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terça-feira

7

junho 2016

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Tapas, sol e concreto: Primavera Sound 2016

Written by , Posted in Música

fotos: @urbe
ilustrações: Ben Rubin (Upstate, New York) / @bwrubin

Finamente, Primavera. Após adiar por anos, fui conhecer o tão comentado festival espanhol. Fiz também uma cobertura para O Globo (dando uma geral no evento) e para o Ponto Eletrônico (contextualizando o festival entre seus pares) – e você pensando que isso aqui é só lazer).

As três resenhas são complementares, bem diferentes uma da outra,. Confira os textos “Porque é primavera” e “Primavera Sound: um festival de música”. Vou manter a introdução curta por aqui e cair nos comentários sobre os shows.

No Primavera Sound Barcelona não tem muito espaço para fru-fruzice. É show em cima de show, muitos palcos simultâneos, caminhadas gigantes, incluindo escadarias de respeito. O Parc del Fórum é um concreto só e, mesmo estando na beira da praia da Barceloneta, não é fotogênico.

Com certeza isso espanta aquela parte do púbico (cada vez maior, dependendo do festival) mais preocupada com o Instagram do que com as bandas e isso ajuda a assistir os shows. E quem quer passear, tem toda cidade e seus muitos bares de tapas pra curtir. O público é majoritariamente composto por trintões, a imensa maioria de homens.

Por outro lado, os shows começam e acabam tarde pra burro e a falta de espaço de convivência além da praça de alimentação tornam a experiência bastante cansativa. Afinal, deitar no cimento sujo não é exatamente convidativo.

Empiezó! #primaverasound #primaveraurbe

A photo posted by URBe (@urbe) on

Entre as 130 atrações, com destaque para o rock e para o pop, apresentaram-se o Radiohead, LCD Soundsystem Tame Impala, Brian Wilson, Sigur Rós, Beach House,The Last Shadow Puppets, LCD Soundsystem, PJ Harvey, Air, Beirut, Goat, Action Bronson, John Carpenter Alex G, Andy Shauf, Nao, Kamasi Washington, Orchestra Baobab, Mbongwana Star, Moses Sumney, Pantha Du Prince, Floating Points, Holly Herndon, DJ Koze e Moderat. Representando o Brasil, os grupos O Terno, Aldo The Band e Inky tocaram num dos palcos secundários, com público diminuto, porém atento.

Segundo a organização, o Primavera Sound reuniu 200 mil pessoas em cinco dias em diversos eventos em Barcelona, com a presença de pessoas de 124 países diferentes. A maior parte do público é de trintões, com ampla maioria de homens (esse sendo um comentário feito por mulheres).

Dividido em cinco dias, as três noites principais são de quinta a sábado no Parc del Fórum e seus oito palcos. Nos outro dias (quarta e domingo) há shows gratuitos em museus e casas de show, como contrapartida para cidade.
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Dia 01
Andy Shauf, Julien Baker, Beak>, O Terno, Kamasi Washington, Suuns, Floating Points, Tame Impala, John Carpenter, Mbogwana Star e LCD Soundsystem

Buenos dias! #primaveraurbe

A photo posted by URBe (@urbe) on

Primeiro dia num festival que você nunca esteve é complicado. Não se sabe ainda onde fica nada, a sinalização não era boa e, pra piorar, o primeiro show do dia era um dos que mais queria ver. Após encontrar o Auditori Rockdelux, que fica fora da parte principal do festival, cheguei a tempo de pegar um lugar na primeira fila e assistir o Andy Shauf.

Acompanhado de um baterista num kit simples, com surdo bem abafado, teclado e baixo, Andy se revezou entre a guitarra e o violão de aço. As primeiras poltronas ficam na mesma altura e bem perto do palco, sem grade de separação, até a fumaça do gelo seco que abraçava os músicas envolvia também parte do púbico. Cenário perfeito para um show delicado, com arranjos lindos e suaves, proporcionando mudanças sutis de dinâmica em seus momentos altos.

O sol rachando lá fora e na escuridão do auditório Andy Shauf optou por formatos diferentes ao vivo. De cara, o clarinete que atravessa o ótimo disco do ano passado sumiu, sendo substituído pelo teclado.

