sábado

19

novembro 2005

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Ecos Jamaicanos

Written by , Posted in Música

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Abaixo, o release que escrevi para o disco de estréia do Echo Sound System.

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Formado pelos produtores Pedro Dubstrong (DJ da Chocolate Crew e conhecido por suas mixtapes), Gustavo Sola e pelo o multi-instrumentista Gustavo Veiga (metade da dupla Veiga & Salazar), o Echo Sound System não é (mais) uma banda de reggae, nem é apenas um grupo de hip hop; é um coletivo de produção com raiz nas vertentes jamaicanas, mesclando diversas influências.

“Do centro de SP mandando ver pro mundo inteiro / freqüências e efeitos em estéreo brasileiro”, diz Jimmy Luv em “Todos um”.

O trio apresenta suas intenções logo no nome. Inspirado na cultura dos sound systems e ecoando diversos estilos da música jamaicana, o Echo Sound System utiliza a tecnologia para promover o reencontro do reggae e do rap, dois gêneros nada distantes (afinal, os rappers são descendentes diretos dos toasters jamaicanos). De quebra, mostra como são extensos os espectros tanto do hip hop, quanto da música produzida na ilha enfumaçada.

O disco de estréia, “Tempo vai dizer” (ST2 Records), mixado por Ganja Man e Tejo (Instituto), combina esses vários estilos. Vai do rocksteady de “Só d’eu ver(de)” ao dancehall de “Vampire”, passando pelo dub (“Supamind dub”), pelo reggae (“Pas tester”), pelo rub-a-dub (“I & I”) até o hip hop (“Punanny”). Além de Veiga, responsável pelo violão, baixo, teclados, flauta e escaleta, o baixista Gema e o saxofonista Andres Salazar também tocam no disco.

Conhecer os sound systems jamaicanos é fundamental para compreender a importância do reggae para música mundial. Desde os tempos do ska, nos anos 50, até o dancehall dos dias de hoje, todas as noites, em alguma esquina de Kingston, potentes aparelhagens de som são montadas para animar festanças gratuitas ao ar livre. Essas festas ambulantes são a mais respeitada forma de propagação musical na Jamaica, servindo de campo de testes para novas músicas e cantores.

Naturalmente, há um espírito competitivo entre os sound systems para ver quem sai na frente nos lançamentos. Não por acaso, foi um jamaicano, o DJ Kool Herc, quem primeiro botou caixas de som nas ruas do Bronx. Depois vieram Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa e o resto é história.

Apesar do respeito pelo passado, “Tempo vai dizer” não soa retrô. A produção caprichada atualiza as referências, misturando umas as outras, resultando num som original.

“Echo Sound System, raiz com futuro”, como é dito na faixa “Pas tester”.

Isso fica claro nas espertas programações de bateria, nos timbres diferenciados e nas ambiências viajantes. Outro diferencial é o bom uso de efeitos diretamente emprestados do dub (como delays, ecos e reverbs), sem nunca soar exagerados ou fora de propósito. Os efeitos estão em todo o disco e não apenas em faixas como “Bom filho” e “Kaya monkeys (safari dub)”, onde a influência de dubmasters como Scientist fica óbvia.

As batidas de hip hop são sustentadas por linhas de baixo (“Leão de asas”) ou por samples de bateria de reggae setentista (“Pas tester”). Os reggaes, por sua vez, seguem o caminho inverso, aceitando elementos do rap. Os MCs Funk Buia (Z’África Brasil), Jimmy Luv e Arcanjo (Enganjaduz) e o francês Pyroman (Assassins), se revezam nos vocais, variando entre o discurso social, o divertido e o espiritual.
“Todos um”, um hip hop com um pé no dancehall, que já havia sido lançada em um compacto de vinil, em 2004, conta com Funk Buia no microfone. “Só d’eu ver(de)” estava no lado b da mesma bolacha, prensada no clássico formato 7 polegadas dos lançamentos jamaicanos. Enquanto Arcanjo dá “um minuto pra explodir” na potente “Inna babylon”, Jimmy Luv despeja sinceridade na quebradeira de “Replay”.

Na Jamaica, é comum diversos cantores fazerem versões da mesma música, criando novas letras e melodias utilizando bases musicais idênticas, lá chamadas de riddim. Seguindo essa tradição, em “Original style” Pyroman canta sobre “Stalag”, riddim eternizado por “Bam bam”, na versão de Sister Nancy.

Além dos colaboradores regulares do Echo, o jamaicano General Smiley, integrante da dupla Michigan & Smiley (conhecida por hits do dancehall do começo dos anos 80, como “Diseases” e “Rub a dub style”), também está em “Tempo vai dizer”. Mesmo sem intenção, a mistura de línguas internacionalizou o som, o que pode abrir uma frente para o Echo Sound System no exterior.

General Smiley conheceu o Echo Sound System através da página do grupo no saite My Space (www.myspace.com/echosoundsystem) e fez toda sua participação à distância. Sua parceria, de rachar o coco, com Funk Buia em “Rookie rock” (produzida em conjunto com o suíço Romanowski, do coletivo Future Primitive Sounds), é um dos destaques do disco. Na edição especial em vinil, a música ganhou um remix do Turbo Trio, projeto paralelo de BNegão, Tejo e Alexandre Basa.

Após 21 faixas, “Tempo vai dizer” não cansa. “Favorite song” encerra o disco num astral tão bom que faz o ouvinte desejar que as vinhetas fossem músicas completas, só pra ter mais um gostinho. Ou então, que o CD fosse um vinil, pra poder virar o lado e continuar escutando.

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