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quinta-feira

4

novembro 2010

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Arrastão, adestramento social e política: pensamentos sobre um assalto

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Vamos lá, preciso desabafar. Depois vou complementando, alterando, pensando.

“Fodeu! Fodeu!”, ouvi o susto vindo do banco da frente. Levantei a cabeça e o que vi mudou o Rio para sempre para mim.

Como se fosse um rito de passagem, finalmente aconteceu: fui assaltado de maneira brutal na Cidade Maravilhosa. Com mais três amigos, dentro de um carro particular, cenário de grande parte dos episódios de violência urbana na cidade (motivo principal de ter me desfeito do meu há mais de três anos), começava um pesadelo. A tag Violência Urbana aqui do URBe em primeira pessoa.

Durante cerca de quatro minutos (que podem ter sido dois, ou duas horas…), minha vida estava nas mãos dos quatro bandidos fortemente armados que pararam seu carro na frente do nosso para impedir o trânsito, saltaram do carro e anunciaram o assalto – como se fosse necessário.

É aquele clichê, “um filme acontecendo na sua frente”. O choque é tanto que demora até mesmo para o pânico se instalar. E quando você se dá conta do tamanho da merda em que está metido, não tem outra palavra pra descrever: é cagaço mesmo.

Assistindo as imagens da reportagem sobre mais esse arrastão na Rua Faro, no Jardim Botânico, tive uma sensação estranhamente familiar. Se tivessem corpos ao lado do carro, poderia ter sido a matéria sobre um assalto com morte.

A última vez que havia visto a morte tão de perto foi quando fiquei preso no incêndio no Projac, durante uma gravação do “Xuxa Park” em 2001, na época que fazia os vídeos do saite da apresentadora.

Trancado dentro de um estúdio em chamas, apavorado sem conseguir respirar ou enxergar a saída, o pensamento cruzou minha cabeça: “é isso, vou morrer num incêndio, é disso que meus amigos vão falar amanhã, sobre quão perto ou longe eu estava da porta, perguntando porque eu não saí assim que tudo começou em vez de ajudar as pessoas”.

Foi o momento mais angustiante da minha vida. Saí da experiência com apenas uma certeza: quando for a minha vez, que seja rápido. Não quero ter tempo de pensar no que estiver acontecendo.

Quis o destino que eu passasse por situação parecida novamente. Tivesse tudo dado errado, a matéria do RJTV poderia estar relatando além do assalto, também a minha morte. Seria aquela a história contada no meu velório. Pesado, eu sei. Mais pesado ainda foi ter passado por tudo isso.

O (des)equilíbrio que envolve um assalto é delicado. A combinação dos diversos fatores se desenrolando simultaneamente determinam o resultado final: se o primeiro carro vai parar (no caso era o nosso, e trata-se de uma ladeira de paralelepípedos, o que pode dificultar a frear), como cada uma das vítimas vai reagir e responder as ordens, a movimentação e quantidade de transeuntes, se a polícia vai chegar ou não.

Tudo isso pra dizer que, sim, sei que poderia ter sido muito pior. Sim, estou feliz de ter saído com vida, sem nenhum arranhão. Sim, a parte material pouco importa, é trabalhar e conquistar de novo. Só que infelizmente nada disso alivia o trauma.

Nós, cariocas, passamos a vida nos preparando pra esse momento. Ouvimos atentamente os relatos, lemos sobre a melhor maneira de se comportar. Porém, são tantas variáveis nas infinitas modalidades de assalto que os ladrões praticam no Rio, que na hora que toda esses ensinamentos são necessários, pode dar curto.

Quando a ação iniciou, imediatamente abri a porta do carro e saí. Pra mim eles queriam levar o carro, portanto eu deveria sair. E como um tiroteio era iminente, segui as recomendações de me abaixar e procurar colocar minha cabeça perto da roda, para me proteger de eventuais disparos.

Encolhido, me arrastei pela lateral do carro, numa submissão humilhante, ainda mais impotente diante da situação do que no incêndio. Quando ouvi os gritos de “Pára! Pára! Não se mexe!”, gelei. Percebi que estava fazendo tudo errado.

