segunda-feira

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maio 2005

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Entrevista – Nego Moçambique

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Nego Moçambique é o principal artista de música eletrônica brasileira. Encontrei com ele para uma entrevista (para uma matéria para a revista americana XLR8R) no restaurante especializado em comidas do norte Tacacá do Norte, no Catete, Rio de Janeiro.

A entrevista virou bate-papo, foi bem bacana. Ele falou da crescente atenção que tem recebido no exterior, de suas influências, do atual estágio da música eletrônica brasileira e otras cositas más. Tá tudo aí embaixo.

Como foi seu começo na música?

Em Brasília tem uma escola pública de música e eu estudei lá a vida toda. Mas eu ia trocando de instrumentos, desde criança eu não tinha muita paciência para aprender um instrumento só. Terminou que eu passei por todos e não aprendi a tocar mesmo nenhum, não me profissionalizei em nenhum.

Mas fiquei com aquela coisa na cabeça. Na escola de música tinha um corredor e você ia passando por blocos onde estavam os diferentes naipes da orquestra. Então um bloco era só de sopros, outro era de percussão, um de cordas, outro só de teclas. Eu lembro de passar por lá e ficar ouvindo todos os instrumentos ao mesmo tempo, as pessoas ensaiando, você ia andando e ouvindo um pouco de cada. Isso foi demais pra definir minha cabeça pro que eu faço hoje, porque na música eletrônica você termina sendo uma pessoa de banda de um homem só.

É parte do trabalho do produtor mesmo, juntar as partes.

Exatamente, exatamente. Agora, essa coisa de música eletrônica começou assim: em Brasília abriram um club chamado Wlöd, que foi mais ou menos o que o Hell’s Club foi para São Paulo. Tocava música eletrônica lá.

Em que época foi isso?

Sou péssimo pra época, mas eu tinha uns 24 anos [N.E. por volta de 1997, portanto], hoje eu tenho 32. Então esse lugar era bacana porque ninguém era profissional, os DJs não eram profissionais, ninguém sabia sequer mixar. E ninguém sabia também o que era techno, trance, drum ‘n’ bass, jungle, não sei o que, então as pessoas tocavam de tudo. Era demais porque você chegava na noite e não sabia qual ia ser a próxima música do cara, você não tinha noção. Não tinha essa coisa de estilo.

O que tem a ver com o seu set.

Isso. A gente ia sempre com essa coisa da surpresa, “pô, como vai ser a próxima música?”. Hoje os DJs são profissionais, mas nessa época não tinha isso, e era demais. Eu fiquei com isso também marcado na cabeça. E como eu já mexia com músico, é evidente que nunca me interessou tocar disco dos outros, eu queria saber como é que se fazia isso.

Você nunca foi DJ?

Nunca, nunca.

Você sabe mexer em toca-discos se você quiser?

Não. Tem vezes que eu vou tentar ligar um mixer e não está tocando e é maior dificuldade pra saber o que está acontecendo, por exemplo. CD-J, não sei mexer em nada disso. Então, nessa época, um amigo meu chegou com uma bateria eletrônica, uma Boss DR-5. Ela era um seqüenciador de 4 canais, a gente ligava num módulo da Emu chamado Morpheus, fazia música com os 4 canais e usava a batida da bateria. Eu ficava impressionado com aquilo porque o negócio tocava sozinho, era uma banda, tava lá funcionando. Eu falei, “ah, então é assim que esses caras fazem essas músicas”. Mal eu sabia que os caras usavam muito mais coisas.

Mas já era um começo.

Já era um começo. Me encantou esse lance da casa noturna porque as pessoas saíam pra dançar e era o seguinte. Brasília era conhecida como a capital do rock no Brasil, mas quando você ia nesse lugar tava todo mundo lá. Que é até uma característica de Brasília, mas eu via que a pista de dança era muito democrática. Pessoas que normalmente nem falariam uma com as outras, estavam lá dançando juntas. Era louco porque, como as batidas eram muito diferentes, as pessoas se soltavam mesmo.

O que tocava lá nessa época?

Putz, tocava desde LFO àquelas coisas Relief Records, tocava muito esse tipo de coisa. Tinha uns outros caras que tocavam uns lances que hoje são consideradas ambient, mas tocava techno também, uns negócios impossíveis e todo mundo dançava, não estava nem aí. Era engraçado, mas aí que você mesmo que era um mundo de possibilidades. Acho que a coisa se fechou um pouco quando foi se profissionalizando. É até uma coisa que eu acho que, aqui no Brasil principalmente que não tem essa cultura de música eletrônica específica, estancou a possibilidade de entrar gente nova. Ficou uma coisa fechada, certa.

