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abril 2004

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A moeda de um lado só

Written by , Posted in Urbanidades

07/11/02

1h40, madrugada de quarta para quinta-feira. Estava num carro com dois amigos parado no sinal da esquina das ruas Visconde de Albuquerque e Mário Ribeiro, cruzamento do canal do Leblon com a Lagoa-Barra. De repente, uma Cherokee bate na traseira. Saímos para ver o que havia acontecido, o motorista da Cherokee continuou dentro do carro até que o convidamos para sair. A história começa aqui.

Bêbado, como era de se esperar de alguém que bate em um carro parado no sinal, o sujeito não conseguia entender nada e perguntava o que acabara de acontecer. Chamamos a polícia, apesar da insistência para “resolvermos isso entre a gente”, e ficamos aguardando a chegada da patrulha. Nesse meio tempo o motorista tentou fugir. Ou melhor, fez menção de fugir, já que mal conseguia ficar em pé, e teve que ser contido. Arrancado à força de dentro do carro, o homem exigia respeito, argumentando com frases como “eu estou bêbado, porra!”, ou “vocês tem que entender que eu estou doidão!”.

A polícia chegou e durante as identificações descobrimos que o bêbado de respeito era Segundo Tenente da Aeronáutica. Não foi carteirada, era simplesmente sua profissão.Como dá para imaginar, a partir daí os policiais ficaram receosos. Toda a burocracia, Brat, BO, foi cumprida, ficou faltando só uma coisa: a multa por dirigir alcoolizado e apreensão do veículo do bêbado. Os dois policiais eram daquele tipo que dificilmente se encontra de madrugada: solícitos, eficientes e educados. O único problema era que estavam lidando com um superior. Um deles explicou que dirigiria o carro do Tenente até em casa e que nós estávamos liberados. Falei da importância daquela multa e de como fazíamos questão de que ela fosse emitida. O acidente foi uma bobeira, mas poderia ter sido algo muito maior, afinal estávamos na esquina da Lagoa-Barra e se não fosse nosso carro para impedir a trajetória, sabe-se lá onde ele ia bater. Ninguém tem nada a ver com sua irresponsabilidade, pior ainda se era um militar. Nós também não tínhamos.

O policial me olhou e sem dizer uma única palavra ficou claro que não podia fazer nada. Não precisa nem pensar muito para perceber que, se decidisse de fato multar o Tenente, teria que arcar com as conseqüências sozinho. Diante da situação grotesca, nojenta mesmo, só nos restou ir embora. Fazer o quê? Insistir numa multa que provavelmente seria revogada e que só traria conseqüências negativas para o policial? Ainda mais porque parecia pelo menos estar, dentro das suas limitações, tentando fazer seu trabalho corretamente. E de impunidade em impunidade construímos o Brasil. Na volta para casa fomos abordados por outro carro da polícia, desta vez com dois policiais que facilmente se encontra de madrugada. A dura, com o requinte de pistolas em punho, mão na cabeça! e todo o resto, não tinha objetivo nenhum. Tanto é que a dupla desistiu de nós quando avistou uma confusão num bar próximo, despedindo-se dizendo que tinham que “ir ali dar umas porradinhas”.

Em uma noite vivenciamos os dois lados da mesma história, o nem tão certo e o errado. Aliás, falar em certo tem ficado tão difícil que temos que nos contentar com o quase. Independente das posturas antagônicas, tanto a primeira quanto a segunda dupla de policiais pertencem ao mesmo grupo. Fazem parte de uma moeda de um lado só.

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