Monthly Archive: fevereiro 2005

quinta-feira

24

fevereiro 2005

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Riddim twins

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Esquece a Mojo lá de baixo. Dê um jeito de colocar suas mãos na nova edição da XLR8R. Sly & Robbie, por David Katz, na capa.

quarta-feira

23

fevereiro 2005

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Feijão com arroz

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O terceiro disco do Mr. Ballbeam, o Beans, “Shock city maverick”, é a prova final de que quem apostou ir à São Paulo para assistir o TIM Fest ano passado ao invés do Sónar (lamentavelmente o meu caso), apostou errado.

Lançado pela Warp Records (casa do Aphex Twin, Squarepusher, Prefuse 73 e Antipop), “Shock city maverick” mostra o ex-integrante do extinto Antipop Consortium atualizando o hip hop old school ao mesmo tempo que aproxima o estilo da estética eletrônica. Não tem invencionices, “só” criatividade.

As colaborações que carrega no currículo (DJ Shadow, Bill Laswell, Sly & Robbie…) dão idéia da qualidade do que vai sair das caixas de som quando você botar “Shock…” pra rodar. O pé não fica apenas no hip hop e no dub, suas influências vão mais longe, como ele mesmo se descreve em “I’ll melt you”: “The Ornette Coleman of this rap shit/The link between Suicide, Sun Ra, Bambaataa is Ballbeam”.

Batidas secas, efeitos e noises traduzem (e esquentam) a frieza das grandes cidades. Minimalista, sem firulas, Beans é um bom feijão com arroz, sem gosto de requentado. Ouça o electro-funk instrumental “You are dead… let’s disco” e caia pra trás. Levante, limpe a baba e siga escutando.

terça-feira

22

fevereiro 2005

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Melleca

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Hoje saiu uma matéria bacana sobre meu graaande amigo Rafael Mellin, no Globo On Line. Não é a primeira, mas é uma das mais legais.

Videomaker, Mellin é o responsável, entre outras coisas, por um verdadeiro levante em busca da construção de um ídolo do surfe nacional. Além disso, me apresentou ao mundo mini DV (tá bom, isso não é nenhum grande feito) nos áureos tempos em que eu fazia duas faculdades (a minha e a dele).

sábado

19

fevereiro 2005

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Trabalho de formiga

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foto: Lucas Bori

Sábado, 1h30 da madrugada, Praça Saes Pena, Tijuca. O aparente marasmo da praça deserta esconde muita coisa. Definitivamente, um péssimo lugar para ficar parado de bobeira, ainda mais carregando equipamentos de vídeo e fotografia. Abre o gás, risca o fósforo. A chapa vai esquentar.

O destino da noite era o morro da Formiga, para onde o “guia” DJ Marlboro levava um grupo de jornalistas para registrar um baile funk (eu e o fotógrafo Lucas Bori para uma revista, os outros da produção de um programa de TV). O objetivo das duas equipes era o mesmo: conseguir imagens de um baile de verdade, sem maquiagem. A galera que curte o som desde sempre, se divertindo à vontade.

Subindo o morro, uma série de instruções tem que ser seguidas. Todas as janelas do veículo abertas, luz interior acesas e obedecer os comandos do motoqueiro que faz a escolta até o topo. Quase lá em cima, uma barricada de lixeiras filtra a passagem, sob o olhar vigilante de rapazes portando pistolas cromadas. É a chegada.

Fora da quadra de esportes onde acontece o baile, rapazes de 16 anos, andavam com fuzis quase do seu tamanho. Na tensão do momento, só dá pra pensar: “meu irmão, esse muleque não deve fazer muita idéia de como usar esse troço, sabe tanto quanto eu: aperta o gatilho, sai bala. Se der uma cagada aqui, a polícia chegar, uma briga, vai dar merda”. Dentro da quadra, tudo mais tranquilo. Provavelmente por conta da filmagem e das fotos, não tinha nenhuma arma.

