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abril 2010

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O Globo, Abril/2010

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Resenha do show do Flying Lotus no Coachella 2010 que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.

Em 2009 Steven Ellison já era um produtor celebrado. Conhecido pelas
trilhas compostas para as vinhetas da faixa adulta do Cartoon Network,
a Adult Swin, o lançamento do segundo disco do seu Flying Lotus pela
gravadora Warp marcou sua entrada no primeiro time. As batidas
fragmentadas do espetacular “Los Angeles” apontou novos caminhos para
o hip hop, esticando tanto o conceito do que supostamente o gênero
deveria ser que para muitos puristas foi ousado demais. Mesmo assim,
no Coachella 2009 o Flying Lotus tocou numa das tendas extras, fora da
programação oficial, basicamente sonorizando a saída de pessoas
exaustas após um dia inteiro de shows. Uma injustiça e um desperdício.

Esse ano as coisas foram um bocado diferentes. Tocando num horário
importante e na menor tenda — e por isso uma das mais disputadas —
era hora de aproveitar o momento. Com um sorriso de orelha a orelha,
uma simpatia digna dos mais carismáticos MCs e um laptop, o FlyLo,
como é carinhosamente chamado pelos fãs, fez exatamente isso. A
apresentação entrou nas listas de melhores do festival de praticamente
todos que a assistiram.

A frente de um telão com projeções de imagens abstratas futuristas
misturadas a trechos de “Blade Runner”, as batidas eletrônicas e os
graves poderosos (com os dois pés no dub) de um hip hop experimental
iam tomando forma, camada a camada. Steven escolhe cuidadosamente a
ordem em que solta os elementos de cada faixa, priorizando os
contrapontos e entortando os ouvidos, antes de libertar a peça que une
todo o resto e dá forma ao groove .

Além de músicas próprias como “Parisian Goldfish”, FlyLo tocou seu
remix de “Idioteque” (Radiohead, dedicando a Thom Yorke, também
presente ao festival), utilizou trechos de “Machine Gun” (Portishead)
e mandou uma versão de “Avril 14” (Aphex Twin), uma seleção que
ilustra tanto suas referências quanto sua diversidade sonora, ajudando
a compreender a facilidade com que transita entre o jazz, deep house e
o drum n bass, sem perder o foco no hip hop.

Ao vivo o clima soturno das produções é quebrado pelos largos sorrisos
e empolgação do produtor. Não por acaso, o palco foi invadido três
vezes, coisa rara no Coachella. Em uma delas uma menina simplesmente
parou ao seu lado e ficou observando tocar, refletindo bem o
sentimento do resto do público, em transe, hora assistindo
embasbacado, hora pulando sem parar. O terceiro disco do Flying Lotus,
“Cosmograma”, sai esse ano. Ao que tudo indica, essa saudável confusão
promete apenas se intensificar.

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