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segunda-feira

12

novembro 2012

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Transcultura #098: II Rio Parada Funk // doo doo doo

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Mr. Catra na I Rio Parada Funk, 2011
foto: Guito Moreto/divulgacão

A versão extendida do meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

A volta do baile
Depois de reunir milhares de pessoas, mais de 150 DJs, MCs e dançarinos, Rio Parada Funk terá sua segunda edição no dia 9 de dezembro, na Lapa, mas organizadores ainda enfrentam desafios
por Bruno Natal

A primeira edição do Rio Parada Funk, ano passado, reuniu mais de 150 DJ, MCs e dançarinos para celebrar a cultura funk. Espalhado em mais de 10 palcos no Largo da Carioca e adjacências, o evento se transformou no maior baile funk da história, com alguns jornais chegando a noticiar um público de 100 mil pessoas, incluindo turistas estrangeiros e gente que veio de outros estados só pra conferir a festa.

Os números grandiosos seriam impensáveis há nem tanto tempo atrás, quando o funk viveu seu pior período de perseguição pós-arrastão do Arpoador em 1992 (creditado aos “funkeiros”, termo tão sem sentido quanto “roqueiro”, corretamente banido no manual de redação do saudoso Rio Fanzine), com as pancadarias dos bailes de corredor, a violência dos proibidões e letras de explícitas.

– É sempre difícil trabalhar com cultura, principalmente as marginalizadas, como o funk. Na primeira edição tivemos dificuldades com o IPHAN, que entendeu que o evento não podia acontecer na Cinelândia porque abalaria as estruturas do Theatro Municipal – conta Mateus Aragão, fundador da festa Eu Amo Baile Funk e organizador do Rio Parada Funk.

O reconhecimento internacional de 2003 em diante ajudou a amolecer o preconceito local em relação ao funk, iluminando aspectos sócio-culturais importantes e dando chance ao gênero de se mostrar além das polêmicas. Porém, continua o funk continua sendo funk e nada vem fácil. Apesar do sucesso, contrariando prognósticos alarmistas, a segunda edição do Rio Parada Funk, no dia 09 de dezembro, na Lapa, enfrenta dificuldades.

– O maior desafio para este ano está sendo mesmo garantir os apoios para a infraestrutura do evento. Apesar de os artistas e equipes de som não estarem recebendo cachês, precisamos garantir a infra estrutura, como geradores, banheiros químicos, segurança, etc – continua Mateus.

O receio de marcas em relação ao funk também não ajuda. A mudança de local, saindo do Largo da Carioca, também trouxe transtornos. A produção não conseguiu datas no Sambódromo e, com isso, cervejarias e empresas de telefonia cancelaram o patrocínio. O novo endereço é a Lapa, acostumado a grandes públicos.

– Tivemos promessas de patrocínio que não foram cumpridas, alguns não completaram o pagamento prometido, o que me levou a investir tudo o que tínhamos juntado em sete anos de Eu Amo Baile Funk. E tivemos patrocinadores que pagaram, mas não deixaram a marca deles aparecer. Querem ajudar ,mas não se associar ao movimento funk – continua Mateus.

Segundo Mateus, a edição desse ano, veja só, acontece principalmente devido ao apoio da Prefeitura e da Secretaria de Cultura do Governo do Estado – parte do mesmo poder público que marginalizou a cultura funk até pouco tempo. Uma grande virada.

– Foi uma emoção muito grande para todos envolvidos na primeira edição. Muitos não acreditavam que conseguíriamos sequer autorização para que o Rio Parada Funk acontecesse. Todos nós tínhamos a sensação de estar fazendo história. E o sentimento maior foi para o fato de, pela primeira vez, o funk ser tratado como protagonista. Nos sentimos vitoriosos na luta contra o preconceito da mídia.

Por conta do sucesso da primeira edição, a disputa para ser uma das 10 equipes escaladas foi grande, todos de olho na exposição trazida pelo evento (confira a escalação no box). O principal critério de escolha é a contribuição do candidato para inovações e história do funk. Nesse quesito, ninguém merece mais homenagens do que o dançarino Gualter Damasceno, mais conhecido como Gambá, jovem criador do Passinho do Menor da Favela, febre da molecada da comunidades, registrada no documentário “Batalha do Passinho”, de Emílio Domingos (vencedor do Festival do Rio esse ano). Gambá foi brutalmente assassinado antes de ver a história da sua invenção ganhar as telas.