Os ladrões não tinham mandado ninguém sair do carro. O simples abrir dessa porta, fora do roteiro pré-determinado na cabeça dos bandidos, poderia ter desequilibrado a situação e custado minha vida e a dos outros.

Nesse momento, fechei os olhos forte, esperando tomar um tiro. Não queria ver, só torci pra ser no braço. Ele pegou meu celular, pediu minha carteira, apalpei os bolsos, não achei, lembrei que estava na minha mochila, dentro do carro e avisei.

O tempo todo olhei para o chão. No meu campo de visão, entravam e saíam apenas punhos e armas. Uma Glock, uma 09 milímetros, algo que tanto poderia ser uma submetralhadora ou uma pistola com o pente de munição extendido. “Onde eu aprendi tudo isso? Porque eu sei o nome dessas armas?”, pensei. Nem vi o rosto de quem poderia ter me arrancado a vida.

Um dos ladrões me mandou voltar para dentro do carro. Mas nenhum dos meus amigos estava lá. Achei que fosse ser levado, sozinho. Desesperado de medo, pedi para me deixarem. E eu, que não vou a igreja nem pra casar, fiz o sinal da cruz. Por conta da minha criação, o sinal está embutido, é apenas um código para me conectar com a energia maior, sem barba, na qual acredito.

Eles tiraram a chave da ignição e correram para o carro de onde haviam saído e deram início a fuga. Imediatamente abracei meus amigos, celebramos estarmos todos bem. A rua começou a se movimentar, pessoas assistiam das janelas e varandas, vizinhos saiam dos prédios oferecendo água, discursos exaltados solitários, a polícia chegando pela contra-mão.

Olhando em volta, as imagens do cenário auditivo foram se construindo. Vi as pessoas dos outros carros assaltados, a mulher que saía do prédio na hora do assalto e foi rendida, o porteiro de bicicleta que assistiu a tudo, nosso carro de portas abertas, no meio da rua. Uma multidão atônita.

Hora de começar a tentar fazer sentido disso tudo.

Durante o assalto, uma frase chamou muito minha atenção. Um dos ladrões falou para alguém: “Fica na tua que isso não é contigo, você é trabalhador”. A frase, para o porteiro da bicicleta, levanta várias questões.

A primeira e mais óbvia é o erro grosseiro da análise. Todos somos trabalhadores, honestos e pagamos muitos, muitos impostos. Claro, não foi isso que ele quis dizer. O que o bandido quis dizer é que ele, o porteiro, era humilde. Nós, os “playboys”, não. Somos uns babacas, que não precisam se esforçar para nada, meros caixas eletrônicos para eles sacarem dinheiro. Afinal, roubar sim deve ser um trabalho.

Mas isso é o detalhe, amplificado pela revolta de ter passado por essa situação. O mais importante dessa frase é a percepção que ela traz embutida, propõe uma disputa entre “eles” (os pobres) contra “nós” (a classe média). É um sentimento perigoso.

No local do crime e na delegacia, a imprensa insistia por entrevistas. Nenhum de nós quis falar, melhor não declarar nada de cabeça quente. E, obviamente, ninguém queria aparecer na televisão, por medo. Medo do quê ou de quem, não sei. Os bandidos viram nossos rostos, levaram nossas carteiras de identidade, celulares repletos de informação. Não dá para se esconder.

Um grupo armado se deslocar pela cidade, parar uma rua no meio da Zona Sul para roubar celulares, carteiras e trocados (quem anda com dinheiro no bolso hoje em dia?) me parece uma ação desproporcional, em tamanho e risco, frente ao motivo do crime declarado no registro de ocorrência, “ambição”.

Esse tipo de assalto está sendo chamado de arrastão. O termo foi consagrado durante a cobertura dos tumultos na praia do Arpoador, em 1992, creditado aos “funkeiros” (uma generalização mais palatável para os leitores dos jornais do que “favelados”), por diversos interesses. É curioso vê-lo ressurgir, ainda mais na capa da Veja.

Bastante gente tem dito que a atual onda de crimes nas ruas do Rio são reflexo das UPPs. Sufocados, os bandidos estão procurando dinheiro em ações mais diretas. O raciocínio faz sentido. Como faz sentido muito do que é mostrado em “Tropa de Elite 2”.

