sexta-feira

14

setembro 2007

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Entrevista – Autoramas

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Aproveitando o show de lançamento na Sala Baden Powell, no Rio, do seu quarto disco, o excelente “Teletransporte”, quarto disco do Autoramas, o URBe conversou com o Autoramas.

Considerado uma das figuras mais atuantes da cena independente brasileira, Gabriel falou sobre a produção do disco e bastante sobre a cena alternativa no Brasil. O baterista Bacalhau e a baixista Selma Vieira apareceram após a passagem de som e também falaram um pouco.

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Mais do que trazer apenas boas canções, “Teletransporte”, é um bom disco, principalmente pelas composições. Talvez possa ser considerado o primeiro na discografia do Autoramas realmente bom de ponta a ponta, redondinho. Qual a sensação de vocês em relação a ele?

Gabriel Thomaz – O que dá essa arredondada é que cada música segue um caminho, tem uma característica própria, diferente uma da outra, e essa característica de cada música foi trabalhada uma a uma. A gente não teve uma pilha de fazer um lance conceitual, um lance de “o nosso som é esse e todas as músicas são assim”, sabe, como o primeiro disco é, por exemplo, uma fórmula: baixo com distorção, guitarra com efeitos vintage, bateria mais surf [music], as letras com a mesma temática.

Com esse é completamente diferente. Até tem coisas que acho que gente já fez antes, que não é a primeira vez, porque já é da banda. Agora, muitas outras coisas que a gente queria fazer e não conseguiu realizar antes, agora tem. Então, cada uma das 14 músicas, cada uma é de um jeitinho e todas elas tiveram o mesmo cuidado individual, uma diferente da outra. Pra gente foi até difícil fazer a ordem do disco, nunca chegava numa ordem em que uma música levava à outra.

Mas de maneira geral acabou rolando isso, né, essa unidade. Os três discos anteriores tem altos e baixos, tanto é que teve a coletânea “Rrrrrrrock”, juntando isso.

Gabriel – A coletânea surgiu porque muita gente queria as músicas dos primeiros discos e dos compactos e não estava disponível, não tinha pra vender, estavam fora de catálogo. Então pegamos as músicas que tocávamos nos shows e que a galera conhecia mais e fizemos a coletânea. Regrávamos algumas, outras os fonogramas eram nossos. Foi uma coisa de recolocar em catálogo as músicas, não era uma pilha de fazer uma coletânea. Ainda mais porque tinha uns shows lá fora e muitas das músicas tocadas são dos primeiros discos, então o cara via o show e a gente não tinha o disco pra vender.

O primeiro [disco], por exemplo, eu acho muito mais conceitual. A gente meio que sempre estava obedecendo uma fórmula em todas as músicas. Não que estivesse obedecendo, mas hoje eu ouço e a gente tinha na cabeça uma fórmula.

De certa maneira isso acaba sendo até mais limitador, do que você pegar um disco que abra para mais direções. É mais interessante.

Gabriel – E o paradoxo é esse. Na hora que a gente abriu para mais direções foi que a gente percebeu que isso é um álbum inteiro.

As influências parecem estar mais dissolvidas na sonoridade final, remetendo menos a Man or Astro-man? ou Dick Dale e funcionando mais como Autoramas, principalmente nas instrumentais “Guitarrada” e “Pan-air do Brasil”. Você acha que nesse disco vocês encontraram um som “Autoramas”?

Gabriel – Acho que sim. É louca essa pilha de “esse som é realmente Autoramas” e tal. Você usou o lance do Man or Astro-man?. Por exemplo, a gente tocou com Man or Astro-man e botaram a gente pra tocar com eles, porque achavam que tinha a ver. Só que eu mesmo sempre soube que era diferente. Nós e eles bebemos da mesma fonte.

Bacalhau – Mas não somos iguais.

Gabriel – Sempre que pedem pra mandar reportagens, eu mando entrevistas do Man or Astro-man? falando que o Autoramas é original, que não seguia cartilha, como eles também não.

