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sexta-feira

19

fevereiro 2010

25

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Anotações de viagem: Índia

Written by , Posted in Anotações de viagem, Urbanidades

Inaugurando a nova sessão do URBe, “Anotações de Viagem”, as impressões sobre a Índia.

Como diz o título, a idéia aqui não é fazer nenhuma análise aprofundada ou algum tipo de estudo sobre qualquer lugar. São apenas anotações feitas durante o percurso, quando dá tempo (o que significa que nem todas as histórias e pensamentos foram escritos), compartilhadas aqui sem edição, ilustradas por fotos aleatórias da viagem.

Definitivamente, não é um guia de viagem.


fotos: URBe

A confusão era aguardada na Índia, apenas não com tanta intensidade quanto se encontra em Delhi ou em Jaipur. Precisou de uma semana no país e chegar numa cidade um pouco menor, Udaipur, para a ficha começar a cair, dar tempo de respirar, levantar a cabeça e olhar a Índia além dos monumentos.

Você percebe que está bem longe de casa quando, ao contrário do que acontece em qualquer país da Europa, ao falar que é do Brasil não recebe um sorriso de volta. Ninguém sabe do que se trata ou onde fica. Nem adianta apelar para o futebol, pois o esporte nacional é o críquete e nem mesmo falar do Káka (com acento no primeiro a mesmo), Ronaldo ou Carlos (Roberto Carlos), os poucos que um ou outro conhecem, ajuda muito.

A miséria é assustadora e apesar de uma clara ansiedade com a “oportunidade” quando encontram um turista, os indianos não parecem desesperados com a própria situação. Há um certo conformismo no ar, refletido na maneira com que aceitam as coisas, por vezes se colocando em uma posição inferior, como se não fossem os donos da casa.

Pode ter a ver com religião e o incontornável sistema de castas, pode também ser hospitalidade ou uma simples decisão de deixar os clientes satisfeitos para evitar problemas. Udaipur, muito menor, permite enxergar um pouco melhor as coisas.

Quando se está onde se quer estar — seja um forte, um palácio ou um templo — está tudo ótimo. Sem falar na luz da chamada “hora mágica”, que dura horas, deixando tudo dourado a partir das 3 da tarde e terminando com um pôr-do-sol lindo, com um bola laranja no céu.

O problema são os intervalos entre as atividades: negociar preços com motoristas de auto rickshaw (as moto-táxis, quase sempre pedindo o dobro do valor final), procurar onde comer, prestar atenção onde pisa (coco e esgoto pra todo lado), onde toca, em quem te toca, a poluição sufocante (de arder o nariz e os olhos), tomar banho de baldinho, se enxugar com toalhas fedidas, escovar os dentes com água engarrafada, passar álcool gel na mão, desviar dos indianos nas ruas (a pé ou motorizados), a miséria colocando o dedo na sua cara, os pedintes, as crianças imundas e sem perspectiva (de partir o coração), a irritante insistência dos vendedores de tudo, dizer não e ser forçado a ser antipático com pessoas humildes todo tempo como única maneira de conseguir caminhar nas ruas… Tanto esforço para fazer as coisas cansa.

Tudo isso intercala visitas inesquecíveis ao Taj Mahal, a fortaleza de Jodhpur, ao templo Jain no caminho para Jodhpur ou aos macacos de Jaipur. A estação de trem de Jodhpur é um grande resumo dessa confusão, com ratos enormes circulando entre as pessoas e um pombo cagando no meu braço, felizmente defendido pelo casaco.

O indiano vive apressado. Para que, não se sabe. O fato é que eles não param pra nada e tampouco sabem esperar. Ignoram filas e estão sempre se movendo. Caminhando ou dirigindo, se encontram resistência, tentam desviar ou passar por cima, como um rio correndo entre pedras, nunca param. Empurram nas ruas e no trânsito não existe preferencia, sinal, mão ou qualquer ordem. Ainda assim não se vê batidas. É um equilíbrio delicado.

Curiosos, os indianos observam cada movimento sem cerimônia, encarando mesmo. Pare na rua para consultar o guia e rapidamente você se verá cercado de indianos ollhando por cima do seu ombro ou dando palpites. Muitas vezes eles oferecem ajuda genuína nas ruas, mas é difícil dar espaço pra isso acontecer quando quase todo tempo a intenção não é essa, mas sim lucrar de alguma maneira uma vez que o contato tenha sido estabelecido.

Com uma poulação gigantesca e poucas oportunidades de emprego nos centros urbanos para acomodar tanta gente, é normal ver três ou quatro pessoas fazendo o trabalho que poderia ser feito por apenas uma, seja atrás de um balcão ou mesmo num rickshaw.

