Esse ano a cobertura do Coachella (a sétima!) foi um pouco diferente dos outro anos. Em vez de relatar em tempo real no Instagrame Twitter do URBe, escrever uma crítica para algum veículo impresso, seguido por um longo relato aqui no blog, fui convidado pela Farm para cobrir ao vivo para o blog da marca carioca, o adoro! Farm, através do Stories da marca.
Abaixo reproduzo o post pós-Coachella que escrevi pra eles.
Como complemento, de 2006 pra cá, a grande diferença esse ano foi a grande quantidade de shows assistidos nos palcos abertos e pouquíssimos nas tendas. Isso tanto tem a ver com uma mudança na pegada da curadoria do festival (as apostas normalmente feitas nas tendas mais longe do meu gosto pessoal), quanto pelo fato de uma geração inteira de bandas surgidas na segunda metade dos anos 2000 terem se consolidado, crescido e estarem agora nos espaços maiores. E tendo sido também a primeira vez no segundo final de semana, talvez pelo clima extremamente seco, o gramado estava bem castigado.
O anúncio da escalação do Coachella é uma das mais aguardadas do calendário mundial de festivais. Ainda que seja impossível agradar todas as expectativas, sempre altíssima, todos os anos a lista de artistas está caprichadíssima, dando oportunidade de conferir o que algumas das mais promissoras novidades, e também nomes já estabelecidos, andam fazendo.
Com uma oferta tão grande do que assistir, é fácil bater o desespero de não poder conferir tudo. Normal. O que pode ser ainda pior é de fato tentar ver tudo. Ainda que em alguns casos valha a pena pular de um show pro outro, ver um pedacinho de um show aqui, outro ali, é muito mais importante conseguir abstrair do que está perdendo e focar noque está vendo. As vezes um show inesperado está tão bom que vale mais a pena conferir inteiro do que tentar correr pra ver o finalzinho daquela banda imperdível. Numa escalação dessas, conseguir decidir o que não ver é a verdadeira tarefa.
E assim, no segundo dia, após o o transe eletrônico do Floating Points, os shows do Car Seat Headrest e Chicano Batman foram substituídos por uma visita à instalação “Chrysalis” com projeção de 360 graus e uma volta na roda gigante, respectivamente. A obra de arte mais comentada esse ano foi “The Lamp Beside The Golden Door“, do brasileiro Gustavo Prado, uma torre de espelhos côncavos e convexos que gerava um efeito espetacular.
Sem problemas, porque logo na sequência o Thundercat veio sacudindo tudo com seu free jazz pop (pode isso?) enlouquecedor. Conhecido pelos muito remixes que tocam em quase todas as festas, o Mura Masa fez um ótimo show, bem dançante, logo antes do Bon Iver ninar a plateia no palco principal.
Nas tendas ao lado, os fãs de música eletrônica se dividiam entre idolatrar Nicolas Jaar e pular com o DJ Snake. No palco principal, Lady Gaga reuniu boa parte do público do festival pra um show que pareceu um tanto preocupado demais em agradar.
No último dia, com as energia já mais baixas e com a moleira frita do sol de 40 graus do deserto, as coisas fluíram mais devagar. O soul do Lee Fields (a caminho do Brasil) e o indie folk do Whitney sofreram com isso, já que havia pouca gente pra vê-los na hora em que tocaram.
No entardecer, Devendra Banhart (também com turnê marcada pelo Brasil) contou com o hermano Rodrigo Amarante no baixo, NAO conseguiu um dos coros maisaltos do festival com sua “Firefly” e Jack Garrat fez uma festa sozinho, tocando bateria, sintetizador, guitarra e cantando – as vezes tudo ao mesmo tempo – numa tenda.
Apontando pro final, Lorde serviu de abertura para a grande atração da noite, Kendrick Lamar. Com disco novo lançado dias antes, Kendrick mostrou porque é tido como o principal nome do rap atual, mostrando controle total do público através de suas letras poderosas.
Já era tarde da noite quando a fila de saída do estacionamento tomava mais de uma hora. Ninguém se importava. Todos riam de orelha a orelha, felizes com um dos mais divertidos finais de semana do ano. Como é todo ano.
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Co-fundador e diretor criativo do Queremos! e WeDemand, Bruno Natalé documentarista e jornalista, com mestrado em Goldsmiths,University of London. Dirigiu e produziu filmes como “Dub Echoes”,sobre a influência do dub jamaicano no surgimento do hip hop eda música eletrônica, além de ter registrado alguns dos maiores artistas brasileiros, de Chico Buarque a JotaQuest. É consultor do canal Multishow e colabora no desenvolvimento de projetos, como o Prêmio da Música Brasileira. Escreveu por 5 anos uma coluna semanal sobre música e cultura digital no jornal O Globo e edita o blog URBe há 14anos.
2015, o ano em que menos resenhei shows na vida. Foi quase tudo na base da legenda das fotos no Instagram. Faltam palavras, ficam as memórias evocadas pelas imagens.
“A escalação está muito fraca”. “Virou um festival de hipsterismo”. “O Coachella já era”. Todo ano quando é anunciado o Coachella toma uma pancada de críticas. Com o destaque que tem no cenário mundial, é natural que o evento vire vidraça pra todo tipo de hater.
O que também acontece, entra ano, sai ano, é que após os três dias de paz, amor e música no deserto, os que lá estiveram voltam pra casa com sorrisos de orelha a orelha, já com saudades e contando os dias para a próxima edição (sem falar nos mais fissurados que ficam para os dois finals de semana).
Escrevo no avião, a caminho de Miami, escala para o Rio (e vou publicar sem revisar, então desculpe pelos erros, avisa nos comentários se puder, por favor). O vôo está cheio de gente vindo do festival, ainda com as pulseiras no braço, bronzeados e felizes.
Não ia desde 2012, pelo mesmo motivo: preguiça e falta de empolgação com a escalação. Sim, já falei todas as frases ali em cima no começo do texto.
Esse ano já estaria em Los Angeles (praticamente uma segunda casa a essa altura) na época do festival, para mais uma rodada de reuniões do Queremos! / WeDemand. Vários amigos a caminho, ingresso na mão, não tinha porque não ir.
Saiu a escalação e, como todo ano, a princípio não entusiasmou. Saíram os horários e piorou: tudo embolado na sexta, sábado morno e domingo fraco. Xiii… Será que esse ano iria, finalmente, dar ruim?
Que nada. A graça do Coachella está principalmente em duas coisas e nenhuma delas está diretamente relacionada as expectativas sobre a escalação de cada pessoa que faz essa jornada para o deserto.
Primeiro, o ambiente criado é mágico. O cenário, o alto nível da produção, a educação de todos que trabalham e também dos frequentadores, tudo conspira para um final de semana inesquecível.
A música, veja só, as vezes fica até em segundo plano, literalmente servindo de trilha para bons papos e risadas ao pôr-do-sol enquanto lagartas gigantes passeiam pelo gramado, pessoas se divertem dançando, bebendo, comendo, se fantasiando. É muito alto astral.
O segundo ponto são as surpresas musicais. Aquela banda que você não dava nada te chapa com um showzão. Uma outra que você nunca ouviu falar é boa demais ao vivo. O DJ farofa que joga a galera tão pro alto que você entra na onda. E aquelas três atrações que você queria muito ver e vão lá confirmam tudo que você esperava e tudo que você consegue pensar é “caraca, ainda bem que eu vim!”.
Não é brincadeira não, o Coachella é uma experiência que pode ser até transformadora. Como a lagarta gigante serpenteando pelo gramado nos dois primeiros dias, dando lugar a uma borboleta no terceiro, basta estar aberto pra vida e deixar vir. Entrar na onda, aceitar o tanto de fanfarronice que vem junto e simplesmente se divertir. Às vezes nem é tão difícil, indiezada xiita do meu Brasil.
