quarta-feira

25

agosto 2004

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O Globo Online, 25/08/04

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Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário “Dub Echoes”, escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.

Essa foi a quarta entrada.

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Tentando, 1, 2, 3, tentando, 1, 2, 3…

LOS ANGELES – Se o principal motivo da ida a NY era entrevistar o King Jammy, falar com Hopeton Brown, o Scientist, era a razão para vir até a California. Exatamente como Jammy, Scientist também foi pupilo do King Tubby, o homem-dub. Principal nome do dub na Jamaica dos anos 80, seu trabalho mais conhecido é a série de discos temáticos (“Scientist encounters Pac Man”, “Scientist rids the world from the evil curse of the vampires” ou “Scientist meets the Space Invaders”) lancada pela gravadora inglesa Greensleeves.

Além do Scientist, havia outros nomes na lista de personagens em Los Angeles. Talvez, o fato dessas pessoas estarem fora da cidade possa ser encarado como sorte. Isso porque, de seis dias, três foram gastos em encontros com Hopeton. Diferente dos americanos ou europeus, os jamaicanos não enxergam entrevistas como oportunidade de divulgar seu trabalho e suas idéias. Para eles, isso é um negócio como outro qualquer. Isso tudo acontecendo e olha que o “Dub Echoes” até agora não tem nenhuma previsão de lançamento comercial.

Depois do primeiro encontro no camarim de um show de uma cantora que Scientist está produzindo, Triniti, em Santa Monica, ainda nos encontramos em outro show, dessa vez em Malibu, e novamente ele não deu a entrevista. Somente no terceiro encontro, num estúdio em North Hollywood (se você conhece LA, já deve ter percebido que a cada hora ele estava em extremos opostos da cidade), finalmente Scientist sentou para falar. Se não fosse a paciência sem limite do Alexandre Bier, que além de hospedar a equipe ainda deu zilhões de caronas, teria sido bem mais difícil ir a tantos lugares.

Estranhamente, no momento que a camera foi ligada a simpatia desapareceu e Hopeton encarnou um alter ego mandão, confuso e algumas vezes evasivo. Visivelmente nervoso, o dubmaster queria controlar tudo: o posicionamento da câmera, o enquadramento e até a forma que as questões deveriam ser apresentadas. Para ilustrar o nível de insanidade, vou tentar reproduzir parte do diálogo travado logo na primeira pergunta.

– O que é o dub e como isso começou?

– Bom, o dub… (silêncio). Qual foi a pergunta mesmo?

– O que é o dub e como isso começou?

– Não, isso não está bom. Pergunta assim “explique o que é um dub e como surgiu o dub?”

– Ok. Explique o que é um dub e como surgiu o dub?

– Isso é uma opinião pessoal, não uma verdade absoluta e eu não me sinto confortável para falar sobre isso. Próxima pergunta.

Quando acabou, ficou claro que essa tinha sido a entrevista mais difícil que eu já fiz. Depois, analisando melhor o que tinha acontecido, conclui que na verdade essa foi a primeira entrevista verdadeiramente difícil que eu já fiz. Mesmo assim, acredite ou não, o papo rendeu bons depoimentos para o documentário. Agora, a última e mais trabalhosa etapa: 15 dias em Londres para entrevistar mais de 20 pessoas.

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