quarta-feira

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março 2011

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Transcultura #039 (O Globo): Lykke Li, Belo Monte

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Texto da semana passada da coluna “Transcultura”, que publico todas as sextas no jornal O Globo:

O lado sombrio de Lykke Li
Musa sueca deixa de lado a imagem de boa moça e lança disco com letras tristes e sons pesados
por Bruno Natal

Cansada do frio sueco, Lykke Li se mudou para Los Angeles para gravar “Wounded Rhymes” (mesmo destino escolhido pelo LCD Soundsystem para registrar seu derradeiro trabalho, “This Is happening”). Aproveitando a riqueza de paisagens disponível nos arredores, aproveitou para filmar um curta, dirigido por Moses Berkson e lançado meses antes do disco ficar pronto.

“Solarium” indicava visualmente o que estava por vir sonoramente, e não apenas pela aridez do cenário. No filme experimental, preto & branco, a loirinha aparece enterrando espelhos no deserto californiano, como se tentasse esconder as diversas leituras feitas dela mesma por tantas pessoas, e se apresentar como de fato ela mesmo se vê.

Faz sentido. O sucesso da estreia, “Youth Novels”, trouxe junto um entendimento da sua personalidade que não batia muito com algumas das letras e, principalmente, com a atitude de Lykke Li no palco. Empurrada por arranjos delicados e a fofura do seu hit “Little Bit”, a cantora era constantemente classificada como “menininha”, mesmo que ao vivo mostrasse ser uma artista inquieta, quase agressiva, tanto nas postura quanto no gestual. Aos 24 anos (tinha apenas 19 quando compôs as músicas do primeiro disco), para acabar com essa esquizofrenia, Lykke Li tomou uma decisão firme sobre que caminho seguir.

Enquanto essa semana vimos trechos de 30 segundos de todas as músicas do novo disco do The Strokes e de uma das faixas do segundo disco solo do Marcelo Camelo circularem pela rede (quem quer ouvir 30 segundos de uma música? Pra que serve isso?), “Wounded Rhymes” esteve disponível, inteiro, para audição online dias antes do lançamento oficial, essa semana.

Produzido pelo conterrâneo Björn Yttling (do Peter, Björn and John), em “Wounded Rhymes” Lykke Li assume seu lado mais sombrio. Os arranjos fofos dão lugar a uma sonoridade mais seca, cheia de espaços, pesada, marcada por percussão, stacatos, camas de órgão, reverb e distorções, envoltas numa nuvem, mesmo que rala, de psicodelia sessentista. O motivo, claro, foi um coração quebrado. A menina que antes encarava o amor, mesmo que deslocada, agora passou por ele e fala da perda. “Wounded Rhymes” tem uma personalidade que não permite momentos de leve distração como o anterior. O ouvinte é sugado para o universo proposto.

Com técnica limitada, Lykke sabe trabalhar a textura da própria voz, criando climas e conquistando na interpretação. Os momentos coloridos são poucos na tensão de “Get Some”, na discreta influência do hip hop em “I Follow Rivers” e a inclinação surf music “Youth Knows No Pain” (até onde isso é possível para Lykke Li). Entre as outras tantas canções densas, Lykke Li se permite dois momentos intimistas, cantando a tristeza acompanhada por guitarra e um vocal de apoio na minimalista “Unrequited Love” (“Amor Não Correspondido”) e apenas por um violão em “I Know Places”, até o final em que entram bateria, guitarra, teclados fazendo efeitos.

Tivesse aceito os rótulos que tentaram impor após o primeiro disco, o caminho de Lykke Li poderia ter sido mais fácil. Mais fácil, porém, raramente está ligado a melhor. Ainda bem que ela não quis. Esse disco não teria saído de outra maneira.

Tchequirau

Acostumados com a arte de montar apresentações para influenciar marcas e clientes, um grupo de publicitários se organizou para criar um movimento contra a construção da Usina de Belo Monte, na Amazônia. Tudo bem explicado – claro! – num power point e em planners4good.posterous.com

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  1. Bruno Natal

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