No Brasil sempre tem isso, de se buscar referências em bandas gringas.

Gabriel – Isso também é um paradoxo. Pro Brasil, a gente não ter uma referência X, já prejudicou a gente. O Autoramas não ser o “não sei que” brasileiro. Ficou natural, no rock brasileiro, que se compare com a banda gringa. Não sei quem é o The Police brasileiro. “O Moptop é o Strokes brasileiro”.

É engraçado isso até, para o Moptop. Da mesma forma que tem as pessoas que criticam isso, tem pessoas se seguram nisso, “Opa, é o Strokes brasileiro! Que legal!” e fica tudo tranqüilo. “Ah não, essa eu posso gostar, porque essa é igual ao Strokes, então beleza”.

Isso atrapalha vocês, não ter essa referência?

Gabriel – Já teve muita coisa. Tem muita gente, não é todo mundo, que gosta de colocar as coisas nas gavetinhas. E como essa é a tradição disso acontecer no Brasil — e falo isso de uma forma que não tenho nenhum orgulho — acontece que a gente, como não tem um paralelo, essas pessoas ficam meio perdidas. “Ah, mas não sei o que é isso…”.

E não estão abertas para gostar isso.

Gabriel – Tem a pessoa que pensa assim “nunca vi isso” e acha do caralho. E tem a pessoa que diz ‘”nunca vi isso na minha vida, que isso, que absurdo!”. É brabo. Isso é uma opção artística nossa que a gente assume e beleza.

Ao mesmo tempo, o Autoramas tem muitas influências, muita coisa que a gente ouviu a vida inteira e gosta de verdade, que acho que está tudo misturado ali. Devo, B-52’s, Man or Astroman?, Dick Dale e todas as coisas surf instrumental, o Roberto Carlos da Jovem Guarda, o Roberto Carlos mais soul, romântico, Erasmo Carlos, toda Jovem Guarda, as coisas que são mais românticas, as coisas que são mais ingênuas, as coisas que são mais brincalhonas…

Uma coisa legal também do disco é que tem humor, ironia, é romântico na questão das letras. È bem variado também nesse sentido. Tem ficção científica, tem partes instrumentais. Tem coisas tipo “Fazer acontecer”, que até o cara da Folha escreveu que é mais… Achei que definiu bem, foi legal: “doutrinário”. É uma letra muito editorial do Autoramas, da forma que a gente trabalha, na questão logística, do mundo independente, da arte de saber se virar.

Bacalhau – A gente também tem uma coisa muito legal que acompanha a gente. Desde a primeira capa até a última a gente tem uma integridade visual. Há dez anos é a mesma pessoa que trabalha com a gente, a Bady Cartier. Essa última capa que ela fez, por sinal, é a melhor de todas, a mais bonita.

Gabriel – Outra coisa interessante da capa do disco, do nome, cara, foi que calhou pro momento do Brasil, de caos aéreo. A galera entrando no avião e o nome do disco é “Teletransporte”. Na hora de criar aquilo foi só uma ironia, agora… Era uma coisa meio irônica e tal, usar uma imagem vintage de avião, com o nome “Teletransporte”, que remete a futurismo.

Bacalhau – Retro-futurismo, né.

Como foi o processo de produção desse disco? Foi um dos maiores intervalos entre discos de vocês, quatro anos.

Gabriel – O disco anterior já estava velho. Logo que a gente viu que tava véio mesmo, a gente foi lá falar com Kassin. Ele já tinha produzido umas coisas [nossas]. As últimas gravações que a gente tinha feito, a gente tinha trabalhado com ele, umas coisas que saíram no Japão. Aí ficava nessa, vai almoçar e fala “pô, a gente tem que fazer um disco inteiro”, “é, lógico, vamos nessa”, “inclusive eu queria fazer umas paradas que eu sei que você vai saber fazer”, essas coisas assim. Aí a gente gravava uma música, fazia um lance e falava ‘”tem uma outra música que a gente fez agora, nova, que tem uma parada…”. Aí finalmente armamos e começamos a gravar.

