quinta-feira

27

abril 2006

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"Muita falta de anti-profissionalismo dub"

Written by , Posted in Urbanidades

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Apesar de ter achado o show do Nouvelle Vague no Jockey, ano passado, bem fraco, resolvi seguir a dica do Kassin e ir conferir a apresentação de uma das integrantes da banda, Camille, no Teatro Odisséia. A fonte era segura, assistiu ao show do Abril Pro Rock e dizia que a banda era bem diferente da que tocou aqui antes. Valeria a pena assistir só pelo cara que toca bumbo, caixa e pratos com os pés, teclado com as mãos e faz beat box.

Nas últimas semanas, em seu blog, Jamari França vem cutucando a questão da situação caótica da cena independente carioca. Convidou várias pessoas da área pra darem opinião. O produtor Bruno Levinson (Humaitá pra Peixe) questionou “o que está acontecendo com o público carioca?”, a assessora de imprensa do Circo Voador Julia Ryff falou da (sub)cultura VIP, o empresário do Paralamas José Fortes e a produtora Maria Juçá reclamaram das carteirinhas. Todos com muita propriedade, diga-se.

Porém, nota-se que, até agora, os problemas recaem sobre o público. Está faltando falar do lado de lá do balcão, das bandas, dos produtores, das casas. Dos preços abusivos, estruturas precárias, som ruim, mal atendimento, não cumprimento dos horários (problema cronico), bebidas caras (R$5 uma lata de cerveja?)…

Todos esses fatores podem ser resumidos a um só: credibilidade, com a qual a cena carioca conta cada vez menos. Quem quer pagar, o valor que seja, pra se mal atendido, pra ver shows ruins em esquemas lambões? O público frequenta o que é bom, não tem jeito. Não tem essa de “dar um força a cena alternativa”, isso é coisa pra meia dúzia. O público em geral quer serviço bem prestado, da bilheteria ao palco. Está, aliás, corretíssimo.

A Nuth, boate na Barra, cobra (da última vez que ouvi falar) R$60 de entrada. E se tem quem pague, não é apenas porque é a “boate da moda”, “de playboy” e “fillhinho de papai”. Paga porque, não apenas se indentifica com aquela cena, mas certamente porque tem suas expectativas atendidas.

O circuito alternativo é, como bem diz o nome, uma opção a cultura dominante, seja pelo preço, seja pela estética. Entretanto, ser uma opção não é justificativa pra ser desorganizado. Sabe-se que falta dinheiro, falta incentivo, falta bastante coisa. Mas não tem como ser diferente, primeiro o bom evento, depois o público. Não dá certo se for ao contrário.

Pra ilustrar a bagunça, voltemos ao show da Camille. Chegando ao Teatro Odisséia, começou a chover e as cerca de 20 pessoas que estavam do lado de fora ficaram tomando água na cabeça.

Quem já foi ao Odisséia, conhece a fila pra entrar. Normalmente, dois funcionários atendem a mesma pessoa e demoram bastante até conseguir encontrar nomes em listas e preencher as cartelas, um sistema arcaico que só serve pra gerar confusão — com fila pra entrar e pra pagar na hora de sair. Ontem até que as cartelas poderiam, finalmente, vir a calhar.

Quando finalmente consegui chegar a parte coberta, um funcionário da casa chegou na porta, perguntando se faltava muita gente pra entrar. Vendo o fundo da casa vazio, sugeri que se transferisse a fila pro lado de dentro, já que do lado de fora não havia cobertura e a chuva apertava. A resposta, gentil, foi essa:

— Você está querendo me ensinar a fazer o meu trabalho?

Mesmo pensando que, sim, talvez isso fosse necessário, disse que não.

Ele poderia, por exemplo, em vez de ficar perguntando se tinha muita gente do lado de fora, sentar e ajudar a preencher as cartelas mais rápido. Poderia também deslocar os dois seguranças que tomavam chuva, de terno, para o lado de dentro e coordenar uma fila no seco.

Afinal, pra que servem as cartelas, não é pra consumir e servir como passe de saída no final da noite? Então, que mal faria botar as pessoas do lado de dentro, visto que elas não poderiam; a) consumir sem pagar, já que não tinham cartelas; b) não poderiam deixar a casa sem a pagar a entrada, pois teriam que apresentar a cartela para sair?

Isso pra não entrar no mérito da “delicadeza” no fino trato com o público pagante. Mas, pra simplificar, disse que não, não queria lhe ensinar o ofício. Queria apenas ver o show, que estava começando.

— As pessoas estão se molhando lá fora à toa, tem espaço aqui dentro.

— Você está querendo mandar no meu trabalho?

— Não. É apenas uma sugestão. Que absurdo isso! Quando entrar vou procurar o dono pra reclamar do seu comportamento.

— Pode procurar!

— Que babaca, cara…

Ele ameaçou:

— Olha, não fica falando muito não se não eu te expulso.

— O que? Você vai me expulsar? Toma essa cartela aqui, meu irmão, vou nessa.

Fui embora. Simplesmente me recuso a entrar num lugar em que sou tratado dessa maneira. Pagando R$20 então, pior ainda. Os dois amigos que estavam comigo também foram embora, totalizando o prejuízo para casa em R$60, sem falar nas cervejas. Depois reclamam de grana.

Obviamente, apesar de ser um exemplo real, é ilustrativo. Não significa que todos os lugares sejam assim. Mesmo porque cada local tem suas particularidades e seus problemas. No entanto, eles estão lá, são muitos e pedem solução.

Não pode ser coincidência o fato de a cena independente em São Paulo — uma das cidades com a melhor prestação de serviços no mundo — estar indo tão bem, enquanto, no Rio, casas fecham, o público mingua e a cidade está, pouco a pouco, sendo excluída do circuito de bandas nacionais e internacionais.

Fico pensando no tipo de solução que normalmente é apresentada nessas situacoes: “o funcionário foi demitido”. Isso não resolve nada e nem é o objetivo aqui (e exatamente por isso, não revelo o nome da pessoa). É preferível mil vezes que esse funcionário — ou qualquer outro — seja treinado para lidar com o público, pedir desculpas pela desorganização, ser minimamente educado. Afinal, é um serviço pago e, diz o ditado, o cliente tem sempre a razão.

Hoje, ao invés da resenha de um show, um desabafo. Enquanto o Rio segue varrendo a sujeira pra debaixo do tapete.

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