“A First Class Dub” – King Tubby
“Come Live With Me” – Dorothy Ashby
“Part Version 8” – Piero Piccioni
“Pealed Tomato” – Chorafas
“It’s Choade My Dear” – Connan Mockasin
“Mariangela e la Seduzione” – Ennio Morricone
“Show Me To The Window” – Robert Lester Folsom
“Chi Mi Cerchera” – Enrico Simonetti with Goblin
“Was It All In Vain” – Bixio Frizzi Tempura
“Rainbow Ride” – Kathy McCord
“O Sabia” – Les Wanted
“Clay Horses” – Julian Lynch
Você acorda, anda até o banheiro, pega a escova de dente e fica olhando para o espelho, aguardando seu corpo iniciar os movimentos, enquanto tenta lembrar o que estava sonhando, organizar mentalmente as tarefas e começar o dia. Esse estado entre o acordado e o desperto, tem sido utilizado para descrever uma parte da produção musical independente recente, principalmente dos EUA.
Marcado pela estética lo-fi, o uso de efeitos, sintetizadores, filtros, saturações, melodias minimalistas, ecos de ambient, new age, embaladas por uma nostalgia oitentista imaginada (visto que muitos dos músicos sequer tenham idade para terem de fato lembranças concretas da década), o som de bandas como Washed Out, Toro Y Moi, Sun Araw tem sido chamado de shoegaze sem guitarra, dance music não dançavel, é música chapada, pra se espreguiçar. Música feita sem recursos, em laptops, baseadas em samples, com climas otimistas e melancólicos, a trilha sonora para crise financeira nos EUA, alguns dizem. Escapista, dizem outros.
https://youtu.be/S-0TYeg9Rzc
Washed Out
Encontrar um termo para resumir o equivalente sonoro das polaroids fake do Instagram virou motivo de piada. O blog Hipster Runoff, debochando do ar misterioso e aparentemente artístico desses projetos, como que para mascarar suas intenções pop, fez uma enorme lista de possíveis nomes para o “estilo”, como shitwave, post-bloghause, wave, freakgaze, no-fi. Um deles acabou pegando, sem querer.
Chill wave tem sido fartamente usado para descrever bandas que não necessariamente tem afinidades musicais. Englobando referências tão diversas, o termo baseado nas características técnicas e estéticas – e não nas geográficas, como se costuma fazer com movimentos (algo que também ocorre com o ghetto tech, culpa da internet e dos blogues de MP3, criando movimentos globais) – foi rechaçado pelos artistas, mesmo que tenha sido bastante utilizado na imprensa.
Além de muitas vezes presunçosos e desnecessariamente cabeçudos (vide o Pitchfork), termos para definir sons são uma muleta, uma desastrada forma de se ensacar juntas bandas bem diferentes entre si. Num caminho inverso, sub-gêneros as vezes aplicáveis apenas a duas ou três bandas, irritam ainda mais.
Fenômenos hipnagógicos são alucinações visuais que ocorrem quando estamos de transição entre o estado desperto e de sono, momentos antes de adormecer ou assim que acordamos. Entre sobressaltos, clarões e caleidoscópios coloridos, diz-se que esse estado mais profundo que a hipnose, é um momento de profunda criatividade. O guarda-chuva hipnagógico é ainda mais amplo, engloba o próprio chill wave, o witch house o nu dub e uma boa parcela das música chapada do século XXI.
O sucesso do “estilo” pode também ser seu próprio fim. Com a crescente atenção, os artistas podem ter mais sucesso e passar a ter acesso a equipamentos melhores, interferindo no aspecto caseiro dos sons. Quando isso acontecer, alguém certamente vai bolar um outro nome e começar a ladainha novamente. Enquanto isso, bons músicos fazem boas músicas. Só isso.
Texto da semana retrasada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:
Fácil como 1, 2, 3 A segunda geração de blogues de MP3 facilita ainda mais as coisas por Bruno Natal
Quando o MP3 surgiu, o que havia para ser baixado eram discos regulares sendo convertidos para arquivos digitais, o que desaguou em zilhões de ações da indústria fonográfica contra o irrefreável hábito dos usuários de compartilhar os arquivos e, logo depois, na decadência galopante do formato físico. Enquanto caía um gigante, surgia outro. A troca de arquivos virou o padrão de compartilhamento de música e não apenas artistas vindo do formato antigo queriam participar, como, principalmente, novos artistas surgiram e se estabeleceram a partir disso.
Hoje existem músicas que saem exclusivamente no formato digital, feitas exatamente para ser baixadas gratuitamente, tanto de bandas independentes lançando material original, como de remixes feitos por produtores em busca de atenção – e as vezes se arriscando com material protegido por direito autoral. O Hype Machine tornou-se o principal agregador desse tipo de conteúdo, reunindo em uma só página as músicas publicadas nos principais blogues dedicados a disponibilizar MP3. É possível escutar e encontrar links para os lançamentos mais recentes e, não por acaso, a página foi chamada de “a Billboard da nossa geração” pelos caras do Chromeo.
O formato prático do Hype Machine, reunindo tudo em um só lugar, deu cria e hoje existem diversos blogues, dedicados a gêneros e estilos específicos, para encontrar música nova. E boa, já que as páginas costumam ter curadoria e não aceitam qualquer entrada. Exemplos bem organizados são o Amaxing FM, o We Are Hunted e o Punkreas, são apenas três de quase infinitas opções. Uma ótima maneira de baixar músicas gratuitamente sem correr o risco de infringir a lei.
Vi no Party Busters o link para mixtape que o Toro Y Moi, responsável pelo disco do verão 2011, “Underneath the Pine”, fez para Fact Magazine, mais dançante do que o tal chillwave dos seu trabalho original:
Harvey Mason – “On and On”
Advance – “Take Me to the Top”
The Field – “Little Heart Beats So Fast”
Eddie C – “Space Cadet”
Petter – “Untight”
Harald Björk – “Sunsets”
Mount Kimbie – “Carbonated”
Jayson Brothers – “The Game”
Motor City Drum Ensemble – “Raw Cuts #6”
Bem acertada a decisão do Toro Y Moi de utilizar instrumentos de verdade no seu segundo disco, “Underneath The Pine”. O som cresceu e esquentou. Logicamente, já vazou também. Ecos de funk, disco, Air, Tommy Guerrero, Whitest Boy Alive, lo-fi… Disquinho do verão.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.