Leonardo Uzai Archive

segunda-feira

29

outubro 2012

12

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Transcultura #097: O fim do indie? // DJ Aerobics

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ilustração: Leonardo Uzai

A versão extendida do meu texto da semana passada (mais longa do que saiu no Segundo Caderno ou no Globo Online) da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O fim do indie?
Uma análise sobre a cartilha – e as eventuais concessões – que bandas e artistas independentes seguem para atingir o sucesso
por BrunoNatal

Passado a euforia inicial da libertadora ideia de que, com as ferramentas atuais, qualquer um pode montar um projeto de música e divulgá-lo, eventualmente até conseguindo alguns fãs, começa a rebordosa. É banda demais.

Claro, ninguém é obrigado a ouvir tudo (ou nada, a bem da verdade). A questão é que, na pressa de entrar na nova ciranda que se formou, cada vez mais autores lançam mais projetos, mais rápido, com mais pressa, sem deixar o necessário tempo de maturação acontecer. Isso exige paciência e perseverança do ouvinte. Muitas vezes o que se está escutando são apenas ideias, rascunhos de algo que só estará pronto dali um tempo. Em tempos de vida em beta e ao vivo, as bandas se formam na frente do público.

Por muito tempo bandas independentes esperaram o dia que conseguiriam se firmar comercialmente, sem depender de gravadoras multinacionais, acordos suspeitos ou fazer concessões artísticas. Era um sonho distante, movido mais por uma afirmação estética e conceitual de um movimento do que propriamente potenciais ganhos financeiros. Há pouco mais de dez anos, tudo mudou.

A história você conhece, do Napster em diante o ambiente digital proporcionou que bandas, milhares delas, finalmente encontrassem seus públicos. Com a galopante falência do modelo antigo, foi apenas questão de tempo para que o inevitável acontecesse e a cena independente conquistasse uma fatia considerável do mercado. Primeiramente através da pulverização e de nichos, até que o inimaginável aconteceu. Uma banda com todas as credenciais indie dos anos 2k como o Vampire Weekend (se não ao som, no que diz respeito aos métodos de trabalho) chegou com seu segundo disco, “Contra”, ao topo da mais comercial das paradas, a Billboard.

Estava então consolidada uma nova dinâmica comercial. Uma banda “de internet” podia furar a bolha e conquistar o grande mercado. Apesar do número 1 impressionar, não foi uma conquista exclusiva do VW, mais e mais nomes conseguiram se estabelecer por vias parecidas nos últimos anos. Como tudo na vida, o óbvio lado positivo dessa escalada indie (extremamente resumida aqui), veio acompanhado de aspectos negativos.

Aberta a nova corrida do ouro, com a velocidade típica da rede, bandas e mais bandas começaram a se moldar, tentando seguir um (nem tão) imaginário livro de regras para se dar bem no cenário atual.

Acontece que “se dar bem” tornou-se um conceito um bocado elástico. Como escreveu Carles no blog Hipster Runoff, dos EUA, no recente artigo “How indie finally ofifcially died: the broken indie machine” (“Como o indie finalmente oficialmente morreu: a máquina indie quebrada”), entre alguns resmungos exagerados, o velho sistema foi substituído por um novo, igualmente sufocante, ainda que menos poderoso.

Em vez da benção de gravadoras e rádios, para sobreviver nesse ecossistema artistas precisam passar por determinados sites e blogues – uma lista específica deles – e/ou participar de ações publicitárias.

Os malefícios dessa engrenagem contemporânea são mais complexos. Na busca desesperada por não ficar atrás dos concorrentes (seja lá o que isso queira dizer), esses veículos online perdem sua caracterísica definidora, o papel de filtrar informações, preferencialmente com personalidade, e comem de colher tudo que é oferecido por bem estruturadas máquinas de divulgação disfarçadas de assessorias de imprensa.

