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fevereiro 2024

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Batalhas e amizade num Coliseu de rimas online

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A batalha (da esquerda pra direita): MCs Grafiteh e Magrão versus Meny BXD e Vini

O rap está on. Se você não conhece os maiores nomes das batalhas e rodas de MCs, está bem por fora do que está acontecendo no hip hop. Vários rappers chegam a quase 1 milhão de seguidores no Instagram e os encontros semanais, no Rio, São Paulo, Minas e outros estados, são assistidos por centenas de milhares de fãs online. No mundo digital do rap (como em quase todos outros meios), número de seguidores é moeda corrente.

A Batalha do Coliseu, criada em 2019, é uma das principais. Quem passa apressado de carro pela Praça da Bandeira numa terça à noite, talvez não se dê conta do porquê este ponto de referência na Tijuca, ficar lotado. O motivo não é um esquenta para algum jogo no Maraca, nem alguma edição do tradicional alagamento provocado por chuvas no verão. O que reúne centenas de jovens de diversas regiões da cidade na praça é o rap.

Como é bom ver a cena verdadeiramente independente respirar no Rio. Se não fosse levado pelo meu filho, impactado pelas batalhas através do YouTube, também não saberia que nada disso estava acontecendo (provavelmente estaria assistindo o Mengão aplicar 4×0 no Boa Vista a poucos metros dali).

Com 555k assinantes no YouTube e 234k no Instagram, assim como acontece com outros eventos do gênero, a Batalha do Coliseu tem maior visibilidade online do que ao vivo. É através das lives, também transmitidas na Twitch, que as disputas chegam às telas de milhares de fãs pelo país. Num dia que prometia muita chuva, o evento na Praça da Bandeira reuniu duas centenas de fãs, enquanto mais de 70 mil pessoas acompanhavam de casa através de uma live no YouTube.

Muita coisa mudou desde que o MC Aori fundou a seminal Batalha do Real no já longínquo 2003, na Lapa. Talvez, grande parte da molecada presente na Praça da Bandeira nem conheça o evento ou saiba que nomes hoje muito conhecidos como Emicida, Filipe Ret, Criolo, Xamã, começaram a despontar na BdR.

Hoje presença online é um fator decisivo e as batalhas não são mais apenas um ritual de passagem e sim uma cena em si, com suas próprias estrelas, fãs e tradições. Aos poucos, os MCs de batalha vão conquistando espaço sem precisar migrar para o rap, gravar um disco e todo resto do caminho tradicional. Vivem online e ao vivo.

No tablado montado sob uma lona, apenas um toca-discos soltando bases em loop para disputas ferozes no microfone. As rimas são repletas de ofensas pessoais, para alegria dos adolescentes e para um olhar desacostumado com a energia do evento, parece que em algum momento o caldo vai entornar. É puro teatro e logo na sequência os MCs estão abraçados e conversando após os embates. Essa brodagem é o traço que une artistas e público ali.

O ringue não é por caso e coisa toda lembra um esporte e está se profissionalizando. Os MCs atendem os fãs com atenção, cuidam de suas redes e, desceu do palco, estão todos trocando ideias. A geração anterior construiu as bases, mas não teve esse alcance viral trazido pelo TikTok (onde nem levantei os números de cada MC) e outras plataformas. Essa profissionalização transforma também o conteúdo.

Antes do evento começar, MCs locais como Neo BXD (588k seguidores no Instagram), Devilzinha (101k) Fael (376k) e Thorment (11k), circulam pelo local, assim como MCs de outros estados, como Lya (1,4m), Aline (266k), Brennuz (853k) de São Paulo, BMO (967k) de Brasília, Tonhão do Ceará (34k) e Sofia (136k) de Santa Catarina. Muitas crianças comparecem, tiram fotos com os ídolos, que pacientemente atendem os pequenos fãs.

Nesta última terça as disputas foram entre duplas, em dois rounds, com um terceiro de desempate, é a reação do público que decide o vencedor. Uma dupla de MCs falou e isso abriu vaga para inscrição de dois novos nomes, direto da plateia para o palco. Nada mais alinhado com a geração online, onde cada um pode ganhar fama, do que isso.

Os MCs Meny BXD (313 seguidores) e Vini (272 seguidores) tiveram a audácia de se inscrever, talvez sem esperar que de fato fossem ser sorteados. Pois foram e do outro lado estavam dois pesos pesados de São Paulo, consagrados nas batalhas: Magrão (921k seguidores) e Grafiteh (97k seguidores), aguardavam os novatos.

E como naquele filme do Eminem, os garotos começaram nervosos, travaram, escorregaram no flow, perderam o tempo e foram amassados pela experiência dos dois MCs cascudos. Uma galera riu, outra apoiou a presença de dois representantes da plateia no palco.

Logo na sua primeira entrada, Meny se atrapalhou pra rimar algo e se declarar fã de Magrão, talvez esperando alguma compaixão. Não teve. Magrão e Grafiteh rasgaram os moleques sem dó. Não importava. Os desafiantes até tiveram bons momentos, arrancaram alguns gritos da plateia, mas mesmo com o massacre previsível, os olhos dos dois meninos brilhavam, só de estar ali.

Meny e Vini se abraçavam, abraçavam os ídolos, sorriam, se cumprimentavam. Eles não estavam nem aí pra impossibilidade de ganhar, só estavam felizes pela chance de dividir o palco com os brabos. No intervalo entre o primeiro e segundo round, a beleza do evento se mostrou. As caras amarradas e marrentas deram lugar ao companheirismo. Magrão e Grafiteh incentivam os meninos, “relaxa”, “aproveita o momento”, “tamo junto”. 

Eles entenderam o jogo, sabem que pra essa cena perdurar, precisa ser aberta. É a renovação que garante a continuidade. Mesmo que segundo depois, os personagens voltassem a tona pra detonar os iniciantes e mostrar quem é que (ainda) manda.

O rap está na rua e está no melhor lugar: em casa.

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