My Morning Jacket Archive

sexta-feira

11

julho 2008

6

COMMENTS

Rock Werchter '08: Festa no interior

Written by , Posted in Resenhas


URBe TV (com excessão do Radiohead) e
URBe Fotos (inclusive as fora de foco)

Como dito anteriormente, todos os caminhos apontavam para Bélgica. O que pode ter faltado foi placas sinalizando melhor as intempéries.

Após quatro dias enfiado na lama e cercado de adolescentes bêbados, a maratona de shows do Rock Werchter 2008 ficou assim:

Vampire Weekend, The National, Shameboy, Lenny Kravitz, R.E.M., Soulwax, My Morning Jacket, Jay-Z, Duffy, The Verve, Hot Chip, Digitalism, MGMT, Band of Horses, Kings of Leon, Ben Harper, Sigur Rós, Radiohead, Hercules & Love Affair, Mark Ronson, The Racounteurs, Justice e Beck.

Uma sequência dessas apaga qualquer má impressão que um festival muito bem organizado, porém mal produzido, possa deixar — afirmação parece antagônica, mas não é. Os principais problemas foram a superlotação e a má distribuição do espaço.

O bom é que passada as chateações, ficam apenas as recordações dos shows. E que shows.

Dia 1onde os urubús tem asa


Uniforme

Werchter é uma pacata cidade, de poucos habitantes, no interior da Bélgica. Não tem nada perto, ou mesmo longe. Como é que um lugar desses faz pra reunir uma escalação desse peso — e sem o nome de nenhuma mega corporação intrometida no logo do evento — é um mistério.

Parte do intuito da ida a Bélgica era desvendar esse segredo, seguindo uma dica quentíssima de uma pessoa que por motivos profissionais já visitou praticamente todos os principais festivais do planeta (mesmo), apontando Werchter como o melhor.

Como comparação, foi dito que barrava o Coachella. É uma afirmação bem ousada, pois escalações a parte, o evento californiano tem algo que os festivais europeus não tem (tirando os espanhóis): certeza de dias ensolarados.

Nunca quis ir para o zoológico de Glastonbury justamente porque assistir a shows de galocha, com barro até os joelhos, vestindo uma capa e tremendo de frio não é exatamente meu ideal de uma tarde agradável.

A decepção com o ensopado verão europeu doeu ainda mais ao descobrir que, não apenas Werchter também é bem molhada, mas os frequentadores estão muito pouco preocupados com o que se passa nos dois palcos.

E tem também a bebida. No Coachella não é permitido circular com bebidas alcóolicas fora da área determinada, o que acaba deixando as coisas bem mais calmas. Já na Europa, os festivais são uma espécie de primos distantes do carnaval, com ênfase nos desastres.


Vampire Weekend, “A-Punk”

No primeiro dia, enquanto a maior parte do público se esbaldava nas poças e curtia o som comercial do quiosque patrocinado por uma rádio (estranhamente uma das maiores áreas do evento), o Vampire Weekend tocava na tenda.

O show é rápido e direto, emendando todas as músicas do disco sem intervalos. Animados com a reação da platéia, o vocalista do Vampire Weekend elegeu os belgas como os melhores dançarinos da turnê.

Isso porque eles ainda não foram para o Brasil. Torça para esse show aterrisar por aí, porque é coisa fina.

Antes do próximo show interessante da noite, o R.E.M., tocaram os Chatolas do The National (com “C” maiúsculo mesmo) e o farofeiro Shameboy quase levou a tenda abaixo.

Começando bem, com músicas de seus primeiros discos, Lenny Kravitz descarrilhou no final e fanfarronou como de costume. Quando finalmente chegou a vez do R.E.M., o som do palco principal deixou o público na mão. Baixo e embolado, como se fosse no Brasil, mal dava pra ouvir as músicas.

Uma pena, pois o repertório estava caprichado, abrindo com “Orange crush” e fechando com “Man on the moon”.


Soulwax, “Robot rock” + “Phantom Pt. II”

De volta a tenda, os heróis locais Stephen and David Dewaele encarnaram sua faceta de banda a frente do Soulwax.

Bastante coisa mudou no Soulwax do show no Tim Festival 2004 para cá. Se antes a banda era uma mescla de rock e electro (tendendo mais para o primeiro), sob o nome Soulwax Nite Versions ênfase é na eletrônica, tocando seus remixes ao vivo. Stephen e David se dividem entre sintetizador, vocais e ocasionalmente guitarra, com um baterista somando-se a dupla.