O resultado é uma série de sites repetindo o mesmo conteúdo, todo santo dia, assemelhando-se a cobertura da grande imprensa no que tem de pior. A pasmaceira chega ao ponto das listas de melhores do ano serem praticamente idênticas, mundo afora, como se fossem um teste de múltipla escolha, onde existem respostas certas e erradas, e não seleções independentes e pessoais, indicativos do que se ouvir em um cada vez mais vasto catálogo, impossível de se acompanhar por completo.

As bandas resta rezar pelo mágico momento em que finalmente, muitas vezes até por mérito próprio, conseguem estar em todas as páginas “importantes”. Para atingir esse objetivo, muitas passam a ser o que delas se espera, gerando grupos e mais grupos que nada fazem além de sons genéricos de algo que deu certo ou está na moda, o que parece certo para aquele momento.

Infelizmente, na maior parte das vezes o que se descobre é que, mesmo quando é chegado esse grande momento, sua banda nada mais foi do que alimento para o ciclo do dia, da semana, com sorte, do mês. Rapidamente a roda gira, dando lugar ao próximo, que passará pelo mesmo processo.

Isso tem um lado bom e um lado ruim. Se isso gera muita frustração em bandas que esperam fazer daquilo seu ganha pão, a falta de perspectiva financeiras é extremamente libertadora para outros artistas. Num mercado em que até mesmo um indie bem estabelecido como Grizzly Bear (tocando no Radio City Music Hall, em Nova York, com discos no top 10) afirma em reportagem da New York Mag que as contas não fecham, cada vez mais se vê bandas, mesmo conhecidas, serem um hobby bem estruturado de profissionais de outras áreas – o que por sua vez, novamente, traz consequências boas e ruins.

Sendo o mercado mais bem estabelecido, é natural que muitos desses comportamentos vistos nos EUA se repitam no Brasil. O problema por aqui é que, pra piorar, existe uma espécie de código não escrito na cena alternativa de que não se pode criticar negativamente um músico, simplesmente pelo fato de ele já “ralar muito pra fazer aquele trabalho acontecer”. Como se isso fosse justificativa e não exatamente parte do problema.

Como disse um amigo outro dia no Facebook, Raymond S. Harmon, “no exato segundo que o pensamento ‘a música de hoje não presta’ cruza sua mente você está oficialmente velho, não precisa nem que se diga isso em voz alta”. O autor do texto do Hipster Runoff foi acusado justamente disso (embora não fique claro sua idade). Pode ser. A principal crítica aqui, no entanto, é quanto ao formato operacional de parte da indústria atual, esse sim culpado pela baixa qualidade do conteúdo.

Ainda encontra-se muita, muita música boa, nova, todo dia. Mesmo que muitas delas sejam feitas para o agora, sem maiores preocupações. E quem pode dizer que isso é ruim? No fim, as decisões cabem a quem ouve (ou lê) e é ótimo que seja assim.

Tchequirau

Produtor de chiptune guatemalteco radicado em Madrid via Miami, Meneo fez um vídeo hilário com dicas para enganar bem quando for “atacar de DJ”. Cômico, se não fosse trágico.

terça-feira

10

abril 2012

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Transcultura #076: Apps de imagem // Leo Uzai

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Meu texto de sexta passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

Em fones e redes sociais, a imagem além do Instagram
por Bruno Natal

Passando dos 27 milhões de usuários somente no iPhone, com um ano e meio de vida o Instagram continua sua trajetória ascendente. Na semana que o aplicativo finalmente chegou a plataforma Android, prometendo ampliar – e muito – sua base de usuários, é uma boa hora para falar de alguns aplicativos de fotografia e imagem que andam enfeitando os celulares e as redes sociais.

Decim8 – “O filme está morto”, assim o Decim8 se apresenta. Dizendo-se na contra-mão das dezenas de aplicativos emulando estéticas fotográficas do passado, a onda desse são os efeitos digitais.

Highlight – Não tem nada a ver com foto, mas vai deixar muita gente preferindo ser flagrado num clique a usar esse aplicativo. Apontado no último festival SXSW como o próximo destaque das redes sociais, o Highlight torna realidade um dos piores pesadelos dos críticos ao excesso de exposição no mundo digital: com o programa ligado, através de geolocalização, ele te informa os amigos que estão por perto e até interesses em comum com estranhos ao redor.

