domingo

13

fevereiro 2005

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Vampirando na TV

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Atualização: a íntegra do programa está disponível na página inicial da Rede Record. A matéria começa em 55m37s.

Com algum atraso, provavelmente para agradar os pa$tore$ donos da concessão, a TV Record deciciu explorar a simplista associação entre as “festas rave” e o consumo de drogas. O programa Domingo Espetacular apresentou uma matéria bizonha com essa abordagem (“esse pequeno mundo de drogas variadas e música repetitiva”). Um grande festival de desinformação.

Surpreendentemente apresentada por Lorena Calábria* — que até então sempre mereceu respeito — a longa reportagem veio lotada de generalizações tão preconceituosas quanto irresponsáveis, como “TODO MUNDO sabe que TODO MUNDO vai pra raves tomar drogas”. Se apenas as coisas fossem tão simples assim, o problema seria bem mais fácil de resolver.

Confirmando a tendência preguiçosa das grandes redações, cada vez indo menos a campo apurar suas histórias e preferindo resolver tudo por e-mail ou telefone, a maior parte dos depoimentos foram retirados de uma lista de discussão de uma comunidade do Orkut, a “Raves”.

Mesmo assim, esses depoimentos eram lidos de maneira tendenciosa, algumas vezes omitindo partes do seu conteúdo e descartando seu contexto. O médico entrevistado avisou: não existe chance de alguém tomar ecstasy esporadicamente, é vício imediato. A mesma coisa foi feita com as imagens. Jovens fumando viravam maconheiros, gente aspirando tubos de Vicky Vaporub (prática comum entre consumidores de ecstasy), viciados em cocaína.

Desde quando declarações anônimas, sobre as quais não se pode confirmar a veracidade, podem ser intepretadas como fontes consultadas é uma incógnita. Ouvir os dois lados da história então, nem pensar. Lições básicas de jornalismo que a equipe da Record parece desconhecer. Ou prefere ignorar em benefício próprio, afinal, sensacionalismo vende que é uma beleza.

Ninguém é hipócrita de dizer que em raves não há consumo de drogas. Há sim, bastante até. Maconha, ecstasy, LSD, lança-perfume, cocaína e muito, muito mesmo, tabaco e álcool, sem dúvida os dois preferidos. No entanto, esse comportamento não é exclusivo (da menor parte) dos apreciadores de música eletrônica.

A mesma coisa se repete em shows de rock, punk (talvez não nos de straight edge), nas arquibancadas do Maracanã, em shows de Caetano, Gil e toda respeitada MPB, em quadras de samba e blocos de carnaval, em bailes funk, festas de 15 anos, em playgrounds de ricos condomínios, nos trios elétricos de Salvador… Enfim, consumo de drogas, em maior ou menor escala, acontece em diversas camadas da sociedade. Seria mesmo ingênuo creditar à cena eletrônica, que em termos absolutos é até pequena, a responsabilidade pela demanda de drogas ilícitas que atravessam nossas fronteiras com uma facilidade assustadora.

Melhor do que generalizações grotescas, seria informar e educar, como faz a BBC e a Associação dos Amigos da Música Eletrônica, a AME. Em vez do Orkut, citar o DanceSafe.org. Mas é aquele negócio, prestar serviço dá trabalho e pouco retorno financeiro. O lance é capitalizar, vampirando qualquer oportunidade que apareça.

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* Esclarecimento: Apesar da reportagem não ser dela, Lorena Calábria é apresentadora do programa e fez a chamada. A frase exata foi: “A ligação das raves com o consumo de drogas é aberta, descarada. Os jovens combinam tudo pela internet”.

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