O espaço estava vazio. Devido as recentes operações policiais na região, essa era a primeira festa em dias. Os que foram, dançaram, beberam, se divertiram e foram embora. Fora a quantidade de crianças de 6, 8 anos de idade circulando pelo lugar as 3h30 da manhã, não houve nada fora do normal. Nenhuma pancadaria, nenhum proibidão, nenhuma apologia.

Embora nenhuma das equipes estivesse interessada na simplista associação funk/tráfico, as armas estão lá, não tem como ignorar. Como se sabe, o Rio é uma cidade dividida. Em certas partes — em muitas partes — não se entra sem autorização dos “donos” do lugar.

Isso não é exclusividade dos bailes funk, qualquer atividade numa favela dominada pelo tráfico é assim, incluindo os serviços públicos como coleta de lixo, gás e, claro, policiamento.

É importante entender como o funk foi parar nesse ambiente, porque nem sempre foi assim. O grande erro do Estado foi a tentativa de proibição dos bailes no começo dos anos 90, no frenesi pós-arrastão televisionado do Arpoador, quando pela primeira vez o funk foi associado de maneira direta a baderna e atividades ilegais. Obviamente, não deu certo.

Expulsas dos clubes no asfalto, as festas foram se esconder nos morros. Da maneira que acontecem hoje, é impossível fiscalizar. Uma vez dentro das comunidades, não é o Estado quem manda. O esgoto escorrendo pela rua e a quantidade de lixo pelos cantos lembram isso a toda hora.

Os bailes são frequentados tanto por trabalhadores (a maioria) quanto por bandidos. A presença de traficantes não significa que a festa seja deles ou para eles. Eles ouvem funk, como todos misturados ali, e só. O negócio do tráfico é droga, não música.

Dizer que os bailes são festas de bandido é uma generalização burra e irresponsável. Existem os proibidões, funks de exaltação a facções criminosas, entretanto esses são minoria. De qualquer forma, mesmo nos lugares onde o tráfico financia as festas, o faz porque o Estado falhou aí também, ao não proporcionar lazer.

Tentar proibir o funk, como volta e meia é proposto, é combater o efeito, não a causa. É inútil. Ainda que conseguissem acabar com os bailes, outro tipo de música animaria as festas. Porque elas continuariam acontecendo e qualquer que fosse o gênero musical, as coisas seriam exatamente iguais. Não iria demorar muito, apareceria alguém propondo proibir a música nas comunidades.

O que acontece nos morros cariocas não é muito diferente do que acontece no gangsta rap americano, brasileiro ou mesmo com o danchehall jamaicano, como bem falou um amigo. No fundo, todos esse estilos são uma coisa só: música de gueto.

Olhando de longe, parece teatro, mas eles falam sobre a realidade violenta que os cerca. Dr. Dre falando que vai “bust a cap on your ass” ou Elephant Man gritando “Pow! Pow! Pow!” enquanto canta, não é diferente de um garoto falando sobre como as 4h da madrugada “tem que ter uma granada”.

A diferença é que o hip hop e dancehall já se “afaltalizaram” e se espalharam pelo mundo. Existe uma parcela grande de gente sem contato direto com realidades criminosas produzindo esse tipo de som.

A mesma coisa vai acontecer com o funk. Já está acontecendo, timidamente, em músicas como “Quem cagüetou” (Tejo, Black Alien e Speed) ou nas produções do Tetine, Lucas Santtana, Apavoramento, Nego Moçambique ou do americano Diplo e da singalesa MIA.

Enquanto a parede de caixas de som dispara graves atordoantes, fazendo, literalmente, tudo tremer (do chão ao cérebro), fica claro o quanto o trabalho de ponte feito pelo DJ Marlboro é importante. Aproximar morro e asfalto é algo fundamental, pois quanto mais afastados, piores os problemas.

Fechar os olhos, fingir que essas questões não existem, não resolve nada. Tem que ir lá, ver o tamanho da cagada que aprontaram pra gente e, quem sabe asim, tentar fazer alguma coisa pra ajudar a mudar. Porque, se não há justificativa para violência, certamente há explicação.

