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quinta-feira

8

setembro 2011

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Twitter, mais rápido que terremoto

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O Twitter resolveu capitalizar em cima daquela história do recente terremoto ter chegado em Nova York via rede antes mesmo das ondas sísmicas provocadas pelas placas tectônicas.

terça-feira

23

agosto 2011

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quinta-feira

30

junho 2011

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無常 (mujo)

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Recebi da Hiromi Konishi um texto do escritor japonês Haruki Murakami (traduzido por ela e Sergio Flaksman), a transcrição do discurso que ele fez recentemente em Barcelona quando ganhou o prêmio international de literatura da Comunidade da Catalunha.

É sobre o Japão, mas não apenas sobre o Japão.

“Um sonhador fora da realidade”
Haruki Murakami

A última vez que estive em Barcelona foi na primavera, dois anos atrás. Participava de uma noite de autógrafos, e fiquei surpreso com o número de leitores que formou uma fila enorme. Levei mais de hora e meia para assinar todos aqueles livros, porque muitas das minhas leitoras ainda queriam me beijar, e aquilo tudo levou muito tempo.

Já participei de sessões de autógrafos em muitas outras cidades do mundo, mas só em Barcelona as mulheres queriam beijos. Pode ter sido por isso que achei Barcelona uma cidade espetacular. E fico muito feliz de estar de volta a esta cidade, com sua rica história e sua esplêndida cultura.
Mas hoje, infelizmente, preciso falar de algo mais sério do que beijos.

Como todos devem saber, às 2:46 da tarde do dia 11 de março um terremoto gigantesco atingiu o nordeste do Japão. A força desse terremoto foi tamanha que a terra girou mais depressa em torno do seu eixo, e o dia ficou 1,8 segundo mais curto.

Os estragos produzidos pelo próprio terremoto foram importantes, mas o tsunami desencadeado por ele causou uma devastação maior ainda. Em certos lugares, a onda do tsunami chegou a uma altura de 39 metros. Diante de um vagalhão desse tamanho, nem o décimo andar de um edifício serve de refúgio às vítimas que se encontram em seu caminho. Os habitantes de áreas próximas ao litoral não tiveram como escapar, e cerca de 24.000 pessoas morreram, das quais 9.000 ainda estão desaparecidas. A onda gigantesca as arrastou de volta para o mar, e não conseguimos encontrar seus corpos. Muitos se perderam no mar gelado. Quando paro para pensar nisso e tento imaginar como pode ser a experiência de um destino tão trágico, meu coração fica apertado. Muitos sobreviventes também perderam familiares, amigos, casas, propriedades, a comunidade e a própria base da sua existência. Aldeias inteiras foram inteiramente destruídas. Muitas pessoas tiveram suas vidas foram despojadas de toda esperança.

Ser japonês significa, de um modo ou de outro, conviver com desastres naturais. Tufões atravessam boa parte do Japão entre o verão e o outono de cada ano, produzindo danos extensos e muita perda de vidas humanas. Há vulcões ativos em todas as regiões do país e, é claro, inúmeros terremotos. As ilhas japonesas se assentam perigosamente em quatro enormes placas tectônicas, no extremo leste do continente asiático. Já foi dito que vivemos num verdadeiro ninho de terremotos.

É possível prever até certo ponto o momento em que um tufão irá ocorrer, e o caminho que irá seguir. Mas não há como prever quando e onde ocorrerá um terremoto. A única coisa que sabemos com certeza é que este não foi o último dos grandes terremotos, e que outro há de ocorrer no futuro próximo. Muitos estudiosos preveem que um terremoto de 8 graus na escala Richter deve ocorrer na área próxima a Tóquio nos próximos vinte ou trinta anos. Pode acontecer daqui a dez anos ou amanhã à tarde. Não temos como saber ao certo a que ponto podem chegar os estragos se um terremoto com epicentro abaixo da terra ocorresse numa cidade tão densamente povoada como a de Tóquio.