E o disco foi sendo feito assim? Foi gravando faixa a faixa, ao longo de um ano?

A divisão do tempo era mais ou menos assim: a gente gravava dois, três dias, aí a gente ia viajar dez dias, voltava e gravava mais um ou dois dias.

Lá no Monoaural [estúdio da dupla Berna e Kassin]?

É.

E como foi o esquema? Tinha verba ou foi na camaradagem com o Berna e o Kassin?

Fizemos um esquema geral e no final a gente acertou. O selo foi quem fechou a negociação.

O disco saiu pela Mondo 77, mas você está com o seu selo agora, a Gravadora Discos, isso foi gravado no Monoaural, que tem o Ping Pong e saiu por um terceiro lugar.

Se a minha gravadora tivesse grana pra bancar o Monoaural e os produtores, eu teria lançado pela minha gravadora. E também de mandar uma promoção, como eles estão fazendo, um plano todo de marketing.

A gente já conhecia a galera do selo há muito tempo, eles tinham um bar em Campinas que a gente tocou, já fez show lá. Então a gente já se conhecia. É engraçado que no mundo do rock, da música independente, as pessoas já se conhecem há muito tempo, mas até as pessoas fecharem um negócio de repente leva tempo. Apareceu na nossa frente, a gente achou legal pra caramba e fechamos. Todo mundo sempre na maior camaradagem, na maior boa vontade, assim como nós também, e aí rolou.

Os discos anteriores que a gente fez pela Monstro… Sabe, a Monstro tem uma maneira de trabalho que é muito primitiva. Eles só prensam o disco, fazem alguma coisa de imprensa e foi, valeu, vai lá vender. Pra uma banda como o Autoramas, isso até funciona, porque a gente vai sair depois disso e fazer um monte de coisas. Agora, tem banda que não rola, porque neguinho não tem um tino empresarial.

Empreendorismo.

Bacalhau – A palavra certa é essa, empreendorismo.

É uma empresa, né. Banda é só quando está no palco, difícil é o resto.

Gabriel – Pois é, tem toda uma infra.

Bacalhau – A banda tem um caixinha, todas as passagens, a gente tem uma coisa pra poder circular, entendeu.

Uma coisa que chamou atenção à beça no disco foram os efeitos de guitarra, que estão bem diversificados. Como foi isso, teve uma pesquisa? Você chegou com isso lá pronto?

O som de guitarra foi um trabalho do Berna [Ceppas], foi uma coisa que a gente ficou concentrado com ele ali. Era eu e o Berna ali. Eu sempre tive uma coisa muito prática, de chegar e dizer “tal som de guitarra serve pra essa música, pra essa, pra essa e pra essa”. O Berna falava “Não, acabou essa, acabou. Vamos zerar tudo e fazer a outra, pra uma ficar diferente da outra”. Isso foi maravilhoso! Com a maior paciência, maior calma, maior atenção, cada detalhe foi tratado com amor e compreensão.

E o Kassin fez o que no disco?

Gabriel – O Kassin foi uma coisa mais conceitual. Ele acompanhou muitos os ensaios que a gente tava fazendo antes de entrar no estúdio. Teve um monte de coisa que ele limou.

Selma – Acabou mudando algumas coisas, arranjos.

Idéias musicais mesmo?

Gabriel – Ele falava “isso aqui tá excessivo”, “isso aqui ta faltando”, “isso aqui vamos fazer isso e tal, parará”, “isso aqui chegando lá a gente põe não sei o que”…

Bacalhau – Também tem o Dani [Daniel Carvalho, engenheiro de som], que fez a mixagem, que foi muito bom. Tive a oportunidade de trabalhar minhas baterias com ele, medir a compressão, que era ótimo, dar uma atochada… O som de batera tá muito bom, tá fenomenal. Em “Surtei” então, pra mim, é a faixa-bateria!