ATUALIZAÇÃO: acabei de descobrir que Andy lançou um novo disco, “The Party”, dia 20 de maio, pouco antes do show, motivo pelo qual havia tantas músicas desconhecidas, outra formação e pouquíssimas do “Bearer of Bad News”.

Mesmo com convenções, os arranjos ficaram um pouco mais previsíveis, as vezes monótonos, perdendo a aspereza ou crueza das versões gravadas. Esquecendo as comparações com o disco, o show é ótimo por si só.

Beak> ajudando Bristol a se adaptar ao sol #primaverasound #primaveraurbe

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Saindo do ar condicionado para caloreira e atravessando a ponte e a escadaria que ligam a parte alta a parte baixa do Parc del Fórum, vi uma música da Julien Baker (chato e só fui parar lá porque confundi com a Julia Holter) e subi novamente para conferir o Beak> no palco Primavera (o único que não leva o nome de um patrocinador).

Honrando a tradição de Bristol, casa do Massive Attack e Portishead, o trio de guitarra, teclado e batera passeou por algumas influências que se espera vindo desse berço: baixo dub, bateria ora jazz, ora disco punk, teclado psicodélico e pegada dançante.

O som é bom mas não diz muito a que veio. Rapidamente se tornou um tanto repetitivo, como se fossem mais temas do que músicas acabadas, cansando.

O Terno ?? Palco escondido mas até que tem uma galerinha #primaveraound #primaveraurbe

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Saindo antes do fim deu tempo de pegar um pedacinho do show dos paulistanos d’O Terno. Tocando num dos palcos secundários o NightPro, já passavam das 20h e o dia seguia claro (ah, a temporada primavera-verão no hemisfério norte…) e os meninos conseguiram reunir umas poucas dezenas de pessoas, entre elas muitos brasileiros.

Apesar de não ser um dos palcos de maior destaque, o NightPro fica num ponto estratégico da caminhada entre as duas áreas mais importantes do festival e é também o que tem o visual mais legal, colado na água. Não deu pra ver até o final porque era quase hora de outro dos destaques do festival.

Kamasi Washington, puta que los pares! ??? #primaverasound #primaveraurbe

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De volta ao Auditori, a fila para o Kamasi Washington estava gigantesca. Ainda bem que o auditório é enorme e coube quase todo mundo, pois seria muita injustiça pessoas fazendo fila pra ouvir free jazz num festival predominantemente de rock ficarem sem ouvir o saxofonista. Entra daqui, pergunta de lá, descolei novamente uma cadeira na primeira fila.

Com uma big band incluindo trombonista, tecladista percussionista, vocalista de apoio, dois bateristas e um contrabaixista que arregaçou tudo, Kamasi fez um dos shows do festival. Indo de temas funkeados e acessíveis a esporros experimentais, um Kamasi Washington totalmente relaxado demonstrou controle sobre a banda entrosada. De quebra ainda teve uma canja do próprio pai.

Em apenas dois shows o Auditori já provava seu valor, mas infelizmente não vi nenhum outro show ali.

O trap rock do Suuns faz um clima hein #primaverasound #primaveraurbe

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Já estava escurecendo quando acabou o show e só deu tempo de pegar uma música do Suuns no palco ao lado. Estava animado, gostaria de ter visto mais, mas não deu muito pra sacar o som. A que ouvi parecia uma banda de rock trap (soa desastroso, mas isso é pra ser bom). Fora essa, a trilha dos vídeos com vinhetas que passavam antes de cada show do festival era o trecho de uma música deles.

Floating Points live, só no transe #primaverasound #primaveraurbe

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Descendo a escadaria do anfiteatro (essa é uma segunda escadaria, diferente da primeira), o Floating Points apresentou no palco Rayban (o mais legal deles) sua versão ao vivo, com bateria e todo o resto, num show bem viajante e chapado. Coisa boa. Correria de lá para pegar o Tame Impala no palco H&M, um dos dois principais. E não deu pra ver foi nada.