Emendando “Gravity’s rainbow” (Klaxons), “NY Excuse” (deles mesmo, explodindo a tenda), “Robot Rock” (Daft Punk) e “Phantom Pt. II” (Justice) fizeram uma das apresentações mais legais da música eletrônica recente (tem notado como os live PAs andam sem graça? ou é comigo?).

Os irmãos ainda voltariam mais tarde, com seu projeto mais conhecido, o 2ManyDJs, antes do show do Chemical Brothers encerrando a noite no palco principal. A essa altura, com os ossos enxarcados, o banho quente e a cama gritavam bem alto, tão alto que foi impossível não atender a seus apelos.

Dia 2lá vem o sol


Jay-Z

Vir, vir, o sol não veio, mas pelo menos a chuva também não. Começando o dia devagar, o My Morning Jacket fez um show correto, mas repetitivo e um tanto cansativo na tenda. No palco principal, e cedo, a presença mais comentada no circuito de festivais de verão desse ano mostrou que não estava a passeio.

Bom de palco que só ele, Jay-Z veio com banda, o que costuma ser a diferença entre um monólogo de rap terrívelmente insuportável e um belo show.

Sem vergonha nenhuma, botou a branquelada pra rebolar ao som de sucessos seus, com sua participação ou com seu dedo: “99 problems”, “Crazy in love” (Beyoncé), “Umbrella” (Rihanna) e a música da estação, “American boy” (Estelle).

A distância entre o Jay-Z, brincando no palco, para a insossa Duffy na tenda era maior do que a caminhada em si. Sem graça, apelando para seduções baratas e com uma voz de pato, ao vivo a loirinha não segura a onda. Aliás, nem em disco.

No palco principal (eita, vai-e-vem…), o reunido The Verve angariava seus tostões simulando um retorno do brit-pop, que nem está tão longe assim ainda.


Hot Chip, “Ready for the floor”

A nerdice tomou conta da tenda, lotada para ver os ingleses do Hot Chip. Não dá pra dizer exatamente o que é, mas falta alguma coisa ali.

Pode ser o vocal, sempre no mesmo tom e sem dinâmica, pode ser a transposição das músicas para o palco, pode ser o excesso de esforço para parecer bacanas. Pode ser qualquer coisa, a bem da verdade, mas que falta algo, falta.

O show deu uma crescida em “Over and over” e na ótima “Ready for the floor”, ficando curioso na versão de “Nothing compares 2 U”, do Prince, imortalizada por Sinead O’Connor.


Digitalism

Cheio da onda, com cenário especial e tudo mais, o Digitalism era aguardado ansiosamente na tenda, super lotada.

Devido ao excesso de empolgação dos integrantes, o show quase se perde. É um tal de vir a frente do palco pra cantar ou fazer danças esquisitas, tocar bateria eletrônica com baqueta e pedir gritinhos que fazem pensar nos clichês do que é o “DJ Ibiza”.

Entretanto, a pancadaria do som é tão forte que sossega até a dupla. Contrariando a “tendenssa” atual, nem todo show de música eletrônica é feito para ser assistido. O Digitalism certamente funciona melhor de olhos bem fechados.

Dia 3dobradinha histórica


MGMT

Provavelmente por estratégia do festival, todos os dias algumas das bandas mais esperadas tocavam bem cedo. O MGMT entrou no palco 13h25.

A impressão deixada no público no show de Londres, dois meses atrás, não foi das melhores. Grande parte saiu do show antes do fim.

É aquele negócio de banda de internet. Muita gente só conhece uma música e, talvez nivelando por baixo, espera mais dez iguaizinhas. Quando elas vem diferentes entre si — o que deveria ser uma boa coisa — a turma impaciente do hype debanda.

O MGMT é um prato cheio pra esse tipo de reação. O disco é bem diverso e ao vivo as músicas ganham roupagens de rock psicodélico que assustam quem está a fim de só “mandar um dance”. O pouco espaço de tempo entre os dois shows cancelam a idéia de uma evolucão da banda, mas o fato é que o show de Werchter foi infinitamente melhor do que o de Londres.

O repertório estava mais bem distribuído, a banda mais entrosada e o público mais atento. Os músicos fizeram tudo que o professor mandou e… Brincadeira. É que essa frase acima parecia resenha de futebol.

Show bom bagarái. Vamos ver como será recebido no Brasil.

O Band of Horses adormeceu a galera na tenda antes do Kings of Leon fazer justo o contrário no palco principal. No caso do KoL, a distância entre o fraco show no Brasil e o que a banda vem apresentando atualmente é o suficiente para apontar uma evolução.