Porém, essas associações diretas costuma ser falhas. A entrevista com José Padilha que fiz para Monet e reproduzi aqui no URBe toca em alguns pontos interessantes. Não há dúvidas que segurança é um direito de todos os cidadãos. Porém, não podemos viver com o cobertor curto. É preciso um plano além da simples ocupação das comunidades carentes.

Violência é algo muito mais amplo do que ter uma arma na cabeça, acredite. Quando estava morando em Londres tive a medida exata disso no dia que, lendo um livro e ouvindo iPod no ônibus, passei direto pelo ponto de casa.

Saltei e enquanto caminhava fiquei pensando sobre a possibilidade disso acontecer comigo no Rio. É nula. Primeiro porque não vou levar meu iPod no ônibus, segundo porque não vou ficar distraído dentro de um livro e terceiro porque, na terra do “Ônibus 174” (primeiro filme exibido no mestrado de documentário que estava cursando lá), assim que embarco estou contando os minutos pra saltar.

Viver assim, com tanto medo e tanta ameaça, no asfalto ou na favela, estressado pelo constante estado de vigilância, é viver chafurdado na violência. Isso é muito triste, muito sério e muito presente. Não aguento mais viver desse jeito. Estou muito, muito chateado, uma tristeza enorme.

Imediatamente passou a se falar em reforçar a segurança e uma patrulha foi colocada na esquina da Rua Faro. Temos a Copa do Mundo e as Olimpíadas a caminho, o Rio segue tentando sair do buraco vendendo-se como um destino turístico. Não tenho dúvidas de que vai dar tudo certo nesses períodos.

O problema é que não deveríamos depender disso para melhorar. Ou melhorar só para isso. O caminho é longo e possível, complicado, mas possível. Há de existir, entretanto, vontade.

Com o dia destroçado, o melhor era mesmo terminar as funções pra poder descansar no dia seguinte. Iniciando a tarefa de reorganização por comprar um novo chip de celular. Surpreendentemente, foi simples. Demorado vão ser meus óculos. Na volta pra casa, peguei um táxi.

Sem a menor necessidade, o motorista ultrapassou um sinal vermelho, a toda, na Avenida Borges de Medeiros, em frente ao meu amado Flamengo. Reclamei e pedi que não fizesse isso novamente. A resposta foi seca: “Quer dirigir? Aqui a responsabilidade é minha.”

“Meu caro, se eu estiver dentro do carro, não é mesmo”, respondi, “pode parar o carro aqui mesmo”. Saltei, sem pagar logicamente. Antes de ir embora, o irracional taxista, gritou: “da próxima vez, vai de carro!”

Se ele soubesse como começou meu dia…

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Arrastão no túnel Zuzu Angel e o Rio de quatro

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foto tirada com celular, vídeo do caos a caminho

São 21h25 e há dez minutos vi uma cena que nunca vou esquecer: o Rio de Janeiro de quatro.

Estava voltando da produtora, em São Conrado, de carona com o Lins, quando notamos que o trânsito no sentido contrário, para Barra, estava interrompido. Entre as duas galerias do túnel Zuzu Angel, na parte a céu aberto, começamos a ver policiais a pé e carros abandonado pontuando a pista.

Os sinais eram claros, um arrastão tinha acabado de acontecer. Por questão de minutos — e muita sorte — não estávamos no local errado, na hora errada.

Dentro do túnel a cena era desoladora. Entre os carros abandonados, alguns de porta aberta, estilhaços de para-choques fruto das batidas de motoristas tentando fugir de ré. Com o túnel fechado, um engarrafamento gigantesco dá um nó na cidade nesse momento.

A sensação foi a de atravessar um set de filmagem de um desses filmes catástrofes, com a diferença de que era real. Em meio ao caos um funcionário da Cet-Rio anunciava que o túnel estava liberado e chamava os motoristas para retornar aos carros para que o trânsito possa voltar a fluir.

Na saída do túnel, os mostradores eletrônicos intercalavam informes do trânsito com a mensagem “Olimpíadas 2016. Rio, cidade candidata”.

É inacreditável a cegueira que toma conta desse lugar.

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