Os australianos arrastaram quase todo festival para o lugar, provando que apesar da torcida de nariz de alguns fãs, o terceiro disco catapultou mesmo a carreira da banda. Kevin Parker deve saber o que está fazendo.

Um dos grandes defeitos do festival, o som baixo fica ainda mais grave pela falta de torres de repetição no amplo espaço aberto. Some-se a isso que houve um apagão durante o show e calcule o tamanho da saudade de vê-los no Imperator ou no Circo Voador.

John Carpenter aterrorizando a plateia #turumtss #primaverasound #primaveraurbe

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Atravessando o complexo mais uma vez, dei de cara com o diretor cult John Carpenter apresentando algumas trilhas dos seus filmes, fazendo o que era apenas o seu segundo show. Interessante mais para fãs e pela curiosa proposta.

Mbongwana Stars mei careta… ? #primaverasound #primaveraurbe

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Sem muita animação com essa volta do LCD Soundsystem (e satisfeito com a quantidade de shows que já vi da banda), optei por conferir o Mbogwana Star, dos quais conhecia apenas uma música. Ao vivo o lance veio bem careta, uma formação básica que não empolgou o suficiente para afastar o comichão que repetia dentro da minha cabeça: “vai mesmo perder o LCD? vai mesmo perder o LCD?”.

Não vou não. Corri de volta para o palco Heineken, um dos dois principais e… de novo, não dava pra ouvir nada. LCD com som baixo não funciona, então furando a barreira humana cheguei o mais perto que pude do palco, bem perto na verdade, e… nada.

O peso da viagem no dia anterior, o fuso e o cansaço do próprio dia, além do fato de que o LCD parece nunca ter parado, com tudo que há de bom e ruim nisso (show afiado, mas idêntico ao que se viu cinco anos atrás), trouxeram a voz novamente, dessa vez dizendo “quero dormir” e lembrava “o metrô está em greve e vai ser complicada a volta”.

Dei ouvido as vozes novamente e fui pra casa quando já eram 2h15 da manhã e o James Murphy estava na metade do set.

Dia 02
Alex G, Moses Sumney, Steve Gunn, NAO, Beirut, Radiohead, Last Shadow Puppets, Animal Collective, Holly Herndon, Beach House, Avalanches e DJ Koze

Anochecer en Barça #primaverasound #primaveraurbe

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Nada como dormir e acordar descansado. A não ser, claro que você tenha passado 1h30 brigando pra tirar uma lente de contato que aparentemente nunca esteve lá e não tenha dormido muito ou mesmo descansado. E logo no dia do sufoco, com 12 shows para ver, chegando bem cedo e saindo bem tarde.

Você pode perguntar: dá pra ver 12 shows em nove horas? Não, não dá. Então cabe a cada artista cativar o coração do ouvinte e conquistar mais minutos. Festival é isso aí, menu degustação ligado e que vença o melhor.

O primeiro derrotado do dia foi o Alex G no palco Adidas. Tenho certa preguiça de folk, porém o que ouvi dele pareceu bem legal. Ao vivo o rapaz abandona o violão, empunha uma guitarra e embarca uma viagem noventista indie experimental que, com essa descrição, não preciso nem dizer o resultado.

Logo ao lado, no palco Pitchfork, começava o Moses Sumney, querido da rádio KCRW. Seu som é muito introspectivo e ao vê-lo no palco acompanhado apenas de três microfones, uma guitarra e uma mesa de efeitos, lutando contra o zum zum zum ao redor parecia o prospecto de mais uma derrota. Mas o carisma não é considerado algo tão forte a toa. Nem a barulheira do Alex G ao lado conseguiu atrapalhar.

Montando bases bom beat box e conversando com o público sem parar, Sumney, visivelmente feliz, botou a platéia no bolso. Cantando num falsete que por vezes faz lembrar o Finley Quaye, o cantor saiu aclamado do palco.

Steve Gunn e o por de sol de concreto #primaverasound #primaveraurbe

A photo posted by URBe (@urbe) on

Quicando novamente pro palco Adidas, logo ao lado, Steve Gunn fez um show que teria sido uma trilha ótima para uma espreguiçada, não fosse a falta de um lugar legal pra deitar e curtir o som. Como o Tame Impala na noite anterior, Gunn também sofre com uma pane no som.