Perdeu o ecletismo, né?

É, exatamente. Por exemplo, uma noite de drum ‘n’ bass. Quem conhece e gosta, já sabe que só vai rolar db a noite toda, vai. Quem conhece e não gosta, não vai.

Vira um gueto.

É bom, lógico, o cara sair pra curtir db vai gostar, mas em termos de ser uma coisa mais participativa, mais parecida com o Brasil… Por exemplo, estou aqui tomando um tacacá agora. É uma comida da Amazônia, mas eu nasci em Brasília, que é uma cidade que não tem nada de regionalismo, essas coisas. Em contrapartida estou aqui tomando esse negócio que eu adoro, sou viciado nisso. O Brasil tem uma capacidade de fazer as coisas que caem aqui virarem uma terceira muito mais maluca.

É o lance da Semana de Arte Moderna de 1922, antropofagia.

Essa onda. Acho que essa especialização é boa e tal, mas destrói um pouco isso. Eu faço live pa e me toquei que, quando você toca ao vivo, as pessoas não querem ver outro DJ. Então pra que eu vou fazer as mixagens todas perfeitas, aquela mesma onda que os DJs fazem? Eu vou é quebrar tudo mesmo! Vai entrar uma vinheta, depois vai entrar uma música muito mais lenta do que a que estava tocando antes… Porque, eu vejo as pessoas que saem pra dançar outro tipo de música e elas não querem ficar ouvindo a mesma batida a noite toda, elas querem que varie. Eu comecei a quebrar porque eu queria tocar na rua, para os b-boys, uma música que quando minha avó escutasse não dissesse, “filho, tira isso daí”, uma música que fosse mais democrática, como essa base que eu tive. É a única coisa que eu tenho de ideológico talvez com música, abrir pra todo mundo.

Ser eclético para atingir mais gente?

Não no sentido de ser mais comercial. Só acho que dançar é bom pra todo mundo.

E como é fazer música fora do eixo Rio-São Paulo, principalmente música eletrônica? Isso acabou sendo benéfico, te deu mais liberdade?

Completamente. Sempre ficou uma coisa meio amadora, até hoje o que eu faço é um pouco amador. Agora é que estou tentando me profissionalizar no sentido de melhorar a qualidade de som que sai do PA. O lance estava meio tosco, mesa de som ruim, nem sabia mexer direito numa simples mesa de som. Hoje mesmo, porque um cara mudou dois cabos, que eu fui me ligar como que funcionava o compressor que eu comprei. Nesse sentido que estou tentando deixar a coisa um pouco mais profissional. Faz diferença um som bom.

Como [em Brasília] as pessoas estão longe daqui, elas não estão muito preocupadas em tocar de uma maneira tal. Agora sim, agora está em todo lugar, depois do DJ Marky principalmente, começou uma corrida do ouro. Todo mundo quer ficar rico também, ganhar grana sendo DJ, então vamos tocar certinho, mixar perfeito. E os meninos novos têm muito essa preocupação técnica, a mixagem tem que ser perfeita, e às vezes esquecem da seleção das músicas, que é mais importante.

A mixagem é um instante, a música que você escolher colocar vai ficar ali pelo menos uns três minutos tocando.

O que interessa, sinceramente, em música, é a emoção. Se música for boa, ela vai ficar anos na cabeça daquela pessoa que escutou, ela vai querer esse disco, vai atrás dessa história e vai descobrir um outro mundo. Uma mixagem perfeita não é nada perto disso.

No que você pensa quando faz música?

Eu não moro exatamente em Brasília. De uns anos pra cá estou morando numa zona rural, entre uma cidade satélite e o Plano Piloto, na auto-estrada, numa chácara. Não tem nem Internet rápida, está na era da conexão discada ainda.

A música é feita do que você vive. Você tem uma filha, você é doido pela sua mulher, o dia está bonito, estou me sentindo bem, eu faço música sobre isso. Minha música não é sobre bombar no club, minha preocupação não é essa. Se eu estou dançando, tá beleza. Na minha casa mora uma família grande, meu sogro, minha sogra, as crianças. Então se funciona para uma senhora e para os pequenos estão dançando, tá funcionando.

E como você classificaria seu som? House, breakbeat, funk, uma mistura de tudo isso?

É uma mistura de tudo isso. Em geral falo simplesmente que eu toco funk. Funk com uma acento brasileiro, não é um funk americano nem nada.

Funk 70 e o do Rio também, né?

