rolling stone Archive

sábado

11

outubro 2008

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Rolling Stone, Setembro/2008

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foto: proline00

Uma análise da cobertura da imprensa britânica dos passos da Amy Winehouse, escrita para acompanhar a matéria de capa sobre a cantora. Não tenho certeza se acabou não sendo publicada.

Procura-se Amy

Seja bem vindo ao fabuloso mundo das celebridades inglesas. Conheça Lilly Allen, a jovem beberrona que não está nem aí pra nada. Divirta-se com as constantes trocas de namorado (quase sempre músicos) da ex- super modelo Kate Moss. Ferva de raiva com Heather Mills, a interesseira ex-mulher de Paul McCartney. E, finalmente, acompanhe as agruras da cantora e viciada Amy Winehouse e seu companheiro de aventuras, o garoto problema Pete Doherty.

Isso é um bom resumo do clima de circo de horrores montado pela imprensa que cobre as notícias – melhor dizendo, fofocas – do mundo do entretenimento em Londres. Mais do que noticiar, os jornais locais – ou um segmento específico deles, os tablóides – exercem um papel de entretenimento, parecido com o das novelas no Brasil.

A cada dia, a tarefa é entregar novos desdobramentos das principais histórias aos leitores, como se fossem capítulos, com uma nova revelação a cada dia e um gancho para o seguinte. Não é difícil imaginar que, nesse cenário, vários fatos sejam extrapolados (quando não, tirados de contexto), na obrigação de alimentar esse ciclo.

É curioso o fato de que em diversos cursos de jornalismo da Inglaterra, os estudantes tenham aula de como escrever roteiros de ficção. Basta ler os jornais para constatar o uso da técnica no forte uso da estrutura narrativa na forma de relatar as notícias.

Mesmo nos jornais considerados sérios, esse tipo de estrutura também é utilizado. O caso da menina Madeleine McCann é um bom exemplo. Dia após dia, as novidades (e providenciais enchimentos de lingüiça) eram liberadas a conta-gotas, prendendo a atenção dos leitores.

No jornalismo de celebridades essa estratégia é potencializada. O palco principal desse universo são os jornais gratuitos distribuídos nas entradas do metrô, todas as manhãs e tardes, um dos principais passatempos para as longas viagens.

No reino de faz de contas das celebridades, o trabalho dos artistas (ou dos poucos que realmente são artistas) pouco importa. Não interessa a música, ninguém está nem aí para o filme. Cada um deles entra no jogo – por vontade própria ou não – para desempenhar um papel pré-estabelecido.

Para Amy, coube o da jovem talentosa e drogada. Afinal, todo elenco pop que se preza, precisa ter sua diva do rock aprisionada no inferno dos tóxicos. Se isso corresponde fielmente a realidade é difícil dizer. As notícias e fotos, cuidadosamente escolhidas para parecerem o mais bizarras possível, não deixam espaço para interpretações. Cabe a Amy seguir o roteiro escrito para ela.

Seus discos estão entre os mais vendidos e suas músicas entre as mais executadas nas rádios. No entanto, pouco se lê a respeito do seu trabalho. As resenhas dos shows são um análise de seu comportamento, suas performances são medidas por seu nível de sobriedade.

A desgraça de Amy Winehouse não são seus vícios. O problema maior são os milhões de pessoas que acompanham os seus passos, secretamente desejando sua morte para saciar a curiosidade de saber o final da história.

Encurralada, Amy entrega o que dela esperam: escândalos atrás de escândalos, quem sabe imaginando que consiga aplacar o desejo insaciável por mais detalhes da sua vida.

Uma pobre coitada? De maneira nenhuma. Atitudes irresponsáveis e um estilo de vida explosivo, cedo ou tarde costumam cobrar seu preço. Triste é ver uma pessoa ser explorada dessa forma, em vez de socorrida de uma tragédia anunciada. Porém, o público pagou o ingresso, é natural que espere um espetáculo.

O maior problema da Amy talvez seja, simplesmente esse: ter um problema.

domingo

21

setembro 2008

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Rolling Stone – Setembro/2008 (gongada)

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Resenha do disco “Ritmo, Ritual e Responsa” do Charlie Brown Jr que escrevi sob encomenda da Rolling Stone e que acabou não publicada.

