terça-feira

25

outubro 2005

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2005, uma odisséia no mangue

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Um presente descolorido pela ansiedade míope de um futuro brilhante que nunca chega (mesmo quando chega). Essa parece ser a mensagem de “Futura”, sexto disco da Nação Zumbi. O recado está resumido na capa, onde uma imagem mostra Recife, alto-falantes e um voto de fé monocromático. Menos pesado que seus antecessores, mas nem por isso menos impactante, a idéia prossegue nas letras de “Futura”.

O tema aqui é o tempo, a maneira como lidamos com ele e como isso nos afeta. E para sonorizar isso, nada melhor do que músicas espaciais. “Psicodelia em preto-e-branco”, diz o release. Ao descolar o conceito de psicodelia da usual alegria de cores lisérgicas, a Nação Zumbi contextualiza as trilhas de viagens ácidas de maneira muito própria.

As músicas falam das preocupações exageradas do dia-a-dia (“Hoje amanhã e depois”), da rotina massacrante (“A ilha”) e de atravessar a vida no contra-fluxo (“Sem preço”). Da escolha do melhor momento (“Na hora de ir”), do agora (“Respirando”) e do caos iminente (“O expresso da Elétrica Avenida”). As auras digitais do cyber espaço remetem a ausência do próprio tempo físico (“Voyager”).

As letras são difíceis de penetrar, ao mesmo tempo que permitem interpretações menos engessadas. As distorções vocais, aliada a ausência do texto no encarte, dificultam propositalmente a compreensão. Pesca-se uma coisa aqui, outra ali, em diferentes audições, até costurar as informações e entender o todo.

Mesmo faixas aparentemente sem relação com o tema principal, misturadas as outras, podem ter leitura semelhante. “Pode acreditar”, sobre a mídia manipulada e manipuladora, arranha o assunto ao falar de como esse mercado de informações afeta nossas decisões e, conseqüentemente, nosso futuro. “Memorando” promove um encontro atemporal entre Lampião e Zumbi, enquanto “Vá buscar” fala de uma “semente que vira remédio”, um dos alívios possíveis para o complexo panorama apresentado. Sobram apenas duas faixas, sendo que uma delas, “Nebulosa”, é instrumental.

Em termos de sonoridade, com “Futura” a Nação Zumbi finalmente alcança uma identidade pós-Chico Science. É a conclusão de uma lenta evolução, iniciada logo após a morte do líder da banda. No primeiro disco sem Chico, “CSNZ”, a banda ainda carregava seu nome (mesmo que abreviado) e serviu como uma despedida do formato conquistado com ele.

O começo da metamorfose é marcado por “Rádio S.AMB.A.”, um tímido passo em direção ao desconhecido, ainda próximo demais das antigas composições. No disco seguinte, sem perder a coerência, pela primeira vez soaram realmente diferentes deles mesmos, o que explica a auto-afirmação do nome da banda no nome: “Nação Zumbi”.

Em “Futura”, ouvimos uma outra banda, fortemente influenciada por ela mesma. A vontade de chegar era grande, colocaram até uma mão fazendo figa na capa, mas não precisava. Era inevitável.

A mistura personalíssima de rock, cirandas, baião, frevo, funk, dub, hip hop ainda movem o grupo. Isso não mudou. No entanto, a guitarra de Lúcio Maia está mais contida, o baixo de Dengue amassa menos e os tambores estão mais leves, deixando as músicas mais balançadas e etéreas. O baião rock “Pode acreditar”, no melhor estilo Babulina, confirma.

Herança do Los Sebosos Postizos (projeto paralelo de integrantes da Nação, dedicado a releituras de clássicos de Jorge Ben), Jorge du Peixe passou a utilizar uma unidade de efeitos Kaos Pad acoplado ao microfone. Mesmo sem abandonar os efeitos, dessa vez o mais perto que a Nação chega do dub é a ambiência levada por berimbau de “Nebulosa”, marcada por uma desacelerada que lembra “Uncomfortable”, do Morgan Heritage.

Há muitas participações especiais no disco. Do guitarrista do Cidadão Instigado, Fernando Catatau, em “Na hora de ir” e “Pode acreditar” à flauta de Alexandre Basa em “Respirando” e ao trompete de Maurício Takara em “Sem preço”. Pupillo dá uma pausa na quebradeira e abre espaço para Kassin preencher com suas batidas produzidas em Gameboy (venenosas de tão toscas) a esperta releitura de clichês da surf music de “Expresso da elétrica avenida”. O co-produtor Scotty Hard toca Rhodes e moog em algumas faixas.

A faixa-título, “Futura”, fecha o disco e anuncia o raiar de um novo dia, perfurando a escuridão e trazendo novos e melhores tempos. De nada adianta, graças a eterna e angustiante busca pelo perfeição. Imediatamente estamos “querendo o depois”.

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BÔNUS

Co-produtor de “Futura”, Scotty Hard tem no currículo produções para nomes como John Spencer Blues Explosion, Sex Mob e Medeski, Martin & Wood e foi técnico de gravação e mixagem em discos do Wu Tang Clan, De La Soul, Stereo MCs, Handsome Boy Modelling School, Antibalas, Latyrix e vários outros.

Num bate-papo por e-mail, o americano falou um pouco de como foi trabalhar com os caranguejos.

Você mixou o disco anterior da banda, “Nação Zumbi”. Como foi a transição para de fato co-produzir “Futura”?