De volta ao Pitchfork, a NAO fez o que deve ter sido o show de estética mais pop do festival. Com ótimas músicas gravadas, o show estava chato. E muito longe dali, uma escadaria ou ladeiras depois, o Beirut tocava no H&M.

Beirut #primaverasound #primaveraurbe

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Por algum motivo o curral VIP (não apenas para convidados, mas também para quem pagou por um ingresso ainda mais caro) que fica bem em frente ao palco estava aberto e deu pra ver Zach Condon de perto. O show estava ótimo, final de tarde, mas como já havia visto (e aposto que ele ainda paga essa ida ao Brasil em breve), tive a infeliz ideia de atravessar o complexo inteiro novamente para ver o Freddie Gibbs, apenas para descobrir que o show havia sido cancelado. Fiquei sem um, nem o outro.

Menos mal que com esse tempo de sobra, pude chegar mais cedo para tentar pegar um lugar no Radiohead. Com os problemas de volume da noite anterior e sabendo que ver o Radiohead de longe e baixo não seria exatamente o ideal, estava considerando até mesmo perder o show por falta de disposição de ficar brigando por um lugar. Então resolvi tentar e deu para ao menos ficar num lugar que deu pra ouvir o show direito.

Ao contrário do que pensava, no entanto, o repertório do show não priorizou o disco novo. Como ainda não está no Spotify e tive preguiça de baixar, estava ansioso por essa primeira audição ao vivo que acabou não vindo. O cenário, sempre um ponto alto dos ingleses, também não surpreendeu, parecendo um arremedo do telão da turnê de “In Rainbows”com as luzes de palco do “King of Limbs”.

Num espaço daquele tamanho, as experimentações visuais podiam se manter mais ao palco, fazendo melhor uso do telão, pois para quem estava longe, estava bem difícil de entender o que se passava no palco. Ruim não foi, porque, mesmo assim, chato não é. Mesmo que a adoração messiânica dos fãs (que a banda em sua atitude blasé finge que não gosta) as vezes dê no saco. Mas é aquilo, pra mim foi mais do mesmo – mesmo que o mesmo seja mesmo muito bom.

Holly Herndon entortando as coisa tudo #primaverasound #primaverasound

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No final do show ainda deu pra pegar um pedaço da tiração de onda de Alex Turner a frente do seu Last Shadow Puppets no palco oposto. Depois de mais de duas horas parado no mesmo lugar para ver o Radiohead, a pedida era sentar e dar uma descansada em algum lugar.

Hora de atravessar o Parc inteiro mais uma vez pra tentar o Animal Collective (onde eu estava com a cabeça?). Não deu. Tentar então o Holly Herndon, um pouco mais longe ainda. E estava bem bom, bem doido, interagindo com a plateia através de mensagens escritas no telão, como se fosse um chat (incluindo um alô pro Radiohead).

Beach House, 2:30 da manhã, tocando pra umas 20 mil pessoas #primaverasound #primaveraurbe

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Tarde pra dedéu pra um show com a levada do Beach House, já eram 2h quando Vicotria Legrand e companhia ninaram uma plateia surpreendentemente gigantesca, de umas 20 mil pessoas, num dos palcos principais. Não mudou muito do show que fizeram no Rio, porque nada ali muda muito, mas o cenário novo estava muito bonito e o Beach House é classe.

Um do artistas que mais causaram burburinho no pré-Primavera, o Avalanches era uma das atrações mais aguardadas. Sem lançar disco novo desde 2000, quando lançaram seu único, “Since I Left You”, famoso pelos mais de 350 samples utilizados, a dupla australiana havia anunciado no dia anterior que vem um disco novo por aí (algo que já estavam dando dicas há pelo menos duas semanas em redes sociais). O set do festival foi bem de pista, bastante funk, não dá pra saber o que ali vai estar no novo trabalho, mas foi bem animado.

E fechando a noite, DJ Koze #primaverasound #primaveraurbe

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Quatro y vinte de la matin DJ Koze começou seu set. Estava ansioso para conferi-lo ao vivo. Ele começou na maciota, mas depois descambou pra um tech house reto pra frito ver que não animou ficar. Isso ou estava cansado. Ou as duas coisas. Era hora de partir.