Filme, Parada, aos poucos o funk vai ampliando seu espaço na sociedade – dizer conquistando estaria totalmente errado, o funk é onipresente no Rio e faz parte ad cultura da cidade, mesmo que alguns continuem torcendo o nariz.

– O funk é um produto 100% carioca, movimenta milhões de reais e de jovens, é um produto direcionado principalmente para eles, gerando milhares de empregos, mesmo sendo informais. O mais interessante talvez seja o interesse que o funk desperta fora do estado e do país, cada vez mais o Rio é representado pelo funk carioca. Além disso, o funk promove o debate sobre juventude negra e favelada, apontando sugestões e perspectivas.

Então, não esqueça: da 09 de dezembro é dia de baile.

Tchequirau

Uma das bandas mais originais no cenário carioca, o doo doo doo lançou clipe novo, “Carnaval no Fogo”. Antes teve “Maré Exquizita” e “Mais”. O disco de estreia sai dia 19 de novembro, é ver se confirma as expectativas.

segunda-feira

29

outubro 2012

12

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Transcultura #097: O fim do indie? // DJ Aerobics

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ilustração: Leonardo Uzai

A versão extendida do meu texto da semana passada (mais longa do que saiu no Segundo Caderno ou no Globo Online) da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O fim do indie?
Uma análise sobre a cartilha – e as eventuais concessões – que bandas e artistas independentes seguem para atingir o sucesso
por BrunoNatal

Passado a euforia inicial da libertadora ideia de que, com as ferramentas atuais, qualquer um pode montar um projeto de música e divulgá-lo, eventualmente até conseguindo alguns fãs, começa a rebordosa. É banda demais.

Claro, ninguém é obrigado a ouvir tudo (ou nada, a bem da verdade). A questão é que, na pressa de entrar na nova ciranda que se formou, cada vez mais autores lançam mais projetos, mais rápido, com mais pressa, sem deixar o necessário tempo de maturação acontecer. Isso exige paciência e perseverança do ouvinte. Muitas vezes o que se está escutando são apenas ideias, rascunhos de algo que só estará pronto dali um tempo. Em tempos de vida em beta e ao vivo, as bandas se formam na frente do público.

Por muito tempo bandas independentes esperaram o dia que conseguiriam se firmar comercialmente, sem depender de gravadoras multinacionais, acordos suspeitos ou fazer concessões artísticas. Era um sonho distante, movido mais por uma afirmação estética e conceitual de um movimento do que propriamente potenciais ganhos financeiros. Há pouco mais de dez anos, tudo mudou.

A história você conhece, do Napster em diante o ambiente digital proporcionou que bandas, milhares delas, finalmente encontrassem seus públicos. Com a galopante falência do modelo antigo, foi apenas questão de tempo para que o inevitável acontecesse e a cena independente conquistasse uma fatia considerável do mercado. Primeiramente através da pulverização e de nichos, até que o inimaginável aconteceu. Uma banda com todas as credenciais indie dos anos 2k como o Vampire Weekend (se não ao som, no que diz respeito aos métodos de trabalho) chegou com seu segundo disco, “Contra”, ao topo da mais comercial das paradas, a Billboard.

Estava então consolidada uma nova dinâmica comercial. Uma banda “de internet” podia furar a bolha e conquistar o grande mercado. Apesar do número 1 impressionar, não foi uma conquista exclusiva do VW, mais e mais nomes conseguiram se estabelecer por vias parecidas nos últimos anos. Como tudo na vida, o óbvio lado positivo dessa escalada indie (extremamente resumida aqui), veio acompanhado de aspectos negativos.

Aberta a nova corrida do ouro, com a velocidade típica da rede, bandas e mais bandas começaram a se moldar, tentando seguir um (nem tão) imaginário livro de regras para se dar bem no cenário atual.

Acontece que “se dar bem” tornou-se um conceito um bocado elástico. Como escreveu Carles no blog Hipster Runoff, dos EUA, no recente artigo “How indie finally ofifcially died: the broken indie machine” (“Como o indie finalmente oficialmente morreu: a máquina indie quebrada”), entre alguns resmungos exagerados, o velho sistema foi substituído por um novo, igualmente sufocante, ainda que menos poderoso.