Os integrantes tocam e parecem não estar nem aí, como se aquilo não fosse nada ou não estivessem empolgados. Vai ver não estão mesmo. Pouco importa. Com uma das músicas mais tocadas nos intervalos dos show, “On call”, e lançando um disco melhor do outro, o KoL já provou que cresceu.


Sigur Rós

Tudo que é bom tem seu preço. No caso do show do Sigur Rós, era aturar o Ben Harper destruindo, uma a uma, suas melhores músicas. É um caso ainda mais grave do que o do Lenny Kravitz. Era de se esperar que depois de três discos excelentes, o sujeito estivesse encaminhado. Mas não.

Inacreditavelmente, vieram bombas atrás de bombas (com excessão de “Woman in me”, um musicão) e, hoje, assistir um show do Ben Harper é, infelizmente, uma dureza.

Divida paga, os islandeses do Sigur Rós fizeram valer o esforço.

Com um dos cenários mais bonitos do festival e chuva de papel picado no encerramento contra um céu rosado pelo pôr-do-sol, os islandeses domaram a platéia, conseguindo silêncio geral. Até mesmo um lamentável grupo de trintões que insistia em brincar de botar um pinto de borracha na boca para aparecer no telão ficou quieto. A tarefa não era fácil, acredite.


Radiohead, “Climb up the walls”

Duas bandas tão distantes e estranhamente próximas como Sigur Rós e Radiohead, tocando uma após a outra, é pra jogar as mãos pro céu.

A grande “falta de sorte” foi que o repetório dos ingleses foi bem parecido com o da apresentação no Victoria Park, com pouquíssimas alterações.

A inclusão de “Paranoid android” fez valer o ingresso. Novamente, o clássico (é, já) “In rainbows” foi tocado quase integralmente e “Climb up the walls” surgiu numa versão dub de cair pra trás de tão boa.

Obviamente, o festival inteiro queria assistir o show colado no palco, o que ocasionou um espreme-espreme raro por essas bandas. Na tentativa de evitar o tumulto no final da apresentação, escolhi sair antes da última música pelo vão onde fica a equipe técnica, alegando que era impossível atravessar a massaroca de gente.

Sem saber, foi um prêmio. Sabe-se lá porque, o caminho levava até a boca do palco, a cinco metros da banda tocando “Everything in it’s right place”, antes da saída. Só não deu tempo de sacar a câmera pra mais uma foto fora de foco.

Dia 4arrancada final


Hercules & Love Affair

Arrebentado, com os pés doloridos das benditas galochas e mal alimentado (o Rock Werchter é o paraíso das porcarias), o último dia começou bem mal com o Hercules & Love Affair.

O grupo mal consegue ser uma paródia de si mesmo, com músicos fracos, versões magras e a ausência da voz do Anthony (and the Johnsons). Toma um baile, fácil, fácil, do Celebrare no quesito disco-music águada para casamentos.


Mark Ronson

Eis que surge Mark Ronson e sua banda gigante, os Version Players, chegando a somar 19 músicos no palco em alguns momentos. A idéia por trás do projeto é tão simples que soa até boba. A princípio. Como um DJ, Ronson comanda uma sessão de versões de hits do rock, hmmm… contemporâneo.

Lembra um pouco a proposta da Orquestra Imperial, fundada pelos produtores Berna Ceppas e Kassin e reunindo músicos amigos pra tocar músicas que influenciaram suas carreiras. A diferença é apenas cultural, o que cada um ouviu de seu país enquanto crescia.

Produtor conhecido pelo trabalho com Amy Winehouse e Lilly Allen, Mark Ronson entorta as músicas até ficarem quase irreconhecíveis, criando uma unidade sonora impensável entre “Toxic” (Britney Spears), “Just” (Radiohead), “Stop me” (The Smiths) e “God put a smile upon your face” (Coldplay).

O show é praticamente um portifólio itinerante, mostrando o talento de Mark Ronson na produção. O único detalhe é que é um show tão intenso e empolgante que as pessoas sequer pensam nas músicas originais. É como se tudo fosse material inédito.

O show agrada desde o indie mais exigente até quem nunca ouviu falar em Mark Ronson antes. Impressiona também porque, com tantas participações especias no disco, seria difícil imaginar as versões sem seus intérpretes.

A catarse provocada por “Valerie”, logicamente sem Amy Winehouse nos vocais, prova o contrário.

Mais tarde, Ronson ainda deu uma canja no palco do Kaiser Chiefs.