——

Dia 03
Brian Wilson, Pusha T, Orchestra Baobab, Action Bronson, Sigur Rós, Julia Holter, Pantha du Prince e Islam Chipsy & Eek (+ Mudhoney e Black Lips)

Se alguém se deu ao trabalho de fazer as contas (claro que não), o sono estava beirando seis horas por noite, após andar em méida 20km por dia (segundo o gps de um amigo), muito pouco para o pique que um festival desses exige. Por isso, no terceiro dia foi vez de chegar um pouco mais tarde.

20h, “final de tarde”, a noite se aproximando no palco principal e Brian Wilson tocando o clássico “Pet Sounds” na íntegra, comemorando os 50 anos do disco que inspirou os Beatles a compor outro clássico, o disco “Sgt. Peppers”. Terminado o disco, ainda emendou clássicos dos Beach Boys.

PrimaveraSound2016_BrianWilson_Illustration-Ben Rubin
ilustração: @bwrubin

Todo festival desse porte guarda um show que, quando você olhar pra trás, vai te fazer ter certeza que valeu a pena todo o esforço e investimento pra ir. No Primavera Sound 2016 pra mim foi esse.

PrimaveraSound2016_OrchestraBaobab_Illustration-Ben Rubin
ilustração: @bwrubin

Ficou difícil pra todo mundo depois desse show e não ia ser o Pusha T quem ia fazer o trabalho de conquistar atenção depois disso. E não fez mesmo. Show de hip hop apenas com DJ e MC é chato pra dedéu e de lá corri pra Orchestra Baobab.

Animados, suingados, mântricos e até mesmo caribenhos via carnaval de Salvador, os africanos da Baobab botaram pra quebrar e fizeram um showzaço. Transe completo, guitarras cantando, percussão comendo solta e metaleira fervendo, entrou também no topo da lista de melhores do festival.

Action Bronson #primaverasound #primaveraurbe

A video posted by URBe (@urbe) on

Pra você ver como são as coisas, o rapper Action Bronson, mesmo acompanhado apenas pro um DJ e enfrentando mais um apagão no som, estrondou o palco Primavera com uma presença de palco impressionante. Deu vontade de ver mais do que as quatro primeiras músicas, mas tinha Sigur Rós do outro lado do Parc e a caminhada precisava começar.

Num lindo cenário de luzes e projeções, como lhe é característico, com as cores variando entre o azul, vermelho e branco, bem viajante. As fortes luzes de serviço do festival, iluminando a praça de alimentação logo atrás do palco, atrapalharam bastante o efeito.

Em todo caso, como no caso do Radiohead, quando uma banda fica desse tamanho e faz shows dessa magnitude, o entendimento completo dos efeitos não deveriam ficar restritos a quem consegue uma visão frontal do palco.

Como aconteceu na noite anterior com o Beach House, novamente a combinação de show chapado com altas horas da madrugada não caiu bem. Uma passada pela Julia Holter não convenceu e restava aguardar mais uma hora, até as 3h, para conferir o Pantha du Prince. E eles não decepcionaram.

Vestindo espelhos convexos na cabeça, o trio de batera e dois laptops produziu um efeito visual sombrio, fazendo o clima pro som aguardado. Surpreendentemente, eles vieram forte pra pista, fazendo um som mais acessível do que o esperado e botaram o anfiteatro pra balançar.

Islam Chipsy & Eek (saideira, tá difícil ir embora) #primaverasound #primaveraurbe

A photo posted by URBe (@urbe) on

Na saída ainda deu pra dar uma bizoiada no Islam Chipsy & Eek, só que o sujeito martelando a caixa de uma das duas baterias como se pregasse algo na parede não animou a ficar.

No dia seguinte, domingo, foi dia de passear. Mesmo assim acabei topando com o show do Mudhoney e Black Lips no CCCB. Vi mais um pouquinho, mas a cabeça já estava longe. Hora de voltar pra casa.