Em vez da benção de gravadoras e rádios, para sobreviver nesse ecossistema artistas precisam passar por determinados sites e blogues – uma lista específica deles – e/ou participar de ações publicitárias.

Os malefícios dessa engrenagem contemporânea são mais complexos. Na busca desesperada por não ficar atrás dos concorrentes (seja lá o que isso queira dizer), esses veículos online perdem sua caracterísica definidora, o papel de filtrar informações, preferencialmente com personalidade, e comem de colher tudo que é oferecido por bem estruturadas máquinas de divulgação disfarçadas de assessorias de imprensa.

O resultado é uma série de sites repetindo o mesmo conteúdo, todo santo dia, assemelhando-se a cobertura da grande imprensa no que tem de pior. A pasmaceira chega ao ponto das listas de melhores do ano serem praticamente idênticas, mundo afora, como se fossem um teste de múltipla escolha, onde existem respostas certas e erradas, e não seleções independentes e pessoais, indicativos do que se ouvir em um cada vez mais vasto catálogo, impossível de se acompanhar por completo.

As bandas resta rezar pelo mágico momento em que finalmente, muitas vezes até por mérito próprio, conseguem estar em todas as páginas “importantes”. Para atingir esse objetivo, muitas passam a ser o que delas se espera, gerando grupos e mais grupos que nada fazem além de sons genéricos de algo que deu certo ou está na moda, o que parece certo para aquele momento.

Infelizmente, na maior parte das vezes o que se descobre é que, mesmo quando é chegado esse grande momento, sua banda nada mais foi do que alimento para o ciclo do dia, da semana, com sorte, do mês. Rapidamente a roda gira, dando lugar ao próximo, que passará pelo mesmo processo.

Isso tem um lado bom e um lado ruim. Se isso gera muita frustração em bandas que esperam fazer daquilo seu ganha pão, a falta de perspectiva financeiras é extremamente libertadora para outros artistas. Num mercado em que até mesmo um indie bem estabelecido como Grizzly Bear (tocando no Radio City Music Hall, em Nova York, com discos no top 10) afirma em reportagem da New York Mag que as contas não fecham, cada vez mais se vê bandas, mesmo conhecidas, serem um hobby bem estruturado de profissionais de outras áreas – o que por sua vez, novamente, traz consequências boas e ruins.

Sendo o mercado mais bem estabelecido, é natural que muitos desses comportamentos vistos nos EUA se repitam no Brasil. O problema por aqui é que, pra piorar, existe uma espécie de código não escrito na cena alternativa de que não se pode criticar negativamente um músico, simplesmente pelo fato de ele já “ralar muito pra fazer aquele trabalho acontecer”. Como se isso fosse justificativa e não exatamente parte do problema.

Como disse um amigo outro dia no Facebook, Raymond S. Harmon, “no exato segundo que o pensamento ‘a música de hoje não presta’ cruza sua mente você está oficialmente velho, não precisa nem que se diga isso em voz alta”. O autor do texto do Hipster Runoff foi acusado justamente disso (embora não fique claro sua idade). Pode ser. A principal crítica aqui, no entanto, é quanto ao formato operacional de parte da indústria atual, esse sim culpado pela baixa qualidade do conteúdo.

Ainda encontra-se muita, muita música boa, nova, todo dia. Mesmo que muitas delas sejam feitas para o agora, sem maiores preocupações. E quem pode dizer que isso é ruim? No fim, as decisões cabem a quem ouve (ou lê) e é ótimo que seja assim.

Tchequirau

Produtor de chiptune guatemalteco radicado em Madrid via Miami, Meneo fez um vídeo hilário com dicas para enganar bem quando for “atacar de DJ”. Cômico, se não fosse trágico.

segunda-feira

8

outubro 2012

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Transcultura #096: #Rio365 // “A Batalha do Passinho”

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Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Projeto @Rio365 vai mapear um ano na cidade a partir de fotos do Instagram
Serão 52 temas propostos, um por semana, para a missão que vai virar livro
por Bruno Natal

A ultrarrápida ascensão do Instagram, chegando a 80 milhões de usuários em menos de dois anos, transformou a rede social de fotos numa das plataformas mais visadas para todo tipo de ação, tanto do público quanto de empresas. Um dos formatos mais populares são as “missões”, em que um tema é proposto, e os fotógrafos marcam suas fotos relacionadas com hashtags, criando galerias relacionadas ao assunto proposto. Um dos pioneiros no Brasil foi o Instamission, já comentado aqui Transcultura.