Quando se fala em ausência de Estado, não está se falando somente de polícia, muito menos do velho “sobe, prende e manda fechar”. O Estado falhou e continua falhando em questões sociais básicas, como educação e oportunidades. Foram essas faltas de condições que proporcionaram o ambiente perfeito para germinação do tal “poder paralelo”.

Agora, com um cenário desses, vem gente dizer que “o funk é violento”. É simplificar demais as coisas. Não são os bailes funk que são violentos. A favela que é.

domingo

13

fevereiro 2005

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Vampirando na TV

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Atualização: a íntegra do programa está disponível na página inicial da Rede Record. A matéria começa em 55m37s.

Com algum atraso, provavelmente para agradar os pa$tore$ donos da concessão, a TV Record deciciu explorar a simplista associação entre as “festas rave” e o consumo de drogas. O programa Domingo Espetacular apresentou uma matéria bizonha com essa abordagem (“esse pequeno mundo de drogas variadas e música repetitiva”). Um grande festival de desinformação.

Surpreendentemente apresentada por Lorena Calábria* — que até então sempre mereceu respeito — a longa reportagem veio lotada de generalizações tão preconceituosas quanto irresponsáveis, como “TODO MUNDO sabe que TODO MUNDO vai pra raves tomar drogas”. Se apenas as coisas fossem tão simples assim, o problema seria bem mais fácil de resolver.

Confirmando a tendência preguiçosa das grandes redações, cada vez indo menos a campo apurar suas histórias e preferindo resolver tudo por e-mail ou telefone, a maior parte dos depoimentos foram retirados de uma lista de discussão de uma comunidade do Orkut, a “Raves”.

Mesmo assim, esses depoimentos eram lidos de maneira tendenciosa, algumas vezes omitindo partes do seu conteúdo e descartando seu contexto. O médico entrevistado avisou: não existe chance de alguém tomar ecstasy esporadicamente, é vício imediato. A mesma coisa foi feita com as imagens. Jovens fumando viravam maconheiros, gente aspirando tubos de Vicky Vaporub (prática comum entre consumidores de ecstasy), viciados em cocaína.

Desde quando declarações anônimas, sobre as quais não se pode confirmar a veracidade, podem ser intepretadas como fontes consultadas é uma incógnita. Ouvir os dois lados da história então, nem pensar. Lições básicas de jornalismo que a equipe da Record parece desconhecer. Ou prefere ignorar em benefício próprio, afinal, sensacionalismo vende que é uma beleza.

Ninguém é hipócrita de dizer que em raves não há consumo de drogas. Há sim, bastante até. Maconha, ecstasy, LSD, lança-perfume, cocaína e muito, muito mesmo, tabaco e álcool, sem dúvida os dois preferidos. No entanto, esse comportamento não é exclusivo (da menor parte) dos apreciadores de música eletrônica.

A mesma coisa se repete em shows de rock, punk (talvez não nos de straight edge), nas arquibancadas do Maracanã, em shows de Caetano, Gil e toda respeitada MPB, em quadras de samba e blocos de carnaval, em bailes funk, festas de 15 anos, em playgrounds de ricos condomínios, nos trios elétricos de Salvador… Enfim, consumo de drogas, em maior ou menor escala, acontece em diversas camadas da sociedade. Seria mesmo ingênuo creditar à cena eletrônica, que em termos absolutos é até pequena, a responsabilidade pela demanda de drogas ilícitas que atravessam nossas fronteiras com uma facilidade assustadora.

Melhor do que generalizações grotescas, seria informar e educar, como faz a BBC e a Associação dos Amigos da Música Eletrônica, a AME. Em vez do Orkut, citar o DanceSafe.org. Mas é aquele negócio, prestar serviço dá trabalho e pouco retorno financeiro. O lance é capitalizar, vampirando qualquer oportunidade que apareça.

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* Esclarecimento: Apesar da reportagem não ser dela, Lorena Calábria é apresentadora do programa e fez a chamada. A frase exata foi: “A ligação das raves com o consumo de drogas é aberta, descarada. Os jovens combinam tudo pela internet”.