Falando especificamente de música, o roteiro foi assim – ah, e essa é outra graça do Coachella, com seus seis palcos oficiais (fora os paralelos patrocinados por marcas), duas pessoas podem ter experiências completamente diferentes nos mesmos três dias, sem ver um atração sequer em comum.
Dia 01Cloud Nothings, Allah-Las, Trippy Turtle, Charles Bradley, Erol Alkan, Azealia Banks, The War on Drugs, Lykke Li, Caribou, Flying Lotus, Todd Terje e AC/DC
Sexta era o dia com mais atrações interessantes na minha lista pessoal. Cheguei relativamente tarde no festival e corri pra ver o Cloud Nothings. Porém, acabando de botar o pé lá dentro, um dia lindo lá fora, bateu como muito barulho e não durei muito lá dentro. Fui para o Outdoor Stage, meu favorito, conferir o Allah-Las, o que acabou se confirmando como uma ótima troca. Com o sol a pino, a psicodelia caiu muito bem, sintonizando o clima interior para “chapa o coco no deserto”.
De lá para ver Trippy Turtle, mais um desses DJs de multidão, que tocam um pouco de tudo, com muitos efeitos, pancadões de grave e o obrigatório breakdown dubstep genérico. O estilo é parecido com o do Cashmere Cat (que também tocou no festival, agora com mais nome depois de servir como abertura nos shows da ídola teen Ariana Grande), pipocando alguns hits aqui e ali pra balançar a pista.
Impressionante mesmo era ver a quantidade de frito lotando a tenda Sahara (a maior delas, dedicada ao EDM – mas não era assim antes, o Daft Punk tocou ali em 2006) já as 15h, enquanto todo o resto do festival ainda estava vazio. Molly (MD para os brasileiros) voando adoidado, aquele troço.
Sem nada melhor pra fazer, fui dar um confere no Charles Bradley. Já tinha visto no Lolla Chicago em 2013 e achado muito bom, só um certo exagero nas referências aos trejeitos do James Brown que davam uma cansada. Nesse show não teve nada disso. Um bandão de soul, um Hammond dando o tom, metaleira queimando e o cara botando o palco principal abaixo com músicas próprias. Beleza pura, daqueles shows que não tem erro, é sempre 100%.
Passei pelo Erol Alkan, mais pra conhecer a sexta e (pra mim ainda) nova tenda, a Yuma. Trata-se simplesmente de uma boate, breu, ar condicionado, piso de madeira, sistema de som porradão e o escambau. Teve muita coisa boa por ali e até acabei voltando, mas a experiência é tão hermética e distante do que se passa do lado de fora que é difícil animar ficar por ali muito tempo.
Azealia Banks fez um show bem agitado enquanto esperava a troca de palco pra ver a banda que mais queria assistir: The War on Drugs. Jams gigantes, solos e muita viagem, num show que é ainda melhor que o disco (topo da lista de bons discos de 2014 aqui do URBe). Tava tão afim de ver esse show que nem prestei atenção, em nada. Foi viagem pura. Assim que é bom.
De lá para matar saudades da Lykke Li. A loirinha anunciou recentemente que vai dar um tempo dos palcos pra descansar, então havia um boato até de que esse show talvez fosse cancelado. A sueca não só apareceu como largou a alma no palco, interpretando com sofrimento as letras do seu último disco, todinho sobre um coração partido.
Dá até pra entender porque ela precisa dessa pausa. Do figurino a iluminação, tudo preto e branco, o show fica um pouco pesado, assustando quem esperava “Dance, Dance, Dance” e sorrisos. Até sua versão de “Hold On, We’re Going Home”, do Drake (e como faz versão bem ela), pesou pra baixo.
O Caribou fez o trabalho oposto e jogou pra cima com uma banda tocando as músicas do excelente “Our Love”. Ao vivo a pegada de pista aumenta, confirmando o que o próprio Caribou já havia dito, sobre ter feito um disco inspirado no que percebeu que funcionava durante sua turnê anterior e fazendo músicas para agradar seus fãs. Deu bem certo.
Presença constante no festival, Flying Lotus montou um dos palcos mais elaborados da sua carreira, tocando dentro dum cubo formado pro telas translúcidas. Por entre as projeções, apenas a silhueta de FlyLo e seus olhos brilhando com óculos iluminados por uma luz amarela.
Em relação as outras vezes que já tinha visto, fez falta justamente o que Caribou tem feito, que é jogar um pouco mais pra galera. Sem discussão, FlyLo é genial. Porém, em pé, a noite, com som vazando de outras tendas e vai e vem de gente, ficou um pouco complicado entrar nos cabecismos.
Quem fez a festa mesmo foi Todd Terje. Numa das raras apresentações com banda, o norueguês esculhambou. Com um palco kitsch, com drinks e golfinhos no cenário, membros da platéia subindo no palco para dançar coreografias com roupas de led, o cara foi da disco ao latin jazz, sem errar nada, progredindo e fazendo sentido.
Uma das apresentações mais divertidas de música “eletrônica” que já vi, belo trabalho de transposição de um disco pro palco.
Fechando a noite, AC/DC. O que falar além de uma banda que tem tanto hit que “Back in Black” é tocada no meio do show, “Thurderstruck” é só mais uma no set. É aquele negócio, um teatro de si próprio, como o Rolling Stones, tudo marcado, todos trejeitos do Angus Young coreografados. Mas… e daí? Vai falar que é ruim? Você tá doido.
Depois descobri que perdi uma boa banda, Sylvan Esso, que tocou num horário morto, entre dois shows, mas só fiquei sabendo da existência deles já na segunda, ouvindo no rádio.
Dia 02Gramatik, Milky Chance, Chet Faker, Jungle, Glass Animals, Hozier, alt-J, Father John Misty, Jack White, Flosstradamus, FKA Twigs e SBTRKT
Comecei o dia perdendo o St. Paul & The Broken Bones, que tocou muito cedo. Logo veio uma boa surpresa com o Gramatik, dica de amigos. Um trio de DJs tocando hip hop, com direito a muitos hits, um re-edit matador de “Superstition” (Stevie Wonder) e baixo e sax tocados ao vivo. Animadão, som pra festa, sacudiu todo mundo mesmo estando de dia.
De lá vi o Milky Chance e que perda de tempo foi isso… Não apenas porque a apresentação ficou bastante prejudicada porque o vocalista estava sem voz, mas muito mais porque todas as músicas parecem uma versão rejeitada do sucesso “Stolen Dance”. Tocada por último, o cantor, visivelmente arrasado de estar doente bem no dia de tocar no festival, não conseguiu cantar uma linha da letra.
Corri para ver o Chet Faker (perdi no Rio por já estar viajando) e conferir de perto o show com a banda. Já tinha visto no SxSW em 2014, quando ele ainda se apresentava sozinho, com um laptop e duas controladoras.
Tinha achado muito bom antes e ainda melhor com banda. Não concordei nem de longe com o blá blá blá que chegou até aqui de que o show era “muito devagar” e “baixo”. Um show introspectivo, isso sim, e que depende muito do silêncio pra acontecer.
Na sequência tocou o Glass Animals, que eu sequer sabia que fazia shows, muito menos que tinham uns três hits e gente a beça querendo ver. Demorou pra embalar e depois ficou bem bom. Saí antes do fim pra ver o Hozier. Não sei quem foi que me deu essa dica furada, então aproveito pra “agradecer”.
Esperei mais um pouco pra dar uma chance pro alt-J, banda que volta e meia aparece com uma música que surpreende, só que quase sempre no conjunto não convence. É assim gravado, foi assim ao vivo.
Tinha que registrar o Jungle antes do show deles no Rio, dia 14 de maio (Queremos! #jabá), então não deu pra ver o Chet Faker até o final. Os ingleses já estavam quebrando tudo na tenda, bem cheia. Como eles tocaram de dia, a parte visual do espetáculo perdeu bastante e, talvez por isso, fez o show soar com o bpm lento. Agora, o pau canta e vai ser bem interessante ver isso num lugar fechado e escuro.
