalistas, mas também com a potência do baixo de Dr. Das, pela guitarra alucinada de Chandrasonic e as bases do DJ Pandit G. A mistura de rock, dub, drum and bass e ritmos indianos é irresitível.

Entres os vocalistas, uma novidade em relação a última passagem da banda pelo Brasil: Lord Kimo substituiu Aktavatar. O motivo é simples. Desde a saída de Deedar Zaman, o posto de vocalista é rotativo, sendo sempre exercido por alunos de destaque da ADFED, escola de música mantida pelo Asian Dub em Londres. Nessa nova formação, além de Kimo e Spex, que continuou no posto, o rasta Ghetto Priest juntou-se a eles. Descendente de jamaicanos, o reggaeman passou pelo African Head Charge antes de lançar um disco solo pelo selo O-U-Sound, ambos de responsabilidade de Adrian Sherwood.

Fã do Sherwood, do African Head Charge e parceiro do ADF, Marcelo Yuka assistiu tudo bem de perto. E uma das coisas que ele assistiu foi uma falha no sistema de som que fez com que o show tivesse que ser interrompido por alguns minutos. O baixista Dr. Das não conseguia ouvir seu instrumento no retorno. Mesmo após resolvido o problema no palco, a qualidade de som que o público ouvia também não era das melhores. Graves distorcidos e médios e agudos embolados eram a prova de que o PA não deu conta da pressão do ADF. É verdade que o teto de zinco do Armazém também não ajuda. Problema recorrente, talvez se a produção investisse parte do dinheiro que gasta para enfeitar o lugar em algum tipo de tratamento acústico melhorasse um pouco.

O ADF passou por cima dos problemas e continuou avassalador. Em português, dedicaram uma música ao brasileiro Jean Charles de Menezes, “uma vítima da polícia britânica”. “Take back the power”, “Naxalite”, “Fly over”, “Fortress Europe” (essa com direito a um rewind ao vivo de fazer inveja a muita banda jamaicana), agradaram bastante.
O estrago foi tão grande que ficou difícil pra quem veio na sequência. Mesmo sendo a dupla Audio Bullys. Enquanto Tom Dinsdale cuidava das bases, Simon Franks, tomando uma cerveja, largou os vocais de “Shot you down”, remix de “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, da Nancy Sinatra, que ficou famosa através da trilha sonora de “Kill Bill”, de Quentin Tarantino. A chuva de hits, parecia, iria começar.

As músicas mais conhecidas do Audio Bullys, no entanto, ficaram praticamente de fora do set. Isso porque Simon somente ameaçava cantar músicas como “We don’t care” ou “Real life”, falando apenas parte do refrão sobre bases tão alteradas em relação as originais que ficaram praticamente irreconhecíveis. A qualidade do sistema de som, mais uma vez, também não cooperou. Uma pena.

Simon deu uma descansada nos vocais e Tom enveredou por batidas mais retas, perdendo a pegada. Quando o vocalista voltou, as coisas melhoraram novamente, com “Break down the doors”, faixa de Erick Morillo que conta com a participação dos Bullys e citação a “All Along The Watchtower” (Bob Dylan, eternizada por Jimi Hendrix).

O vocalista, simpático, até tentou se comunicar com a platéia, mas além da língua, a enorme (e inexplicável) distância entre o palco e o público, uns 12 metros, dificultou a interação. O Audio Bullys terminou a apresentação exatamente como começou, tocando “Shot you down”, o que de certa maneira resume a impressão geral do set, um pouco repetitivo.
No espaço virtual, com transmissão em tempo real das atrações de São Paulo, o clima era outro. Com as luzes acesas e o som baixo, o lugar virou uma espécie de boate focada na azaração, com as pessoas dando pouca atenção ao que estava tocando. Bom que, ao menos assim, quem de fato queria assistir os shows no palco principal não era obrigado a levar esbarrões da macharada sem camisa ou pisões no pé das dondocas de salto.

Depois do deep house do finlandês Luomo, Simon ainda voltou ao palco fazendo uma participação no bom set do X-Press 2. Mais pesado do que se esperava, o set poderia ter sido um aquecimento para Carl Craig.

Já estava claro e a pista estava cheia aguardando o Detroit Techno de Craig, mas o americano acabou se perdendo entre muitas variações e longas mixagens, desagradando quem esperava batidas mais fortes. A pista foi esvaziando lentamente, até restarem cerca de 500 pessoas para conferir a próxima atração.

Quem ficou até o final do evento, viu o Mau Mau iniciar seu set as 8h da manhã pra uma pista empolgada, porém cansada da maratona que já durava 10 horas. Mesmo assim, o brasileiro só parou quando desligaram o som. E tinha gente querendo mais.

fotos: Carol Mariotto

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