Racounteurs

Já em seu segundo disco, não se sabe até quando o Raconteurs será chamado de “projeto paralelo do guitarrista Jack White”. O White Stripes parece cada vez mais distante, ainda mais vendo o estrago que White pode fazer com uma banda completa.

Sem a responsabilidade de prover ao mesmo tempo a melodia e a base, White ganha mais espaço para explorar seus talentos na guitarra, no piano ou mesmo no vocal. O resto da banda também não é nada boba, resultando num show mais redondo que o do White Stripes.


Justice

O que não é um conceito. Ouvindo os zilhões de ruídos e distorções do Justice, fico pensando o que aconteceria com a dupla se vem vez da opção por um show encenado, tentassem fazer um simples DJ set com as mesmas músicas.

Se a pista ficaria vazia ou não é pura especulação. De qualquer forma, é inegável o apelo das referências ao rock e ao metal (jaquetas de couro, amplificadores Marshall e, claro, as cruzes). Como no caso do Daft Punk, não é apenas um show de música, é também uma espécie de peça teatral.

Nesse contexto, as críticas de que os shows são sempre iguais, com pouquíssimos adendos, e acusações de que é tudo pré-gravado (na montagem do palco um roadie apertou algum botão por acidente e em vez de uma nota ou algo parecido, disparou foi a base de “Genesis”, prontinha) perdem um pouco o sentido. Teatro é assim.

O perigo é os atores começarem a acreditar nos papéis e quererem se transformar nos personagens. Sinal amarelo para a pose da foto acima, que durou uns 20 segundos, mais pra Poison do que pra Metallica.


Beck

Fechando a tampa, o grande Beck, um tanto apagado e acompanhado por uma banda meio frouxa,mostrando músicas do novo disco, “Modern guilt” e alguns de suas melhores canções.

Entre “Loser”, “Devil’s haircut”, “New polution”, “Where it’s at”, o grande momento foi “Everybody’s got to learn sometime”, do The Korgis, que fez parte da trilha do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.

Moído, restava uma última coisa a fazer: sair correndo para escapar da sequência letal Underworld / Nightwish.

São e salvo.

terça-feira

2

maio 2006

3

COMMENTS

Coachella 2006

Written by , Posted in Resenhas

Coachella 2006 Daft Punk.jpg
Daft Punk

Você tem certeza de que uma viagem vai ser boa quando as coisas se encaixam sem muito esforço. A ida para Los Angeles, para conferir o Coachella Music & Arts Festival , foi premiada logo na chegada ao aeroporto.

No desembarque, um sujeito com pinta de rapper passou carregando uma bolsa de laptop com o logotipo do Ozomatli bordado na frente. Como não se vê esse logo toda hora, mesmo em Los Angeles, fui perguntar. Não deu outra, era Jabu, MC que substituiu Chali 2na (hoje no Jurassic 5) , seguido pelos outros integrantes.

Não bastasse a saraivada de shows que viriam no sábado e domingo, uma das bandas latinas mais bacanas de todos os tempos (top 5 na minha lista pessoal de shows mais desejados) tocava em Los Angeles na sexta-feira que antecedia o festival. Contando com a simpatia gratuita que a palavra “brazilian” desperta no exterior, conseguir ingressos foi moleza.


Ozomatli: “Cumbia de los muertos”

Não era um show comum. O grupo se apresentou na Hollywood Race Track, pista de corridas de cavalos em Inglewood, servindo de entretenimento entre um páreo e outro. Na platéia, praticamente apenas mexicanos e decedentes e um ou outro curioso cansado de perder dinheiro apostando em pangarés.

O despojamento da situação somado ao público receptivo garantiu um show especial, relaxado, com clima de apresentação para amigos. Com naipe de metais, DJ, MCs, baixo, bateria, guitarra e percussão e dois vocalistas, o Ozomatli enche qualquer palco e a mistura de hip hop, cumbia, salsa, dub, rock e letras em spanglish serviu para aliviar a tensão da manifestação hispânica (com adesão dos brasileiros e chineses) que viria no dia 1 de maio, o “Dia sem imigrantes”.

Comandado pelos cantores Asdrubal Sierra e Raul Pacheco, o Ozomatli tocou músicas de seus três discos, indo de “Cumbia de los muertos” até a balada “Cuando canto mi canción”, sem esquecer de “Como ves”, “Saturday night”, “Street signs”, fechando a fiesta com a incendiária “La misma canción” e o palco cheio de crianças brincado de percussionistas.

Antes mesmo de chegar a Indio (cidade onde acontece o Coachella) e um show pra coleção de favoritos. A viagem prometia.