Pois é, passa por aí também, esse Miami bass com maculelê. Tem influência de soul brasileiro, africano, afro beat, uma escola de house. Como eu vou tocando exatamente o que me agrada, às vezes quando estou fazendo música eu penso, “bom, agora queria uma coisa um pouquinho mais reta”, vou lá e faço um house. “Agora vou fazer uma pra todo mundo rebolar”, faço um Miami.

Você se liga nisso então?

Me ligo, isso aí eu peso. Tem que ter uma música da mulherada rebolar se não elas vão ficar bravas, lá vem um Miami; tem que ter uma pro pessoal swingar, faz um house também; agora pro pessoal dançar mais loucão, pá breakbeat; agora um afro beat pra ficar mais roots, manda.

Quais equipamentos você usa?

É tudo hardware. Estou usando uma MPC 1000, um cabeçote de sintetizador alemão Virus C, que eu acho o melhor sintetizador que tem, uma mesa de som de 8 canais e um microfone. E comprei um compressor inglês, Fatman, pra dar uma pressão e pra ver se melhora um pouquinho a saída.

Você tem vontade de em algum momento ter instrumentos no palco, montar uma banda?

Tenho vontade, mas não uma banda exatamente com uma formação de banda, saca? Umas pessoas participando, alguém tocando uma percussão ou bateria eletrônica mesmo, algum sopro, adoro metais. Queria que tivesse mais gente cantando comigo, isso ia ser demais, porque a coisa coletiva das vozes enriquece muito.

Isso para as apresentações ao vivo ou para gravar também?

Se eu conseguisse montar uma banda assim eu chamaria eles pra gravar também. Como produtor você arredonda tudo e é outra coisa. Se eu cantando tiver uma voz de mulher junto, é outra coisa. Você já começa a pensar contando com aquela voz e vai na onda da pessoa. Se o cara toca saxofone, gosta mais de jazz, quando eu for fazer uma música já vou pensar nisso.

Tem uma interação, essas pessoas viram mais uma peça. Como com o equipamento, você tem que ver o que eles podem te dar, o que eles podem te oferecer.

Essa coisa de você ter os seqüenciadores e poder usar mais seres humanos, mais gente, fica muito rico. Que é uma coisa que inclusive aproxima demais as pessoas para conhecerem esse tipo de música, todo mundo que ver. Nesse lance de live pa tem isso também, as pessoas querem ver alguma coisa.

Realmente, poucas coisas são mais chatas do que ficar olhando um DJ tocar. É uma pessoa, dois toca-discos e a cena não muda. As suas apresentações têm essa parte de dançar, cantar, ajuda a prender a atenção das pessoas.

Eu nunca vou querer um show em que as pessoas estejam fixadas olhando, tanto que não gosto muito de palco. Prefiro club, gente que dança mesmo. E acho que uma banda dentro deste espaço é um outro lance, porque aí tem um elemento humano muito mais forte e tal, mas eu quero que as pessoas continuem interessadas em dançar. Apesar de que eu sei que é um pouco difícil.

Como é esse lance da dança? Muita gente pensa que você é dançarino de b-boy.

Eu não sou b-boy. Gosto de break dance demais, até já treinei uns passos, mas eu não sou b-boy. Ver os b-boys dançando me influenciou completamente, porque eu ouvia aquele som que estava tocando nos rádios deles e eu queria fazer uma música igual aquela.

Eu danço porque acho minha música dançante, então eu danço.. Eu estou numa festa, com todo mundo dançando então eu danço também. A única diferença é que estou do outro lado. Admito que quando eu me toquei que podia ser um recurso para me comunicar com as pessoas, às vezes eu uso. Tanto que tem vezes que eu não danço e o pessoal fica achando que tem algo estranho. Eles acham que faz parte do show.

Suas influências vão de Kraftwerk ao baile funk, passando por Prince, hip hop, reggae. Quem mais você curte ouvir?

Fela Kuti, John Coltrane e esses caras do jazz, Tim Maia… pior que agora pra lembrar o nome de todo mundo… Tenho andado meio viciado em Basement Jaxx, tô ouvindo direto. Nunca fui muito ligado em som, na verdade. Vou ouvindo coisas que meus amigos colocam.

Não é de ficar fuçando, catando coisas?

Não. Agora eu comecei porque estou namorando uma menina que é assim. Tem uma porrada de discos, aí ela que me atualizou. Ela falou “Você só escuta coisa velha! Escuta aqui”, não sei o que. Claro que eu já conhecia o Basement Jaxx, mas como ela tem todos, ouvi melhor.

Quem mais?

