quinta-feira

26

janeiro 2006

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Experimentando

Written by , Posted in Resenhas

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Artificial
foto: Joca Vidal

O Humaitá pra Peixe vai chegando ao final. Na penúltima noite do evento, Kassin, acompanhado por Berna Ceppas, tocou músicas do seu projeto de música eletrônica feita com Game Boys, o Artificial, e o septeto Binário trocou a praia por um palco de verdade.

Até quem acha que não conhece o Binário, talvez conheça. A banda costuma fazer ensaios abertos no calçadão de Ipanema, aos domingos, atraindo curiosos e admiradores. Com sete integrantes e fazendo um som viajandão, a referência mais óbvia é o Hurtmold. Porém, as semelhanças param por aí. Enquanto o grupo paulista passeia pelo post-rock, calcado em ótimos músicos, a onda do Binário é mais psicodélica, de músicas climáticas, esbarrando no trip hop.

O excesso de instrumentos (são duas baterias, três guitarras, baixo, sintetizador e sampler), no caso do Binário, atrapalha. Tanta gente fazendo improvisações torna a sonoridade caótica demais, mesmo que o intuito seja ser experimental, principalmente no ínicio do show. Mesmo começando confusa, a apresentação já era infinitamente superior a fraca participação do grupo no festival Super Demo Digital, em 2004.

Na segunda metade, melhorou ainda mais. As músicas seguiam uma estrutura mais organizada, ajudando a entender melhor qual é a do som. Foi quando veio uma intrigante versão para “É tarde demais” (pagode do grupo do Raça Negra), irreconhecível, não fosse pelos versos inconfundíveis (Que pena / que pena, amor).

O show é complementado pelas projeções feitas por um dos integrantes, algumas bem interessantes, como o casal feito de palitos de fósforos incandescentes, consumidos pela própria paixão. A parte instrumental, ainda que meio bamba, com algumas sobras aqui e ali, é mesmo o forte do Binário. Dentro do universo que pretendem criar, as letras são expletivas, pouco acrescentam ao resultado final. Em estúdio, onde exageros têm menos espaço e domados por um produtor, o Binário pode render mais.

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Kassin
foto: Lucas Bori

Logo depois, foi a vez do Artificial. O começo ensurdecedor, fez muita gente tapar os ouvidos na tentativa de se proteger do ataque de batidas 8 bits que despencou sobre o Espaço Cultural Sergio Porto. Kassin trocou os óculos de armação preta pelo colorido e incorporou seu alter-ego. Se a idéia era espantar os mais frescos, deu errado. A platéia continuou firme e forte, confiando no produtor e aguardando algo a mais.

O formato do show mudou bastante, desde que o projeto começou, ainda sem nome, em shows na Casa da Gávea ou na festa do primeiro aniversário do URBe. Para reproduzir com fidelidade o conteúdo do disco “Free U.S.A.”, a dupla adotou um laptop, além do teclado, da mesa de efeitos, do vocoder e dos Game Boys. Em termos de unidade o projeto cresceu, com um diferenciação clara entre uma música e outra, coisa que não acontecia antes.

Entre outras coisas, o complemento instrumental e de programações extra-Game Boy possibilita momentos dançantes. Quem esperou a tormenta sônica da abertura passar, foi recompensado com pancadões funkeados, teclados kraftwerkianos e houses sujos que não fariam feio na pista de uma boate.

Houve outra mudança perceptiva. Kassin, normalmente tímido, seja se apresentando como músico ou como homem de frente do trio mutante +2, estava soltinho na marola. Empunhando o microfone, o produtor cantou, fez gracinhas em falseto, reproduziu a coreografia do clipe caseiro de “I feel like making love” (gravado em sua última viagem em família ao Japão), dançou e disparou aplausos pré-gravados e claques ao final de cada música.

Fica a vontade de ver a sonoridade aplicada a outros estilos, como acontece em “Expresso da Elétrica Avenida”, do mais recente disco da Nação Zumbi, “Futura”. O baterista Pupillo, acompanhado pelo vídeo game na música, conferiu de perto. Cabe mais. Quem sabe um disco de funk (pra tirar algo de bom desse retrô 80, somado ao hype do gênero no exterior) ou uma produção do Nego Moçambique utilizando o brinquedinho. Os botões são o limite.

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  1. Carol *

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