Gabriel – A quantidade de som de bateria que tem na mesma faixa, se você for prestar atenção, é um absurdo!

É que as guitarras acabam gritando mais, né.

Bacalhau – A questão é que é sutil a mudança.

Há dois anos, o Autoramas recebeu uma chuva de prêmios no VMB, pelo clipe de “Você sabe”. Mudou alguma coisa para banda?

Gabriel – Pra gente foi maravilhoso. Por exemplo, questão de shows. O Autoramas é uma banda de show, que prioriza isso. Até por isso que a gente taí com uma carreira dentro do mundo independente, que não tem nenhuma tradição das pessoas viverem disso e a gente é uma banda que vive disso, exclusivamente da música. Tinha um monte de contratante que sempre batia na trave. O cara falava “pô tô a fim, me amarro no Autoramas, mas não sei se vai dar uma galera, eu não vejo vocês na mídia…”, sabe, esses papos chato pra caramba que rolam. Só que gente falava que a gente já tinha tocado em tal cidade, foi legal pra caramba, deu um monte de gente, só que não rolava.

Aí rolou os prêmios e, no dia seguinte, dessa galera que a gente já azarava, já paquerava, um monte de gente fechou shows. Depois disso já veio uma avalanche de shows, sabe, um monte de coisa que rolou. Isso é igual a grana, é igual a tranqüilidade, que é igual a viver de música, que é igual a carreira andar.

Reverteu bem então.

Gabriel – E foi uma resposta imediata. É muito louco isso. Um monte de coisa que era promessa, ali se realizou. No dia seguinte, todo mundo tava “e aí, vamos fechar”, “agora sim”, sabe aquela coisa? “Agora sim é o momento de fazer, hein!”.

Mas isso consolidou vocês dentro no mercado independente que vocês já conheciam, mas não foi o pulo. Muita gente viu ali e pensou “agora vai”.

Gabriel – Isso é tocar no rádio, isso depende de outra coisa.

Lá na festa, depois, veio um monte de gente que é divulgador de gravadora falando “deve estar cheio de diretor artístico azarando”. E não veio ninguém falar com a gente. Ninguém. A não ser pra dar parabéns.

Isso não mudou.

Gabriel – Quanto a isso, não mudou.

E você queria, esperava?

Gabriel – Isso é uma coisa que o buraco é mais embaixo. Tem vários aspectos. É óbvio que pra gente, investimento, seja de onde vier, seja do cachê do show, seja de um empresário, da companhia telefônica, seja da gravadora, da onde for, é óbvio que pra gente é legal.

Investimento não é só pagar jabá, é cuidar de tudo. Produção é investimento. Chegar num show e fazer um cenário, isso custa dinheiro. Fazer um clipe custa dinheiro. Todas essas coisas. Chegar ali de roupinha nova pra tocar, custa dinheiro.

Tem o outro lado que é o seguinte. Você entra numa gravadora e eles não sabem como trabalhar, não entende a banda, quer que você mude tudo. “Acho que esse som é muito segmentado”, tem tanta coisa que a gente já ouviu.

Bacalhau – E o cara que fala isso, não sabe do que tá falando, tá por fora. Ele tá pensando em qualquer coisa, menos em música.

Gabriel – Eles precisam de uma resposta imediata de grana. É isso que acontece. Se você ver, dos anos 90 pra cá, a quantidade de bandas que assinaram com gravadora, bandas que se destacavam até no mercado independente, que faziam bastante show, estavam saindo no jornal, nas revistas, e assinaram com uma gravadora e pararam de fazer show. Porque a gravadora indicou um empresário que vendia o show caro e botava uma produção cara. Às vezes a banda viajava só com um roadie e um técnico de som e passou a viajar com dois roadies e uma equipe gigante e não tinha mais como fechar. Na hora que a banda tinha que sair divulgando, tocando, fazendo um monte de coisa, fechou a porta. É brabo isso, é brabo esse tipo de coisa.