Eu mantive contato com a Nação e fui a Recife durante o carnaval no ano passado e os vi tocar. Fiquei cerca de uma semana em Recife com a banda. Achava importante ir a Recife para compreender melhor a banda e sua música. Então, depois me disso, eles me convidaram para voltar e trabalhar no próximo disco, dessa vez desde o começo.

Como você não fala português, como foi a comunicação? Você conhece as referências musicais brasileiras deles?

Quem falou que eu não falo português?? Na verdade, eu aprendi português o suficiente pra comandar a gravação. “Pára”, “vai”, “de novo”, saca, o básico de uma sessão de gravação. Além disso, alguns integrantes da banda falam inglês. Mas nós todos falamos a língua mais importante: música.

Aprendi muito sobre música brasileira através da Nação e de outros amigos brasileiros. Estando no Brasil, você não tem como evitar absorver isso, é um lugar muito musical.

Gosto bastante de Jorge Ben, Gal Costa, Vicinius, Baden Powell, Nelson Cavaquinho, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga. Nós também temos muitas influências semelhantes fora do Brasil também.

Como vocês se conheceram e como você conheceu a música deles?

Conheci-os pessoalmente em São Paulo, quando eu vim mixar o disco anterior. O Lucio [Maia] pegou meu e-mail com alguém, Melvin Gibbs, eu acho, e começou a me escrever. Pedi para ele me mandar algumas músicas, nunca tinha os escutado. Então ele me mandou todos os discos e me disse para escutá-los em ordem. Ouvi o primeiro e pensei “isso é foda!”. Então eu escutei até o último disco, na época o “Radio S.AMB.A.”, e também era ótimo. Escrevi de volta e disse, “estou dentro”.

Você produz muita coisa ligada ao dub e os integrantes da Nação também são fãs do estilo. Isso influenciou o processo de produção? “Futura” não soa muito dub, mas definitivamente soa mais relaxado que os outros discos.

Nós concordamos que o disco não deveria ter uma sonoridade dub, porque o último disco era assim e nós queríamos fazer algo bem diferente. Por isso que eu gosto tanto desses caras e gosto de trabalhar com eles, porque é inerente a eles fazer algo diferente do trabalho anterior, ainda assim mantendo uma identidade.

“Futura” soa mais paisagístico que os outros discos da Nação Zumbi. A guitarra e a percussão, que sempre desempenharam um papel importante, dessa vez parecem ter se retraído para atingir essa sonoridade. A intenção era essa?

Conversamos bastante sobre o conceito do disco. A idéia era fazer um disco psicodélico, mas não viajante. Mais como “Revolver” do que “Sgt. Pepper’s” [discos dos Beatles], se você me enntende. A guitarra é menos “rock”, distorcida, mas ainda muito proeminente. Os tambores também estão lá, porém menos dominantes para atingir um som mais amplo.

Apesar de criativas, as músicas do “Futura” parecem menos dinâmica que o usual. Os temas são apresentados e então se repetem, sem muita alteração, mais ou menos como acontece na música eletrônica.

É, entendo como você pensa assim. Mas há muito mais gêneros musicais que utilizam esse modelo tema/variação do que só a música eletrônica. Acho que esse disco pode ser considerado mais “groove”, com tudo o que implica como sendo muito influente na banda. Hip hop, soul, r&b (VERDADEIRO r&b, não essa enganação atual), reggae, etc.

Ao invés de linhas de baixo com notas bem definidas, o som do baixo se mistura aos outros sons, borrando as divisões, ao invés de pulsar e mover a música para frente, como de costume. Porque isso? Tem algo a ver com o a sonoridade de paisagem?

Não concordo. O baixo continua fundamental em todas as músicas. Isso é parte do brilhantismo do estilo de tocar do Dengue, que é suingado e preciso, sem obstruir o resto. Ele encontra os espaços. Tivemos uma longa conversa sobre isso um dia enquanto eu editava umas coisas e percebi que ele estava tocando em um tempo de 3 enquanto o resto da banda tocava em 4!

Em algumas faixas os vocais do Jorge Du Peixe são retos, em outras estão mais melódicos do que nunca, não é?

Acredito que os vocais do Jorge estão BEM MAIS melódicos. Ele realmente evoluiu com esse disco, tentando coisas que nunca havia tentado, correndo riscos, novas direções. Acho que o vocal de Jorge nesse disco está fantástico.

Jorge agora opera um Kaos Pad, unidade de efeitos que ele começou a usar no projeto paralelo Los Sebosos Postizos. Em termos de efeitos, o que mudou no som da Nação?

Talvez ele esteja mais consciente dos efeitos. O Kaos Pad foi usado muito pouco no resultado final. Gosto muito da maneira como ele o utiliza como um instrumento.

O que você achou das batidas de Gameboy, na música “Expresso da elétrica avenida”?

Conheci o Kassin na mesma viagem para Salvador para o Carnaval. Estávamos trabalhando num projeto junto com Arto Linday e Matthew Barney. Ficamos amigos rápido. Tinha gente que pensava que éramos irmãos porque usamos óculos com armação parecida. Eu tinha escutado o disco de Gameboy enquanto ele estava produzindo. Muito legal. A música sobre a laranja é hilária! Pupillo é amigão dele também e amou o timbre das baterias do disco e queria usar numa música. Pensei que seria mais bacana usar em faixa “rock”, pois é mais contrastante, em vez de utilizar em uma “groove”. Aquela bateria tem um som muito agressivo, então pensei que seria uma boa combinação. Você escuta a guitarra meio Duane Eddy, acha que vai escutar alguma batida old schoool e acaba sendo um Gameboy! Foda.

Pra fechar, como você classificaria esse disco?

Música brasileira, nacional [respondida em português].

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