Coachella, primeiro dia

Coachella 2006 entrada.jpg
Entrada

O cenário do Coachella, que esse ano reuniu 97 nomes em dois dias de show, é o belo gramado de um campo de pólo, cercado por montanhas e pelo deserto da região de Palm Springs. As atrações se dividem entre dois palcos (Coachella e Outdoor stage) e três tendas (Gobi, Mojave e Sahara), além de outros espaços com programação feita por rádios e revistas locais. A quantidade de gente que invade a cidade no final de semana do festival é grande, cerca de 60 mil por dia.

Após um leve engarrafamento no estacionamento e de uma fila na entrada, deu tempo de pegar o finalzinho do The Walkmen (com uma música com metais bem legal) e correr para pegar também a rainha do grime, Lady Sovereign. Talvez pela semelhança com o hip hop, a inglesa agradou o público, arrancando gritos com “Public warning” e pedidos de bis.

Com destaque para a saxofonista e segunda vocalista da banda, o Zutons misturou músicas dos dois discos. O vocalista, também muito carismático, segurou bem a platéia e o calor (eles tocaram debaixo de um sol violento). Ao vivo, a banda cresce muito, até dub teve. “Valerie” foi a música mais cantada.

Uma boa surpresa foi o My Morning Jacket. Bom do início ao fim, principalmente quando tocaram “Wordless chorus”. Eles vão abrir a turnê do Pearl Jam nos EUA, o que pode ajudar o MMJ, que está em seu quarto disco, a deslanchar.

Coachella 2006 wolfmother.jpg
Wolfmother

Até então os shows não eram dos mais disputados e estavam fáceis de ver. Isso mudou quando foi hora de assistir o Wolfmother, numa das tendas. O show serviu pra explicitar um dos poucos problemas do festival.

Apesar de aproximarem público e artistas, num evento para 60 mil pessoas as tendas lotam rápido e bastante gente não consegue entrar. Quem fica longe não vê muito bem, não apenas porque a estrutura das tendas bloqueia a visão, mas também porque os palcos são baixos (poderiam ter ao menos 1,5 metro a mais de altura para facilitar a vida de quem está mais atrás).

Influenciados por Black Sabbath, Led Zeppelin, Mars Volta por stoner rock, o trio australiano fez uma apresentação visceral. A voz do vocalista e guitarrista Andrew Stockdale lembra Ozzy Osbourne e Jack White (Stripes) e a mão pesada do rapaz arranca riffs secos e poderosos.

O toque de psicodelia fica a cargo do baixista e tecladista Chris Ross. É ele quem controla os efeitos através de pedais preso em cima do seu teclado, distorcendo, prolongando e alterando os riffs de Stockdale, garantindo que o som da banda não seja apenas um pastiche do rock setentista. A eletrônica está lá, ainda que discreta.

Coachella 2006 cyhsy.jpg
Clap your hands say yeah

Saíram os australianos, veio o combo nova-iorquino Clap Your Hands Say Yeah. Com meros dois minutos de atraso, o CYHSY ouvia palmas ansiosas. Com cinco, quando entrou no palco, ensaiavam-se as primeiras vaias. Num festival com tantas atrações, cada minuto é precioso e, por isso, o público não tolera demora.

Bastou o show começar para a turma esquecer da espera. Bom exemplo da moda que se tornou ouvir música nesses tempos pós-MP3 e iPod, o CYHSY cresceu através da internet, sem divulgação na grande mídia e conta com público fiel. Difícil dizer o que vai ser dessas bandas quando não for mais tão bacana saber qual a última novidade vinda dos porões de qualquer lugar.

A sonoridade do Clap Your Hands é interessante. Chata mesmo é a voz do cantor Alec Ounsworth, desafinado além do ponto do que pode ser considerado um estilo. Pelo menos em uma das músicas, “Is this love?”, Alec consegue controlar os defeitos de sua voz e faz parecer uma estranheza pensada. Pena que seja só nessa.

Às 17h45, no palco principal, Kanye West foi o primeiro peixe fora do áquario independente a dar as caras no festival. Seu disco mais recente, “Late registration”, faturou um Grammy e vendeu, até agora, 2,5 milhões de cópias. Com um sucesso comercial totalmente fora do padrão do resto da escalação, teve gente temendo que recepção ele teria.

Vestindo uma camiseta com uma foto de Miles Davis e pedindo para o público colocar os “diamonds in the sky” (diamantes no céu) — com um gesto juntando a ponta dos indicadores e dos polegares, lembrando outra coisa — Kanye não demorou nem meia música pra ganhar a platéia.

