Foi justamente para não repetir o que já havia sido feito que surgiu o projeto Chico:” Bastidores. Afinal, em 2006 os tempos digitais eram outros, hoje há muito mais possibilidades.
O funcionamento é simples: de hoje até o lançamento de “Chico”, no dia 20 de julho, a página apresentará conteúdo inédito (quase sempre vídeos) relacionado ao disco. De segunda a sábado haverá sempre dois novos itens, um aberto a todos visitantes e outro exclusivo.
Para acessar a área exclusiva, onde será possível ouvir as música em primeira mão – “Querido Diário” já está lá -, assistir um documentário e os vídeos mais reveladores, basta comprar o disco na pré-venda, receber uma senha única e se logar. Há interação com as redes sociais, principalmente com a página do Chico no Facebook.
A concepção geral do saite e os vídeos são meus, a produção é do Pedro Seiler e a edição é do Daniel Ferro e equipe. A direção de arte e design da Arterial.
A atitude causa espanto, pelo simples motivo de que Lily Allen deve sua carreira justamente a internet. Um dos primeiro casos de sucesso do MySpace, foi o burburinho na rede que fortaleceu seu nome.
A decisão de criar o blogue veio em resposta ao movimento Featured Artists Coalition, que inclui nomes como Radiohead, Pink Floyd, Blur e Robbie Williams, criado para tentar brecar a ameaça de censura na rede que ameaça o Reino Unido.
A exemplo da França, o projeto de lei britânico utiliza a música como desculpa, mas vai bem além, pois propõe vasculhar todas as trocas de arquivos feitas na rede, as legais e as ilegais, a de quem troca músicas e a de quem nunca fez e nem pretende fazer isso na vida. Todos serão vigiados.
É uma questão de privacidade do interesse de todos. Aqui no Brasil, a ameaça é a medonha Lei Azeredo, nos mesmos moldes da França e Inglaterra.
Ao indicar que é favorável a proibição das trocas de arquivo Lily Allen pisa num terreno perigoso. E sua atitude pode (e provavelmente será) usada como bandeira de políticos com interesses duvidosos.
A cantora argumenta que é muito fácil para artista estabelecidos como os do FAC defenderam o livre compatilhamento de arquivos após terem construído suas carreiras (e fortunas) no modelo antigo, vendendo discos. Seria injusto com os novos artistas defender o “liberou geral”, privando-o dessa fonte de renda.
Como argumento, Lily diz que apesar de alguns artistas lucrarem com shows, as pessoas envolvidas no processo de gravação não seriam remuneradas.
Estou pra ver técnicos de som, designers, divulgadores e etc. que recebam participação nas vendas de discos, em todo caso, seria um problema de fácil solução, bastando que os artistas pagassem pelas gravações independente de serem comercializadas ou não (como aliás já devem fazer).
O que parece mesmo é que Lily Allen (e outros artistas) está de olho mesmo é numa fatia de um bolo que não existe mais. Num pensamento torto, a menina deseja os lucros provenientes de um outro formato de negócio, que caminha para extinção.
Quando dirigi o documentário “Desconstrução”, sobre as gravações do mais recente disco do Chico Buarque, “Carioca”, pensei sobre a mesma coisa, embora de brincadeira.
O DVD com o filme vinha encartado com a edição especial do CD e considerando que as vendas do disco foram boas, se fossem outros tempos talvez tivesse vendido aos milhões. Teria ficado milionário com a participação nas vendas.
A pegadinha é o seguinte: se fossem os tempos pré-digitais, dificilmente teria tido a chance de sequer ter feito o filme, principalmente pelos custos de produção e falta de acesso aos equipamentos necessários. Muito menos ter lucrado alguma coisa direta ou indiretamente com ele.
Não dá pra entrar nessa viagem. São dois tempos distintos, quase sem cruzamentos. O negócio é parecido, mas mudou bastante.
Portanto, em vez de reclamar que seus discos não vendem, Lily Allen deveria simplesmente aproveitar uma carreira que, se fossem outros tempos, talvez ela sequer tivesse.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.