Na falta do que assistir, resolvi ver qual era do Father John Misty. Rapaz… Lembra que falei das surpresas do festival? Pois bem. Showzaço-aço-aço. Banda bala, o cara com um domínio de palco absurdo, músicas muito boas, espaço para o humor (como no cenário de neon escrito “no photography” dentro de um coração).
Fiquei curioso pra voltar ao disco, porque estou desconfiado que pode ser um daqueles casos de banda pra ver ao vivo. Portanto, se tiver chance, veja.
Já a noite, Jack White arregaçou no riffs, misturando músicas de todos seus muito projetos. Assinando o show sozinho fica claro que já era óbvio: ele deveria ter chamado tudo de Jack White desde o início – e ao tocar as do White Stripes, a certeza de que tudo que faltava ali era um baixo.
Fechando a noite, já em clima de “festa rave eletrônica”, o Flosstradamus falou “paçoca” três vezes com a boca cheia de farinha (se é que dá pra entender) e o SBTRKT continua tendo muito sucesso no seu projeto de arrasar todas suas músicas ao vivo.
O cara erra tudo, o que é bom fica ruim, o que é ruim piora. Chega a ser avançado. A tenda que começou lotada foi esvaziando, esvaziando e não vi quem ficou até o final, porque eu mesmo também parti. Já tinha quebrado a cara com ele uma vez, deveria ter visto o Ratatat que tinha mais chance de dar certo.
Antes dele quem fez um bom show, porém meio deslocado, foi a FKA Twigs. Gostaria de ver aquilo num lugar menor e sentado. Aliás, preciso falar disso alguma hora. Que maravilha é ver show sentado, não é mesmo? E deitado? No Coachella rola deitado, é de outro planeta.
Não tive forças pro Swan e também descobri só hoje que deveria ter visto o Philip Selway, depois de outra vez escutar no rádio na segunda. Fica pra próxima.
Dia 03Saint Motel, MO, Panda Bear, John Talabot, Vance Joy, Maria and the Diamonds, Ryan Adams, Kaskade, Jamie XX, J.E.S.+S e Drake
O terceiro dia era o mais fraco de todos, então a boa era chegar ainda mais cedo pra andar de roda gigante, comer sorvete de casquinha, taco vegano, churros, frozen de limonada, água fresca de melancia, cachorro-quente, manga desidratada… Sim, comi isso tudo, no mesmo dia, um pouco depois das 4h20, se me lembro bem (não lembro).
Chegar cedo valeu muito a pena pra ver o Saint Motel. Divertido demais, pra cima, metais esquentando e banda animadona de estar tocando no palco principal, mesmo ainda sendo 13h.
Emendei na MO, que também está a caminho do Rio (30 de maio, alô Queremos! #jabá). Ela é uma espoleta e vai tocar o grandissíssimo zaralho na cidade maravilhosa.
Como logo ela toca em casa, aproveitei pra finalmente ver o Panda Bear. Implico com o Animal Collective até amanhã de manhã, porém parece que o problema do Panda Bear é só mesmo má companhia.
Bom demais o show, chapadão, ele no laptop fazendo um som bem viajandão. Só que um viajandão bom, não aquele troço bobo que o Animal Collective faz. Não gosto de Animal Collective, não sei se já falei isso.
Além do mais, estou escrevendo essa resenha gigantesca numa sentada só e estou começando a ficar cansado (podia estar dormindo, mas estou aqui resenhando), de forma que (a falta de) humor começa a invadir essas linhas.
Será que volto lá pro começo e rescrevo tudo? Lembro que o Faith No More dizia que fazia isso nos discos, regravava todas as primeiras sessões, depois que a banda já tava quente. Mas não vou fazer isso, porque, como disse, estou cansado. Peço desculpas. Toca o barco.
Vi o bom show do Mac DeMarco e tentei pegar um pouco do John Talabot, mas a tenda boate escura realmente não encaixou na parte diurna o festival. Tentei ver o Vance Joy e tava cheio e muito lento.
Acabei assistindo Marina & The Diamonds esparramado no gramado do palco principal (não disse!), curtindo o por-do-sol e assim, sem ver nada e ouvindo como trilha de bate-papo, digo que gostei.
Ainda acabei escutando boa parte do show do Ryan Adams, sem saber que era ele. Não conheço nenhuma música do Ryan (que eu saiba) e sempre confundo ele com o John Mayer (a quem, por sua vez, confundo com o Jason Mrazz, não sei porque). Tava bom, vou ouvir algo. Pode ser uma daquelas surpresas.
O Kaskade arrastou uma multidão pro palco principal e não fez feio não. A galera pirou. De todos os super DJs que já vi (Guetta, Skrillex, Afrojack, o que vi em Vegas e esqueci o nome), foi o melhorzinho no sentido de que ao menos dá pra dançar.
A coisa melhorou muito, mas muito mesmo, logo depois, com o Jamie XX.
Cérebro e corpo do The xx (porque, numa boa, os outros dois ali…), Jamie é um geninho. A ponto de lançar seu primeiro disco solo (e pular fora do The xx antes que afunde, porque de bobo ele parece não ter nada), o inglês tocou as músicas já lançadas (tem no Spotify), incluindo a muito boa “Loud Places” (com a vocalista do The xx nos vocais ), uma do seu ótimo disco de remixes do saudoso Gil Scott-Heron e até o que pareceu um re-edit da nova do Tame Impala, “Let It Happen” (tema subliminar do festival, o bom e velho “deixa rolar”). 4×4, quebradeira, disco, o moleque esculachou.
Ainda deu tempo de pegar o J.E.S.+S., projeto conjunto do Jackmaster, Eats Everything, , Skream & Seth Troxler, de novo na boate Yuma, dessa vez de noite e fazendo mais sentido. A bagunça é boa demais, deep house pra cozinhar as multidões. Engraçado ver o Skream, que já foi o garoto poster do dubstep moleque, matreiro, indo pra esse lado.
E aí chegou a hora de uma das atrações mais esperadas do festival. O canadense Drake subiu no palco e… É, ele subiu no palco e era só ele mesmo lá em cima, mandando vocais em cima das bases soltas pelo DJ. Tirando uma aparição non-sense da Madonna, que pegou o rapaz (a Madonna já tá topando qualquer coisa pra ter mais 5 minutos de atenção – e ela nem precisa disso, porque já marcou o lugar dela faz tempo), não teve nada de especial. Seus hits são quase todos muito lentos e a verdade é que apesar de divertido, o show não decolou não.
Não deu tempo de ficar pra ver o Kaytranada, tinha que pegar a estrada pra LA e chegar a tempo de estar nesse avião de onde batuco essas mal traçadas linhas.
Ano que vem tem mais. Mas eu não vou não. Você vai? A escalação vai estar uma merda, esse Coachella já era…
Cada Coachella é uma história diferente e por isso é um dos festivais mais legais de se cobrir. Mais do que o ano da entressafra, o Coachella 2012 será lembrado como o ano do frio, da chuva, o Coldchella. Pela primeira vez (até onde pesquisei) choveu e o frio de 10 graus desnorteou um evento pautado, primordialmente, pelo sol. E ficou bastante claro esse ano o quanto o sol é fundamental para o festival.
Espécie de termômetro da música pop independente contemporânea (OK, ficou parecendo estatística do Zagallo: “nunca perdi pra país com a letra Z e que joga com listras vermelhas verticais”), goste ou não, através das suas escalações, apresentações e até horários, entende-se um pouco do momento pelo qual passa o cenário musical.
A julgar pelo que se viu em 2012 (e se verá novamente nesse final de semana, quando pela primeira vez o Coachella terá um segundo final de semana, espelhando as atrações do primeiro) o momento atual é de entressafra. A escalação trouxe as tradicionais reuniões de bandas extintas (At The Drive In, Mazzy Star), nomes grandes pra chamar público (Dr. Dre & Snoop, Radiohead) e muitas, mas muitas bandas novatas.