Acompanhado por bons músicos, incluindo cordas e cantores de apoio, reproduziu-se ao vivo os samples e programções dos seus discos. Antes de cantar o hit “Gold digger”, o rapper brincou, dizendo que o “Grammy está errado, essa é a melhor música do ano”, em referência ao título perdido em 2005 para “Boulevard of broken dreams”, do Green Day.

Como na versão radiofônica, que lima palavrões e insultos, Kanye substituiu o “nigger” (palavra agressiva usada para se referir aos negros) do refrão “she ain’t messing with no broke nigger” por um segundo “broke”. Sem perder a oportunidade de dar uma zoada num público majoritatiamente branco, o cantor mudou de idéia no meio da música e resolvou falar a letra sem censura, avisando: “brancos, essa é a sua chance de falar nigger“!

Depois de cantar “All falls down”, Kanye pediu ao DJ A-Trak para colocar algumas músicas que ele ouvia em casa, na adolescência. Vieram “Let’s stay together” (Al Green), “Rock with you” (Michael Jackson) e, acreditem, “Take on me”, do A-Ha (“isso não é uma piada, gosto mesmo dessa música”, fez questão de dizer), enquanto Kanye dançava como se estivesse sozinho em seu quarto.

Guardando o melhor pro final, a última música foi “Touch the sky”, feita em cima de um sample matador de “Move on up”, do Curtis Mayfield. Nem precisava, o jogo já estava ganho.

Coachella 2006 TV on the Radio.jpg
TV on the Radio

Correndo de um lado pro outro, ainda deu tempo de ver um pouco do TV on the Radio, antes de voar de volta para o palco principal atrás do Sigur Rós. Com várias pessoas assistindo o show deitadas no gramado, os islandeses coroaram o final de tarde com músicas do “( )” e “Takk”, em versões um pouco mais barulhentas e pesadas do que as dos discos.

A noite, Cat Power fez um bom show. Com aquela voz, fazendo passinhos de dança e acompanhada de 14 músicos (a Memphis Rythm Band) no palco, tinha sopro, cordas, vocais de apoio, enfim, completo. Cat focou mais músicas do seu último disco, “The greatest”, abrindo com a faixa título, mas também executando outras de discos anteriores.

O Franz Ferdinand enfrentou uma multidão disposto a mostrar que pode ir além dos 15 downloads de fama tão habituais hoje em dia. No entanto, depois do que foi o show no Rio, não tinha nem graça ver de novo. A melhor opção era conferir a metade final da apresentação de Damian “Jr. Gong” Marley.

Exagerando nas homenagens ao pai, Damian carimbou “Exodus” e “Could you be loved”, praticamente na sequência. Logo ele que, ao contrário dos irmãos, resolveu seguir uma linha de reggae atual, um dancehall com o pé fincado no roots and culture e uma boa dupla de baixo e bateria pra manter a casa em pé. Ainda bem que ele encontrou um espaço para mandar “Road to Zion” e a crássica “Welcome to Jamrock”.

Da Jamaica pra Áustria, sem perder o eco, o Tosca estava programado pra tocar as 22h15. Horário perigosíssimo, perto demais da principal atração da noite, Daft Punk. O resultado é que, como aconteceu com outros nomes, só daria pra ver o começo do show do projeto de Richard Dorfmeister.

A situação ficou mais grave com a demora pra começar o show. Quando começou, o pianista e segunda metade do Tosca, Rupert Huber, resolveu fazer uma introdução de uns 10 minutos no Fender Rhodes, espantando quem queria ao menos ter um visto um pouco do show. Quem não ficou até o final, teve que se contentar com a passagem de som, com o MC cantando “The model”, do Kraftwerk, sem parar.

O Depeche Mode também tocou nesse horário, tendo como garantia hits como “Walking in my shoe”, “Personnal Jesus”, “Enjoy the silence”, “Behind the wheel” e “Stripped”, além de faixas do disco novo e seis telões caprichados.

Quem se deu bem foi a dupla Audio Bullys, atração anterior ao Daft Punk e que, com isso, acabou tocando pra uma grande quantidade de pessoas, a maioria apenas aguardando os franceses.

Coachella 2006 Daft Punk pyramid.jpg
Daft Punk e a pirâmide

Há seis anos sem tocar e fazendo a estréia de sua turnê mundial (de apenas oito shows), o Daft Punk encerrou a noite e atraiu todas as atenções.

Um pano preto escondia o palco até o início do set. Quando a cortina caiu, viu-se a dupla dentro de uma pirâmide negra, vestido com as roupas de robô e começando a um zilhão por hora, com “Robot rock”. As pessoas gritavam sem parar, sem nem ter ouvido nada, só pela alegria da cena. O painel de led atrás dos dois piscava.