Charlie Brown Jr.
2 ESTRELAS e meia
“Ritmo, Ritual e Responsa”
EMI

Coisa de cinema

Nos quase dez anos que separam a estréia “Transpiração contínua prolongada” e “Ritmo, ritual e responsa”, nono disco do Charlie Brown Jr., muita coisa mudou para banda.

No início, a mistura de rock, funk-metal, hip-hop e reggae do CBJR, apesar de soar como uma versão aguáda de uma combinação imaginária entre o Rage Against the Machine, Beastie Boys e Red Hot Chilli Peppers, se destacou simplesmente por soar diferente do que as bandas de rock da época estavam fazendo.

Não demorou muito e a molecada se identificou com a banda, sobretudo os skatistas, já que o esporte é citado em quase todas as letras. A banda, porém, teve curto fôlego criativo. A cada disco novo – praticamente um lançamento por ano – as letras e riffs pareciam reciclagem de trabalhos anteriores, tornando tanto o discurso quanto as músicas repetitivas. A predileção por um exagero no número de canções em cada disco, chegando a mais de 20 faixas em alguns deles, também colaborou para canseira.

Independente disso, o Charlie Brown Jr. se fixou como um dos principais nomes do pop-rock nacional, com música na abertura do seriado “Malhação”, da TV Globo, estrelando campanha publicitária e com singles sempre bem colocados nos Top 10 das rádios. Tanto sucesso pode ter causado acomodação.

Sinal disso é a entrada tardia do grupo no mundo digital. O site oficial do grupo foi criado há menos de dois anos. Ou seja, o CBJR, que já não cresceu no ambiente da internet, chegou bastante atrasado aos tais “novos tempos”. Enquanto papava mosca, outros nomes com Fresno e NX Zero (que têm diferenças, mas são essencialmente iguais quando se fala do universo radiofônico) construíam seu público, com ares de novidade, tomando o espaço do Charlie Brown Jr.

Some a isso o custo da antipatia gerada pela super exposição e por atitudes do vocalista e líder da banda, Chorão, como a agressão ao músico Marcelo Camelo (do Los Hermanos). O entra e sai de integrantes, fez a banda parecer uma empresa aos olhos dos fãs, onde os músicos são meros funcionários. O resultado dessa equação é um público difuso, superficial, formado basicamente por ouvintes de rádio. A banda perdeu o contato com a garotada e ficou sem referencial.

É nesse contexto que chega as prateleiras “Ritmo, ritual e responsa”, trilha sonora do longa (ainda inédito) “O magnata”, estréia de Chorão no cinema, como roteirista. Estrelado por Paulo Vilhena, o filme conta a história de uma estrela do rock, imatura e encrenqueira (levando alguns a falar em auto-biografia).

Ao contrário dos videoclipes, por se tratar da trilha de um filme, as músicas desse disco tem a obrigação de servir as imagens. Isso deve ter levado a banda a experimentar, ainda que timidamente, novas opções para a combinação hardcore-ska-reggae-rap característica do Charlie Brown Jr.

Produzido por Chorão e pelo guitarrista Thiago Castanho, “Ritmo, ritual e responsa” se apóia em participações especiais para encontrar esses caminhos. São muitos convidados: ForFun (“O universo a nosso favor”), Sacramento MCs (“Vivendo a vida numa louca viagem”), João Gordo (“Vida de magnata”) e Marcão, do Lobotomia (“Que espécie de vermes são vocês”), entre outros.

A toada baile funk do vocal de MV Bill em “Sem medo da escuridão” chama atenção, mas são as batidas eletrônicas do DJ Zyz em “Nua, linda, inigualável” e “Panormal” que realmente causarão estranhamento nos fãs do CBJR. A mistura de rock com trance, no pior estilo Tiësto, é um desastre.

Há também quatro faixas instrumentais, entre elas um funk setentista, “Liberdade e tudo”, novamente destoando do repertório da banda, dessa vez positivamente. As 23 faixas passam durante cerca de uma hora e vinte minutos de lições de moral das letras, tornando o disco longo demais.

Tecnicamente, não há como dizer que é ruim. É bem gravado e a banda é competente, tornando perfeitamente compreensível seu sucesso entre os adolescentes. O que causa estranhamento é a distância entre as mensagens pregadas nas letras e a postura dos integrantes. Mas isso também pode ser mera ficção.

quinta-feira

21

agosto 2008

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Rolling Stone, Julho/2008

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foto: URBe Fotos

Resenha do show do Coldplay na Brixton Academy, em Londres, que escrevi sob encomenda da Rolling Stone.