Quando você chega pra assinar o contrato, neguinho já chega e fala “bicho, tu é um gênio, é o próximo sei lá o quê, tu é sensacional, tá com a vida ganha, tá no pódio”. Neguinho, ingenuamente, acredita. Até tem um lance do Hermes & Renato falando disso, do funkeiro, e é daquele jeito mesmo.

Chegar lá pra também não rolar nada, neguinho travar… É foda.

Tem essa coisa toda que você disse, de ter essa máquina toda pra trabalhar o seu lance. Por outro lado, tem essa conversa de que com a internet mudou tudo, você põe sua música on line e tal… Mudou mesmo? Muita gente disponibiliza as músicas e não acontece nada, continua sendo necessário os canais tradicionais. O teto é muito baixo. Você acha que daqui a pouco, quando as coisas se assentarem, as mesmas pessoas vão estar mandando?

Gabriel – Eu não sei. Nem eles sabem disso. Hoje em dia, por exemplo, a gente no quarto disco, eu tenho uma segurança de que, pelo menos sair fazendo shows a gente não vai parar. É isso que é legal. Mas, sei lá, nada garante nada, é uma coisa louca. Agora, se tivesse alguém com uma grana investindo, porra… Como nós gostaríamos! Sem problema nenhum.

Bacalhau – Fazer disco, gravar, é o que a gente mais gosta, cara. Só que tudo isso tem um custo. Como independente, a gente paga um preço. A gente trabalha com o que a gente pode. E a gente faz coisa pra caramba. E aprendeu a fazer desse jeito.

Gabriel – A gente teve que aprender um novo padrão de trabalho. A gente viu o que dava certo, o que não dava e a gente o que dava certo a gente manteve e o que dava a gente limou e assim a gente vai. Hoje em dia, o Autoramas é uma das bandas que mais faz show, seja independente, seja dentro de uma gravadora. Todo final de semana a gente ta na estrada.

Você tem essa fama na cena, de fechar muito show, em todo Brasil. Andando por todo país, o que você tem visto pelo Brasil? Está melhor, está pior, como é que está?

Gabriel – Tem pouquíssima gente vivendo disso, a gente é uma exceção. Talvez mais um ou dois outros artistas, que eu saiba. Sei lá, talvez o Wander [Wildner].

Vejo muito promissoramente os Móveis Coloniais de Acaju, os caras também tem uma alma empreendedora. Inclusive são meus conterrâneos [de Brasília]. Quando eu conheci eles bem e a gente começou a conversar, eu vi que eles falavam umas coisas e eu falava “é isso mesmo, tá certo!”. E não fui eu que falei isso pra eles, eles é que sacaram.

Vocês acham que as bandas novas têm mais esse espírito?

Bacalhau – Não sei se todas. Por acaso o Móveis tem essa alma, mas cada um tem um jeito. Cada um tem suas dificuldades.

Gabriel – Essa coisa de independente é o seguinte. Como qualquer coisa… É assim, vai uma banda como o Raimundos, um Strokes, faz sucesso, aparece e vai um monte de gente atrás. Com a cena independente também. Se tem gente fazendo e neguinho vê que tá dando certo, vai um monte de gente atrás. Não que necessariamente consiga o mesmo resultado, sacou?

Abrir caminho é uma coisa, seguir um caminho aberto é outra. Tem um monte de gente seguindo um caminho aberto que tem hoje, esse cenário independente que existe.

Lá fora isso acontece mais forte, né?

Gabriel – É uma questão geográfica. Uma banda americana tem os Estados Unidos, que é um dos maiores países do mundo, inteiro pra tocar, cada cidadezinha tem um clube, existe uma tradição de bandas fazerem shows em lugares pequenos e aí, depois de fazer todos esses lugares o ano todo, ainda dá pra ir pra Europa e fazer tudo de novo! Itália, Portugal, França, Holanda, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Suécia, Finlândia…

Bacalhau – Depois ainda tem a Oceania!