Nesta semana teve início o @Rio365, que terá um ano de duração, com 52 temas propostos, um por semana, totalmente focado no Rio. Trata-se de uma ação para gerar um registro fotográfico colaborativo da cidade, que deverá virar um livro ao fim do projeto com as 365 fotos vencedoras de cada dia, além das galerias com todas as fotos concorrentes em cada tema.

— Tive total liberdade para escolher os temas, e a equipe de curadores terá autonomia absoluta para escolher as melhores imagens — explica André Galhardo, idealizador do projeto, que tem o patrocínio da Light.

O tema desta primeira semana foi arte, atraindo mais de 500 seguidores para o perfil do projeto e reunindo mais de 1.500 fotos marcadas com o hashtag #Rio365_arte.

Entre os próximos temas estão previstos o Festival do Rio, a primavera na cidade e até uma “missão secreta”. Diante de diversos projetos similares on-line, Galhardo se diz influenciado pelo movimento “A Painting a Day” (“uma pintura por dia”), iniciado por Duane Kaiser em 2004.

— Muitos artistas iniciaram projetos “365” pessoais desde então. E, no próprio Instagram, a tag #365project tem atualmente mais de 20 mil imagens — lembra Galhardo. — Perfis como @instamission, @igersrio, @instaforfun também foram grandes inspirações pois mostram como as pessoas podem encarar o desafio de produzir imagens como um jogo muito divertido. Todos nós aprendemos e nos desenvolvemos brincando. Imaginei coordenar um projeto colaborativo com o olhar de milhares de fotógrafos que atualmente andam com suas câmeras e conexões 3G nos bolsos o tempo todo.

Para incentivar a participação, as melhores fotos produzidas serão premiadas com um iPad por bimestre. E a melhor do ano leva um iPhone. Pode parecer pouco para um projeto com verba total de quase R$ 500 mil.

— Distribuiremos prêmios simbólicos. Entrar para o seleto time dos autores do livro “@Rio365” será o principal objetivo dos participantes, não tenho dúvida. Isso legitima a sensação de “ser artista” que o usuário do Instagram tem — diz Galhardo. — Os prêmios são para reconhecer ainda mais o mérito e gerar mais emoção para nosso jogo. Todo tema terá uma foto escolhida como “a melhor da missão” pela comissão de curadores. O prêmio é uma menção honrosa, reconhecimento que, na cultura do Instagram, não tem preço. Um excesso de prêmios materiais poderia atrair “caçadores de promoções” e desvirtuaria o projeto. Queremos qualidade e a participação de quem leva fotografia a sério e procura se desenvolver como fotógrafo.

Tchequirau

Contando os dias para assistir o documentário “A Batalha do Passinho”, de Emílio Domingos, sobre o fenômeno da dança surgido a partir de um vídeo publicado no YouTube. Estreiou no Festival do Rio.

sexta-feira

28

setembro 2012

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Transcultura #095: Quantic // Chrome Canyon

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Meu texto de hoje da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Mistura apimentada
Radicado na Colômbia, o músico inglês Quantic toca como DJ pela primeira vez no Rio, amanhã, com funk, sons latinos, hip-hop e jazz no encontro das festas Só Pedrada Musical e Ya’Ya High-Fi
por Bruno Natal

No espírito de trocas e camaradagem que a boa música inspira, amanhã será dia de um grande encontro no Studio RJ, com as festas Só Pedrada Musical e Ya’Ya High-Fi apresentando o inglês Quantic. Líder da Quantic Soul Orchestra, seu projeto mais conhecido, Will Holland toca pela primeira vez no Rio, como DJ, mostrando seus passeios por hip-hop, jazz, funk, sons latinos, caribenhos e africanos, assim como suas produções próprias misturando tudo isso.

Não se trata de mais um pesquisador musical que observa seus objeto de estudo à distância. Will viaja pelo mundo atrás dos sons que fazem sua cabeça. Foi assim que, depois de passar um tempo em Porto Rico, antes de voltar para a Inglaterra, Will visitou a Colômbia. Saiu do país com a ideia de gravar um disco por lá. Como estava querendo trocar de ares, resolveu botar o plano em prática e se mandou para Cali.