A Índia é um lugar exagerado, tudo é em excesso. Os caminhões transbordam de carga, as motos levam quatro pessoas (inclusive crianças) e os rickshaws que mal levam quatro, chegam a carregar até dez pessoas.

Visitar a Índia é ver com os próprios olhos o ponto de saturação de uma cidade. É impossível atender as necessidades de estrutura e consumo de um lugar com tanta gente, não há recursos que dê conta. Isso é o que aguarda qualquer cidade do mundo a se continuar nesse crescimento desordenado.

Tanta coisa faz pensar. A Índia está muito atrasada em termos de infraestrutura em relação ao Brasil e isso acaba também ressaltando diferenças culturais. Enquanto nas comunidades carentes brasileiras a mobilização social é quase uma regra, por aqui parece haver um conformismo com o caos, ninguém parece preocupado com isso a ponto de se organizar pra mudar ou melhorar algo.

A viagem é cansativa, embora traga muitos prêmios. Difícil dizer se voltaria, apesar de ter gostado muito de ter vindo.

Chegar a Tailândia foi um alivio. Após dias tumultuados na Índia, aportar em uma cidade de ruas asfaltadas, lojas, lugares pra comer, hotéis arrumados e banheiros limpos foi um presente. Chegar é que não foi fácil. A viagem entre Agra (onde fica o Taj Mahal) e o aeroporto de Delhi foi desesperadora.

Saímos cedo, 6h, ainda escuro e sob uma neblina fortíssima. O motorista disse que quando clareasse, lá por umas 7h30, melhoraria. No entanto, até as 10h a situação era a mesma: não se enxergava nada cinco metros além do carro.

Era como flutuar a esmo, sendo levado pela névoa. Não seria tão mal se não fosse uma estrada na Índia, onde não existe nenhuma regra. Ninguém respeita as faixas de velocidade ou mesmo os limites das faixas, muitas vezes sequer a direção. Seguir na contramão – numa estrada! – é normal.

Dividindo o espaço com charretes, motos, bicicletas, rickshaws, andarilhos, caminhões sem nenhum farol aceso e as vacas sagradas que podem estar em qualquer lugar, sob aquela neblina, um acidente era iminente, óbvio, esperado até.

Obrigando o motorista a ir devagar, ficar atrás de algum outro carro numa distância suficiente para enxergar suas luzes e não fazer ultrapassagens desnecessárias (porque não ficar atrás de caminhões era obrigatório), a chance de perder o voo era real e a possibilidade de mais um dia na Índia – e no inferno de Delhi, pra piorar – um pesadelo.

Até que o tal acidente veio, em dose dupla. O carro que ia imediatamente a nossa frente atropelou um dos vários loucos que atravessam um estrada sem nenhuma visibilidade como quem passa pelo corredor do quarto para o banheiro em casa. O sujeito voou alto, os freios gritaram, os carros pararam e, sabe-se lá como, a vítima logo estava de pé, continuando a travessia como se nada tivesse acontecido.

O motorista ainda ria da tensão, desnecessária segundo ele, quando uma boiada propositalmente — já que era tocada por um pastor — atravessou a estrada na nossa frente. Felizmente, com nossos gritos, o motorista de reflexos atrasados conseguiu frear e parar a menos de um metro dos animais. Sufoco.

Chegamos no aeroporto a tempo do voo, ainda bem.

A Índia, diz-se, é um país que desperta sentimentos opostos, o tal “ame ou odeie”. O mais correto seria “ame E odeie”, como qualquer outro lugar.

terça-feira

20

abril 2004

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Vizoo, Jan/2001

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Umbigo do mundo

Reportagem sobre uma viagem de ônibus do Brasil ao Chile, passando por Bolívia e Peru, originalmente publicado na revista Vizoo, em janeiro/fevereiro 2001.

Encarar um ônibus até Machu Picchu vai muito além de somente chegar até lá, existe muito mais para aproveitar no caminho. Por mais que uma viagem assim possa parecer uma furada, não é. É sim uma grande aventura, além de ser uma maneira relativamente barata, de se conhecer um pouco do Brasil, Bolívia, Peru e Chile.

Estão no caminho, além do famoso centro energético da terra, o Titicaca, lago navegável mais alto do mundo, a cidade de Cusco, no Peru, e o Vale de la Luna, em La Paz. Tudo que é necessário é ter a cabeça aberta para situações novas e inusitadas e um pouco de disposição para passar alguns apertos.

O melhor de uma viagem destas é chegar lá e aprender. Por isso neste texto você não encontrará a história dos Incas ou elucubrações sobre os costumes locais, vai encontrar uma sugestão de roteiro e algumas dicas de como fazer uma viagem pra lá de boa. E como toda viagem começa quando se decide viajar, é legal planejar tudo com antecedência (veja as informações básicas no box).