O que não se vê, ao menos não em números expressivos, são aquelas bandas recém-estouradas, equilbrando-se entre um público médio, quase chegando no grande. Não faz sentido escalar novamente a última leva a conseguir fazer essa transição de pequeno para médio porte (MGMT, Hot Chip, Vampire Weekend, 2ManyDJs/Soulwax, Chromeo, etc), porém, não há novos postulantes a esse posto. Com isso, foram muitas apostas, algumas das quais podem voltar ao festival em outras condições.
Isso não deixa de ser totalmente alinhado como espírito do Coachella, mesmo que hoje ele tenha se tornado muito maior. É muito bom que não haja um desespero pelo sucesso (mesmo porque, hoje os ingressos esgotam antes da divulgacão da escalação) e se repeite o tempo das coisas. Mérito da curadoria. O fato de a atração mais comentada ter sido um holograma diz muito sobre isso.
Resta ao público garimpar, é esse interesse que move o festival. Ainda que em alguns casos o hype do mundo real seja mais rápido que o da rede, fazendo com que shows fiquem abarrotados no início e, de repente, esvazie, com as pessoas indo buscar outras coisas, num universo de mais de 140 atrações o que predomina é um público aberto ao novo, mesmo que para alguns isso dure apenas três dias.
Isso faz toda diferença do ponto de vista prático. Sem um público interessado cena nenhuma, de nada, se sustenta (sim, estou falando sobre o Queremos!de maneira enviezada).
Dia 1 Breakbot, Givers, James, Neon Indian, GIRLS, Arctic Monkeys, Pulp, Frank Ocean, Mazzy Star e M83
Dividido entre ver as novas instalações e correr atrás de alguma das boas atrações que ficam salpicadas no horário em que o campo de polo ainda está vazio, a entrada é sempre um momento confuso. Enquanto Breakbot fazia um set bem parecido com o que fez no Rio, tocando depois do Mayer Hawthorne The Rapture no Circo Voador (e sem banda, como era esperado), o Givers fazia um show sub-qualquer bandeca de rock. Restou passar pelo palco principal pra pegar um pouco do rapper Kendrick Lamar. Tarde demais; só deu tempo de ouvir o ele se despedindo e aturar a velharia do James enquanto almoçava.
As coisas começaram frias, no amplo sentido da palavra. Os shows não impressionavam e o frio ia piorando conforme o dia passava. Logo a previsão de 30% de chances de chuva se confirmaria, sem muita intensidade, só que as gotinhas estavam geladas que só vendo. Muita gente não levou a metereologia sério e a cena de meninas de roupa curta se encolhendo tornaram-se tão comuns quanto as alienígenas jaquetas de couro circulando pelo gramado.
GIRLS
No palco menor, o Neon Indian levou o lo-fi a extremos, mostrando um show mais sujo do que gasto pelo tempo. Mesmo com três sintetizadores, guitarra e bateria, o som saia fraco e abafado, sem empolgar a boa quantidade de gente assistindo. Melhorou um pouco nas duas últimas, os “hits” falando de uma garota polonesa e num verão caloteiro, “Polish Girl” e “Deadbeat Summer”. Bem apropriado.
Tudo prometia melhorar com o GIRLS, mostrando as músicas do excelente “Father, Son, Holy Ghost”, um salto de qualidade tremendo da banda. Só que… O que quer que tenham aprendido no estúdio, não chegou ao palco. Sem nenhum carisma, Christopher Owens teve sua voz e violão encobertos por um baixo rachando e até pelas boas cantoras de apoio. Não foi terrível, porém não chega perto do disco.
Arctic Monkeys
No palco principal, o Arctic Monkeys mostrava como é que se faz. É impressionante o quanto a banda se converteu de um bando de moleques em um grupo de rock com cancha de palco. A única vez que havia visto a macacada ao vivo foi naquele mesmo palco, em 2007, quando estavam lançando o segundo disco, ainda desconhecidos nos EUA e fazendo brincadeiras com a situação.
Com quatro discos nas costas, projetos paralelos e sabe-se lá quantas horas de palo, Alex Turner sente-se a vontade como front man. Isso é bom e ruim. Se por um lado o domínio de palco propicia um espetáculo mais controlado, é justamente esse controle que tira um pouco do frescor juvenil que foi uma parte tão importante no estouro da banda. O tempo passa, é incontrolável. O volume das guitarras não, pelo contrário, e poderiam estar um pouquinho mais altas.
O Pulp deu sequência inglesa, com um show bem produzido, cenário grandioso e Jarvis Cocker inspirado. Vista uma música e os fãs enlouquecendo, voei para conferir o Frank Ocean. Integrante mais velho do coletivo de hip hop angelino Odd Future, Frank se debruça sobre o r&b, cantando sobre relacionamentos, não sobre escatologias como os rappers do grupo.
Frank Ocean
A Gobi, menor das tendas, transbordava e foi difícil abrir caminho. Ao conseguir avistar o palco, deu pra identificar o BadBadNotGood como seus músicos de apoio, o que subiu bastante o nível (eles ainda tocaram toda as noites no acampamento).
O trio de baixo, bateria e piano canadense já vinha ciscando pela área, fazendo versões jazzísticas das músicas do Odd Future, então foi até uma junção lógica – no show a formação era guitarra, baixo, bateria e MPC/teclado (até onde deu pra ver, a ausência de uma câmera cobrindo o lado direito do palco no vídeo com a íntegra do show não ajuda a identificar).
Ao Frank Ocean restou fazer o que sabe, cantar. Bem a vontade frente a multidão, ele perdeu bastante tempo reclamando do som. O público não viu tanto problema, as meninas soltando gritinhos sem parar. Quando acabou, Mazzy Star já estava no palco menor fazia dez minutos.
Mazzy Star
A luz azul que preenchia o espaço durante quase todo o show escondia uma Hope Sandoval emburrada, quieta, sem que ela dissesse o motivo (olhando bastante para mesa de monitor, a qualidade do som devia ser a razão). O folk blues chapado, de linhas de órgão doorianas e slides viajantes, atraiu pouca gente – o frio certamente não ajudou.
Uma pena, pois o show foi bastante bom (dá pra assistir todo no YT). Mesmo eles tendo “se livrado” de “Fade Into You” lá pela metade, era um show pra ter encantado se as condições tivessem sido melhores.
A caminho do M83, o extremo oposto acontecia em uma das tendas, onde o Atari Teenage Riot rasgava os ouvidos dos poucos que se encorajaram a encarar a bagaceira. Surpresa mesmo viria a seguir.
M83
Contrariando todos os prognóstico de um show indie e cabeçudo de shoegaze eletrônico, o show do M83 é totalmente pop (assista completo no Daily Motion). Com luzes frenéticas e ênfase nas programações eletrônicas e na própria bateria (por vezes 4×4) em quase todas as músicas, a tenda lotada quicou sem parar enquanto Anthony Gonzales se deliciava, sem cansar de agradecer e fazer menção ao fato de estar sendo tão diferente de quando tocou no festival, em 2005.
A saída de um dos fundadores, o sucesso de “Hurry Up, We’re Dreaming”, o M83 está mesmo vivendo um recomeço. É como se fosse outra banda, nascida pra fazer sucesso. Não é exatamente meu tipo de som, principalmente os gritos de “mãos pra cima” ou nos momentos em que soa como se o Miike Snow (com quem guardam semelhanças, o que é bom) tocasse as músicas do Arcade Fire (o que seria ruim) Gostos a parte, é um showzão- e bombaria por aqui. Dispensável mesmo só o solo de sax no final de “Midnight City”.
Falando em Miike Snow, no dia seguinte eles tocaram e receberam a Lykke Li, assista a partir do minuto 29. De volta a sexta, a atração seguinte seria o The Horrors. O frio venceu e esse ficou pra depois, encerrando a noite mais cedo.
Dia 2 Big Pink, Jaques Lu Cont, tUnE-yArDs, Andrew Bird, Noel Gallagher’s High Flying Birds, The Shins, Feist, Flying Lotus, SBTRKT, ASAP Rocky e Radiohead
O otimismo sobre uma melhora das condições climáticas se realizou apenas parcialmente: o frio continuou, mas pelo menos não choveu, o que já ajudou bastante. O sol até ameaçou aparecer algumas vezes.
