sexta-feira

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julho 2005

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O Globo, 08/07/2005

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Matéria sobre a relação entre as bandas e os festivais independentes que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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A conta é dos calouros

Bruno Natal Especial para o Rio Fanzine

Amúsica independente pode não ser o ingrediente principal, mas está no cardápio. Hoje é normal grandes festivais abrirem espaço para bandas novas. Ironicamente, justo esses artistas estão sentados na cabeceira e recebendo a conta.

Mais do que uma realidade, tocar de graça é uma necessidade para bandas independentes, principalmente no início. Festa de amigos, play, show de abertura, sarau, qualquer oportunidade de mostrar seu som vale.

Quando chega a chance de se apresentar num evento bem estruturado, no entanto, muitos descobrem que tocar de graça era lucro. Em boa parte dos festivais, mesmo os que contam com patrocínio, não existe cachê para os independentes. E quando acontecem em outros estados, geralmente as bandas têm que pagar as passagens do próprio bolso. Foi-se o tempo em que quem trabalhava de graça era só o relógio.

Uma das justificativas para isso seria o fato de que bandas independentes não atraem público suficiente pra bancar a produção de um evento caro. Por isso, boa parte do dinheiro é gasto na contratação de nomes conhecidos para garantir venda de ingressos e mídia.

Em junho, Nervoso recusou um convite, feito através da MTV, para tocar de graça no Vibezone. A Coca-Cola, organizadora do evento, informou por meio de sua assessoria de imprensa que as bandas que se apresentaram no palco principal receberam cachês, acrescentando que as rádios 89 (em São Paulo) e Cidade (no Rio) e a MTV selecionaram bandas através de concursos cujos prêmios seriam participar do evento, sem remuneração.

— Tenho uma boa relação com a MTV e sei que ainda não tenho um grande público, mas se tratava de um evento patrocinado por uma empresa gigante e me chamaram para tocar sem cachê — diz Nervoso.

O convite foi feito a Rodrigo Lariú, dono da midsummer madness, gravadora do Nervoso:

— Não recriminamos a MTV ou a Coca-Cola. Só não queremos fazer parte disso. Dizer que o espaço oferecido será bom para a banda não basta.

Entretanto, em maio, Nervoso aceitou tocar de graça em outro festival patrocinado, o TIM Mada, que acontece desde 1998 em Natal (RN). Dois pesos, duas medidas? Exato.

— Nesse caso, com exceção dos artistas que fecharam a noite, ninguém recebeu. Tivemos uma excelente exposição na mídia e convites para novos shows.

Jomardo Jonas, produtor do TIM Mada (que, além da operadora de celular, conta com o patrocínio de um fabricante de aparelhos telefônicos, de uma cervejaria e do Governo do Estado do Rio Grande no Norte, entre outros) ressalta que, apesar de não haver pagamento, as bandas, independentes ou consagradas, tocam no mesmo palco e contam com o mesmo suporte:

— Arcamos com estadia em hotel quatro estrelas, alimentação e transporte. O patrocínio ajuda a montar uma grande estrutura, mas não cobre todos os custos. Se nenhuma banda aceitasse tocar de graça não teríamos como fazer o evento.

Quem também viajou para Natal foi o The Feitos. O vocalista Ramon Ramon enxergou os gastos como um investimento:

— Jamais deixaria de tocar sabendo do retorno de mídia que o evento poderia me dar.

No caso dos festivais independentes, é fato corriqueiro os artistas pagarem suas passagens. O Moptop bancou sua ida até Goiânia para tocar no Bananada, um dos principais do calendário indie, em maio.

— Aceitamos pela importância do festival — conta Gabriel Marques, vocalista do Moptop.

Fabrício Nobre, da Monstro Discos, organizadora do Bananada, completa:

— O convite é feito oferecendo hospedagem, alimentação e translado. Desde o primeiro momento as condições ficam bem claras. Arriscamos na bilheteria e contamos com o apoio das bandas. É um ajudando o outro.

As bandas parecem encarar essa situação com naturalidade. Rafael Cosme, guitarrista do Ramirez, tocou no Mada em 2004 e gostou do resultado:

— Valeu a pena. Até hoje rende frutos. Acho que em todas as profissões, no começo, você aceita boas oportunidades, mesmo sem remuneração, pra conseguir seu espaço.

Ainda assim, Gabriel espera por mudanças:

— Uma solução poderia ser, ao menos, oferecer parte da bilheteria.

Fabrício aponta outra saída:

— É preciso que eventos que tenham uma proposta musical honesta recebam apoio. Surgiram vários Telefone Rock e Cerveja Music posando de independentes que não tem compromisso nem com cena, nem com banda. Só com grana.

Para Jomardo, não adiantaria enxugar a estrutura do Mada, que já contou com atrações internacionais, como The Walkmen, pois isso iria prejudicar todo mundo. Ele é prático:

— Quando tivermos um mercado independente forte, poderemos fazer festivais somente com nomes independentes, pagando passagens e cachês.

Enquanto isso não acontece, pior para as bandas que não têm como investir pesado e assim perdem boas oportunidades.

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