Coldplay
Brixton Academy – Londres – 16 de junho
2 estrelas e meia
Viva la repetición

O Coldplay não decepciona seu público. A cada disco da banda, os fãs – mesmo os de ocasião, que conhecem apenas uma ou duas canções – podem ter certeza que as músicas serão, como sempre, umas iguais as outras. O show não é diferente.

Mesmo contando com Brian Eno na produção, o que se ouviu na apresentação gratuita de lançamento da turnê de seu quarto disco, “Viva la vida or death and all his friends”, foi mais do mesmo: baladas melosas, refrões grudentos e, sim, boas melodias. O que, diga-se, não é lá tarefa muito fácil, apesar da monotonia.

No bis, a banda surgiu no balcão do segundo andar para transformar “Yellow” numa serenata cafona, antes de voltarem mais uma vez para o palco (ao som de um remix de “Speed of sound”) para fechar com “Fix you”, “Lover in Japan” e uma chuva de papel picado em formato de borboleta.

Se também vai cair dinheiro do céu como sua gravadora espera, é uma outra história.

segunda-feira

5

novembro 2007

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Rolling Stone, Setembro/2007

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Resenha do disco da Mula Manca & Fabulosa Figura que escrevi para para a Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, segue o texto.
——-

Mula Manca & a Fabulosa Figura
3 estrelas
“Amor & Pastel”
Independente

Sem mancar

Em seu segundo disco, “Amor & pastel”, a Mula Manca abandona as misturas de literatura e música e, principalmente, a Triste Figura. Em seu lugar, entra em cena a Fabulosa Figura, trazendo consigo uma mistura brega-forró-samba-rock.

Com as contas resolvidas (o disco foi realizado com um patrocínio da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), “Amor & Pastel” pode ser baixado integralmente no site da banda.

Se a tendência para os sambas em marcha lenta dos recifenses pode ser conseqüência das apresentações com o seu projeto de versões de Chico Buarque, o Seu Chico, interessante mesmo é notar os caminhos sonoros da “nova geração” se cruzando.

Os conterrâneos do Mombojó — e seu grupo paralelo dedicado as canções do Rei Roberto, o Del Rey — podem ser identificados como referência, mesmo que indireta, embora o Mula Manca seja mais acústico e menos psicodélico. O alagoano-catarina Wado também é lembrado.

O Recife se faz presente de maneira (ainda mais) forte, através das participações de músicos de bandas como Mundo Livre S/A, Parafusa, Suvaca di Prata e Eddie, em letras de temática fechada. Segundo o próprio quarteto, as músicas falam sobre o processo de separação de um casal.

Rompimentos amorosos realmente costumam ser boa fonte de inspiração. A despedida da Triste Figura deve ter sido dolorida. Agora é esperar a Fabulosa partir.

sábado

27

outubro 2007

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Rolling Stone, Outubro/2007

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Fui convidado para votar e resenhar algumas bolachas para lista dos 100 maiores discos da música brasileira, publicada na Rolling Stone Brasil 13.

Com a edição fora das bancas, seguem os textos.

De brinde, a minha lista completa, sempre mutante.

——-

Os 20 (em nenhuma ordem específica):

“A tábua de esmeralda”, Jorge Ben

“Coisas”, Moacir Santos

“Da lama ao caos”, Chico Sciense & Nação Zumbi

“Bloco do eu sozinho”, Los Hermanos

“Nadadenovo”, Mombojó

“Disfarça e chora”, Cartola

“Lado B, Lado A”, O Rappa

“Ando meio Desligado”, Mutantes

“A bad Donato”, João Donato

“Prelude”, Deodato

“Racional”, Tim Maia

“Os afrosambas”, Baden Powell e Vinícius de Moraes

“Chega de saudade”, João Gilberto

“Construção”, Chico Buarque

“Estudando o Samba”, Tom Zé

“Transa”, Caetano Veloso

“A dança da solidão”, Paulinho da Viola

“Roberto Carlos (1970)”, Roberto Carlos

“Funk Brasil”, DJ Marlboro

“Edison Machado é samba novo”, Edison Machado

“Transa”