O começo de tudo é na rodoviária Novo Rio, de onde sai o ônibus rumo a Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com a Bolívia. Depois de 28 horas sentado a melhor pedida é dormir por lá mesmo e partir no dia seguinte para Quijaro, já na Bolívia, de onde parte o “trem da morte”.

O famoso “trem da morte” faz o trajeto entre Quijaro e Santa Cruz de la Sierra e é exatamente como dizem: lotado de galinhas, porcos e traficantes. Traficantes de açúcar, é bem verdade, já que este pó branco é muito mais barato no Brasil. Mesmo assim, há várias buscas policiais no caminho, uma das razões que fazem o trajeto de 18 horas poder chegar a até três dias.

Para fugir dos animais, pode-se pagar um pouco mais para ir na classe Bracha ou na Pullman, que ao contrário do que sugere o nome, são superiores a Primeira classe. De Santa Cruz parte-se para La Paz na mesma tarde, chegando na manhã seguinte. E é aí que se enfrenta o maior dos problemas.

La Paz, capital da Bolívia, está a 3.600 metros acima do nível do mar. À noite, ainda no ônibus, já começam os efeitos da altitude: tonturas, ânsia de vômitos e uma pressão absurda na cabeça. Um dos melhores remédios para o mal das alturas, ou “soroche” como é chamado pelos locais, é a folha de coca. O cultivo e o comércio desta folha, planta sagrada dos Incas, é legal tanto na Bolívia quanto no Peru e não se trata de droga alguma. A cocaína é um derivado da folha, alterado quimicamente. Normalmente a folha é consumida em forma de chá ou simplesmente mascada.

Depois de um bom dia de descanso e de uma noite de sono a altitude já não incomoda tanto. Mesmo assim é bom ficar pelo menos mais dois dias em La Paz para se adaptar totalmente, pois todos os outros pontos da viagem estão a pelo menos 2.200 metros acima do nível do mar. Em La Paz não se pode deixar de visitar o Vale de la Luna, as ruínas de Tiwanako e, se sobrar um tempinho, o estádio onde o Brasil perdeu da Bolívia nas eliminatórias da Copa de 94, com aquele tremendo frango do Tafarel. Deve ter sido a altitude.

A próxima parada é a cidade de Copacabana, as margens do lago Titicaca. A melhor opção antes de seguir para Puno, no Peru, é dormir na Isla del Sol, que nem sempre tem água, mas com certeza terá uma das melhores trutas que você pode comer. Dois dias são o suficiente em Puno, o bastante para conhecer as ilhas flutuantes dos Uros, construídas no meio do Titicaca com uma raiz típica da região, e as imperdíveis ruínas de Sylustani.

A doze horas de Puno está Cusco, que em quechuá, língua original dos Incas e até hoje uma das línguas oficiais do Peru, quer dizer “umbigo do mundo”. Isto porque esta foi a capital do império incaico até ser dominada pelos espanhóis, quando adquiriu a atual aparência européia. A Plaza de Armas é onde tudo acontece. É lá que você vai encontrar desde agências de viagens que oferecem passeios às atrações turísticas da cidade até as boates que agitam a noite de Cusco e, o que é melhor, de graça. Nos arredores de Cusco estão às maiores e mais impressionantes construções Incas. Existem dois passeios que levam as mais importantes: o que vai ao Vale Sagrado, passando por Pisac e Olataytambo, e o que vai a Qorikancha (Templo do Sol) e Sacsaywaman, entre outros. Não se pode deixar de ir. Quanto as boates, as mais indicadas são a Mama Africa e a Xcess, cheias de turistas de toda parte, principalmente argentinos e chilenos.

Mas o que tornou Cusco conhecida mundialmente é que daqui se sai para o “Camino Inca”, ou o caminho real Inca até Machu Picchu. É possível fazer a trilha por conta própria, mas é melhor comprar um pacote em uma das agências de viagem da Plaza de Armas. É fundamental pesquisar bastante, pois os preços variam muito, indo de U$50 até U$435. Os pacotes normalmente incluem barraca de acampar, saco de dormir, comida para os quatros dias, um guia credenciado e carregadores. Os carregadores são os responsáveis pelo conforto durante a caminhada; são eles que levam toda a cozinha, comida e as barracas, além de cozinhar todas as agradáveis refeições.