Música eletrônica tem tanta gente… Tenho muita coletânea, de breakbeat, de house e tal. Mas realmente, nomes… De gente nova do hip hop, eu só gosto de coisa velha, gosto muito da Missy Eliott, pelo menos umas duas faixas. Teve umas outras que ouvi que eu já não achei tão legal.

Dancehall?

Dancehall gosto mais de coisa velha também, gosto dos digitais também, adoro. Não gosto muito dessas coisas novas da Jamaica, teve meio que uma fusão com esse hip hop americano novo e as pessoas ficam falando que isso é legal e tal. Pode até ser, mas pro meu ouvido não rolou. Adoro Sean Paul, o primeiro disco dele é animal. Agora, esse outro aí com Beyoncé e tal já não achei tão legal. Ah, coisa que eu adoro, que é novo: Antibalas Afro Beat Orchestra, principalmente aquela música “Che che kole”.

Você já ouviu a versão reggae do disco “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd? O nome é “Dub Side of the Moon” e foi produzido pelo Victor “Ticklah” Axelrod, que toca órgão no Antibalas.

Esse disco é muito animal, muito foda. Ele que produziu? Não sabia não. Taí, esse disco é muito bom também. Gostei do Prefuse 73, é muito legal. Eu não me ligo muito em selo. O trabalho da Gigolo, por exemplo, eu não conhecia. Confesso pra você que eu nunca tinha colocado nem um CD da Miss Kittin. Até vi ela tocando fora, achei maneiro. Ela tocando como DJ, excelente. Ela consegue dar uma coisa feminina pro techno, sem ser aquela coisa noiada.

Falando nisso, tem esse papo do DJ Hell [dono da Gigolo] ter te escutado na Fosfobox, né?

É, foi legal. Quando eu tava tocando, de repente tinha um gringo lá. Gringo no Rio, no verão, a gente vê logo. [interrompe para pedir mais um tacacá, o terceiro]. Eu tô vendo aquele gringo lá e deu mal contato no mixer. Ele avisou e ele mesmo meteu a mão e arrumou o cabo. Eu falei “que gringo gente fina”. Eu ouvia disco do DJ Hell há dez anos atrás, sei lá quantos anos atrás, imagina se eu ia imaginar que aquele gringo lá era o DJ Hell, eu não tava nem aí. Até brinquei com ele durante o show e tal, normal.

Quando eu terminei de tocar ele veio falar comigo e se apresentou. Eu te confesso, sabia quem era ele, mas eu não sabia o tamanho da Gigolo, não sabia nem a quantas ele andava. Ele disse “fiquei interessado no seu som, queria ver se eu lançava alguma coisa”, bem direto. Aí eu dei meu e-mail dele, mas eu dei numa assim, um selo lá de fora. Depois que eu vi o site e todo mundo veio me falar, “pô, Gigolo, Gigolo”.

Conversamos por e-mail, vim aqui pro Rio de novo conversar e ele pediu pra mandar material pra ele. Ele comprou o disco que saiu pela Segundo Mundo, tem uma demo que eu gravei pro pessoal da gravadora, porque a gente vai lançar outro disco em agosto, que eu mandei também, e tinha um live do Sónar gravado. Coisa que neguinho gravou pra mim aí. Curiosamente, ele escolheu umas músicas que pra mim eram tipo as piores. Não que fossem as piores, mas são aquelas que eu falo, “essa?!”.

Quais foram os comentários dele?

Ele falou umas coisas sobre o que eu faço que eu nunca imaginei que alguém fosse falar. Que parecia Green Velvet, Kraftwerk. Essa relação com Kraftwerk que ele descolou eu achei muito engraçado, porque eu nunca achei isso.

Pelo minimalismo, talvez.

Depois que ele falou que eu comecei a sacar que, apesar dos samples, como eu toco tudo, é praticamente uma música feita com timbre de sintetizador. Então é eletrônica mesmo, não tem muito jeito. Pode ser suingada, ter uns batidões diferentes, mas é eletrônica, no sentido mais eletrônico que se pode ter. Eu também não achava que era minimalista, achava tudo muito cheio. Depois que eu comecei a sacar que era menos.

Outros gringos já me viram tocando, mas o Hell foi um cara que falou da minha música de um jeito que ninguém tinha falado, apontou coisas que ninguém nunca tinha apontado. Ele, mesmo sem querer, me deu uma visão da coisa que eu não tinha. Isso aí foi demais. É massa ouvir um cara com a experiência dele falar essas coisas.

Como vai ser, o Hell vai lançar alguma coisa lá? Tem alguma coisa fechada?