Ainda assim, há treze milhões de pessoas que levam uma vida “normal” só na área de Tóquio. Tomam trens lotados para o trabalho todo dia, e trabalham em altos arranha-céus. Mesmo depois desse último terremoto, não há notícia de que a população de Tóquio esteja diminuindo.
E por quê? podem me perguntar. Como tanta gente ainda consegue viver normalmente seu dia-a-dia num lugar tão terrível? Como não enloquecem de medo?

Em japonês, a palavra mujo (無常) significa que nada dura para sempre. Tudo que surge neste mundo muda o tempo tudo, e acabará desaparecendo. Não se pode contar com a duração eterna, a estabilidade ou a imutabilidade de coisa alguma. Essa visão de mundo deriva do budismo, mas a noção de mujo, independente da religião, se encontra gravada a fogo no espírito do povo do Japão, e criou raízes profundas na consciência étnica comum aos japoneses.

A idéia de que “tudo só existe de passagem” exprime a resignação. Acreditamos ser fútil, no fim das contas, tentar se opor ao fluxo de natureza. Mas os japoneses sempre se esforçaram em encontrar expressões positivas de beleza nessa sua resignação.

Na natureza, adoramos as flores de cerejeira na primavera, as revoadas de vagalumes no início do verão e as folhas vermelhas do outono. Achamos natural admirar com avidez essas manifestações, coletivamente e como parte de uma longa tradição. Pode ser difícil consegui reservas num hotel próximo aos locais mais célebres de cerejeiras floridas, das revoadas de vagalumes ou da folhagem vermelha do outono, e esses lugares ficam invariavelmente repletos de visitantes.

Por quê?

A beleza das flores de cerejeira, dos vagalumes e das folhas vermelhas é efêmera. Fazemos longas viagens só para ver esses momentos gloriosos. E sentimos um certo alívio ao confirmar não só a beleza que contemplamos, mas também que ela já começa a declinar, que aquelas pequenas luzes já se atenuam e aquele esplendor de cores já começa a se perder. Sentimos uma grande paz de espírito ao constatar que a beleza, depois do apogeu, também passa e desaparece.

Não sei se os desastres naturais ajudaram a formar essa mentalidade, mas tenho certeza de que superamos coletivamente desastres naturais sucessivos, aceitando o inevitável, graças a essa mentalidade. Essas experiências talvez tenham influído sobre a ideia que temos de beleza.

A maioria dos japoneses sofreu um choque profundo com esse terremoto, e ainda não conseguimos reagir à altura da grandeza dos estragos, mesmo estando acostumados com terremotos e preparados para eles. Sentimo-nos impotentes e inseguros quanto ao futuro do país.

No fim das contas, sei que conseguiremos reorganizar nossos espíritos, reerguer-nos e começar a reconstrução. Não é isso que me preocupa.

Foi assim que nossa tribo sobreviveu ao longo da história. Não nos serve de nada permanecermos imobilizados e deprimidos diante do choque. Casas arrasadas podem ser reconstruídas, estradas e ruas podem ser restauradas.

Afinal, somos inquilinos sem permissão desse planeta chamado terra. O planeta terra nunca nos pediu que morássemos nele. Se a terra sacudiu um pouco, não temos o direito de reclamar, porque tremores ocasionais são uma das características do planeta terra. Gostemos ou não, é essa a natureza com que temos de viver.

Eu queria falar aqui não de coisas que podem ser reconstruídas, como os edifícios ou as estradas, mas de coisas que não se restauram com facilidade, como a ética e os valores. Essas coisas não têm uma forma física. Quando quebram, é muito difícil restaurá-las, pois para esse conserto não bastam máquinas, mão de obra e materiais de construção.

Estou falando concretamente da usina nuclear de Fukushima.

Todos aqui devem saber que três dos seis reatores nucleares afetados pelo terremoto ainda não foram restaurados, e continuam a espalhar radioatividade à sua volta. O núcleo sofreu derretimento, e o solo em torno foi contaminado. Água contaminada de radioatividade foi drenada de volta para o oceano, e o vento vem espalhando a radioatividade por áreas maiores.

Centenas de milhares de pessoas foram forçadas a deixar a área. Campos, plantações, fábricas, lojas e portos ficaram abandonados e desertos. As pessoas que ali moravam talvez nunca mais possam voltar. E os danos devidos a esse acidente não se limitam ao Japão, mas infelizmente ainda podem atingir países vizinhos.

