quarta-feira

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outubro 2003

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OutraCoisa, Out/03

Written by , Posted in Imprensa

Por que não música?
(artigo originalmente publicado no saite Comunique-se)

Música, depois do futebol, é o principal produto cultural de exportação do Brasil. Lá fora, quando se fala que é brasileiro, mencionam um jogador ou um músico, não tem jeito. Porém, no jornalismo tupiniquim a música é tratada com desdém.

Tirando as reportagens dos cadernos culturais dos grandes jornais, seus (poucos) repórteres especializados e outras raras exceções, não existe espaço para o assunto.

Difícil acreditar que isso seja devido à falta de interesse dos brasileiros. Além do aspecto cultural, o consumo de música por aqui é alto. O Brasil é um dos dois únicos países onde se vendem mais discos de artistas nacionais do que internacionais. O outro é os Estados Unidos.

Os mesmos números que comprovam o interesse parecem querer desmentir quando se trata do mercado editorial. Enquanto as revistas Caras, Quem, Istoé Gente e Chiques e Famosos têm, somadas, uma tiragem semanal aproximada de 675 mil exemplares, praticamente não existem revistas de música por aqui. Pelo menos não em números tão expressivos.

Após o fim da Bizz, o que restou foram publicações em escala bem menores, geralmente locais e com pouca distribuição. As maiores hoje são a Revista da MTV, que conta com o poderoso apoio da irmã televisiva na divulgação, e a Zero, de São Paulo, difícil de ser encontrada mesmo no Rio. Imagina em outros estados.

A julgar por esses dados, a conclusão lógica é que o brasileiro só se interessa mesmo é por fofocas e detalhes da vida dos famosos. Mas o fim da Placar, que tratava do assunto preferido do país, mostra que a verdade por trás disso tudo não é bem essa.

Parte do problema deve-se à falta de investimentos no setor. No meio impresso, as partes interessadas na existência de um veículo que trate do assunto – leia-se rádios, gravadoras, etc. – preferem botar dinheiro em seus próprios departamentos de imprensa ou na criação de veículos próprios.

Por que? Simples, assim asseguram o conteúdo sempre elogioso no que se refere aos seus produtos. Coisa que nem sempre os assessores de imprensa conseguem arrancar dos jornais e revistas.

Enquanto o fim da Placar deve-se muito ao fato de os jornais fazerem uma cobertura diária à altura – uma covardia com uma revista quinzenal – no caso da música é o contrário. Não existe interesse das empresas em investir neste tipo de profissional porque podem pegar este material pronto das gravadoras.

Não é necessário uma editoria especial, basta um jornalista capaz de transformar releases em textos jornalísticos. Pro diabo com apuração e isenção, o que interessa é economizar.

Na televisão essa questão fica ainda mais clara. Esse tipo de especialização simplesmente não existe. É um tal de repórter de qualquer editoria, de terno, fazendo matérias em shows de rock, depoimentos de grandes artistas que se perdem por falta de conhecimento do entrevistador… É de doer.

Talvez porque eventuais mancadas acabem passando despercebidas. O repórter até pode chamar um artista de MPB de punk que a sonorização da matéria provavelmente vai desmentir. Como a questão é música, o som acaba falando mais alto.

O público leitor de música, além de grande, é especializado. Tanto quanto o de esportes. Estranho este dado continuar não sendo levado em conta.

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