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quarta-feira

20

abril 2011

1

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Coachella 2011, acertando o passo (parte 2/3)

Written by , Posted in Música, Resenhas

penas / feathers
fotos: URBe (Instagram)
+ no flickr.com/URBeFotos e urbemicro.tumblr.com

Dormiu, acordou, começou o Coachella de novo. Sol a pino no dia mais quente do festival. Zooey Deschanel deu uma volta pelo gramado e até Paul McCartney passeou pelas tendas – vi o tumulto na área de imprensa e quando disseram que era ele, pensei que era pilha.

Aproveitando que o trânsito estava colaborando, foi dia de chegar cedo, a tempo de pegar o The Twelves na Sahara, a maior das tendas, 13h30.

Dia 02
The Twelves, Bomba Estereo, Here We Go Magic, Foals, Radio Dept, Two Door Cinema Club, Erykah Badu, Broken Social Scene, The Kills, One Day As A Lion, Big Audio Dynamite, Animal Collective, Arcade Fire

The Twelves
12s

No dia anterior, João e Luciano estavam preocupados. Tiveram o laptop roubado na Colômbia e por isso, além de ter que usar com um computador reserva, inferior ao original, teriam que tocar a partir de uma versão mais antiga dos arquivos do seu show.

Fora isso, havia outra nóia: de que tocando tão cedo, não haveria ninguém para assisti-los. Nenhum dos receios se confirmou. O set rolou perfeito no computador substituto e a tenda estava muito cheia, até o fundo. Melhor do que isso, o público embarcou bonito no repertório de remixes de M.I.A., Daft Punk e Black Kids.

Não é fácil sacudir o povo debaixo de um calor insano e de dia. Os niteroienses do The Twelves não apenas conseguiram, como saíram ovacionados, aos gritos de “olê olê, olê olê” (gringolês para “viva sulamericanos”) e gente levantando a bandeira do Brasil. Tarefa cumprida, com louvor.

Sombra

No palco principal, o Bomba Estereo tocava o zaralho para os que estavam aguentando o sol na moleira. No palco menor, o Here We Go Magic fez um show correto e xoxo. A banda embarca num lance sub-Yo La Tengo, sub-su- Wilco, longe do folk com efeitos da ótima “Tunnelvision”, última música do show, em versão mais carregada nas guitarras e esporros.

Logo depois, o líder do Gogol Bordello protagonizou uma das cenas mais feias da história do Coachella. Claramente sabotado, foi obrigado a subir ao palco com uma blusa do Fluminense, para horror do público, sem entender a bizarra combinação de cores, mesmo num show do Gogol.

Do they really?
We Put Out

Foals
Foals

A aposta no Here We Go Magic custou metade do show do Foals, que com apenas metade da apresentação botou muitas outras atrações no bolso. Com suas melodias, bateria quebrada e guitarras fraseadas, o Foals poderia se tornar uma banda de estádio se tivesse mais exposição. O público cantava tudo, fazia coro e batia palma.

Vendo esse tipo de resposta do público ao Foals é a certeza de que todos ali baixam músicas e só conhecem a banda por isso. É uma constatação besta e lógica, porém não se pode perder de vista que ainda há bastante gente que não baixa (por medo, por não saber, por culpa).

O Foals ainda não foi mastigado e digerido pelo grande público talvez por conta disso, por não ter chegado a eles ainda. Se chegasse a mais gente, o sucesso poderia ser proporcional. A questão é: isso é desejado/desejável? No ano passado, com a escalação repleta de bandas do indiestream, foi o pandemônio que foi.

Na tenda menor, Gobi, o Radio Dept. fez um show sonolento, baixo e sem sal. O som estava uma desgraça, como se os integrantes tivessem esquecido cobertores sobre os amplificadores.

Two Door Cinema Club: saudades do @queremos
2DCC

De volta a tenda Mojave, o Two Door Cinema Club teve público e recepção de bandas que tem bem mais estrada com eles. Sem economia, “Something Good Can Work” apareceu como terceira música, levantando de vez a plateia. Mesmo sem a mesma pressão do show no Circo Voador, até por conta do tamanho do espaço, deu saudades do verão Queremos.