E a razão da ocorrência desse trágico desastre é mais ou menos óbvia. Os responsáveis pela construção dessas instalações nucleares nunca imaginaram que pudessem ser atingidas por um tsunami tão grande. Alguns especialistas apontaram que aquela região já tinha sido atingida no passado por tsunamis de força comparável, insistindo na revisão dos padrões de segurança, mas as empresas de energia elétrica preferiram ignorá-los, pois não quiseram comprometer seus lucros investindo na prevenção de um tsunami que poderia vir a ocorrer em séculos futuros.

E o governo, que deveria cuidar da segurança das usinas nucleares com regras rigorosas, parece ter reduzido suas exigências em matéria de segurança a fim de promover a geração de energia nuclear.
Devemos investigar esses fatos a fundo e, se encontrarmos erros, eles precisam ser corrigidos. Por causa deles, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a deixar sua terra e tiveram suas vidas praticamente interrompidas. Temos todo o direito de sentir raiva diante disso, uma reação absolutamente normal.

Por algum motivo, o povo japonês não sabe se enfurecer. Os japoneses têm um grande talento para a paciência, mas não para a raiva. Nesse ponto, podem ser um pouco diferente dos cidadãos de Barcelona. Mas desta vez, mesmo sendo japoneses, ficamos seriamente aborrecidos.
Ao mesmo tempo, precisamos criticar a nós mesmos, que permitimos ou toleramos, com nosso silêncio, a existência de um sistema tão torto como este.

Esta situação tem uma relação profunda com nossa ética e os nossos padrões.

Como todos talvez saibam, nós, os japoneses, somos o único povo na história a ter sofrido ataques nucleares. Em agosto de 1945, aviões de guerra americanos lançaram bombas atômicas em duas cidades importantes, Hiroshima e Nagasaki, resultando na morte de mais de duzentas mil pessoas. E as vítimas, em sua imensa maioria, eram pessoas comuns e desarmadas. No entanto, este discurso não é o momento certo para eu refletir sobre a justeza ou a injustiça desse fato.

O que quero dizer aqui é que, além das duzentas mil pessoas que morreram em consequência imediata do bombardeio nuclear, muitos dos sobreviventes também viriam a morrer nos anos seguintes devido aos efeitos prolongados da radiação. Aprendemos com as vítimas das bombas atômicas o quanto a radioatividade pode ser terrivelmente destrutiva e causar danos profundos ao mundo e às pessoas.

O Japão adotou duas diretrizes políticas fundamentais depois da Segunda Guerra Mundial. A primeira foi a reconstrução econômica, e a segunda a renúncia à guerra. Decidimos abandonar o uso da força militar em qualquer circunstância, prosperar e dedicar-nos à paz. E essas ideias se converteram nos novos princípios da nação japonesa depois da guerra.

As seguintes palavras estão gravadas no monumento às vítimas da bomba atômica em Hiroshima.
“Descansem em paz. Nunca mais cometeremos o mesmo erro.”

São palavras eloquentes, e significam que somos tanto vítimas como culpados. Diante da energia nuclear, somos vítimas e culpados. Como estamos ameaçados pelos efeitos da energia nuclear, somos todos vítimas. Como a usamos e não conseguimos deixar de usá-la, somos todos também culpados.

Sessenta e seis anos depois do bombardeio atômico, os reatores nucleares de Dai-chi em Fukushima vêm espalhando radioatividade há três meses, contaminando o solo, o mar e o ar à sua volta. Ninguém sabe como e quando conseguiremos controlar o vazamento. Esta é a segunda ocorrência de devastação pela energia nuclear no Japão, mas dessa vez nenhuma bomba atômica foi lançada. Nós, o povo japonês, fomos os causadores disso, o erro foi nosso, fomos nós que provocamos a destruição de terras e vidas em nosso país.

Por que isso aconteceu? O que houve com a nossa rejeição da energia nuclear depois da Segunda Guerra Mundial? O que causou esse prejuízo à nossa sociedade pacífica e próspera, que temos construído com um empenho tão constante?