Até fiquei de finalizar umas músicas e mandar pra ele, mas até agora não mandei. Agora é que eu comprei um computador, comprei uma interface de áudio. Não tem nada exatamente fechado.

Você tem sampleado o que?

Às vezes eu toco umas guitarras funk e sampleio, sampleio muito a minha própria voz.

Gosto muito de fazer remix de baba, hit. Tipo uma que eu tava tocando da Sophie St. Laurent, “Sex appeal”. Foi uma música muito famosa nos anos 80 e que não toca mais, não sei nem se as pessoas se lembram. Já fiz remix do Illya Kuryaki and the Valderramas. Prince também. Outra banda que eu adoro também é o Zapp & Rogers. Acho que o Prince copiou muita coisa deles. São os reis do talk box.

Você considera o que você faz música brasileira?

Não sei se o que eu faço é música brasileira, mas eu faço uma música pensando no Brasil. Porque tem que dar certo aqui, antes de mais nada, atrair as pessoas daqui. Eu acho que eu faço uma espécie de funk com acento brasileiro.

Eu achava até que não. Quando eu fui tocar no Sónar, fui com o Marlboro e com o Instituto, que são duas coisas completamente brasileiras. Um com tamborim, chocalhão, bandeira do Brasil, depois o Marlboro com o funk, mais brasileiro que isso não tem. Eu falei, “putz, fudeu, vou ficar deslocado aqui”.

Mas aí não, rolou total, a galera adorou. Eu sempre acreditei nisso, mas me confirmaram que tem um acento brasileiro na música. A gente nasceu aqui né, vai fazer o que. Minha mãe é do Maranhão e meu pai é do Rio, você cresce ouvindo forró, samba, então é uma coisa cultural mesmo, sai sozinho. É uma coisa que até o DJ Dolores fala, você não precisa querer mostrar que é brasileiro. Basta você fazer que vai sair.

O Tim Maia mesmo, aquele soul dele. Ele tem um disco inteiro em inglês que é incrível. Duvido que tenha algum gringo que tenha gravado alguma coisa parecida com aquilo, porque por mais influência que tenha de música estrangeira, é o típico brasileiro antropofágico, mastiga e devolve outra coisa. Como afro beat.

Que é a releitura da releitura. O funk, influenciado pelos ritmos africanos, voltando para África.

Tem coisas de afro beat que são super funk. Não é só o Fela Kuti. Você escuta e diz, “é funk, é soul”, mas é africano, não é americano. É super claro. Como o soul brasileiro. Então eu acho que estou nesse time aí, só que na eletrônica.

O que você está achando desse reconhecimento internacional da música eletrônica brasileira que está surgindo? Por que só agora? É pelo amadurecimento?

Acho que já dá pra fazer uma avaliação dessa revolução digital. Para os gringos acho que não fez muita diferença, eles sempre tiverem acesso as coisas. Você divide uma MPC lá em 40 vezes, é muito diferente.

Por aqui, essa coisa digital ajudou muito as pessoas a adentrarem o mundo da produção musical de uma maneira mais barata, mais acessível, da nossa maneira, que é pirateando programas, etc. Querendo ou não, acabou criando uma cultura de produção. Depois com um pouco mais de dinheiro as pessoas acabam comprando equipamentos melhores, mas o que importa é que num primeiro momento a gente teve acesso, a uma maneira de fazer que era nova.

Nesse sentido aí foi muito bom. O lance da Internet, das pessoas poderem pegar tudo. Aí você fala, “teve um amadurecimento?”. Agora teve.

Como você está vendo a cena brasileira?

Tem muita gente fazendo de tudo, ta bem interessante. Mas tem muita gente nova, de 20, 18 anos. Tá bem efervescente mas ainda não tem uma coisa conclusiva, de uma música exatamente nossa. Tem muita coisa acontecendo positiva, mas tem alguma coisa que vai vir depois do Dolores, do Drumagick, de mim. Acho que tudo isso ainda é a ponta do iceberg, vamos ter muitas surpresas pela frente.

Você considera a sua geração como a que está fazendo a transição então?

Eu colocaria dessa maneira. Eu sou uma espécie de sortudo mesmo. Eu não estou no eixo Rio-SP, não estou tentando fazer nada de novo, só faço o que vem na minha cabeça, vou pela intuição, não tento fazer um lance criativo e inovador. Eu vou pelo o que eu acho que é legal de dançar.

Eu não acho que estou fazendo nada de novo, quem vai fazer algo realmente de novo é o pessoal que vai vir depois de mim.

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