— Montei um estúdio com o mínimo de equipamento necessário, comprei um piano e comecei a gravar. Quando vi, haviam se passado três anos — diz Quantic. — Agora moro em Bogotá. Apesar de viajar muito, é a primeira vez que vivo em um lugar fora da Inglaterra. Gosto muito dos colombianos e do clima do país. A música latina é uma grande influência pra mim, assim como o jazz, o soul, a música africana.

Produtor e DJ da festa e do blog Só Pedrada Musical, Tamempi fala do encontro:

— A parceria surgiu naturalmente. Quando fechamos o Quantic em São Paulo fiz questão de leva-lo pro Rio também, e o nome do Marcelinho era ideal pra fechar a escalação. Quando o chamei, ele sugeriu juntar as duas festas, e achei a ideia ótima. As duas prezam pela qualidade.

Capitaneando a Ya’Ya High-Fi, festa semanal em que toca apenas discos de vinil, Marcelinho Da Lua vê semelhanças entre as três pontas, principalmente a partir da pesquisa de Quantic, baseada nos sons de raiz nas Américas que influenciam o mundo todo, do rap ao jungle.

— O som dele está na fronteira do orgânico com o eletrônico, da canção com a música de pista. Ele produz artistas colombianos da velha guarda, trazendo para o presente pessoas que estavam esquecidas do grande público. De certa forma, é isto que fazemos, esta provocação ao público de escutar um sample de jazz dos anos 1940 numa base envenenada de rap ou de jungle.

Apesar de ser sua primeira vez tocando por aqui, Will não é estreante no Brasil.

— Já estive no país duas vezes, gravando o disco “Traditions in transition”. O fotógrafo B+, da produtora Mochila, me colocou em contato com o grande arranjador Arthur Verocai e gravei com ele no Rio e com Comanche em São Paulo, há dois anos. Fui ao Pará, comi açaí, ouvi carimbó e vi muita similaridade entre os sons caribenhos e amazônicos da Colômbia e do Brasil — diz ele.

Will espera voltar para a Colômbia com novas gravações, feitas por aqui.

— A música brasileira sempre foi uma influência no meu som, como são as músicas jamaicana, nigeriana, ganense, colombiana, peruana, todas fazem parte da minha palheta. Gostaria de gravar mais no Brasil. Nessa viagem vou encontrar com algumas pessoas, estou levando um microfone para gravar algumas coisas.

Mesmo pesquisando muito, Will está por fora das produções mais recentes da música brasileira. Fiel ao espírito do compartilhamento das boas músicas e do encontro promovido na festa, ele está de olho na visita para mudar isso.

— Conheço o Drumagick, de ouvir no rádio na Inglaterra, e o Marcelo D2. Sons eletrônicos, mais “puros”, não conheço. Já ouvi tecnobrega. Estou empolgado pra ouvir mais coisas, gosto de pedir musicas e trocar discos com DJs locais quando estou viajando. É importante fazer isso.

Tchequirau

http://youtu.be/ZNuHFr-_NVA

O som retro-futurista do Chrome Canyon é resultado de influências de Vangelis e Giorgio Moroder do artista Morgan Z. Ele já fez remixes para Phoenix, Passion Pit, George Benson e algumas músicas do seu “Elemental Themes” podem ser escutadas na página dele.

segunda-feira

10

setembro 2012

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Transcultura #095: Jessica Povoa // Porta dos Fundos

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A íntegra do meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Foco no corpo feminino
Fotógrafa explora o corpo feminino em ensaios
por Bruno Natal

Num mercado pelo machismo e por imagens apelativas, uma menina que fotografa outras meninas nuas seria o suficiente para despertar atenção. Ainda mais quando a proposta é sofisticar os registros de gosto duvidoso. Esse é o objetivo da mineira radicada no Rio Jessica Póvoa, 23, em ensaios que divulga em sua página. Esses dias suas fotos foram censuradas pelo Facebook, em mais um capítulo no interminável debate sobre os limites entre erotismo e pornografia.