O motivo é simples. O motivo é a “eficiência”.

As empresas de eletricidade insistiram em afirmar que as usinas nucleares proporcionavam um sistema eficiente de geração de energia. Era o sistema do qual podiam derivar lucro. E especialmente depois da grande crise do petróleo, o governo japonês duvidava da estabilidade do seu fornecimento, fomentando a produção nuclear de energia como uma diretriz nacional. As empresas de eletricidade investiram imensas quantias em anúncios para subornar os meios de comunicação e fazê-los bombardear o povo japonês com a ilusão de que a energia nuclear era completamente segura.
E assim, quando nos demos conta, a energia nuclear já respondia por 30% da eletricidade gerada no país. O Japão, uma pequena nação insular frequentemente assolada por terremotos, tornou-se o terceiro país do mundo em energia gerada por usinas nucleares, sem que o povo japonês sequer se tivesse consciência disso.

Ultrapassamos o ponto depois do qual não há mais volta. Os fatos estavam consumados. Aos que temem a energia nuclear, respondia-se com a pergunta intimidadora: “Então você não se incomodaria com a falta de eletricidade?” O povo japonês começou a acreditar que não havia outra saída, e que a energia nuclear afinal era boa. É quase uma tortura viver sem ar condicionado no calor úmido do Japão. Todos que cultivavam dúvidas a respeito da geração nuclear de energia passaram a ser rotulados de “sonhadores fora da realidade”.

E assim chegamos ao ponto onde nos encontramos hoje. As usinas nucleares, apontadas como equipamentos eficientes, tiveram como efeito abrir para nós a tampa do inferno. Eis a realidade.
A “realidade” de que nos falavam os defensores da energia nuclear, quando diziam que precisávamos “encarar a realidade”, está longe de ser no fim das contas a realidade, mas só a “conveniência” mais superficial. E o problema foi resolvido por substituição, passando-se a chamar a “conveniência” de “realidade”.

É o colapso do mito da “tecnologia”, de que o povo japonês tanto se orgulhava, e a derrota de nossa ética e de nossas normas japonesas, que permitiram esse embuste. Pomos a culpa nas empresas de eletricidade e no governo japonês. Está certo, e é necessário, mas ao mesmo tempo devíamos acusar-nos a nós mesmos. Somos ao mesmo tempo vítimas e agressores. Precisamos refletir seriamente a esse respeito. Se não o fizermos, acabaremos repetindo o mesmo engano.
“Descansem em paz. Nunca mais cometeremos o mesmo erro.”
Precisamos inscrever essas palavras em nossas mentes.

O dr. Robert Oppenheimer, um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, ficou horrorizado com as condições terríveis de Hiroshima e Nagasaki depois dos ataques nucleares. E disse ao presidente americano Harry Truman: “Minhas mãos estão cobertas de sangue.” Em resposta, Truman tirou do bolso um lenço branco, limpo e dobrado, e disse, “Limpe as suas mãos com este lenço.”

Mas é claro que não existe no mundo um lenço limpo de tamanho suficiente para limpar tanto sangue assim.

Nós, os japoneses, devíamos ter dito “não” à energia nuclear. Esta é a minha opinião.
Precisamos desenvolver fontes alternativas de energia para substituir a energia nuclear em todo o país, investindo nisso todas as tecnologias, todo nosso saber e todo nosso capital social. Mesmo que o resto do mundo ria de nós e diga: “A energia nuclear é o sistema mais eficaz de geração de energia, e os japoneses são tão idiotas que não a usam.” Precisamos conservar nossa alergia à energia nuclear desencadeada pela experiência com o bombardeio atômico. Devíamos ter transformado o desenvolvimento da geração não-nuclear de energia em principal objetivo do nosso país, depois da Segunda Guerra Mundial.

