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setembro 2013

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Transcultura #120: Bemônio // Unknown Mortal Orchestra

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Bemonio

Texto na da semana retrasada da “Transcultura”, coluna que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O clima ruim do Bemônio
Destaque da cena experimental carioca, grupo prepara disco novo e assume que faz música para gerar desconforto

por Bruno Natal

Cercado por amigos interessados apenas em hardcore melódico e punk rock nos anos 1980, Paulo Caetano nunca tinha tido uma banda. Sem conhecer outros músicos ligados nas mesmas referências de metal, industrial, EBM, Naked City, John Zorn Filmworks, Front Line Assembly e outros, ele conseguiu apenas montar o projeto solo eletrônico Creep Diets, em 1997, com pouca repercurssão. Até que, em janeiro de 2012, formou o Bemônio, um dos nomes mais interessantes da cena experimental carioca. De novo, começou sozinho, fazendo vocais, tocando sintetizadores e baixo. Hoje, conta também com Gustavo Matos na bateria.

— Montei o Bemônio por uma questão mental e espiritual, uma válvula de escape para os meus problemas — explica Caetano, que costuma se apresentar mascarado. — Não faço música no intuito de gerar público, até porque ouvir Bemônio é um ruído pra determinados estados de espírito. Ao criar as músicas, eu mesmo gero um peso psicológico tão forte que fico fraco ou lacrimejando de angústia. Não tenho um intuito de ganhar dinheiro e viver apenas disso, por isso fico feliz quando descubro pessoas que gostam. Respeito quem faz música para viver, mas não sei se tenho gabarito pra realizar algo que atraia tanta gente assim.

Os títulos dos EPs e discos lançados até agora não esclarecem muita coisa sobre o Bemônio. “Vulgatam clementinam”, “Ascoltare durante Il pranzo dopo la noia”, “Serenata” e “OPSCURUM” — esse último, uma faixa de 24 minutos contínua, dividida em nove interlúdios — são unidos pelo drone, estilo musical que, através do uso de acordes dissonantes, notas repetidas e prolongadas, variações harmônicas e ambiências se aproxima mais de instalações sonoras do que do formato tradicional de uma canção.

— O drone está mais relacionado a um estado de mantra, algo que se traduz muito também em cultos religiosos, onde a repetição do canto é necessária, gerando um som único do início ao fim, com leves variações — diz Caetano. — O drone está presente no dia a dia, nos ruídos do trânsito, da TV sem sinal, do rádio de carro sem sinal que varia a intensidade de acordo com a aceleração do carro. No meu caso, um mantra com um clima ruim e denso. Procuro uma sonoridade pra traduzir o que venho passando e gerar interpretações que vão além de bater cabeça, dançar ou cantar. É som para gerar desconforto, tristeza, angústia e ira.

Papo brabo. Afirmando não se considerar um músico, Paulo Caetano têm outros objetivos com o Bemônio, que teve uma faixa (“Dilecti laceratione complevit”) incluída na recente coletânea “Hy Brazil Vol 2: New experimental music from Brazil 2013”, de Chico Dub.

— Cheguei à sonoridade do Bemônio através de duas situações: missa católica e a trilha sonora do filme “A profecia”. Quando ouvia coros ou cantos gregorianos numa missa, associados às imagens religiosas e ao reverb que a acústica da igreja traz, tinha arrepios, ficava angustiado e não obtinha a mesma calma que um católico fervoroso. Quando eu vi esse mesmo canto associado a um filme de terror, falei: é isso que vou fazer. A experiência do show do Bemônio é gerar esse clima ruim, não tocar um show igual ao outro. As músicas estão registradas no álbum.

“Santo”, seu próximo disco, programado pra setembro, vem cheio de parcerias. Muitas delas estão bem alinhadas com o “clima ruim” proposto pelo Bemônio.

— Procurei parcerias com pessoas que considero muito artisticamente, o que se tornou um desafio. A arte da capa foi feita pelo Pedro Felipe, do Ars Morindee, e as músicas têm participações de Paulo Roberto, ex-vocalista do Gangrena Gasosa; Zé Felipe, ex-Zumbi do Mato; Gabriel Menezes, ex-Noção de Nada e Uzômi; e das bandas portuguesas Besta e We Are The Damned, entre outros convidados. A mixagem e masterização foi feita pelo Steve Austin, vocalista e fundador de uma das bandas que mais me influenciaram, o Today Is the Day. A coisa está ficando bem clima ruim — resume ele, rindo.

Tchequirau

Um show tem a capacidade de esclarecer detalhes de um disco, mas as vezes faz justo o contrário. Ao vivo o Unknown Mortal Orchestra distorce tanto os som que apresenta em músicas como “So Good At Being In Trouble” que parece até outra banda. Na dúvida, fique com a versão gravada.

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