Nos quatro dias de caminhada você vai ver de tudo; turistas de todo lugar do mundo, animais, plantas exóticas e muitas, muitas escadarias. A trilha de trekking mais famosa da américa do sul tem 42 quilômetros de extensão. No primeiro dia caminha-se bastante, com subidas leves, saindo dos 2.200 metros de Cusco até os 2.800 metros do local do primeiro acampamento. A empolgação ajuda muito durante todo o caminho, mas sem dúvida ela é mais necessária no segundo dia. É então que se parte rumo ao Pico da Mulher Morta, nome sintomático deste pedaço da trilha. Além das folhas de coca uma boa pedida para esta subida é uma pastilha chamada Coramina-Glucosa (laboratório Novartis), vendida em farmácias de Cusco. Em apenas sete quilômetros se vai dos 2.800 até os 4.300 metros deste pico. Falta ar, faltam pernas, falta tudo. Mas quando se chega ao topo a emoção é indescritível. Um misto de felicidade com uma sensação de superação que é inigualável.

O terceiro dia é o que mais se anda e também é o que mais tem coisas para se ver e fazer. Além da paisagem montanhosa dos Andes, atravessa-se um bom pedaço de floresta e visita-se algumas ruínas muito interessantes. Winay Wayna, enorme construção Inca com muitas fontes purificadoras de água está a apenas cinco minutos do local do último acampamento. Há também um alojamento perto onde se pode tomar banho e até aproveitar para tomar umas cervejas, já que o dia seguinte é curto, com três horas de caminhada. Mas é sem dúvida o mais esperado de todos.

No quarto dia o ideal é acordar de madrugada, aproximadamente as 5:00h, para poder chegar bem cedo às ruínas. A trilha Inca é a única forma de se chegar a Machu Picchu pela parte de cima, através de Intipunku (Portal do Sol), a entrada oficial do santuário utilizada pelos incas. Os turistas que vão de trem, ônibus ou até mesmo de helicóptero só chegam à partir das 9:30 h, e chegam pela parte debaixo da cidade. Por isso os que fizeram a trilha Inca madrugam neste dia, para merecidamente ter o privilégio de avistar Machu Picchu de cima e completamente vazia. Intipunku é onde começa a choradeira. Depois de quatro dias de muita expectativa caminhando, a alegria bate forte e quase todo mundo desaba num choro coletivo.

Têm-se algumas horas até os turistas começarem chegar e mais algumas para se conhecer a cidade. Machu Picchu é realmente muito mística e energética, mas esses tipos de comentários são inúteis e ineficazes porque não há adjetivos que realmente descrevam a sensação de andar descalço por aquele lugar. Tem que ir, tirar o tênis e experimentar para entender.

Se sobrou algum…

Se sobrar tempo e um pouco mais de grana, uma idéia muito boa é ir de Cusco até San Pedro de Atacama, no norte do Chile. San Pedro fica no meio do deserto de Atacama e é lá que fica o Vale de la Luna, mais famoso do que o de La Paz, por ser muito maior e mais bonito. Tem também o Vale de Marte, utilizado pela Nasa para testar veículos e sondas antes de serem mandadas ao planeta vermelho, e passeios pelas Lagunas Andinas. Isso sem contar a própria cidade de San Pedro, bem rústica, mas com muitos restaurantes e uma vida noturna bem agitada. Para chegar lá, vá de Cusco para Arequipa, de lá para Tacna e depois para Arica. Depois é só ir até Calama, no Chile, na fronteira com o Peru, a uma hora e meia de San Pedro e pegar mais um ônibus.

Voltando para o Brasil você terá que passar pela Bolívia de novo. Saindo de San Pedro tem um trem que vai até Uyuni, mas a melhor opção é fazer uma excursão de três dias em um jipe 4×4 pelo deserto. Os preços variam de U$60 à U$80 e o passeio inclui – além de transporte, comida e alojamento – o “desfile de las lagunas” de todas as cores, verde, azul, vermelha, lotadas de flamingos andinos. No último dia se chega à maior salina do mundo, o Salar de Uyune, um deserto de sal onde se enxerga o branco até perder de vista. Um visual meio futurista, lembra o Matrix do filme. A sensação é de que se está no céu, só se vê nuvens e uma ilha lotada de cactos solitária no meio da salina.

Essencial – o que levar e o que fazer

• Peru, Bolívia e Chile não exigem visto de entrada para turistas brasileiros, somente o passaporte, mas é bom dar uma conferida se a situação não mudou antes de ir.
• vacina contra febre amarela, OBRIGATÓRIO em todos os três países.
• comprar as passagens para Corumbá com antecedência, elas acabam rápido
• bota de trekking, impermeável e capa de chuva. Chove bastante durante a caminhada, principalmente no verão.
• repelente de mosquitos
• remédios que normalmente você usa no Brasil
• Seguro de saúde para viagens internacionais