Seria esse o modo certo de assumir nossa responsabilidade coletiva pelas vítimas de Hiroshima e Nagasaki. Precisávamos dessa ética básica, dessas normas fundamentais e de mensagens sociais nesse sentido, que teriam sido uma oportunidade para o povo japonês dar uma verdadeira contribuição ao mundo. Mas durante o nosso crescimento econômico acelerado preferimos tomar a via mais fácil, a da chamada”eficiência”, perdendo-nos do caminho que era mais importante.
Como já disse, podemos superar os estragos causados por desastres naturais, por mais terríveis e extensos que sejam. E às vezes nossos espíritos se tornam mais fortes e profundos graças ao processo de superação. Somos capazes disso.

Cabe aos especialistas reconstruir estradas danificadas e prédios desmoronados, mas cabe a todos nós regenerar uma ética arranhada e princípios abalados. Começamos chorando os mortos, cuidando das vítimas dessa calamidade com o desejo natural de não deixar que sua dor e seus ferimentos tenham sido em vão. Isto tomará a forma de um trabalho meticuloso, feito em silêncio, demandando uma paciência considerável. Precisamos unir nossas forças para fazê-lo, como toda a população de uma aldeia que se junta para cultivar os campos e plantar suas sementes numa manhã ensolarada de primavera. Cada um fazendo o que pode, todos os corações unidos para o mesmo fim.
Nós, os escritores profissionais, versados no uso das palavras, podemos dar uma contribuição positiva a essa missão coletiva em grande escala. Devemos conectar uma nova ética e novos princípios a novas palavras, e criar e construir novas e atraentes narrativas, que poderemos depois compartilhar. Elas deverão ter um certo ritmo que possa estimular as pessoas, exatamente como as músicas que os agricultores cantam enquanto plantam suas sementes. Reconstruímos o Japão, que fora totalmente destruído pela Segunda Guerra Mundial. Precisamos retornar a esse ponto de partida.
Como mencionei no início deste discurso, vivemos num mundo mutável e transitório mujo (無常). Toda vida há de mudar, e finalmente, sem exceção, desaparecer. Os seres humanos não têm poder face às forças maiores da natureza. O reconhecimento do efêmero é um dos conceitos básicos da cultura japonesa. Embora respeitemos o fato de que tudo é transitório, e entendamos que vivemos num mundo frágil e cheio de perigos, ao mesmo tempo somos imbuídos de uma vontade silenciosa de viver e de mentes positivas.

Fico orgulhoso de saber que minhas obras são apreciadas pelo povo catalão e de receber um prêmio tão importante. Vivemos longe uns dos outros e falamos línguas diferentes. Temos culturas diversas. Mas ao mesmo tempo somos cidadãos do mundo, que têm em comum os mesmos problemas, as mesmas alegrias e as mesmas tristezas. Narrativas escritas por autores japoneses foram traduzidas para o catalão, e lidas pelo povo catalão. Sinto-me grato por compartilhar histórias com vocês. Sonhar é o trabalho diário dos romancistas, mas compartilhar os sonhos é nossa tarefa mais importante. Não podemos ser romancistas sem o projeto de compartilhar alguma coisa.
Sei que o povo catalão superou muitas provações, vive a vida plenamente e conserva uma cultura rica em sua história. Devemos ter muitas coisas em comum.

Penso que seria maravilhoso se, tanto nós no Japão como vocês aqui na Catalunha, pudéssemos ser, na mesma medida, “sonhadores fora da realidade”, formando uma “comunidade do espírito”. Julgo também que este poderia ser o ponto de partida para o nosso renascimento, pois passamos recentemente por muitas calamidades naturais e atos de terrorismo. Não podemos ter medo de sonhar. Nunca devemos deixar que os cães do mal conhecidos como “eficiência” ou “conveniência” nos dominem. Temos a obrigação de ser “sonhadores fora da realidade”, seguindo em frente com o máximo vigor. Os seres humanos morrem e desaparecem, mas a humanidade há de prevalecer e regenerar-se para sempre. Acima de tudo, devemos acreditar nesse poder.

Finalmente, irei doar o dinheiro deste prêmio para as vítimas do terremoto e do acidente das usinas nucleares. Fico profundamente agradecido ao povo catalão, que me deu esta oportunidade, e à Generalitat de Catalunya. Quero ainda manifestar minha mais profunda solidariedade com as vítimas do recente terremoto em Lorca.

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