Picle – Uma ideia muito boba as vezes pode tornar-se uma grande sacada e esse é o caso do Picle. Além de tirar fotos e organizar em álbums por assunto, programa grava alguns segundos de áudio, adicionando uma outra dimensão aos registros do dia-a-dia

Postagram – Fotos digitais são muito divertidas, porém não dá pra comparar receber um email com uma imagem com a sensação de cartão postal enviado pelo correio. Juntando os dois mundos, por 1 dólar o Postagram envia uma versão impressa da foto que você escolher para um endereço físico.

Draw Something – Com mais de 35 milhoes de usuários, é atualmente o aplicativo mais baixado na App Store. Trata-se de um jogo: você desenha algo, compartilha com seus amigos e eles tem que adivinhar do que se trata. Bobo que só, mas pegou.

Ugly Meter – We você se acha “feipa”, esse aplicativo é para você. Através de uma análise detalhada dos seus dados biométricos (ahã…), chega-se a um resultado de feiura, num índice de 0 a 10, em que quanto mais alta for a nota, mais feia é a pessoa. Uma arma pra pilhar amigos.

PicFrame – Publicar fotos em tantos aplicativos envolve escolhas. Você não pode sair compartilhando todas os registros, sob o risco de perder seguidores pela malice, no entanto, as vezes, uma história precisa de mais de uma imagem para ser contada. É onde entra o PicFrame, aplicativo que permite montar mosaicos de até seis fotos, resolvendo a questão. Seus amigos agradecerão.

Action Movie FX – Desenvolvido pela Bad Robot Interactive, do J.J. Abrams (criador da série “Lost”), o aplicativo ficou ainda mais famosos após o filho do diretor do documentário da polêmica campanha “Kony 2012” aparecer no filme brincando com os efeitos especiais da ferramenta, onde você filma uma cena e pode aplicar efeitos de explosão sobre a imagem. Besteirada sem fim.

Cinemagr.am e Kinotopic – Apesar do Facebook continuar não autorizando suas publicações, GIFs animados são um dos grandes sucessos da rede. De olho nesse filão, esses dois aplicativos (já comentados aqui na Transcultura) permitem criar animações em cima de imagens captadas com o celular .Dá um certo trabalho para montar os loops, selecionando áreas que permanecerão estáticas e áreas animadas, só que quando dá o certo o resultado é viciante.

Tchequirau

Radicado em São Paulo e longe dos muros cariocas, Leonardo Uzai começou a dialogar com si mesmo pela tela do computador. O resultado ele vem publicando na série “Diálogos”, com retratos de situações explicadas em títulos como “discussões internas” e “conversas paralelas”.

quarta-feira

9

fevereiro 2011

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5 perguntas (URBe 7 anos) – Leonardo Uzai

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Como sempre acontece, a festa de 7 anos do URBe (nessa quinta, 10 de fevereiro), terá uma exposição. O artista convidado esse ano é o Leonardo Uzai:

URBe – Quais suas referências, profissionais e pessoais?

Leo – Sempre fui fissurado em graffiti, desde criança, além de adorar tipografia e cartoons. Estudei desenho industrial e através de pesquisas em vários seguimentos em arte, acho que consegui misturar diversas influências na minha linguagem.

URBe – Quem são outros artistas do Rio que você admira?

Leo – Admiro muitos artistas, tanto no graffiti quanto nas artes plásticas e na música, o que torna essa pergunta bem difícil. No final do ano passado fui convidado para fazer parte do Fleshbeckcrew, grupo que sempre admirei no graffiti carioca. Mateu Velasco, Ment, Gais, Felipe Motta sao artistas que influenciaram muito também.

URBe – Que peça você gostaria de produzir e até hoje não conseguiu?