– Não sei muito que diferença faz trabalhar com nú ou com roupa grifada, muito menos que diferença faz ser menina, homem, bicha ou sei lá o quê, então isso é meio nonsense pra mim. Sempre achei as formas femininas muito mais interessantes que as masculinas, sempre me chamou mais atenção e tive mais curiosidade. Desde criança pegava Playboy escondida no armário do meu pai, super curiosa. Lembro da Marisa Orth, a única que eu alcançava ela num cavalo branco – escreve Jessica por email, da Romênia, onde está a trabalho, entre vários “hahaha”.

Formada em cinema pela New York Film Academy e em direção de arte pela Central Saint Martins de Londres Jessica combina sua múltipla formação (ela ainda passou pelos cursos de história da arte da UFRJ e de design da UniverCidade) em trabalhos pelo mundo, tendo atuado em mais de 15 países como videomaker, produtora, diretora de arte, cenógrafa e fotógrafa para trabalhos comercias.

– Estou viajando pelo Leste Europeu com uma série transmitida pela Multishow, Cidade Nua, fazendo direção de arte, elenco e produção de locações. Comecei a fazer parte da produção ano passado, na terceira temporada, filmando em Londres, Berlim, Madri e Paris. Nessa temporada estamos percorrendo Croácia, Romenia, Hungria e República Tcheca. Vou atrás de pessoas interessantes em cada cidade e dos lugares mais alternativos, mostrando bastante do submundo de cada lugar – conta.

Os trabalhos comerciais são legais e pagam as contas, porém o foco de Jessica está nos projetos pessoais.

– Vou atras de amigas e amigas de amigas, nao pago ninguém, quando é comercial elas são pagas pelo trabalho, claro.

– Tenho um livro publicado, “Ácido”, e outro em fase de produção e arrecadação de patrocínio, “Animal”. O conceito se baseia em fotografar meninas normais, encontradas nas ruas ou em qualquer outro lugar que não sejam revistas de moda ou agências de elenco, justamente pelo fato de sempre ter que respeitar esses padrões estabelecidos nos meus trabalhos comerciais.

As modelos são amigas e amigas de amigas, sem pagamento, pela arte.

– Preparo, junto com minha equipe, um projeto para cada menina, uma produção cinematográfica. Fazemos uma pesquisa com elas pra saber seus interesses, dia a dia, e a partir disso escolho as locações, crio um conceito, montamos cenário e produção dignas de editoriais de moda. Viso inserir a visão da realidade de meninas com formas reais, que poderiam até ser chamas de “imperfeições” ou “defeitos”, captando a verdadeira sensualidade em imagens simples, sem poses forçadas e o mais natural possível.

Do pedido de uma Polaroid de Natal, aos 8, até os dias de hoje, Jessica fotografou bastante em 35mm antes de ganhar uma câmera digital e agilizar as brincadeiras. Assim, pequenos filmes tomaram o lugar dos slides das apresentações das tarefas escolares. Numa era em alguns acreditam que a fotografia esteja banalizada por câmeras digitais, Jessica prefere somar.

– Essa história de que todo mundo pode ser fotógrafo acho bom e engraçado, pois daí surgem cada vez mais propostas diferentes e pessoas somando. Cada um com o seu, cada um mostrando sua visão, com técnica ou sem técnica, o negócio é fazer acontecer e mostrar coisas bonitas. Sou grande fã da fotografia analógica e uso muito digital também, claro. Todas as formas de se fotografar devem somar uma as outras e não extinguir os processos anteriores a cada nova invenção, como vem acontecendo. Isso é um enorme fracasso na arte da fotografia.

O olhar diferenciado, feminino e mais elegante vem rendendo convites para clicar para revistas masculinas. Será o fim

– Tem revistas interessadas nesse novo conceito. Tenho também um piloto pra TV, só com essas meninas “normais” e bastante sensualidade, inspirado em filmes da época da chanchada, dos quais sou sou fã, além de tema da minha monografia na Escola de Belas Artes da UFRJ. Estou montando um estúdio em Copacabana pra poder abusar mais um pouquinho, tendo um espaço para produção e uma sala especial para a maquiadora e cabeleireira que trabalha sempre comigo, Camila de Alexandre.

Tchequirau

Fundado por por Gregório Duvivier, Fabio Porchat, João Vicente e Antonio Tabet, o canal de humor Porta dos Fundos está fazendo sucesso, veja só, com humor que não é mera sátira, gritos ou insultos. Coisa rara.