Tendo perdido os shows do Destroyer e da Azealia Banks (essa tendo utilizado metade do tempo de palco que tinha), ambos muito cedo, o dia começou com o Big Pink, aturado somente tempo suficiente para Jaques Lu Cont começar seu set na tenda Sahara.
Jaques Lu Cont
Nome por trás do Les Rythmes Digitales e produtor do “Confessions On a Dancefloor”, da Madonna, Jaque Lu Cont é o pseudônimo mais utilizado pelo inglês Stuart Price (um trocadilho anglo-franco significando algo como Jack O Cuzão), talvez seu trabalho mais consistente. Agradando a atual demanda por sons rave 90, a primeira metade do set foi bem comercial, téquinêra pesada (e ainda sim bom, sim é possível), encerrada com um explosão de fumaça ao som de “Also Sprach Zarathustra”, para marcar a transição para um som mais com a sua cara.
E essa cara é um groove borrachudo, sirenes de synth, camadas de melodia se cruzando, a bateria 909 estourando no peito, em remixes de “Harder Better Faster Stronger” (Daft Punk), “Blue Monday” (New Order) e “Mr. Brightside” (The Killers, de quem também produziu o terceiro disco). Mesmo com o dia claro, a pista pegou e pegou bem.
Andrew Bird
Numa mudança brusca, o tUnE-yArDs pegou um palco grande demais para o seu som. O som etéreo, de tempos e divisões estranhas e melodias tortas, lembrando bastante o Dirty Projectors , não consegue cativar uma multidão. A atmosfera experimental e hippie provavelmente ganha muito se vista, por exemplo, num centro cultural ou na sala de casa de um dos integrantes. Andrew Bird entrou na sequência e fez um show correto com seu folk e violino, sem empolgar muito.
No almoço deu para ouvir Noel Gallagher apelar para “Don’t Look Back In Anger”, do Oasis, pra conquistar o público. Mesmo sem nenhum hit desse calibre no repertório, quem não precisou de muitos truques pra fazer um dos shows do festival foi a Feist. 19 pessoas no palco, som perfeito, o máximo da apelação foi uma piada dizendo que uma de suas músicas era sobra de estúdio do “The Chronic”, clássico do Dr. Dre, estrela maior do Coachella esse ano. Bem classudo.
Flying Lotus
Embicando para o final, vei uma sequência na tenda pequena, começando pelo trecho final da apresentação do Flying Lotus, dessa vez acompanhado por baixo e bateria, tão bom quanto sempre nos toca-discos.
Logo depois entrou o SBTRKT. Acompanhado apenas pelo cantor Sampha, o produtor Aaron Jerome reconstrói as músicas, tornando-as muito mais peadas e minimalista (show todo no DM).
SBTRKT
Passando uma lixa na produção detalhada do disco, tirando todo polimento pop, “Never Never” vira um dubstep dark, “Something Goes Right” não repete as programações, o sintetizador some e surge reta e seca. “Wildfire”, na versão com Drake e cantada por Yukimi Nagano (do Little Dragon), que deveria ser a mais adaptada devido a ausência dos intérpretes, é praticamente tocada como é gravada, antes de um final em que é toda entortada.
O ponto fraco é a decisão de Aaron de tocar bateria ao vivo (ele e Sampha dividem os sintetizadores). O que poderia ser um adendo interessante pro show acaba limitando as execuções pelo simples fato dele ser um baterista regular, porém incapaz de repetir as programações originais na munheca. Com isso, todo o show acaba sendo mais linear e perdendo dinâmica. A discussão se um artista novo deve ou não alterar tanto suas músicas quando tem apena um lançamento é secundária. Afinal, cada artista sabe de si.
Um integrante do ASAP Rocky vai pra galera
Certo de que o Radiohead não entraria em cena no horário marcado, fiquei para ver um pouco do ASAP Rocky. Acompanhado por 11 amigos no palco, pulando e dançando sem parar, alguns fazendo raps ou se jogando na plateia, do pouco que deu tempo de conferir, pareceu energético, embora rapidamente se torne monótono com a presença de apenas um DJ em cena.
Radiohead
Atração principal da noite, o Radiohead fez um show basicamente focado no “The King of Limbs” e no “In Rainbow”, com algumas concessões. No geral, foi um repertório mais lento e o cansaço de um dia inteiro de shows, somado ao frio, congelou o público.
A amigos, o guitarrista Ed disse que foi um dos piores shows do Radiohead em muito, muito tempo. Foi um certo alívio saber disso, aliviando um pouco a culpa de ter saído um pouco antes do fim (não aprendo…) para evitar o engarrafamento da saída do estacionamento.
O sol! O Sol!
Dia 3 Metronomy, SeunKuti & Egypt 80, Real Estate, Beats Antique, araabMUZIK, The Weeknd, Justice, At The Drive In, Dr. Dre & Snoop Dogg
Josh Homme é fã do Metronomy
Eis que no derradeiro dia o sol apareceu, mudando COMPLETAMENTE a atmosfera do festival. O dia começou bem, com o Metronomy fritando o coco no palco menor, transformando o gramado numa pista de dança. Josh Homme (Queens of the Stone Age) foi tietar a banda nos bastidores após o show e foram embora juntos.
Santigold
Finalmente deu para aproveitar o calor e curtir o visual do deserto largado no chão, ao som do Seun Kuti e a lendária Egypt 80. A melhora no clima aumentou a pilha, então deu pra correr descalço e ver um pedaço da Santigold, grande, dominando o palco principal bem cheio.
De lá, para o Real Estate. Longe de ser algo elaborado, é na simplicidade que eles se dão bem (show inteiro aqui – e que beleza é não ter que subir essa quantidade de vídeos no YT!).
Real Estate
O indie preguiçoso se destaca pela guitarra enxarcada de Matthew Mondaline (também do Ducktails) e pelas longas incursões instrumentais, apoiadas em camadas de teclado (o pai do tecladista mora no Rio e trabalha n Bloomberg, ele contou depois). De ruim, a demora entre as música para afinação dos instrumentos, atrapalhando a fluidez. Uma belezura de show que teria ido muito bem no por do sol.
Thundercat
Produzido por Flying Lotus, o Thundercat fez um show de jazz funk chato enquanto na tenda ao lado, a Mojave, o Beats Antique orientalizava o hip hop através do balkan beats, com banda e dançarinas exóticas, antes do araabMUZIK destroçar os sonhos de qualquer um que toque ou queira tocar uma MPC.
araabMUZIK
O prodígio americado descendente de guatemaltecos e dominicanos arregaça não uma ou duas, mas três MPC, numa velocidade e destreza assutadoras. Isso sem perder de foco o pequeno detalhe de fazer um som bom, algo que poderia ser relegado a segundo plano, encoberto pela performance, construindo batidas e melodias e samples de Damian Marley. No palco principal, o The Hives se esgoelava.
Com finalmente um sol para se por, a melhor escolha de banda para esse horário de ouro do festival flopou desastrosamente (veja você mesmo). Reunindo o maior público visto no palco menor, com muita gente sabendo as letras de cor e sendo celebrado com gritos histéricos dignos de ídolos adolescentes, o The Weeknd não correspondeu.
The Weeknd
Com uma voz pequena e sem alcance nenhuma, Abel Tesfaye mais geme do que canta. Ele não se aperta e bota banca, com atitude de postar, como se não fosse um sub D’Angelo ou Justin Timberlake e não percebesse que está mais próximo de um participante do American Idol do que de qualquer um dos citados.
A banda – ou os arranjos – não ajudam, soando vazia naquela imensidão a céu aberto. Uma grande decepção, considerando as boas mixtapes, no nível da causada pelo The xx, naquele mesmo lugar e horário. Agora, como dito lá em cima, pode ser questão de tempo, estrada, experiência mesmo. O The Weeknd ainda é pequeno.