Gabriel – Aqui, até pouco tempo atrás, fazer o Norte do Brasil era impossível. O Autoramas faz isso, já fez várias vezes. Em Manaus a gente tocou três vezes, em Portugal a gente fez dois shows, em Rio Branco a gente tocou só uma vez, em Belém a gente já tocou uma porrada de vezes. Já sei andar em Belém, na rua!

Hoje em dia, você vai no Nordeste e cada capital tem um clube de rock, um lugar que dá pra rolar, você arma uma turnê e tem lugar certo pra tocar. Por exemplo, o Foca, lá de Natal. Ele mesmo já organiza a turnê inteira e se viabiliza dessa forma. Se fosse pra fazer só o show de Natal e voltar, seria impossível.

Foi assim que a gente conseguiu fazer Uruguai, Argentina e Chile. Já fomos além de onde acaba o Brasil. Quando a gente chega em Manaus, a gente se pergunta “como é que a gente vai pra Venezuela?”. Ainda não conseguimos ir, mas quem sabe?

A gente fez uma rede de contatos. Antigamente, o mais usual era fazer show em São Paulo, interior de São Paulo, tocar no Rio, em Belo Horizonte, em Brasília. Tocar em Cuiabá já era difícil. A gente conseguiu tocar lá já com três discos lançados.

E o que falta para essa cena pegar de vez, em termos de estrutura? Tem público pra isso no Brasil? Os shows da cena independente que você vai aqui no Rio, a impressão geral é que tem os integrantes de outras bandas, a turma que escreve e uma galerinha. Não vejo chegar num público grande mesmo. Porque não dá esse pulo?

Gabriel – Cara… Já tiveram épocas que foram sensacionais. Na época que a gente tava lançando o primeiro disco, Los Hermanos lançando o primeiro disco, mesmo antes. A Loud!, que é uma festa que leva de mil a 2 mil pessoas, a primeira festa foi Autoramas e Los Hermanos e nenhum dos dois tinha disco lançado. Então, já foi assim. As coisas às vezes tem momentos melhores e momentos piores. O Moveis Coloniais tá tocando no Canecão e a galera tá curtindo, o nome tá rolando, o lance tá crescendo, é uma banda que tá conseguindo público. O Canastra também tá indo bem.

A gente já tocou várias vezes em Vitória da Conquista, no interior da Bahia. Uma vez a gente tocou com o Wander. Ele tocou antes e ninguém conhecia, tinha gente batendo papo. Quando a gente entrou, foi aquela loucura, 800 pagantes. Enfim, é esse tipo de coisa.

Isso também depende da banda, dependo do artista. Não é uma coisa do mercado independente. Como tem aqui no Rio bandas que lotam o Canecão ou até um Claro Hall, como o Dibob, o ForFun, e em outras cidades eles ainda não conseguem fazer isso, é exatamente o contrário. Até acredito que o ForFun teve uma visibilidade melhor nesse último ano, talvez eu esteja desatualizado.

Isso é um novo padrão, uma coisa que não existia antes. Uma banda que fazia sucesso no Rio nos anos 80, podia ir pra qualquer lugar que bombava. Hoje já é diferente.

O que é legal de ser independente é que tem um monte de gente que está trabalhando, sendo remunerado, em função disso. Às vezes é fazendo um festival, às vezes é sendo produtor, às vezes é tendo uma banda – quer dizer, na minoria das vezes é tendo uma banda. Como a gente diz nas reuniões da ABRAFIN, é uma cadeia produtiva.

A gente vai fazendo, tentando achar o nosso caminho, quer dizer, é só olhar pra trás e ver o caminho que a gente abriu.

Bacalhau – Abriu e pavimentou. Não é Trans-Amazônica não.

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