Leo – Pintar um prédio inteiro. Um prédio bem grande de preferência.. rsrs

URBe – Você acha que o grafite anda saturado? Ultimanente parece que tudo tem que ser grafitado…

Leo – Acho que o graffiti, assim como outros seguimentos de arte, as vezes sofre banalizações, mas isso não necessariamente diminui sua força como forma de expressão.

URBe – O que vê de novo na arte de rua? Como sair do lugar comum e continuar relevante?

Leo – Com as constantes inovações da tecnologia, surgiram novas ferramentas para serem usadas na rua. Uma das que mais me chama atenção é o mapping, onde o artista mapeia qualquer superfície e projeta imagens em lugares inusitados. Para sair do lugar comum você precisa estar em um estudo constante, sempre antenado na política, na religião e outros fatores que tem poder sobre a sociedade. A relêvancia do trabalho vem quando o artista consegue de alguma maneira dialogar com o público.

segunda-feira

7

fevereiro 2011

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URBe, a festa de 7 anos: 10 de fevereiro

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Com dez meses de atraso, lá vem a festa! Vamos nessa? Deixe seu nome no ListaAmiga ou confirme seua presença no Facebook.

00
URBe, 7 anos
23h mario maria (ao vivo)
0h João Brasil x MC Aori (“Rap Nacional” ao vivo)
1h Bruno Natal
2h Ajax (Filipe Raposo + Gustavo MM)
3h Nepal
Expo: Leonardo Uzai
10 de fevereiro
23h
R$ 20 (na lista amiga, até 0h), R$ 30 (na lista amiga, após 0h), R$ 40 (penetra)

segunda-feira

24

maio 2010

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Transcultura #002 (O Globo): Digitaldubs, Gil Scott-Heron

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Meu texto da semana para coluna coletiva que publico as sextas no jornal O Globo:

Digitaldubs em estado grave
por Bruno Natal

A situação do Digitaldubs Sound System era grave. Gravíssima. Para dar conta da gravidade da situação, só mesmo construindo seu próprio sistema de som. Cansados da magreza sonora encontrada na maioria das casas onde toca do Rio (o problema recorrente da cidade), o grupo honrou o nome e a tradição jamaicana e fez justamente isso. Desde então, as caixas de som são as estrelas das apresentações.

As baixas frequências são uma questão central no reggae. São elas que pontuam os lamentos, amaciam as pancadas da vida e emprestam peso ao discurso. Ouvir reggae sem a força dos graves é perder mais da metade da mensagem. Nesse sentido, o sistema de som do Digitaldubs presta um serviço maior que simplesmente incrementar o próprio show. Elas possibilitam ao público ouvir reggae e dub como foram pensados: com o grave bombando no peito, numa experiência tão auditiva quanto fisíca.

Projetada por eles mesmos e feita sob encomenda, as caixas cospem 4 mil watts de potência só pro grave, mais 2 mil e pouco para médios e agudos, feitas especialmente pra tocar reggae. Enquanto na Europa é normal os grupos de reggae e dub terem suas próprias caixas de som, por aqui ainda são poucos os que tem. Além do Digitaldubs, o Dubversão (de São Paulo) e o Interferência SS (também do Rio), tem as suas.

Só mesmo presenciando isso ao vivo para entender a diferença que isso faz. As ondas de grave amassam o público, atraído passo a passo, cada vez para mais perto para fonte. Próximo das caixas a pressão é tão grande que faz tremer os ossos, a pulsação chacoalha seus órãos internos, não dá pra aguentar muito tempo. Esse poder de atração e repulsão impulsiona um ciclo que movimenta a pista de dança: quem está longe quer chegar mais perto, quem está no epicentro precisa se afastar.

Até outro dia, ouvir reggae e dub de maneira apropriada era complicado. Tem que se aproveitar noites como a de hoje, em que as caixas de som se apresentam no Bar da Rampa, em Botafogo. Com participação do Digitaldubs.

Tchequirau

O disco “Bridges”, do Gil Scott-Heron e Brian Jackson, de 1977 emperrou por aqui há semanas. Uma aula de funk soul, só groove violento, Rhodes na maciota e um Scott-Heron mansinho, alviando até no discurso político.

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