Apenas os sucessos da dupla seriam suficientes pra garantir uma noite de diversão. Mas eles queriam mais. A pirâmide era a grande surpresa.

Três músicas depois do início, quando todos estavam satisfeitos com o que viam, a pirâmide acendeu pela primeira vez. Ficou branca. Depois azul. Daí em diante, música a música, o triângulo negro (coberto de telas de plama) e a estrutura metálica que o emoldurava iam ganhando algo a mais, cores, movimentos. A cada vez que algo novo acontecia, a platéia urrava.

Coachella 2006 robo.jpg
Robô

Fazendo mash ups deles mesmos, o Daft Punk não negou nada. Teve “Around the world” em cima da base de “Harder, better, faster, stronger”, “Da funk” (essa e qualquer outra com uma pegada hip hop acertavam em cheio os americanos), “Technologic” e uma explosão coletiva com “One more time” misturada à “Aerodynamic”, como no remix que eles próprios fizeram para o disco “Daft Club”.

No final, após “Human after all”, os robôs fizeram jus ao nome da música, se renderam e bateram palmas pro público. Enquanto a pirâmide não se apagou, ninguém parou de berrar ou deixou a tenda, esperando a dupla pra um repeteco que, infelizmente, não houve.

Um show de música eletrônica perfeito, tanto visualmente quanto musicalmente, rivalizando com o Kraftwerk — e provavelmente ganhando — o título de melhor apresentação da praça. Sem essa de “precursores”, “sem um não teria o outro”, blá, blá, blá. Se as coisas fossem assim, nada andava pra frente.

E evolução, bem, esse não é exatamente um problema para o Daft Punk.

Coachella, segundo dia

Coachella 2006.jpg
Coachella

Mal deu tempo de dormir. O segundo e último dia do Coachella Music and Arts Festival, ainda mais quente que o anterior, começou com o funk latino dos venezuelanos Los Amigos Invisibles. Bandeiras da terra de Hugo Chávez pipocavam na platéia. De lá para a apresentação de Amadou & Mariam, dupla de Mali que mistura ritmos africanos, blues, afrobeat e violões e que fez um bom show por aqui, no Rock in Rio 3, em 2001.

No palco principal, a banda-de-menina Magic Numbers fez um bom show, servindo de trilha sonora para um espreguiçada debaixo do sol, vendo as bolinhas de sabão passar no céu. Fazendo seu último show antes de entrar em estúdio para gravar o próximo disco, o grupo aproveitou pra mostrar duas músicas novas.

Coachella 2006 pessoas.jpg
Público

Enquanto isso, músicos promoviam sessões de autógrafo na Virgin. Passaram por lá Matisyahu, She Wants Revenge e Seu jorge, entre outros. A interação com o público, no entanto, é limitada. Um atendente pega o disco (ou DVD, ou poster) das mãos do fã e entrega pro artista. Não há contato algum.

A loja de discos é um ponto de encontro, vendendo títulos de todos artistas do evento por, em média, apenas 10 dólares, bem mais barato que as camisetas, que chegavam a custar US$ 30. Não é fácil resistir a tentação. Lembrar que uma garrafa d’água custa 2 dólares e uma boa refeição vegetariana chega aos US$ 9 ajuda bastante.

Coachella 2006 brinquedos.jpg
Carrossel

Pelo menos passear pelas lojinhas de bugingangas (uma sombrinha em estilo japonês fez sucessos entre as meninas), estandes de revistas e andar nos brinquedos era de graça. Também, pudera, o carrossel era formado por biciletas e só girava se todos pedalassem! Tinha também roda-gigante em miniatura funcionando no mesmo esquema.

A organização impressiona, sobretudo pela qualidade do som em todos os palcos. Boa parte do mérito do festival, entretanto, é o astral dos frequentadores. Americanos (lógico), mexicanos (óbvio), espanhóis, cubanos, ingleses, convivendo num clima ótimo. Pessoas bem educadas, muitos “por favor”, “desculpe” e “obrigado”, palavrinhas bobas, pequenas, mas que podem fazer toda a diferença quando 60 mil pessoas estão reunidas no mesmo lugar.

Coachella 2006 matisyahu.jpg
Matisyahu

No meio da tarde, o reggae man judeu Matisyahu foi um dos primeiros a arrastar uma boa quantidade de gente para o palco principal. Ao contrário do disco, em que baixo e bateria ficam bem à frente, ao vivo a guitarra é muito alta. O rock, o hip hop, beat box e vocalizes predominam sobre o reggae, levando o som mais pro lado do Sublime do que do Sizzla. Bom, mesmo assim, embora diferente do que se esperava a julgar pelas gravações.