Eryka Badu
Erykah Badu

Pausa para o almoço, ao som de Erykah Badu. A diva escolheu um repertório um tanto irregular e, ao estourar o tempo, teve o seu som cortado no meio de uma música. Bandão, tudo no lugar, só o horário atrapalhou, e também o palco. Como era dia ainda, em uma das tendas poderia ter dado mais liga.

BSS, "7/4 Shoreline"
Broken Social Scene

A hora mágica, dessa vez no palco grande, foi reservada para o lindo show do Broken Social Scene. Mesmo pra quem não é fã da banda, daqueles de saber todas as músicas, o show foi uma beleza. Difícil era decidir entre assitir ao show ou simplesmente escutá-lo, observando o por do sol e curtindo a tranquilidade do gramado, relaxando e pensando na vida. A segunda opção é um dos grande diferencias do Coachella, um festival que se basta, independente das atrações.

The Kills
The Kills

Já de noite, quase pulei o The Kills, que fazia um show bem bom, até dar a hora de conferir o One Day As A Lion e ser deixado no meio.

One Day As A Lion
One Day As A Lion

Projeto de Zack De La Rocha, vocalista do Rage Against the Machine, o One Day As A Lion é feroz. Acompanhado de um baterista (Jon Theodore, ex-Mars Volta) e dois sintetizadores fazendo os riffs linhas de baixo e porradas de graves, com Zack tocando um deles algumas vezes.

A estrutura das músicas do combo de synth metal lembram as do RATM muito mais nas versões gravadas do que tocadas ao vivo, quando ficaram bem mais barulhentas e pesadas. A frente da tenda virou uma roda de pogo de 45 minutos, com a pancadaria comendo solta e bastante fair play, com os nocauteados sendo levantados pelos participantes.

Em meio as cotoveladas e ombradas, um casal destoava. Ele de blusa branca e calça jeans, ela de vestidão azul meio hippie, curtiam o show da primeira fila, enquanto eram lançados de uma lado para o outro. Deu gosto ver.

Animal Collective
Animal Collective

Embicando para a reta final, o Big Audio Dynamite, com Don Letts pulando e cantando animadaço, divertiu na mesma proporção que o Animal Collective constrangeu. Com iluminação especial da estrutura do palco e telão feito pelo Black Dice, a sequência de ruídos que nunca formavam uma música era de uma pretensão e chatice tão grande que faziam até desejar que o Arcade Fire começasse logo.

Nada contra os canadenses, questão de gosto mesmo. Fora “The Suburbs” e “Ready To Start” – dois musicaços – aquele clima Iron Maiden de “ôôô” que não acabam não é pra mim. A afetação de alguns integrantes, um excesso de uma “garra” forçada, cansam. Ainda assim, o show é inegavelmente bom e vale a pena se assistido nem que apenas pelo espetáculo.

Nesse quesito, o Arcade Fire não decepcionou. Começou com um filme, projeto abaixo de um letreiro de cinema com o nome da banda. Durante o show a briga entre as imagens do telão do palco (do festival, sempre classe) e do telão no palco (do Arcade Fire) foi bem boa.

Perto do final, uma caixa enorme foi içada por um guindaste acima do palco e ficou claro que a prometida surpresa estava próxima. Quando começou a cair bolas e mais bolas brancas lá de cima, pensei que o Arcade Fire fosse conseguir se superar no nível chatice, ao multiplicar por dezenas a pentelhice daquelas bolas que só atrapalham quem quer ver o show.

Que nada. Quando as bolas começaram a piscar e mudar de cor, coordenamente, revelando um sistema remoto de controle dos LEDs embutidos em cada uma delas, a coisa literalmente mudou de figura. Fato que atrapalhou um bocado a visão do palco, porém para quem estava atrás apenas do espetáculo, foi um lindo encerramento.

Assim, o show do Arcade Fire, contra todos os prognósticos URBísticos, entrou no top 5 do Coachella 2011. Isso quer dizer muito de um festival que, mesmo com uma escalação supostamente mais fraca que a do ano anterior, conseguiu superá-lo. O Coachella é mais do que os shows.

A terceira e última parte da resenha pinta logo mais por aqui (a primeira parte está aqui).

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