Caetano Veloso
1972 – Phillips

Gravado em Londres em 1971 e lançado no Brasil em 1972, “Transa” foi o terceiro e último disco gravado por Caetano Veloso no exílio e o primeiro a sair após seu retorno ao país (desconsiderando “Barra 69”, que saiu antes, mas foi gravado ao vivo com Gilberto Gil, antes dos compositores irem “passear” na Inglaterra, à convite da ditadura). Se pode-se dizer que algo de bom pode ser extraído de um exílio, o encontro de um tropicalista com uma cultura extrangeira, in loco, é um bom exemplo. Intercalando letras em inglês (cinco no total) com versos do poeta Gregorio de Mattos (“Triste Bahia”) e um samba de Monsueto de Arnaldo Passos (“Mora na filosofia”), “Transa” é auto-biográfico até o osso. Fala sobre estar sozinho e longe de casa (“You don’t know me”) e de como incorporar o choque cultural, como a citação ao reggae na Portobello Road, em “Nine out of ten”, que Caetano já afirmou ser a primeira gravação brasileira a citar os compassos do ritmo caribenho. Talvez pela distância, pela falta de olhares vigilantes, Caetano nunca tenha sido tão Caetano.

“Da Lama ao Caos”

Chico Science & Nação Zumbi
1994 – Chaos (Sony)

1994 foi um ano de renovação musical intensa, um momento chave para música brasileira. E o principal fato dessa renovação foi o lançamento do disco “Da lama ao caos”. Reza a lenda que a gravadora contratou Chico Science & Nação Zumbi no escuro, pensando ter encontrado, em Recife, uma resposta para o fenômeno de vendas do axé É o Tchan!, colocando no mapa não apenas uma das mais criativas bandas do país, mas boa parte da cena de Pernambuco, o Mangue Bit e seu manifesto. A mistura de maracatu, rock, hip-hop, dub e música eletrônica era tão inovadora e abrangente que continua repercutindo até hoje.

“A Bad Donato”

João Donato
1970 – Blue Thumb Records (EUA)

Morando nos EUA, Donato ganhou carta branca da gravadora para fazer o disco que quisesse, com direito a uma boa verba para adquirir equipamentos,. Decidiu então fazer experimentos com sintetizadores e pianos elétricos. Montou uma banda assustadora (incluindo Dom Um Romão, Emil Richards, Bud Shank e integrantes da orquestra de Stan Kenton), convidou o arranjador Eumir Deodato e gravou “A bad Donato”. Declaradamente influenciado por James Brown e Jimi Hendrix, o disco (tido como um marco do jazz fusion) faz uma fusão genial do funk com música brasileira.

“Bloco Do Eu Sozinho”

Los Hermanos
2001 – Abril Music

Após uma exposição nacional massiva e massificante, provacada pelo hit Anna Júlia, o Los Hermanos surpreendeu sua gravadora, a imprensa e, principalmente, seus fãs com a mudança de direção proposta pelo “Bloco do eu sozinho”. Em vez de seguir a fórmula do sucesso, que implorava por outra anna-qualquer-coisa, a sonoridade ska-hardcore-pop do primeiro disco deu lugar a andamentos quebrados, melodias intrincadas e letras reflexivas. Como num recomeço, voltaram a tocar em lugares pequenos e renovaram de seu público, que se cristalizaria no terceiro disco e tomaria proporções messiânicas no quarto. O culto começou aqui.

“Ando Meio Desligado”

Os Mutantes
Polydor – 1970

Não é tarefa fácil competir com discos como “Jardim Elétrico” ou o homônimo “Os Mutantes”, porém faixas como “Desculpe babe” e “Ando meio desligado” – talvez o maior clássico da banda – pesam a favor. Admirado no exterior por nomes como Beck, David Byrne e Kurt Cobain, o disco tem arranjos de Rogério Duprat e marca o distanciamento dos Mutantes do movimento tropicalista, aproximando-se mais do rock e da psicodelia, embora seja praticamente impossível definir um estilo, tamanha é a variaçao temática das canções. Você nunca mais verá seu refrigerador da mesma maneira.

“Quem é Quem”

João Donato
1973 – Odeon

O time reunido em “Quem é quem” por João Donato é forte, como quase sempre é em seus discos. Dori Caymmi e Laércio de Freitas assinas arranjos e Marcos Valle é o assistente de produção, enquanto o baixista Bebeto, o percussionista Naná Vasconcelos e outros músicos acompanham o pianista no estúdio. Donato finalmente se permite cantar, inaugurando um estilo inconfundível. Lançado um ano depois do retorno de Donato ao Brasil, após mais de uma década nos EUA, o disco é um reencontro do pianista com o samba-jazz, envenenado e entortado por seus experimentos elétricos no exterior.