Coachella 2006 bloc party.jpg
Bloc Party

Pelo horário, 18h, dava impressão de que a ordem do Bloc Party e do The Go! Team na escalação havia sido invertida. Mesmo sendo mais conhecido, o BP tocou mais cedo que o TG!T, que só entrou às 21h40. Após o show das duas bandas, ficou provado que a ordem estava correta.

Um belo pôr-do-sol serviu de fundo para o show do Bloc Party, enquanto o vocalista Kele Okereke reclamou do calor (“dá pra fritar um ovo aqui no palco”, disse) e agradeceu ao público a disposição de ficar debaixo do maçarico pra conferir a banda.

Ainda que tenha faltado pressão no som — não ficou claro se por culpa da banda ou dos equipamentos — e a guitarra estivesse baixa, o Bloc Party foi bem, muito por conta da presença de palco de Kele. “Banquet” e”She’s hearing voices” continuam funcionando e a boa notícia é que aparentemente a banda finalmente começa a se coçar pra gravar outro disco e chegaram a mostrar uma das músicas novas.

A disputa por um bom lugar para assistir a Madonna obrigou quem quisesse assistir a estréia da Confessions Tour a sacrificar vários shows. Entre as vítimas estavam Yeah Yeah Yeahs, Mogwai e Digable Planets (e também Seu Jorge e Editors). Pior mesmo foi ter que aturar a farofada do Paul Oakenfold antes dela.

Coachella 2006 madonna.jpg
Madonna: telão

Em seu primeira apresentação em um festival, a rainha do pop ofereceu apenas um aperitivo da turnê que está por vir. Foram poucas músicas, abrindo com “Hung up”. Teve ainda “Everybody”, “Get together”, “Ray of light” e “I love New York”, deixando de fora a atual música de trabalho, “Sorry”.

Mestre em dominar as massas, Madonna conversou com o público (“does my ass look ok?” [“minha bunda tá legal?], perguntou), tocou guitarra, dançou com seus bailarinos, tirou a roupa e fez a festa da multidão. Era gente a perder de vista, muito, muito além da capacidade de 8 mil pessoas da tenda. A cantora saiu do palco sem dar tchau ou agradecer. Quem quiser mais, só pagando os US$ 300 do ingresso mais barato da turnê.

No caminho para conferir o The Go! Team, uma parada estratégica para escutar um pouco do Coldcut, sacudindo a tenda com drum ‘n’ bass, jungle, vídeos bem sacados no telão e protestos contra Bush e Tony Blair. No palco principal, o Massive Attack, acompanhado de Horace Andy, chapava os ouvintes.

Coachella 2006 The Go! Team.jpg
The Go! Team

O The Go! Team surpreendeu. Se transpor para o palco um disco repleto de samples e colagens não é tarefa fácil, mais difícil ainda é conseguir animar um público já cansado de horas e mais horas de show. Pois o TG!T conseguiu. Agitados e carismáticos, o grupo conquistou o público com “Ladyflash”, “Phanter dash” e “Everyone’s a VIP to someone”.

A banda é formada por brancos, negros, japoneses e cada integrante desempenha múltiplas funções, todos fazem um pouco de tudo. Seguindo a filosofia da internet, ferramenta de divulgação de quase todos os novos nomes atualmente, o trabalho coletivo é quase um pré-requisito numa banda atualmente, e o The Go! Team não é diferente.

Fechando a tampa, às 23h de domingo (um dia antes do lançamento do novo disco, “10,000 days”), o Tool voltou aos palcos, após muitos anos. A banda conta com uma legião de fãs na California, de todas as idades e incluindo muitas mulheres, coisa rara nesse estilo de som.

Os comentários sarcásticos do vocalista Maynard James Keenan destoavam do clima soturno do Tool. Brincando, saudou a platéia com um “e aí, hippies!” e fez comentários como “espero que vocês tenham conseguido desfrutar a área VIP. Claro que conseguiram, isso é Los Angeles, todo mundo é VIP”.

A pouca luz do palco, iluminado praticamente apenas por lâmpadas azuis, destaca o visual dos telões e seus vídeos sombrios. É praticamente tudo que se pode ver do show, Keenan fica o tempo todo no fundo, escondido perto da bateria. Boa ambientação para as viagens de “The patient”, “Laterallus” ou “Sober”.