Contrariando o que vinha sendo comentado, o Justice não se apresentou com uma banda e mostrou praticamente o mesmo show do disco passado, adicionando apenas luzes aos amplificadores cenográficos e as música novas de sonoridade parecida (já que o disco é mais hard rock do que metal), como “Orion”. A banda entrou bastante atrasada e fez um set bem curto num espaço já limitado de tempo. Muito pouco para o palco principal, mesmo sendo muito bom.
Espremido entre a catarse causada pelo Girl Talk no palco menor e o poperô do Calvin Harris (com Rihanna como convidada) na Sahara, o Beirut se esforçou pra conseguir se fazer ouvir na Gobi. Tarefa ingrata para eles e para os muitos que lotaram a tenda na esperança de ver o show.
No palco principal o At The Drive In fez seu retorno, enquanto a Florence and The Machine agradava a mulherada no menor. Nada disso importava, a essa altura o campo de polo já estava a espera de Dr. Dre, Snoop Dogg e sua turma.
Dr. Dre & Snoop Dogg e todo o resto
Como num especial de TV, Dr. Dre fez as vezes de anfitrião, falando bem mais que Snoop, enquanto recebia seus convidados (já sabe: clique e assista o show todo). Passeando quase cronologicamente por alguns dos sucessos que produziu, recebeu Kurupt, Warren G, homenageou Nate Dogg (morto recentemente), ouviu Snoop puxar “Jump Around” do House of Pain e cantar “Young, Wild and Free” com Wiz Khalifa e então o caldo começou realmente a engrossar.
Confirmando os boatos, 50 Cent e depois Eminem também participaram, transformando a noite num encontro de medalhões do hip hop, faltando apenas Jay Z, Lil Wayne e Kanye West pra fechar o primeiro time (mas eles não tinham nada a ver com aquilo). O que aconteceu entre essa duas apresentações foi o que se tornou o assunto mais comentado do Coachella, possivelmente não apenas dessa edição.
Durante o dia já rolava um falatório sobre a participação virtual do Tupac, o próprio holograma (papo que você vem escutando falar aqui no URBe pelo menos desde 2006) sendo citado. Não deu outra. E mesmo sem ser exatamente uma surpresa, causou espanto no sentido estrito da palavra. Mais do que uma comoção ou celebração, a visão de Tupac no palco, gritando “qualé Coachellaaaa”, deixou o clima meio sombrio. Era mais como ver um espírito do que o artista. Embora o objetivo não pareça ter sido esse, funcionou, afinal, o rapper foi assassinado há 16 anos.
No final, mesmo com a chuva e escalação “tímida” (e bota aspas nisso!), foi uma das edições que mais repercutiu. Curioso pra saber qual vai ser a história ano que vem.
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Obs 1 – Para assistir: Tem alguns links para vídeos com os shows inteiros no texto. Uma busca no Google por “nome da banda” + Coachella + full entrega os resultados. Muitos dos vídeos estão marcados como “privados”, para não serem tirado do ar pelo YouTube, então uma busca no próprio YT não acusa. Tem muitos no DailyMotion também.
O caos do ano passado foi uma visão triste. Filas por toda parte, dificuldade para assistir os shows, gente demais no lugar. Em uma de suas edições de atracões mais quentes (todo mundo estava tocando), o Coachella aparentava ter ficado grande demais. Ficou no ar a questão: valeria a pena voltar em 2011?
Mas… que outro festival do mundo tem esse sol, essa escalação e esse clima tranquilo (mesmo no ano do tumulto)? A praticidade conta e, chegada a hora (e “a hora” é meses antes da data), a esperança de melhora, confiando no histórico do evento, transportaram a mente até o deserto. Como se sabe, a mente decide, o corpo só obedece. Em abril, o destino era Indio.
Com a proximidade do festival, as notícias eram boas. A organização arrochou a segurança para evitar invasões, aumentou muito a área do evento e redistribui as praças de alimentação, vendeu menos ingressos, diminui os convites, o credenciamento de imprensa e instituiu um controle mais rigoroso na entrada, com pulseiras com chips. Com a importância que tem hoje, o Coachella não poderia mais mesmo liberar entrada com ingresssos impressos em casa.
A grande diferença em relação a 2010 foi a própria escalação. Num consciente passo atrás, o Coachella deu uma segurada no tamanho das atrações, ou na quantidade de nomes muito grandes. O que foi visto por alguns como enfraquecimento, provou-se uma decisão acertada. Era necessário esfriar as coisas um pouco.
Quem já foi sabe, não adianta ler a lista de mais de 100 atrações e achar que conseguirá assistir tudo. frustração certa. No Coachella existem diversos caminhos e, uma vez escolhido o seu, é melhor esquecer todo o resto.
Como uma das coisas mais legais é a oportunidade de assistir justamente os shows menores, mais difíceis de se ver em outros lugares ou mesmo em casa, os medalhões não fizeram tanta falta. E olha que tinha bastante gente grande.
Foi muito bom ver o festival retomar o seu espírito inicial. Muita gente atrás de música boa, bem menos pessoas na badalação e a oportunidade de se poder assistir tranquilamente tudo que se escolhesse. Abaixo, um remix da cobertura por twiter, agora com bem mais do que 140 caracteres, que fiz das minhas escolhas (sem revisão, depois faço adendos, links e acerto os eventuais erros).
Dia 01 Black Joe Lewis & The Honeybears, Brant Brauer Frick, The Drums, Odd Future, Warpaint, Tame Impala, Lauryn Hill, Sleigh Bells, Black Keys, Kings of Leon, Emicida
A saga de três dias começou com o Black Joe Lewis & The Honeybears, pegando bem mais pesado do que o groove de sua música mais conhecida, “I’m Broke”. Com uma metaleira funk, o que se destacava mesmo eram os riffs de guitarra, fugindo das expectativas. Saindo de lá, ainda deu tempo de conferir o finalzinho do Brant Brauer Frick, filhotes de Kraftwerk tocando eletrônica.
The Drums
Primeira atração mais conhecida do dia, o The Drums confirmou a fama de ruim de palco, com um show bem morno, apesar da força que o vocalista faz para emular Ian Curtis. O som brilha demais ao vivo, perdendo um pouco da introspecção. Ruim não é, só não empolga.
O que prometia empolgar era a polêmica molecada do Odd Future. Nomes da vez do hip hop (ao menos o undergrond), estava numa marra sem tamanho antes antes mesmo do show começar. Com 10 minutos de atraso (gigantesco para pontualidade do Coachella), xingando o técnico de som, entraram com um sub-grave chacoalhando a tenda aos gritos de “Wolf Gang! Wolf Gang!”.
O cenário estava promissor, não fosse o fato de não haver uma banda no palco (não que se esperasse uma) e a correria para pegar o Warpaint do começo. Quem também atrasou foi o Cee-lo Green, tendo tempo de cantar apenas quatro músicas antes do som ser cortado e sair sob reclamações do público.
Warpaint
O do Warpaint arrastou bastante gente para o palco aberto menor e fez valer a pena, com o primeiro bom show do Coachella. As harmonias vocais, com camadas de guitarras ao fundo, fazem delas um Fleet Foxes indie, com momentos delicados, hora lembrando The xx, hora o Explosions In The Sky.
Fez muito sentido uma banda só de mulheres no festival com um público de maioria feminina. É praticamente um desfile. Falando na mulherada, ia fazer vários vídeos com elas resenhando os show, chamaria “Hot Chicks Review Coachella”, com grande potenciarl viral. A preguiça não deixou.
Tame Impala
O pôr-do-sol é o momento mágico do Coachella e o shows escolhidos para essa hora nos palcos ao ar livre são sempre especiais. Os do palco menor, mais aconchegante e melhor posicionado para o visual, costumam ser os melhores.
Não por acaso, foi justamente nessa hora e local que o Tame Impala fez o melhor show do festival. Falar em mistura de rock setentistas (Led Zeppellin, Floyd, Beatles, Cream, King Crimson) faz soar pouco inspirado, quase óbvio. O diferencial é o que os australianos adicionam.
