segunda-feira

19

setembro 2011

5

COMMENTS

Transcultura # 061: Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina, Labrador, Boss in Drama

Written by , Posted in Imprensa, Música

Meu texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O rock numa batida diferente
Uma nova geração de bandas começa a surgir no Rio, fazendo sons pouco convencionais
por Bruno Natal

Depois de uma longa seca e de muitas bandas no mesmo formato “rock”, novos nomes começam a surgir no Rio. Fazendo sons pouco convencionais, grupos como Dorgas, doo doo doo, Sobre a Máquina e Labrador vão dando uma clareada no horizonte, trazendo referências pouco presentes por aqui e, principalmente, experimentando. Em comum entre elas, mesmo com as diferenças de sonoridade, está a busca por um novo caminho. Tem sons diferentes vindos do Rio.


doo doo doo

Citando como influência tUnE-YarDs, Toro y Moi, Sany Pitbull, Radiohead e Youssou N’Dour, o doo doo doo ecoa trip hop, White Stripes, Nirvana, Zero, chillwave e pagode numa mesma faixa, caso da boa “Maré Exquizita”. Por volta dos 30 anos, os integrantes vem de outras bandas (Cabaret Cru, Bloco Cru, Aquaria, Sala do Sino).

– O Alberto Kury é maestro, com formação academica da pesada e escolado no heavy metal, o Pablo Lisboa puxa pro popular e progressivo, até que o Marcelo Renovato, também guitarrista e geek, descolou uma MPC e completou o grupo. Começamos a ensaiar em meados de 2010. Piramos no pedal de loop da Merril Garbus, compramos um, rearranjamos algumas musicas que o Dudu estava compondo numa vibe meio fim de festa – explica o Eduardo Guedes.


Dorgas

Com amplo acesso a rede, e mais recentemente também a equipamentos, as referências se ampliaram. É o caso da molecada do Dorgas, próxims do oitentismo lo-fi do chillwave. Formada em 2009 depois de todos fracassarem em bandas de rock (“nenhum de nós teve potencial pra isso”, diz um dos integrantes) e com integrantes na faixa dos 20 anos. Soar diferente não é a preocupação principal.

– Nossa “proposta” é ser uma banda de “garotos jovens com instrumentação simples” com um som que não soe que nem um soco na cara, nem como uma versão cartunesca de algo lá de fora e nem como alguma espécie de regionalismo barato. Gosto mais de Smokey Robinson e Marvin Gaye, além de clássicos da house como DJ Sprinkles e Theo Parrish. Eduardo Verdeja curte John Scofield e Steely Dan, o Cassius prefire Joni Mitchell e Lucas Lacs fica feliz ouvindo Tony Allen. Mas todos nós podemos considerar Stevie Wonder como deus supremo – fala Gabriel Guerra.

Para Eduardo Guedes, do doo doo doo, a influência estrangeira é determinante. Com mais gente fazendo música, aumenta também a busca por sons diferentes, o que pode explicar as preferências estéticsa de parte da atual safra de bandas.

– Pode ser uma tentativa de expansão de timbres e climas sonoros, uma tentativa de fugir de uma onda retrô e olhar mais pra frente. A canção nunca vai morrer, esse elemento “voz acompanhada”, isso é recorrente, mesmo nos sons mais malucos. Os anseios mudam, a música também. Vem novos instrumentos, novas possibilidades, novos afetos – diz ele.

O ponto sobre o fim da canção e a continuidade da “voz acompanhada”, assunto recorrente nas discussões sobre o futuro da música, é relevante quando se fala dessas bandas. Em português, inglês ou línguas inventadas, os vocais soam sempre saturados, filtrados, tornando difícil a compreensão das letras. Isso quando não são totalmente nonsense. Os vocais servem mais como um elemento sonoro do que como mensagem.

– Vocais em segundo plano faz com que a pessoa que escuta a música preste atenção na dimensão dela. Quando estão no primeiro plano, acaba ofuscando outros elementos, porque a música trabalha em função da voz. Queríamos que a voz esteja em função da música, até porque nós geralmente compomos o instrumental antes da linha melódica. Pra mim, faz muito mais sentido um garoto de 18 anos escrever uma letra como a nossa do que dizer “quero transar com você” ou “eu te amo” direto, de uma vez – explica Guerra, do Dorgas.

