terça-feira

17

julho 2007

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Na contramão

Written by , Posted in Música

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foto: Caroline Bittencourt

Esse texto sobre a pausa do Los Hermanos foi originalmente escrito para Rolling Stone, assim como uma resenha do três shows de despedida na Fundição Progresso. Como a revista, por achar suficiente, decidiu publicar apenas a crítica, disponibilizo o texto no URBe.

A biografia do Los Hermanos é repleta de marcos e rupturas. O “recesso por tempo indeterminado” é somente mais uma dessas decisões quixotescas (ou românticas ou polêmicas) que parecem acompanhar a trajetória da banda.

Criada num período de mudanças e transições na indústria fonográfica, do sucesso nas rádios à internet, o Los Hermanos se destacou nas duas realidades.

Uma das últimas bandas a estourar via fitas-demo, em cassetes (hoje extintas, substituídas por CD-Rs e MP3), o Los Hermanos também protagonizou o primeiro grande vazamento de músicas de um artista brasileiro na internet, quando os ensaios do que viria a ser “Ventura” caíram na rede sob o nome “Bonança”, título do disco à época.

O quarteto sempre andou na contramão. Esse é um dos principais motivos da banda colecionar tantos seguidores, encantados com a postura independente, quanto desafetos, enfezados com a rebeldia calculada. Fazia tempo que um grupo não despertava sentimentos tão díspares e intensos no público.

Dispostos a construir uma carreira, optaram pelo caminho mais difícil. “Anna Julia”, sucesso responsável pelas 350 mil cópias vendidas do primeiro disco, foi sacada do repertório dos shows, numa escolha até hoje mal interpretada como renegar a música.

Arriscaram-se novamente no segundo disco, o cultuado “Bloco do eu sozinho”. De sonoridade pouco comercial e sem o apoio da gravadora na divulgação por considerá-lo “difícil”, “Bloco…” reconstruiu e catalisou o atual fiel público da banda.

Durante dez anos, as escolhas se provaram corretas. Se nunca mais atingiram a vendagem da estréia (marca raramente obtida no mercado de lá pra cá), ganharam respeito. Tudo isso enquanto compunham canções de letras de fácil identificação e arranjos originais, aproximando o rock e a mofada MPB.

O terceiro disco, “Ventura”, mais palatável, expandiu a base de fãs, levando o Los Hermanos, entre outras coisas, a ser atração principal num dos palcos da primeira edição do internacional Tim Festival, com os norte-americanos do Lambchop fazendo o show de abertura, prática pouco comum no Brasil.

O contemplativo “4”, outra guinada artística, recebido com ressalvas pela crítica, de acordo com os números divulgados pela gravadora, vendeu mais que o antecessor.

Agora a história se repete. As vésperas de entrar em estúdio para gravar seu quinto trabalho, contrariando as expectativas, o Los Hermanos desiste de cumprir a cartilha mercadológica que pede um disco de carreira a cada dois anos, puxa o freio de mão e pára pra repensar a carreira.

Embora a pausa anunciada, com direito a shows especiais de despedida, possa soar contraditória, os motivos dessa decisão foi tratado som sigilo, somente entre os integrantes e seu círculo de amizade. Para os fãs, restou a surpresa.

O quarteto, já pouco afeito a aparições na imprensa, coerentemente calou-se, deixando muita gente sem entender nada. A pergunta mais repetida nos últimos meses foi: o Los Hermanos acabou de vez? A resposta oficial é “não”.

Como os integrantes da banda, fora uma ou outra declaração frisando que “recesso é recesso”, se esquivaram de se aprofundar no assunto, criou-se margem para especulações, quase todas de cunho negativo. “Recesso é eufemismo para o fim”, “deixaram a janela propositalmente aberta para voltar com um Acústico”, “Camelo e Amarante brigaram, por isso não querem falar”, “crise criativa”.

Alheios às adivinhações, os integrantes seguem caminhos separados. Em se tratando de Los Hermanos, qualquer previsão é furada.

Para Rodrigo Amarante, o futuro começou dois dias depois, na estréia da temporada de lançamento do primeiro disco da banda de baile da qual faz parte, a Orquestra Imperial. Fala-se ainda em uma participação no disco de Devendra Banhart.

Gravado como compositor por Maria Rita e produtor do disco do seu tio, o ex-Tamba Trio Bebeto Castilho, Marcelo Camelo participou da gravação Acústico MTV de Sandy & Junior, pouco antes dos shows de despedida.

O baterista Rodrigo Barba entrou em turnê com a banda de hardcore carioca Jason, além de tocar com o Latuya, enquanto o tecladista Bruno Medina segue escrevendo em seu blogue. O tempo dirá se as músicas da banda serão tratadas como “Anna Julia” em eventuais carreiras solo dos quatro músicos.

Se não é o fim da banda, é o final da primeira fase. Com tanta gente tentando chegar lá, o Los Hermanos resolve parar. No último show, Barba vestia uma blusa do Autoramas, o que remete a renovação.

Talvez, esse refluxo gere espaço para outras bandas, com potencial para agradar o mesmo público. De Mombojó e Moptop, aos ex-Acabou la Tequila Nervoso & os Calmantes, Kassin e seu projeto +2, passando por Móveis Coloniais de Acaju, Wado, Cidadão Instigado e Lucas Santtana. Herdeiros não faltam.

Longevidade nunca esteve diretamente ligada a qualidade musical, a história está cheia de exemplos pra comprovar. Ser grande também é saber a hora de se sair de cena. Seja um gesto calculado ou uma decisão sincera. Depende de quem está interpretando.

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