Como se todas as influências passassem obrigatoriamente por um filtro pós-stoner (não esqueçamos que os garotos tem 20 e poucos anos, os anos 70 estão lá atrás), as guitarras se arrastam, enquanto o baixista olha para a bateria com um faminto para um prato de comida, mantendo o encaixe perfeito, e o vocal voando em efeitos pelo ar seco.
A chapação psicodélica debaixo do sol desértico foi uma experiência e tanto. Não poderia haver lugar melhor.
Sleigh Bells
Pausa para o almoço ao som da Lauryn Hill, bem disposta e com um bandão, mandando “Ready Or Not” e outros sucessos dos Fugees, antes de conferir o Sleigh Bells.
Ao vivo, a podridão da dupla faz muito mais sentido do que em disco. Com apenas a vocalista e um guitarrista em frente a uma parede de amplificadores Marshall, não sei qual dos dois soltando as bases eletrônicas, o Sleigh Bells abriu logo entregando as referências, ao som de “Iron Man” (Black Sabbath).
A blusa da cantora era uma réplica da 23 do Jordan no Chicago Bulls, com o nome da banda no lugar do jogador, dava mais senhas. Os anos 90 se (re)aproximam e o Sleigh Bells consegue ser ao mesmo tempo metal, hip hop e Miami bass, lembrando em vários momentos o NIN ou um Prodigy mais lento.
Prontinha pra estourar, até um hit mais calminho eles tem, uma fofurinha na onda de “Paper Planes” (M.I.A.) que não encontrei ainda pra escutar outra vez. Esse troço no Brasil ia ser bom demais.
No palco principal, o Black Keys fez um show correto, bastante prejudicado pelo som, baixo e falhando. O problema se repetiu em outros shows por ali, algo fora do normal para o Coachella.
KoL
De banda que mal sabia passar de uma música pra outra, a banda grande (com “super” telão, horrorendo, com todos os efeitos que o operador pudesse encontrar), fechando uma noite do Coachella, foi um longo caminho, no qual o Kings of Leon perdeu bastante do que a fazia interessante.
“Vamos tocar coisa antigas, estamos cansados das novas”, disse Caleb Followill, para melhorar as coisas. Assim, o show foi bem mais legal do que poderia ter sido e ainda acendeu a esperança de que o caminho poser atual possa estar com os dias contados. Quem sabe, com os bolsos cheios, talvez eles mesmos queiram retomar o caminho anterior.
Emicida
Depois dos problemas com o visto, Emicida teve dor de cabeça na imigração, perdeu a conexão para Los Angeles em Atlanta, se atrasou e perdeu o horário do próprio show. Na hora marcada, a tarde, um DJ botava som na tenda Oasis.
Remarcado para as 23h30, a apresentação foi para uma dezena de testemunhas. Fora do horário – na realidade tocando num horário em que a tenda já deveria estar fechada – visivelmente incomodado com a situação, Emicida tocou para quase ninguém. Uma pena.
Fechando a noite, o Chemical Brothers atrasou mais de meia-hora (muitos atrasos, como se vê) e não deu pra esperar. Tinha mais dois dias da maratona pela frente e era preciso descansar. No caminho para o carro deu pra ouvir “Star Guitar”, alto pra cacete, uma belezura que só.
Dia 02 The Twelves, Bomba Estereo, Here We Go Magic, Foals, Radio Dept, Two Door Cinema Club, Erykah Badu, Broken Social Scene, The Kills, One Day As A Lion, Big Audio Dynamite, Animal Collective, Arcade Fire
Dormiu, acordou, começou o Coachella de novo. Sol a pino no dia mais quente do festival. Zooey Deschanel deu uma volta pelo gramado e até Paul McCartney passeou pelas tendas – vi o tumulto na área de imprensa e quando disseram que era ele, pensei que era pilha.
Aproveitando que o trânsito estava colaborando, foi dia de chegar cedo, a tempo de pegar o The Twelves na Sahara, a maior das tendas, 13h30.
12s
No dia anterior, João e Luciano estavam preocupados. Tiveram o laptop roubado na Colômbia e por isso, além de ter que usar com um computador reserva, inferior ao original, teriam que tocar a partir de uma versão mais antiga dos arquivos do seu show.
Fora isso, havia outra nóia: de que tocando tão cedo, não haveria ninguém para assisti-los. Nenhum dos receios se confirmou. O set rolou perfeito no computador substituto e a tenda estava muito cheia, até o fundo. Melhor do que isso, o público embarcou bonito no repertório de remixes de M.I.A., Daft Punk e Black Kids.
Não é fácil sacudir o povo debaixo de um calor insano e de dia. Os niteroienses do The Twelves não apenas conseguiram, como saíram ovacionados, aos gritos de “olê olê, olê olê” (gringolês para “viva sulamericanos”) e gente levantando a bandeira do Brasil. Tarefa cumprida, com louvor.
No palco principal, o Bomba Estereo tocava o zaralho para os que estavam aguentando o sol na moleira. No palco menor, o Here We Go Magic fez um show correto e xoxo. A banda embarca num lance sub-Yo La Tengo, sub-su- Wilco, longe do folk com efeitos da ótima “Tunnelvision”, última música do show, em versão mais carregada nas guitarras e esporros.
Logo depois, o líder do Gogol Bordello protagonizou uma das cenas mais feias da história do Coachella. Claramente sabotado, foi obrigado a subir ao palco com uma blusa do Fluminense, para horror do público, sem entender a bizarra combinação de cores, mesmo num show do Gogol.
We Put Out
Foals
A aposta no Here We Go Magic custou metade do show do Foals, que com apenas metade da apresentação botou muitas outras atrações no bolso. Com suas melodias, bateria quebrada e guitarras fraseadas, o Foals poderia se tornar uma banda de estádio se tivesse mais exposição. O público cantava tudo, fazia coro e batia palma.
Vendo esse tipo de resposta do público ao Foals é a certeza de que todos ali baixam músicas e só conhecem a banda por isso. É uma constatação besta e lógica, porém não se pode perder de vista que ainda há bastante gente que não baixa (por medo, por não saber, por culpa).
O Foals ainda não foi mastigado e digerido pelo grande público talvez por conta disso, por não ter chegado a eles ainda. Se chegasse a mais gente, o sucesso poderia ser proporcional. A questão é: isso é desejado/desejável? No ano passado, com a escalação repleta de bandas do indiestream, foi o pandemônio que foi.
Na tenda menor, Gobi, o Radio Dept. fez um show sonolento, baixo e sem sal. O som estava uma desgraça, como se os integrantes tivessem esquecido cobertores sobre os amplificadores.
2DCC
De volta a tenda Mojave, o Two Door Cinema Club teve público e recepção de bandas que tem bem mais estrada com eles. Sem economia, “Something Good Can Work” apareceu como terceira música, levantando de vez a plateia. Mesmo sem a mesma pressão do show no Circo Voador, até por conta do tamanho do espaço, deu saudades do verão Queremos.
Erykah Badu
Pausa para o almoço, ao som de Erykah Badu. A diva escolheu um repertório um tanto irregular e, ao estourar o tempo, teve o seu som cortado no meio de uma música. Bandão, tudo no lugar, só o horário atrapalhou, e também o palco. Como era dia ainda, em uma das tendas poderia ter dado mais liga.
Broken Social Scene
A hora mágica, dessa vez no palco grande, foi reservada para o lindo show do Broken Social Scene. Mesmo pra quem não é fã da banda, daqueles de saber todas as músicas, o show foi uma beleza. Difícil era decidir entre assitir ao show ou simplesmente escutá-lo, observando o por do sol e curtindo a tranquilidade do gramado, relaxando e pensando na vida. A segunda opção é um dos grande diferencias do Coachella, um festival que se basta, independente das atrações.
The Kills
Já de noite, quase pulei o The Kills, que fazia um show bem bom, até dar a hora de conferir o One Day As A Lion e ser deixado no meio.
One Day As A Lion
Projeto de Zack De La Rocha, vocalista do Rage Against the Machine, o One Day As A Lion é feroz. Acompanhado de um baterista (Jon Theodore, ex-Mars Volta) e dois sintetizadores fazendo os riffs linhas de baixo e porradas de graves, com Zack tocando um deles algumas vezes.
A estrutura das músicas do combo de synth metal lembram as do RATM muito mais nas versões gravadas do que tocadas ao vivo, quando ficaram bem mais barulhentas e pesadas. A frente da tenda virou uma roda de pogo de 45 minutos, com a pancadaria comendo solta e bastante fair play, com os nocauteados sendo levantados pelos participantes.
Em meio as cotoveladas e ombradas, um casal destoava. Ele de blusa branca e calça jeans, ela de vestidão azul meio hippie, curtiam o show da primeira fila, enquanto eram lançados de uma lado para o outro. Deu gosto ver.
Animal Collective
Embicando para a reta final, o Big Audio Dynamite, com Don Letts pulando e cantando animadaço, divertiu na mesma proporção que o Animal Collective constrangeu. Com iluminação especial da estrutura do palco e telão feito pelo Black Dice, a sequência de ruídos que nunca formavam uma música era de uma pretensão e chatice tão grande que faziam até desejar que o Arcade Fire começasse logo.
Nada contra os canadenses, questão de gosto mesmo. Fora “The Suburbs” e “Ready To Start” – dois musicaços – aquele clima Iron Maiden de “ôôô” que não acabam não é pra mim. A afetação de alguns integrantes, um excesso de uma “garra” forçada, cansam. Ainda assim, o show é inegavelmente bom e vale a pena se assistido nem que apenas pelo espetáculo.
Nesse quesito, o Arcade Fire não decepcionou. Começou com um filme, projeto abaixo de um letreiro de cinema com o nome da banda. Durante o show a briga entre as imagens do telão do palco (do festival, sempre classe) e do telão no palco (do Arcade Fire) foi bem boa.
Perto do final, uma caixa enorme foi içada por um guindaste acima do palco e ficou claro que a prometida surpresa estava próxima. Quando começou a cair bolas e mais bolas brancas lá de cima, pensei que o Arcade Fire fosse conseguir se superar no nível chatice, ao multiplicar por dezenas a pentelhice daquelas bolas que só atrapalham quem quer ver o show.
Que nada. Quando as bolas começaram a piscar e mudar de cor, coordenamente, revelando um sistema remoto de controle dos LEDs embutidos em cada uma delas, a coisa literalmente mudou de figura. Fato que atrapalhou um bocado a visão do palco, porém para quem estava atrás apenas do espetáculo, foi um lindo encerramento.
Assim, o show do Arcade Fire, contra todos os prognósticos URBísticos, entrou no top 5 do Coachella 2011. Isso quer dizer muito de um festival que, mesmo com uma escalação supostamente mais fraca que a do ano anterior, conseguiu superá-lo. O Coachella é mais do que os shows.
Cansou? Levanta que ainda tem mais!
Dia 03 Menomena, Delorean, Nas & Damian Marley, Wiz Khalifa, Best Coast, Foster The People, Duck Sauce, The National, The Strokes, Kanye West, Leftfield, The Presets
O terceiro e derradeiro dia foi também o mais devagar em termos de atração, o que caiu bem para as costas e pernas chumbadas. O clima era de sábado, com o maior público dessa edição, culpa do Kanye West.
Nova geração: os hipsters estão salvos
Delorean
O dia começou logo com duas decepções, a mesmice do Menomena e o aguardado Delorean. Com baixo, dois sintetizadores e batera com pad no lugar dos tons, o Delorean focou no “som dançante” e conforme o show foi caminhando, passou a atirar cada vez para mais lados. Falta alguma coisa, a banda ainda é bem crua e falha na unidade.
Nas & Damian Marley
Iniciando os trabalhos do hip hop, Wiz Khalifa tentou demais agradar a platéia bem cheia da área principal, mas o pessoal não entrou na dele não. Show de hip hop sem banda é um negócio complicado pra funcionar num festival. MCs e DJs num palcão daqueles fica muito magrinho, some na imensidão.
Pra comprovar a teoria, Nas & Damian Marley vieram logo na sequência, com um bandão e provocaram uma catarse com o projeto que une rap e reggae. Além das músicas originais da dupla, Nas levantou o gramado primeiro, com a sua “If I ruled the world”, antes de Damian lançar “Welcome To Jamrock” e juntos mandarem “Could You Be Loved” (Bob Marley). Clichê, sem dúvidas, só que funcionou que só vendo.
A despedida do por do sol foi com o Best Coast, num show chato. A vocalista tem uma falsa modéstia irritante para falar de si própria, atestada pela quantidade exagerada de vezes que fez isso, ainda mais no curto tempo do show. O som vira uma espécie de Hole mais lento, o que pode ter certeza, não é um elogio.
O Foster The People fez mais um show chato (escrevendo agora não há duvidas, domingo foi o pior dia), um troço meio brega, querendo ser arena ou sei lá o que. A essa altura, o festival já migrava para Sahara para conferir o Duck Sauce, cuja “Barbara Streisand” foi ouvida cantarolada o dia todo.
Se existe um atalho rumo ao sucesso eletrônico no Coachella ele é o 4×4 com toques de farofa. O Duck Sauce não fugiu a receita, ainda que tenha surpreendentemente regulado a farofinha.
Na hora do jantar, The National de trilha. Hora mais tarde, no aeroporto, o guitarrista Bryce Dessner falou que o show do Rio dificilmente será superado e que havia falado do Queremos para diversas bandas, entre elas o Sufjan Stevens, que gostou muito da ideia. Veja só.
The Strokes
O show do Strokes foi um caso a parte. O cenário simples, seis setas de tecido iluminadas por cores alternadas era simbólico. Com três setas apontando para um lado e três para o outro, era como se representassem forças opostas, puxassem a banda em diferentes direções, tal e qual os recentes relatos da convivência do grupo.
Se isso é o Strokes brigado, está ótimo. Mesmo com as músicas novas funcionando meio mal e a banda meio desconectada e burocrática, o show foi divertido. Julian Casablancas perdeu a linha nos papos com o público (pensamentos em voz alta define melhor) entre as músicas.
Numa viagem “artista artomentado”, zoou o público, Kanye West, Duran Duran, os integrantes e técnicos da própria banda… Não sobrou nada de pé. Lá pelas tantas mandou “Aê, Kanye depois, hein!”, ao que a galera responde aos gritos de “Ééé!” até ser interrompidos com um “vocês estão de sacanagem? Como ousam?”, de Julian, rindo de si mesmo.
Sentindo-se obrigado a fazer o papel de estrela do rock e atração principal do festival, fazia perguntas idiotas ao público, como “vocês acreditam no amor?”. O deboche parecia mais voltado a própria banda, como se estivessem ali cumprindo uma obrigação. O que, sendo esse o caso, fizeram com qualidade.
Se o Julian chegar no Planeta Terra com metade das piadas do show no Coachella, esse show do Strokes já esta valendo.
Acabou
Na saideira, deu pra pegar a parte final do Leftfield, de volta e meio fora de prumo, utilizando Theremin e batidas quase techhouse. Quando as músicas antigas tiveram vez, como “Phat Planet”, as coisas iam bem. Fechando a tampa, duas músicas do Presets foram o suficiente.
Um último dia bem morno em termos musicais, porém feliz ao se constatar que o Coachella atual ainda pode ser o Coachella de alguns anos atrás. Agora que o caldo deu uma esfriada, é esperar para ver o que acontece no ano que vem. Abril de 2012 já está pré-reservado para a ida ao deserto.
Cultura digital, música, urbanidades, documentários e jornalismo.
Não foi exatamente assim que começou, lá em 2003, e ainda deve mudar muito. A graça é essa.