O doo doo doo pensa de maneira semelhante:

– Damos muita importância para as letras, mesmo embaladas nos reverbs e nos delays, elas são a própria musica, estão em total sintonia com os timbres e as levadas. Talvez seja uma coisa mais fragmentada, irracional, de sentidos e sensações. A coerência aprisiona em algum sentido os sentidos. Mas isso não quer dizer uma ausência de discurso. E nem tudo é tão abstrato. Tem baião, tem funk carioca. Tem paisagem também. Nebulosas, mas tem – diz Guedes.


Labrador

Formado por uma turma entre 17 e 19 anos e juntos desde 2006, o Labrador segue por um caminho viajante, dizendo-se influenciados por Gilberto Gil, Beach Boys, The Strokes, Animal Collective e Beatles, além de fãs dos cariocas Marcelo Camelo e R. Sigma.

– Começamos a fazer letras ou poesia porque fazíamos música, e não o contrário. Então, o propósito fonético das palavras acaba sendo mais importante do que o significado, na maioria das vezes. É uma idéia absurda se pensar que tudo d interessante e criativo já foi (ou será) feito no mundo da musica. As possibilidades crescem a cada momento. Hoje retro é a psicodelia – Antonio Pedro Ferraz, ex-integrante aqui da Transcultura.

Internet, equipamentos, influências… Parece fácil fazer um som doidão nos tempos atuais, principalmente agora que eles vão se tornando regra. Certo? Gabriel, do Dorgas, discorda.

– É muito facil ser “esquisito e viajante” com os recursos oferecidos atualmente, mas eu não creio que as pessoas que tenham sido influenciadas por bandas precursoras desses dois adjetivos tenha um pingo de talento que elas tem. O que é fazer som esquisito e viajante, botar reverb, delay e outros efeitos no máximo, esquecer a dinâmica de uma canção e se achar o novo Animal Collective? Pra isso não precisa ter talento, basta o sujeito baixar alguns plug-ins ou comprar alguns pedalzinhos de efeitos mixuruca. Nunca esquecemos de que estamos escrevendo uma canção, com uma boa melodia, um bom gancho e um balanço legal, e não uma parede de efeitos etérea e inócua.


Sobre a Máquina

Esses artistas não estão sozinhos na cena do Rio. Os integrantes do doo doo doo citam Mary Fê e João Brasil, os do Dorgas falam do Chinese Cookie Poets e Sobre a Máquina, que por sua vez cita Terrorims in Tundra. Formado em 2009 com integrantes entre 23 e 26 anos, o Sobre a Máquina se inspira no caos urbano para criar paisagens instrumentais incorporando elementos sonoros como obras, freadas de carro, buzinas, multidões, barcos e todo tipo de ruído que é abafado pelos fones de ouvido.

– Ainda em 1975, Miles Davis disse que o jazz morreu. O rock também morreu e não sabemos porque ver problemas nisso. Na nossa concepção tudo possui um ciclo e o que era chamado de rock hoje em dia é outra coisa. Ver bandas como Radiohead e Nine Inch Nails quebrando certos paradigmas e ainda assim atingindo o “grande público” certamente contribui para o surgimento dessas bandas com propostas diferentes – define Cadu T, do Sobre a Máquina.

Como em qualquer outro caso, encontrar público é uma questão central. Com propostas radicais, esse trabalho pode ficar mais complicado, algo que não chega a incomodar ou balizar as decisões criativas das bandas.

– Quisemos experimentar e nos expressar, só isso. É sentimento. Como usamos uma MPC e não temos bateria, somos quase portáteis. Acho que encontraremos um público, as respostas tem sido boas – Eduardo Guedes, do doo doo doo.

Para Cadu T, a falta de espaço para divulgar, tanto na mídia quando nas casas de show, dificulta o trabalho. – A impressão é de que as pessoas criam barreiras ao que é novo e preferem o caminho mais fácil – diz. Cassius, do Dorgas, contemporiza.

– Como ninguém ganha um centavo pra fazer música hoje em dia, abre-se espaço para as pessoas fazerem o que querem. Com a quantidade de música solta por aí, acaba abrindo a mente das pessoas e acaba facilitando uma banda com um som realmente esquisito conseguir público. Por outro lado, toda semana surgem milhões de novos artistas, gerando preguiça e desatenção com o novo. Caminho tem e sempre terá, mas não sei se tem folêgo para andar muito tempo nele.

São tempos confusos. Natural que a música reflita isso.

Tchequirau

Primeiro disco do Boss In Drama, “Pure Gold” está disponível na página do curitibano. Para escutar o lado A basta um “curtir” no Facebook, para o Lado B uma tuitada garante a audição.

Anúncios

Deixe uma resposta

5 Comments

  1. pedro
  2. Bruno Natal
  3. ronaldo

Deixe uma resposta

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: